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WIENER, Norbert. GOD AND GOLEM, Inc.

1. Um dos grandes problemas futuros consiste em determinar adequadamente a relação entre seres humanos e máquinas e distribuir entre ambos as funções que cada um desempenha melhor, reconhecendo a superioridade das máquinas em rapidez e uniformidade de execução sem transformar tais vantagens em critério absoluto.

2. O ser humano conserva vantagens fundamentais decorrentes de sua complexidade, variedade de comportamentos e extraordinária densidade funcional do cérebro, cuja capacidade operacional não encontra equivalente nas máquinas computacionais existentes.

3. Entre as principais vantagens do cérebro encontra-se a capacidade de trabalhar com ideias vagas, incompletamente definidas e ainda incapazes de programação formal, como ocorre de maneira característica na criação e compreensão de poemas, romances e pinturas.

4. A cooperação entre seres humanos e computadores deve atribuir a cada um as tarefas correspondentes às suas capacidades próprias, evitando tanto o culto indiscriminado da máquina quanto a rejeição da técnica como degradação da dignidade humana, e exigindo o estudo independente dos sistemas mistos humano-mecânicos.

5. As próteses constituem um campo concreto de aplicação dos sistemas mistos humano-mecânicos, pois a substituição de um membro ou órgão sensorial perdido produz uma unidade funcional composta por partes biológicas e artificiais.

6. Próteses elementares que apenas reproduzem grosseiramente a função ou a forma de um membro apresentam interesse limitado, enquanto pesquisas sobre membros artificiais fundamentados em princípios cibernéticos permitem uma integração funcional muito mais profunda entre organismo e máquina.

7. Uma mão artificial pode utilizar os potenciais elétricos produzidos pelos músculos remanescentes do antebraço para controlar motores que realizam os movimentos da prótese, preservando como componente fundamental do sistema a organização nervosa original do indivíduo.

8. Mãos artificiais controladas dessa maneira já permitiram a amputados recuperar atividades profissionais, sobretudo porque os mesmos sinais nervosos anteriormente responsáveis pelas contrações da mão natural continuam controlando os movimentos da prótese, tornando sua aprendizagem mais direta e natural.

9. A ausência inicial de sensibilidade tátil em uma mão artificial pode ser compensada por sensores de pressão e dispositivos capazes de converter suas informações em estímulos aplicados à pele remanescente, criando uma sensação substitutiva que pode ser aprendida como equivalente funcional do tato perdido.

10. A engenharia cibernética das próteses pode ultrapassar a substituição de órgãos perdidos e criar funções que o organismo humano jamais possuiu, reproduzindo artificialmente capacidades encontradas em outros seres vivos.

11. Sistemas humano-mecânicos tornam-se indispensáveis quando máquinas de aprendizagem precisam melhorar atividades cujo êxito depende de critérios humanos difíceis de reduzir a regras formais, diferentemente dos jogos em que vitória, derrota e movimentos permitidos podem ser definidos de maneira inequívoca.

12. A tradução mecânica constitui um campo particularmente demandante de automatização em razão da necessidade política de compreender rapidamente comunicações produzidas em outras línguas, mas os sistemas disponíveis apresentam limitações de inteligibilidade, qualidade literária e confiabilidade incompatíveis com decisões de grande importância.

13. A tradução automatizada baseada em aprendizagem exige um critério firme de boa tradução, obtido mediante regras objetivas suficientemente completas ou mediante algum agente capaz de julgar adequadamente o desempenho mesmo quando tais regras não podem ser explicitadas.

14. O critério fundamental de uma boa tradução consiste em produzir nos leitores da língua de chegada uma compreensão equivalente àquela obtida pelos leitores do original, podendo-se testar parcialmente essa equivalência mediante sucessivas traduções de ida e volta entre duas línguas.

15. Embora seja concebível estabelecer regras formais suficientemente completas para assegurar mecanicamente uma boa tradução, o conhecimento linguístico disponível não permite construir tal sistema e provavelmente não o permitirá em futuro previsível, tornando inevitável alguma possibilidade de erro com consequências potencialmente desproporcionais em decisões importantes.

16. A possibilidade mais promissora para uma tradução mecânica satisfatória encontra-se inicialmente em um sistema humano-mecânico no qual um tradutor especializado funcione como crítico e professor, corrigindo e orientando a máquina até que esta acumule experiência suficiente para desenvolver uma espécie de maturidade linguística.

17. A mecanização da tradução não elimina a necessidade do linguista especializado, mas pode ampliar consideravelmente sua capacidade produtiva ao permitir que o trabalho humano de julgamento seja aplicado a uma quantidade muito maior de material processado previamente pela máquina.

18. A participação humana em sistemas de tradução não precisa limitar-se à avaliação final, podendo intervir desde as etapas intermediárias mediante a seleção entre múltiplas alternativas produzidas mecanicamente para cada sentença.

19. O mesmo princípio aplica-se com ainda maior força ao diagnóstico médico automatizado, no qual máquinas podem auxiliar na identificação de informações relevantes, mas não devem substituir inteiramente o julgamento do médico, pois políticas diagnósticas fechadas e permanentemente fixadas tenderiam inevitavelmente a produzir doenças e mortes evitáveis.

20. A invenção também constitui processo que exige integração entre máquinas e seres humanos, porque uma inovação precisa ser avaliada não apenas segundo aquilo que tecnicamente pode ser produzido, mas também segundo suas formas efetivas de utilização no contexto social.

21. O desenvolvimento e emprego de dispositivos militares apresentam problema semelhante, pois a evolução tecnológica dos armamentos não pode ser separada das transformações simultâneas das táticas e estratégias destinadas a utilizá-los.

22. A adaptação das máquinas às condições humanas não constitui problema solucionável de uma vez por todas, porque o desenvolvimento contínuo das artes, das ciências e das condições sociais exige reconsiderar periodicamente os próprios critérios de otimização e os mecanismos de homeostase individual e coletiva.

23. A função homeostática da ciência exige resistência a toda aplicação social rígida, seja associada ao marxismo soviético, seja aos preconceitos das sociedades ocidentais, pois substituir um sistema dogmático por outro de orientação oposta não resolve o problema de construir uma regulação social continuamente capaz de reconsiderar suas próprias premissas.

24. Entre as diversas máquinas de aprendizagem, algumas podem operar mediante critérios inteiramente formalizados, enquanto outras dependem de especialistas humanos capazes de arbitrar valores que não admitem mecanização completa, sendo provavelmente muito mais numerosas e importantes as aplicações desse segundo tipo e permanecendo particularmente crítico o fato de que, no domínio da guerra nuclear, sequer existem especialistas humanos dotados de experiência adequada.