CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.
** 1. O menino mais extraordinário do mundo **
1. A curiosidade insaciável da cria do elefante manifesta-se na incessante formulação de perguntas sobre tudo quanto pode ver, ouvir, sentir, cheirar ou tocar, persistindo apesar das punições recebidas de tios e tias. — Rudyard Kipling, Histórias assim
2. Numa manhã de outono de 1906, na Nova Inglaterra, o primeiro menino-prodígio célebre do século XX desceu de seu quarto para encontrar um repórter do jornal The World.
3. O repórter enviado de Nova York a Boston pelo principal jornal de Joseph Pulitzer procurava conhecer o mais jovem universitário da história dos Estados Unidos, num período fascinado por gênios, descobertas e invenções associadas à nova era das máquinas.
-
Um ano antes, Albert Einstein, então funcionário suíço de um escritório de patentes com vinte e seis anos, publicara três trabalhos considerados prenúncios de uma revolução nas ciências físicas.
-
A imprensa internacional procurava incessantemente novas manifestações de genialidade, encontrando naquele menino uma história extraordinária concentrada numa figura diminuta.
4. Do alto da escada, a voz infantil de Norbert perguntou à mãe se já não era hora de ir para a faculdade.
5. A mãe confirmou que chegara a hora, enquanto os passos apressados do menino ecoavam pela escada.
6. O jornalista ficou imediatamente encantado ao ver o menino de onze anos já conhecido como o “prodígio infantil de Boston”.
7. A entrada de Norbert na sala revelou um menino de aparência comum, com meias até os joelhos, roupas infantis, óculos de aro dourado e, sob o braço, um volume de Os problemas da filosofia, de John Grier Hibben.
8. Norbert cumprimentou formalmente o visitante, com uma dicção que pareceu singularmente afetada para sua idade, e sentou-se educadamente para responder às perguntas.
9. Norbert declarou que lia porque sentia prazer nisso e não compreendia por que sua juventude ou seu gosto pelo estudo deveriam ser considerados extraordinários.
-
O interesse pela leitura não lhe parecia incompatível com as inclinações comuns da infância.
-
O estudo decorria de vontade própria, e não de uma disposição para estudar contra seus desejos.
10. A fama do filho precoce de Leo Wiener já ultrapassava Cambridge, sustentada por uma extraordinária trajetória intelectual iniciada ainda na primeira infância.
-
Norbert aprendera as letras aos dezoito meses, começara a ler aos três anos e recitava em grego e latim aos cinco, acrescentando depois o alemão.
-
Aos sete anos estudava química e, aos nove, já se dedicava à álgebra, geometria, trigonometria, física, botânica e zoologia.
-
Aos onze anos ingressara no Tufts College depois de apenas três anos e meio de escolarização formal.
11. O repórter não conseguia compreender como um menino de onze anos podia preferir Huxley e Darwin a histórias infantis como João e Maria.
12. Para Norbert, a filosofia era mais interessante que os contos de fadas e constituía, ela própria, uma espécie de reino maravilhoso.
13. A vida de Norbert já exigia conciliar estudos universitários precoces com os prazeres ainda presentes da infância, sem que ele percebesse incompatibilidade entre brincar e estudar.
-
A natação era apresentada como sua principal habilidade esportiva.
-
Depois das brincadeiras com outros meninos, retornava espontaneamente a autores como Huxley e Spencer, cujas ideias estimulavam reflexões mais amplas.
-
Apesar dos muitos interesses, a matemática era reconhecida como sua disciplina predileta.
14. Bertha Wiener mandou o filho de volta ao quarto para falar reservadamente com o repórter e afirmou que, embora os pais naturalmente se orgulhassem dele, procuravam criá-lo como um menino comum, sem fazê-lo sentir-se diferente.
15. Bertha pediu a Norbert que fechasse a porta de seu quarto.
16. Norbert respondeu obedientemente à solicitação da mãe.
17. Bertha confessou em voz baixa que jamais desejaria que o filho percebesse ser considerado extraordinário pelos pais, embora eles efetivamente o considerassem assim.
18. A reportagem intitulada “O menino mais extraordinário do mundo”, publicada em 7 de outubro de 1906, ocupou toda a primeira página e ainda outras partes do suplemento dominical The World Magazine, superando em destaque acontecimentos tecnológicos e anúncios cotidianos daquele dia.
19. Uma enorme fotogravura apresentava Norbert em traje de marinheiro, mãos nos bolsos e postura confiante, sobreposta a uma ilustração em que aparecia colocado sobre edições luxuosas de A origem das espécies, de Darwin, e dos Diálogos, de Platão.
20. A descrição jornalística reforçava a representação heroica do menino, caracterizando-o como saudável, corpulento, quase gordo, de membros grossos, peito largo, pele lisa, musculatura firme e cabeça de proporções comuns.
