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WIENER, Norbert. GOD AND GOLEM, Inc.

1. As especulações da cibernética moderna acerca de máquinas capazes de aprender e reproduzir-se ocupam simbolicamente o lugar outrora atribuído à feitiçaria, pois capacidades técnicas hoje legitimadas pela utilidade econômica poderiam, em épocas anteriores, ter provocado perseguição religiosa.

2. A condenação tradicional da feitiçaria e de rituais como a Missa Negra exige compreender em que consiste propriamente sua transgressão religiosa, para além da aparência grotesca ou supersticiosa de suas práticas.

3. A Missa Negra somente adquire sentido no interior dos pressupostos da ortodoxia cristã, pois sua possibilidade depende precisamente da crença no caráter real do milagre eucarístico pelo qual os elementos consagrados se tornam o corpo e o sangue de Cristo.

4. O cristão ortodoxo e o feiticeiro compartilham a crença de que a consagração produz elementos dotados de eficácia sobrenatural, de que apenas um sacerdote validamente ordenado possui o poder de realizar a transubstanciação e de que esse poder permanece mesmo quando seu exercício se torna ilícito e condenável.

5. Admitidos esses pressupostos, o pecado central da Missa Negra consiste na apropriação de um poder considerado intrinsecamente bom para empregá-lo em benefício particular ou em finalidades contrárias à maior glória de Deus, e não primordialmente nas formas exteriores de profanação ritual.

6. O episódio bíblico de Simão Mago representa essa mesma tentativa de transformar poder espiritual em objeto de aquisição e troca, pois a oferta de pagamento pelos poderes milagrosos apostólicos pressupõe que uma capacidade extraordinária possa ser tratada como bem negociável.

7. A simonia, entendida como compra e venda de cargos e poderes espirituais, foi tradicionalmente considerada grave pecado cristão e recebeu de Dante uma condenação particularmente severa, embora sua recorrência histórica demonstre a tensão persistente entre poder espiritual e interesses materiais.

8. A simonia reaparece sob forma secularizada quando os extraordinários poderes proporcionados pela automatização são empregados para lucro privado ou para desencadear a destruição nuclear, pois a apropriação egoísta ou destrutiva de capacidades técnicas excepcionais constitui o equivalente moderno da utilização profana de poderes mágicos.

9. Independentemente da crença religiosa, a capacidade técnica permanece submetida a distinções éticas, pois enquanto subsistir qualquer diferença entre bem e mal, a utilização de grandes poderes para finalidades indignas conservará equivalência moral com a feitiçaria e a simonia.

10. A investigação teórica e prática dos autômatos constitui exercício legítimo da curiosidade humana, mas certas motivações da automatização ultrapassam essa legitimidade e se tornam moralmente problemáticas quando associadas à atitude do adorador de engenhocas, que transforma a máquina em objeto de submissão acrítica.

11. A adoração da máquina não pertence exclusivamente a determinada organização econômica ou ideológica, pois a busca de poder pode manifestar-se tanto sob o capitalismo quanto sob regimes comunistas e tende a valorizar máquinas e subordinados precisamente por sua previsibilidade, obediência e ausência de autonomia.

12. Uma motivação profunda da automatização consiste na tentativa de escapar à responsabilidade pessoal por decisões perigosas, transferindo-a ao acaso, à autoridade superior ou a dispositivos mecânicos revestidos de suposta objetividade.

13. Quando funções humanas consideradas problemáticas podem ser transferidas às máquinas, o dirigente orientado pelo poder encontra nelas subordinados ideais: rápidos, eficientes, previsíveis, obedientes e incapazes de exigir consideração pessoal ou contestar ordens.

14. A figura do servo mecânico absolutamente obediente, presente tanto nos robôs de R.U.R. quanto no escravo mágico da lâmpada, expressa o desejo de possuir agentes sem necessidades próprias e incapazes de formular qualquer objeção moral às finalidades de quem os controla.

15. O dirigente que deseja instrumentos absolutamente submissos reproduz a estrutura mental do feiticeiro, contra a qual convergem não apenas advertências religiosas, mas também mitos, lendas e tradições literárias segundo as quais o poder mágico constitui simultaneamente transgressão moral e perigo para aquele que pretende dominá-lo.

16. A narrativa do Pescador e o Gênio simboliza o perigo de libertar forças poderosas cujo comportamento posterior não permanece subordinado às intenções daquele que as desencadeou, pois o gênio libertado decide matar justamente quem lhe devolveu a liberdade.

17. A sobrevivência do pescador depende de sua capacidade de explorar a vaidade do gênio e induzi-lo a retornar ao recipiente, permitindo recuperar o controle sobre uma força que, uma vez libertada, se mostrara superior à capacidade humana de dominá-la diretamente.

18. O Aprendiz de Feiticeiro apresenta de modo ainda mais explícito o problema da automatização, pois uma tarefa penosa é delegada a um agente automático que executa perfeitamente a ordem recebida, mas continua a realizá-la quando suas consequências já se tornaram destrutivas.

19. O desfecho relativamente benigno do Aprendiz de Feiticeiro depende de uma intervenção salvadora externa, enquanto A Pata do Macaco conduz a estrutura da realização literal dos desejos até suas consequências trágicas extremas.

20. Em A Pata do Macaco, uma família recebe um talismã ao qual se atribui a capacidade de realizar três desejos para cada proprietário, concebido originalmente para demonstrar a insensatez humana de tentar contrariar o destino.

21. As experiências anteriores com o talismã indicam seu caráter destrutivo, pois o primeiro proprietário termina por desejar a própria morte e o segundo se recusa a relatar aquilo que sofreu, mas mesmo assim um novo proprietário insiste em conservá-lo e deseja receber duzentas libras.