21. Aos olhos do jornalista, porém, a singularidade de Norbert concentrava-se sobretudo em seus grandes olhos negros e intensos, cujo olhar parecia quase sobrenatural e sugeria que o menino já tivesse solucionado o enigma do universo.
22. Ao entrevistar Leo Wiener em Harvard, o jornalista encontrou um pai que afirmava evitar falar do filho para não alimentar sua vaidade, mas que ainda assim elogiou sua mente analítica, memória extraordinária e aprendizagem fundada no raciocínio.
-
Leo ressaltou que Norbert não aprendia mecanicamente como um papagaio, mas mediante compreensão racional.
-
Destacou ainda seu domínio de César, Cícero, Ovídio, Virgílio e da filologia comparada.
23. Leo insistiu que a inclinação fundamental do filho era a filosofia, contrariando a preferência declarada por Norbert pela matemática, e acrescentou que o menino seria preguiçoso e estudaria menos que outros de sua idade.
24. A combinação de elogios e críticas paternas deixou o repórter incerto quanto ao futuro de Norbert, levando-o a concluir a matéria com a mesma grandiloquência cautelosa com que a iniciara.
25. Independentemente do que viesse a tornar-se, Norbert Wiener era apresentado como o mais jovem universitário — ou, corrigindo-se a designação, o mais jovem menino universitário — dos Estados Unidos e talvez do mundo.
26. Numa época em que os jornais constituíam a principal fonte de informação, o rádio ainda era experimental e a eletricidade parecia milagrosa, o futuro fundador intelectual da era da informação ingressava na esfera pública como uma das primeiras celebridades midiáticas do século americano.
27. O prodígio de Boston permanecia, em numerosos aspectos, herdeiro da antiga ordem do conhecimento, vinculada filosoficamente à Grécia e a Roma e cientificamente à tradição de Newton, Leibniz, Darwin e outros fundadores da física, do cálculo e da biologia moderna.
28. A linhagem familiar de Norbert, entretanto, seguia outra trajetória histórica, destinada a exercer influência concreta sobre sua vida e seu pensamento.
29. Wiener reconheceria posteriormente sua origem predominantemente judaica, embora nem ele, nem o pai, nem o avô paterno fossem judeus religiosos, valorizando sobretudo uma herança cultural associada à aprendizagem e à resistência histórica diante do preconceito.
-
Em sua autobiografia Ex-prodígio: minha infância e juventude, de 1953, atribuiu parte de seu êxito à atitude judaica perante a vida formada ao longo de séculos de perseguições étnicas e religiosas.
-
Orgulhava-se da tradição intelectual familiar, que incluía estudiosos talmúdicos e um célebre sábio judeu de cerca de setecentos anos antes.
30. Uma tradição familiar fazia remontar os Wiener ao filósofo e médico judeu do século XII Moisés Maimônides, conhecido como Rambam, cuja própria trajetória combinava precocidade intelectual, exílio, medicina e erudição.
-
Nascido em Córdoba em 1135, Maimônides deixou a Espanha com sua família em razão da perseguição aos judeus e acabou estabelecendo-se no Egito.
-
Tornou-se tradutor, médico e posteriormente médico pessoal da corte do sultão Saladino no Cairo.
-
Considerado o maior sábio judeu da Idade Média, condensou grande parte do conhecimento de sua época.
-
O Guia dos perplexos alcançou leitores judeus e muçulmanos no Oriente Médio e exerceu forte influência europeia, inclusive sobre Tomás de Aquino.
31. Wiener reconhecia a fragilidade documental de sua suposta descendência de Maimônides, pois a genealogia escrita da família fora destruída num incêndio na Polônia e outros vínculos históricos desapareceram com a devastação nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
32. Investigações genealógicas posteriores localizaram antepassados da família Wiener nos pântanos do Pripet, na Polônia, e encontraram indícios circunstanciais que aproximavam sua linhagem de descendentes modernos de Maimônides.
-
A distribuição geográfica desses descendentes na Polônia oriental e na Lituânia formava um triângulo em torno da região de Bialystok, local de nascimento de Leo
Wiener.
33. No fim do século XIX, Bialystok integrava uma gubernia semiautônoma do Império Russo, e ali Salomon Rabinowicz, avô materno de Leo Wiener, construíra sua prosperidade como comerciante de madeira e proprietário de um importante hotel.
-
Situado na entrada do bairro judeu, o estabelecimento acolhia desde nobres poloneses até pobres estudiosos talmúdicos.
-
Rosa, esposa de Salomon, oferecia refeições sabáticas aos hóspedes no salão do hotel.
34. Rosa Rabinowicz, nascida Zabludowska, pertencia a uma próspera família de curtidores cujos integrantes alcançaram a condição de “cidadãos honorários hereditários”, a mais alta posição acessível aos judeus na Rússia imperial.
35. Salomon Wiener, pai de Leo, nascera em 1838 em Krotoschin e recebera uma sólida formação alemã no ginásio clássico de Königsberg, embora um problema auditivo lhe impedisse seguir carreira universitária.
-
Trabalhou nos correios de Königsberg até ser persuadido por Salomon Rabinowicz a mudar-se para Bialystok, onde havia procura por professores de alemão e correspondentes comerciais.
-
Bialystok constituía um ambiente intensamente multilíngue, no qual conviviam iídiche, polonês, russo, alemão e francês.
36. Em 1859, Salomon Wiener estabeleceu-se em Bialystok e, dois anos depois, casou-se com Freida Rabinowicz, passando a governar a família segundo princípios iluministas e reformistas germano-judaicos.
-
Admirador do movimento de reforma de Moisés Mendelssohn, educou os seis filhos em casa.
-
Proibiu-lhes o uso do iídiche, que considerava uma língua híbrida dos judeus da Europa oriental.
-
Como Freida falava inicialmente apenas iídiche, durante anos teve dificuldade para comunicar-se com o marido e os filhos educados em alemão.
37. Salomon possuía temperamento inquieto, gosto por longas caminhadas e tendência familiar à distração, até desaparecer definitivamente depois de habituar-se a ausentar-se de casa por vários dias, deixando Freida sozinha com seis filhos com os quais mal conseguia comunicar-se.
38. Leo Wiener, primogênito de Salomon e Freida, nasceu em 1862 e cresceu desde cedo imerso no ambiente multilíngue de Bialystok.
-
O alemão foi sua primeira língua, mas estudou hebraico, aprendeu espontaneamente iídiche, recebeu aulas de francês aos sete anos e de russo aos oito.
-
Aos nove anos iniciou sua própria atividade docente, transmitindo a um amigo as lições de russo em troca de groselhas.
39. A educação de Leo desenvolveu-se por escolas especializadas, professores particulares e sucessivas mudanças familiares destinadas a favorecer suas capacidades excepcionais, antecipando o percurso que ele próprio imporia mais tarde a Norbert.
-
Frequentou ginásios clássicos em Minsk e Varsóvia, ampliando o domínio de latim, grego, polonês, italiano e variantes germânicas.
-
Estudou engenharia no Instituto Politécnico de Berlim e acrescentou croata e dinamarquês às línguas já conhecidas.
-
Ainda adolescente dominava mais de dez idiomas e, ao longo da vida, chegaria à fluência em mais de quarenta.
40. Embora fisicamente pequeno, Leo herdara vigor atlético e projetava uma imagem de elevada inteligência, acompanhada por intensa disposição para caminhar, conversar e envolver-se precocemente em movimentos políticos.
-
Em Minsk aproximou-se de estudantes revolucionários.
-
Em Berlim aderiu à Sociedade Tolstói e renunciou definitivamente ao álcool, ao tabaco e à carne.
-
Rejeitou a possibilidade de uma carreira respeitável no Banco Mendelssohn por considerá-la excessivamente convencional.
41. Insatisfeito tanto com o impasse dos ideais russos quanto com o materialismo que percebia na sociedade alemã, Leo procurou uma região em que ciência e ideais superiores pudessem convergir.
-
Em Berlim concebeu com outros tolstoianos o projeto de uma comuna socialista, vegetariana e humanitária em Belize.
-
Enquanto seus companheiros discutiam detalhes programáticos, decidiu partir sozinho para as terras do Novo Mundo, impulsionado pela rejeição da Europa que considerava decadente.
42. Leo partiu de Hamburgo em fevereiro de 1882, aos dezenove anos, aproveitando a viagem para ampliar ainda mais seus conhecimentos linguísticos.
-
Durante uma escala em Liverpool, estudou gramáticas e aprendeu inglês sozinho.
-
Na travessia para Havana, aprendeu espanhol com passageiros embarcados na Corunha.
-
Chegou a Nova Orleans com apenas vinte e cinco centavos, gastos imediatamente na experimentação de frutas tropicais.
43. Sem dinheiro para continuar até Belize, Leo entregou-se ao ideal romântico do trabalho manual e percorreu diferentes ocupações e regiões dos Estados Unidos.
-
Trabalhou numa fábrica de algodão e numa ferrovia no Mississippi.
-
Seguiu para o Kansas em busca de uma suposta comunidade vegetariana fundada sobre as ruínas de uma experiência progressista de intelectuais russos e espiritualistas americanos.
-
Encontrando o local abandonado, tentou sozinho recuperar campos e edifícios, plantando amendoins e melões e admirando a natureza das pradarias.