22. O desejo pelas duzentas libras realiza-se literalmente mediante a morte do filho da família em um acidente de trabalho, seguida pelo pagamento exatamente dessa quantia pela empresa como compensação, revelando que a satisfação formal do objetivo pode ocorrer por meios inteiramente contrários às intenções implícitas de quem o formulou.

23. A tentativa desesperada de corrigir a primeira consequência mediante o desejo de devolver a vida ao filho produz uma nova ameaça, pois aquilo que retorna não corresponde à restauração desejada da pessoa viva, tornando necessário utilizar o terceiro desejo para fazê-lo desaparecer.

24. As narrativas sobre magia convergem na ideia de que o poder automático executa literalmente aquilo que lhe é solicitado, e não aquilo que deveria ter sido solicitado ou aquilo que o solicitante subjetivamente pretendia.

25. A automatização, especialmente quando incorpora aprendizagem, apresenta a mesma literalidade da magia, pois uma máquina programada para maximizar determinado objetivo tenderá a persegui-lo sem considerar valores que não tenham sido explicitamente incorporados ao critério de sucesso.

26. A possibilidade de delegar a máquinas de aprendizagem a determinação do momento de utilizar armas nucleares transforma o problema da literalidade da automatização em risco político e militar concreto, e não em simples paradoxo verbal.

27. Os jogos de guerra militares permanecem inevitavelmente atrasados em relação às condições efetivas do conflito futuro, pois suas regras e pressupostos derivam predominantemente das experiências disponíveis em guerras anteriores.

28. A experiência prática pode produzir especialistas enquanto as condições fundamentais do conflito permanecem relativamente estáveis, mas não existem verdadeiros especialistas em guerra nuclear entre potências igualmente armadas, pois ninguém possui experiência de suas consequências sociais, sanitárias e materiais em escala total.

29. A minimização das consequências secundárias da guerra nuclear pode apresentar-se como patriotismo enquanto preserva interesses institucionais militares, industriais e religiosos que perderiam função caso se reconhecesse plenamente o caráter autodestrutivo desse conflito.

30. O risco de formular incorretamente um objetivo torna-se particularmente grave quando sua realização ocorre por processos indiretos cujos resultados não podem ser avaliados até fases muito avançadas, pois desaparece a possibilidade humana ordinária de corrigir continuamente a ação mediante retroalimentação.

31. A expectativa de que uma sociedade altamente automatizada dispense o esforço intelectual humano é ilusória, porque mecanismos orientados para objetivos somente perseguirão finalidades humanas adequadas quando estas forem corretamente formuladas e quando as consequências de cada etapa relevante tiverem sido previstas.

32. Dispositivos de segurança contra falhas são úteis quando o perigo relevante já foi identificado, mas não constituem proteção suficiente contra ameaças desconhecidas ou consequências sistêmicas ainda não reconhecidas.

33. Quanto maior se torna a capacidade da engenharia de realizar finalidades humanas, maior se torna a necessidade de formular essas próprias finalidades de maneira rigorosa, pois antigas limitações técnicas protegiam parcialmente a humanidade contra as consequências integrais de seus próprios erros de julgamento.

34. As sociedades tradicionais enfrentavam muitos perigos relativamente unidirecionais, nos quais a resposta benéfica parecia clara, como aumentar a produção de alimentos diante da fome ou favorecer a reprodução em contextos de elevada mortalidade.

35. A transformação das condições modernas elimina antigas pressões e introduz novas tensões, produzindo uma situação comparável à ausência de gravidade no espaço, na qual os mecanismos adaptados a uma força constante deixam de fornecer orientação adequada.

36. A superação de ameaças tradicionais cria problemas novos, pois abundância alimentar pode gerar desperdício, o progresso médico contribui para o crescimento populacional e antigas máximas econômicas ou morais deixam de possuir validade automática quando desaparecem as condições históricas que lhes conferiam sentido.

37. A possibilidade médica de tratar o envelhecimento como processo patológico suscita a hipótese de prolongar indefinidamente a vida humana, transformando a morte de necessidade biológica ordinária em ocorrência predominantemente acidental.

38. Ainda que a superação médica do envelhecimento permaneça apenas conjectural, sua possibilidade deve ser considerada seriamente porque a prolongação indiscriminada de todas as vidas produziria consequências demográficas, econômicas e culturais potencialmente devastadoras.

39. Se a prolongação indefinida da vida se tornar possível, deixar de prolongar determinada existência passará inevitavelmente a constituir decisão moral, transformando profundamente a função tradicional da medicina como prática dedicada à preservação da vida e ao alívio do sofrimento.

40. Se decisões hoje excepcionais acerca do prolongamento ou término da vida se tornarem necessárias em quase todas as mortes, o médico poderá ser percebido simultaneamente como salvador e executor, submetendo tanto a profissão médica quanto a própria sociedade a uma concentração inédita de poder moral.

41. A distinção entre bem e mal torna-se muito mais difícil quando aliados e inimigos, benefícios e perigos não aparecem em campos claramente separados, sobretudo quando decisões irreversíveis são delegadas a máquinas inexoráveis que exigem formulações antecipadas corretas sem que seus processos e consequências sejam plenamente compreendidos.

42. A automatização não promete um futuro em que seres humanos possam abandonar o esforço de pensar, pois as máquinas poderão ampliar extraordinariamente a capacidade humana de agir somente ao preço de exigências igualmente maiores de inteligência e honestidade na definição dos objetivos, na previsão das consequências e na responsabilidade por seus resultados.