-
Convidou os antigos companheiros de Berlim a acompanhá-lo, mas nenhum apareceu.
44. Depois de um ano, Leo abandonou a experiência rural e chegou novamente sem recursos a Kansas City, onde sucessivas ocupações humildes foram interrompidas pelo reencontro com sua vocação intelectual.
-
Trabalhou como zelador e vendedor ambulante, suportando a condescendência das classes abastadas.
-
Na biblioteca pública aprofundou-se na literatura inglesa e nos clássicos, alimentando a determinação de provar sua igualdade intelectual perante a elite local.
-
Ao apresentar-se ao superintendente das escolas públicas, passou rapidamente da venda de amendoins ao magistério secundário.
45. Como professor, Leo rejeitava a memorização mecânica e procurava transmitir aos alunos as paixões intelectuais que orientavam sua própria existência.
-
Ensinava literatura clássica e alemã, filologia e matemática, mas também conduzia caminhadas para ensinar conhecimentos sobre a natureza.
-
Ampliou ainda mais seu repertório linguístico com choctaw, dacota, chinês, banto e gaélico.
-
Tornou-se figura destacada nos círculos filosóficos e culturais de Kansas City, chegando à presidência da sociedade irlandesa local.
-
Aproximou-se particularmente do culto cultural dedicado à poesia de Robert e Elizabeth
Barrett Browning.
46. Depois de uma palestra ao Clube Feminino Browning, Leo conheceu Bertha Kahn, filha de uma próspera família germano-americana profundamente assimilada à sociedade do Missouri.
-
Os Kahn mantinham distância das ondas mais recentes de judeus pobres provenientes da Europa oriental e da Rússia.
-
Bertha, pequena e resistente como Leo, pretendia desde o início aproximar o temperamento indomado do pretendente das convenções sociais mais refinadas.
47. Em 1892, Leo tornou-se professor de línguas modernas na Universidade do Missouri e, no ano seguinte, casou-se com Bertha; em 26 de novembro de 1894 nasceu o primeiro filho do casal, chamado Norbert em homenagem a um personagem do poema dramático Num balcão, de Robert Browning.
48. A precocidade de Norbert tornou-se evidente aos dezoito meses, quando aprendeu o alfabeto em apenas dois dias, enquanto mudanças profissionais levaram Leo a transferir a família do Missouri para Boston.
-
Depois de perder seu posto universitário, Leo escolheu Boston por sua concentração de instituições de ensino superior.
-
Trabalhos de tradução de baladas sérvias abriram-lhe caminho para uma cátedra de línguas e literaturas eslavas em Harvard, a primeira desse gênero nos Estados Unidos.
-
Para complementar a renda, ensinava no Radcliffe College e realizava trabalhos etimológicos para o dicionário Merriam-Webster.
49. A família adaptou-se rapidamente à atmosfera intelectual de Cambridge e, em 1897, mudou-se para uma casa com jardim próxima de Harvard Square, onde Bertha lia diariamente para Norbert.
-
Entre suas narrativas preferidas estavam as histórias da selva de Rudyard Kipling.
-
Aos três anos, Norbert já passara de ouvinte a leitor para a própria mãe.
50. Desde pequeno, Norbert demonstrava extrema sensibilidade diante do sofrimento e das deformidades físicas, experiências que contribuíram para seu vegetarianismo permanente.
-
Hospitais, acidentes corporais e panfletos contra crueldades cometidas contra animais causavam-lhe forte impressão.
-
Apesar dessa sensibilidade, em outros aspectos levava uma infância comum, brincando com as crianças da vizinhança e com seus brinquedos.
51. A educação intelectual de Norbert começou informalmente no gabinete do pai, onde explorava livros atraído inicialmente pelas ilustrações e por palavras que já conseguia compreender.
52. Com o nascimento da irmã Constance em 1898, Norbert iniciou o jardim de infância, embora sua formação mais exigente já estivesse sendo conduzida em casa pelo pai.
-
Alice no País das Maravilhas despertou-lhe inquietação diante de um universo regido por criaturas estranhas e ilógicas.
-
As Mil e uma noites também o impressionaram profundamente.
-
A história do gênio vingativo aprisionado numa garrafa tornou-se posteriormente uma metáfora recorrente em seus escritos sobre os perigos de dispositivos aparentemente mágicos.
53. Quando Norbert tinha cinco anos, Leo comprou a Fazenda Catalpa, em Foxboro, proporcionando ao filho intenso contato com plantas, animais e parentes recém-chegados da Europa.
-
As explorações da natureza incluíam caminhadas pelos campos, coleta de cogumelos e observações de animais como minhocas.
-
A curiosidade científica podia temporariamente sobrepor-se à aversão de Norbert ao sofrimento animal.
-
A visita da avó Freida e de outros parentes apresentou-lhe pela primeira vez jornais em iídiche, sem que lhe fosse revelada ainda a origem judaica da família.
54. A escolarização formal continuava inadequada à combinação entre imaturidade física e extraordinária rapidez intelectual de Norbert, levando Leo a retirá-lo da escola aos sete anos.
-
Depois de breves experiências em Foxboro, ingressou na progressista Escola Peabody, em Cambridge.
-
Embora excelente leitor, apresentava dificuldades elementares de matemática, ainda contando nos dedos e sem dominar a tabuada.
-
Leo concluiu que a causa era o tédio produzido pelo ensino mecânico e iniciou três anos de educação doméstica intensiva.
55. À formação inicial em línguas, literatura clássica e filosofia alemã, Leo acrescentou Darwin, Huxley e outras obras científicas para desenvolver no filho um espírito científico.
-
Norbert apaixonou-se por zoologia e botânica e reconstruiu intelectualmente as viagens de Darwin e de outros naturalistas.
-
Explorou também psiquiatria, ocultismo, arqueologia de Troia e a ficção científica de H. G. Wells e Júlio Verne.
-
Depois de esgotar a biblioteca paterna, recebeu livros e periódicos de Harvard sobre física, química, luz e eletricidade.
56. Embora Leo não tivesse inicialmente planejado fabricar um menino-gênio, os resultados obtidos transformaram progressivamente sua pedagogia numa experiência consciente de formação excepcional.
-
Seu método de “compulsão com tato” pretendia observar continuamente aptidões e interesses do filho, abolir a memorização mecânica e estimular o pensamento independente.
-
O erro deveria ser incorporado à aprendizagem como experiência produtiva.
-
O enfrentamento autônomo dos problemas deveria proporcionar a sensação de domínio e a alegria da vitória capazes de estimular esforços posteriores.
57. A lembrança de Norbert contradizia a imagem benevolente divulgada pelo pai, pois a educação doméstica combinava estímulo intelectual com disciplina militar, reprimendas violentas e um programa sistemático de humilhação.
58. Décadas depois, Norbert ainda recordava ter de recitar lições ao lado da mesa de trabalho do pai e ser submetido a insultos devastadores ao menor erro.
-
Leo alternava o inglês, o alemão e outras línguas para chamá-lo de bruto, asno, tolo ou burro.
-
A figura paterna, simultaneamente admirada e temida, podia transformar uma simples dificuldade algébrica numa experiência de terror.
59. As aulas podiam começar em tom afetuoso e terminar numa explosão de sarcasmo, humilhação e conflito familiar assim que Norbert cometesse um erro matemático.
-
A voz paterna funcionava como instrumento deliberado de pressão emocional.
-
Norbert chorava enquanto Leo se enfurecia e Bertha tentava inutilmente defendê-lo.
-
As humilhações continuavam à mesa e diante de convidados, produzindo no menino uma sensação permanente de vulnerabilidade moral.
60. O esforço de Norbert para corresponder às exigências paternas provocou uma miopia tão grave que, aos oito anos, os médicos proibiram sua leitura durante seis meses.
-
Leo recusou-se tanto a arriscar a visão do filho quanto a interromper seu experimento pedagógico.
-
Bertha passou a ler as lições em voz alta, enquanto estudantes de Radcliffe e Harvard ajudavam em latim, alemão e química.
-
Um laboratório improvisado foi instalado na própria casa.
61. Durante esses seis meses, Leo obrigou Norbert a realizar mentalmente todo raciocínio, cálculo e aritmética.
62. A restrição visual teve consequências intelectuais profundas, pois Norbert aprendeu a operar álgebra, geometria e trigonometria inteiramente na imaginação.
-
Desenvolveu uma memória quase fotográfica e elevada aptidão auditiva para línguas.
-
Mais tarde descreveu esse período como uma reaprendizagem do mundo em que sua mente se abriu para capacidades que continuavam a surpreendê-lo na idade adulta.
63. Ainda criança, Norbert já adquiria o hábito que conservaria por toda a vida de atravessar fronteiras disciplinares e ocupar-se simultaneamente de múltiplos problemas.
-
Identificava semelhanças estruturais entre esqueletos de animais e outras formas naturais.
-
Interessava-se especialmente pelas relações emergentes entre eletricidade e biologia.
-
Ficou impressionado com a descoberta de que impulsos nervosos não se propagavam como corrente contínua num fio metálico, mas segundo processos descontínuos comparáveis à queda sucessiva de blocos.
64. Embora dominasse precocemente conceitos de mitose, embriologia e reprodução, Norbert encontrava dificuldades para compreender certos aspectos da sexualidade animal e humana, sobre os quais seus pais evitavam responder.
-
Durante algum tempo imaginou ser possível transformar uma boneca em bebê mediante fórmulas mágicas.
-
Por volta de 1903, essa fantasia deu lugar ao desejo mais realista e duradouro de construir “autômatos quase vivos”, máquinas capazes de imitar comportamentos animais e humanos.
65. Walter Cannon, amigo de Leo e destacado biólogo e neurofisiologista de Harvard, tornou-se uma das influências decisivas sobre Norbert.
-
Cannon foi pioneiro no emprego médico dos raios X e na explicação da resposta nervosa de “luta ou fuga”.
-
Mais tarde cunharia “homeostase” para designar os mecanismos autorreguladores pelos quais o organismo mantém estados internos estáveis.
-
A ideia de equilíbrio produzido por ações e reações reguladoras tornar-se-ia posteriormente um princípio central da ciência desenvolvida por
Wiener.
66. As visitas ao laboratório de Cannon reuniram os interesses de Norbert por zoologia, botânica, eletricidade e experimentação científica, oferecendo-lhe um modelo profissional alternativo às expectativas paternas.
67. Os primeiros anos em Cambridge consolidaram a formação de Norbert e da família Wiener, agora ampliada por uma terceira filha, Bertha, e instalada numa casa com biblioteca e amplo quintal na Avon Street.
68. A Cambridge do início do século XX reunia professores ilustres e empresários ricos num ambiente que ainda conservava aspectos de uma pequena cidade rural.
-
Ruas sem pavimentação e terrenos vazios ofereciam espaço para brincadeiras e coleta de cogumelos.
-
Norbert participava de guerras de bolas de neve com filhos de professores e chegou a fugir com amigos para supostamente combater os turcos e libertar os armênios, desistindo poucas quadras depois.
69. Em 1903, Leo aceitou traduzir para o inglês os vinte e quatro volumes das obras de Tolstói por dez mil dólares, empreendimento que exigia condições especiais de trabalho.
-
Com o adiantamento da editora, comprou uma propriedade rural na cidade de Harvard, Massachusetts, e transferiu novamente a família para o campo.
-
A enorme tradução seria concluída em apenas dois anos.
70. A Fazenda Old Mill proporcionou a Norbert uma rica vida de jovem naturalista, mas também uma crescente sensação de isolamento.
-
A propriedade possuía animais, lago, pomares, campos e grande diversidade de flores e organismos aquáticos que ele procurava identificar e classificar.
-
Novas amizades com meninos das fazendas vizinhas produziram aventuras, inclusive experiências de rádio que quase terminaram em eletrocussão.
-
Apesar dessas experiências, sentia profundamente a ausência dos antigos companheiros de Cambridge.
71. Sobrecarregado com a fazenda, os deslocamentos diários e a tradução de Tolstói, Leo deixou de controlar integralmente a educação do filho e, em 1904, matriculou Norbert, aos nove anos, na escola secundária pública de Ayer.
-
Norbert iniciou diretamente no segundo ano e demonstrou domínio de latim, alemão, literatura inglesa, álgebra e geometria.
-
À noite ainda recitava as lições ao pai, que identificava seus erros enquanto continuava datilografando as traduções.
-
Depois do primeiro ano, foi promovido diretamente para a turma de formandos.
72. Aos dez anos, Norbert escreveu seu primeiro ensaio filosófico, “A teoria da ignorância”, no qual sustentava que todo conhecimento humano permanece incompleto e aproximativo.
-
Questionava a pretensão humana de certeza absoluta e de conhecimento sem limites.
-
Investigava as diferentes formas de incerteza pelas quais uma ideia passa antes de estabelecer-se na mente.
-
Considerava a incerteza indispensável tanto à filosofia quanto à ciência, pois todo experimento comportaria algum grau de indeterminação.
-
Concluía que todo conhecimento humano repousa, em última instância, sobre aproximações.
73. Apesar da imaturidade filosófica própria da idade, a ênfase precoce de Norbert na incerteza antecipava problemas destinados a abalar fundamentos centrais da filosofia e da ciência no século XX.
74. A velocidade extraordinária de seu desenvolvimento intelectual começava a impor custos ao crescimento físico, emocional e social, produzindo dificuldades particularmente sensíveis num domínio da experiência infantil.
75. Aos onze anos, no último ano da escola secundária, Norbert apaixonou-se por uma pianista de quinze anos e posteriormente consideraria esse sentimento um amor verdadeiro, e não mera afeição infantil.
-
A diferença entre sua extraordinária maturidade intelectual e sua inexperiência afetiva tornava-o incapaz de lidar com as novas forças do amadurecimento corporal.
-
Seus pais observaram a paixão e chegaram a investigar se a jovem poderia exercer alguma influência moralmente perigosa sobre ele.
76. Leo e Bertha não conseguiam orientar adequadamente o filho em suas dificuldades afetivas, agravadas pela diferença de idade que sempre o separara dos colegas.
77. Em 1906 nasceu Frederic, chamado Fritz, último irmão de Norbert, enquanto este concluía a escola secundária de Ayer como primeiro aluno da turma, embora permanecesse muito atrás dos colegas em maturidade social.
-
Na festa de formatura sentiu-se um estranho entre adolescentes mais velhos que dançavam e namoravam.
-
Recolhido novamente ao espaço sob a mesa do pai, observou de longe um ritual social para o qual ainda era jovem demais, encerrando simbolicamente sua infância.
78. Leo evitou matricular o filho pré-adolescente em Harvard, onde sua notoriedade seria ainda maior, e escolheu o Tufts College, em Medford.
-
A família mudou-se para uma nova casa próxima ao campus.
-
Em setembro de 1906, Norbert iniciou a faculdade ainda usando as calças curtas que distinguiam socialmente os meninos dos homens.
79. A imagem pública do mais jovem universitário da história ocultava problemas físicos importantes que acompanhavam Norbert desde a infância.
-
A corpulência provavelmente era agravada por uma dieta vegetariana rica em amido adotada demasiado cedo.
-
Sua miopia permanecia extrema.
-
A coordenação motora era deficiente, tornando-o desajeitado e incapaz até mesmo de acompanhar visualmente e agarrar uma bola.
80. Mais graves que as limitações físicas eram as marcas psicológicas deixadas pelas constantes humilhações paternas, que convenceram o jovem universitário de que sua própria mente “não prestava” e instauraram uma insegurança destinada a acompanhá-lo durante toda a vida.
81. Apesar da pressão paterna em favor da filosofia, Norbert pretendia especializar-se em zoologia, mas sua deficiência visual e motora tornava extremamente difíceis as atividades laboratoriais.
-
A escrita era apertada, o desenho constituía um tormento e a manipulação de equipamentos produzia frequentes acidentes.
-
Procurava interpretar essas limitações afirmando que sua mente funcionava mais rapidamente que os “efetores” corporais.
-
Experimentos químicos destruíam quantidade incomum de equipamentos.
-
Dissecações malsucedidas de animais reforçaram no vegetariano sensível ao sofrimento uma oposição permanente à vivissecção.
82. No segundo ano, Norbert cursou filosofia para satisfazer o pai e assistiu em Harvard às aulas de William James, fundador da psicologia experimental americana e um dos criadores do pragmatismo.
-
O pragmatismo rejeitava sistemas filosóficos excessivamente abstratos em favor de ações avaliadas por sua utilidade concreta.
-
Leo já incorporara princípios pedagógicos de James ao método utilizado com o filho.
-
Apesar de uma audiência particular organizada pelo pai, Norbert apreciou sobretudo o estilo expressivo de James, julgando sua lógica fraca e pouco sistemática.
83. O interesse de Norbert pela ciência continuou afastando-o da filosofia e aproximando-o progressivamente da matemática.
-
Experimentava com eletricidade e, auxiliado por colegas mais velhos na parte manual, montou um pequeno conjunto de aparelhos elétricos.
-
Depois das dificuldades laboratoriais, percebeu a matemática como campo no qual os erros podiam ser corrigidos simplesmente com o traço de um lápis.
-
Após dominar o curso mais difícil de álgebra avançada em Tufts, mudou sua especialização para matemática.
-
Avançou rapidamente pelo cálculo e pelas equações diferenciais até o ponto de o professor entregar-lhe a condução da aula.
84. Na primavera de 1909, aos quatorze anos e depois de apenas três anos de estudos, Norbert formou-se bacharel em matemática, mas a aceleração acadêmica produziu profundo esgotamento físico e mental.
-
Incapaz de interromper a atividade incessante da própria mente, passou o verão com febre baixa e sentimento de desorientação.
-
A infância fora encerrada prematuramente e a faculdade atravessada numa velocidade que não lhe permitira consolidar identidade e confiança.
-
A pergunta sobre o futuro profissional e sobre suas possibilidades reais de sucesso tornou-se uma fonte constante de ansiedade.
85. As dúvidas sobre o futuro começaram a corroer a saúde e o orgulho de Norbert, especialmente depois de sua exclusão da sociedade honorífica Phi Beta Kappa.
-
A justificativa recebida foi a incerteza sobre se o futuro de um prodígio infantil viria a confirmar a honra.
-
Pela primeira vez percebeu claramente que era considerado uma aberração da natureza e suspeitou que algumas pessoas aguardavam seu fracasso.
86. A autoconfiança exibida publicamente três anos antes desaparecia, enquanto Norbert começava a temer que a precocidade intelectual pudesse consumir prematuramente a energia vital e conduzir à mediocridade, à miséria ou mesmo à loucura na idade adulta.
87. O medo de fracassar combinou-se com uma aguda consciência da mortalidade, sentimentos de culpa e sintomas que hoje seriam reconhecidos como graves sinais de sofrimento psíquico.
-
Norbert calculava obsessivamente sua provável duração de vida.
-
Recordava como pecados tanto o sofrimento causado aos animais nas aulas de biologia quanto os impulsos ligados ao despertar sexual.
-
Experimentava ataques de pânico, obsessão pela morte e enfermidades físicas persistentes e inexplicadas.
-
Sem interlocutor ou recurso adequado em 1909, atravessou uma primeira crise depressiva que apenas se dissipou gradualmente.
88. Essa condição de fragilidade constituía um ponto de partida particularmente desfavorável para iniciar, aos quatorze anos, uma exigente carreira de pós-graduação em Harvard.
89. Em setembro, com a aprovação do pai, Norbert ingressou na pós-graduação de Harvard, enquanto a família retornava a Cambridge.
-
Leo vendeu as propriedades anteriores e construiu uma nova casa próxima de Harvard Square.
-
Norbert reconhecia como certezas pessoais seu amor pela natureza, o amplo conhecimento de línguas e literaturas e a crescente competência matemática.
-
Nesse momento, concebia a matemática como uma espada capaz de abrir-lhe as portas do sucesso.
90. As portas do sucesso, porém, estavam cercadas por intensa competição interna entre os homens de Harvard e por pressões externas que ameaçavam a segurança do jovem estudante.
91. Harvard permanecia uma instituição fortemente marcada por sua tradição elitista, apesar das transformações científicas e sociais em curso.
-
O histórico Harvard Yard constituía simbolicamente um espaço protegido da cidade comum por grades e portões.
-
Apesar de presenças excepcionais como Leo
Wiener, a universidade ainda funcionava como reduto de uma classe sacerdotal e socialmente privilegiada.
-
Seu currículo conservava numerosas disciplinas compatíveis com a antiga missão puritana de formar homens para o ministério religioso.
92. Norbert foi um entre quatro prodígios que ingressaram em Harvard no outono de 1909.
-
William James Sidis tinha onze anos e era filho do psiquiatra Boris Sidis, que também aplicava aos filhos um programa destinado a produzir precocidade.
-
Adolf Augustus Berle Jr., de quatorze anos, era preparado pelo pai para tornar-se estadista.
-
Cedric Wing Houghton, de quinze anos, pertencia à elite tradicional de Harvard e Boston.
-
No ano seguinte juntou-se ao grupo Roger Sessions, prodígio musical de quatorze anos vindo de Nova York.
93. Quando a imprensa percebeu a concentração de jovens prodígios em Harvard, submeteu-os a intensa perseguição jornalística.
94. Embora procurasse proteger o filho da imprensa, Leo aproveitava a visibilidade pública para promover suas próprias concepções pedagógicas.
-
Sentia que sua produção acadêmica em línguas e literaturas eslavas não recebia em Harvard o reconhecimento merecido.
-
Em 1909, o Boston Sunday Herald apresentou os quatro jovens estudantes de Harvard como produtos dos novos sistemas educacionais desenvolvidos pelos pais.
-
A matéria dedicou atenção especial a Leo e às suas teorias de formação infantil.
95. Leo aproveitou a exposição para afirmar que seus métodos de educação estavam produzindo resultados extraordinários em todos os filhos.
96. Leo sustentava publicamente que os filhos não eram gênios nem excepcionalmente inteligentes, atribuindo seus conhecimentos superiores exclusivamente ao treinamento diferenciado.
-
Afirmava que Norbert poderia ter entrado em Harvard aos oito anos e voltava a qualificá-lo como preguiçoso.
-
Expunha publicamente até os erros matemáticos do filho para demonstrar a eficácia de seu método.
-
O erro consciente era apresentado como instrumento fundamental de aprendizagem.
97. O verão de 1910 trouxe a Norbert alívio das pressões acadêmicas e o início de uma ligação permanente com Sandwich, em Nova Hampshire.
-
A família encantou-se com as Montanhas Brancas, o clima fresco e a reserva característica dos habitantes locais.
-
Norbert, Leo e Constance escalaram o monte Whiteface e depois o monte Washington.
-
A experiência despertou em Norbert uma paixão duradoura pelas grandes caminhadas.
-
Dois anos depois ingressaria no Appalachian Mountain Club e passaria a retornar à região em todos os verões de sua vida.
98. A convivência entre os prodígios de Harvard não se transformou numa amizade profunda, apesar dos encontros e aventuras juvenis, pois a simples partilha de uma trajetória escolar excepcional não constituía fundamento mais sólido para amizade do que a partilha de uma mutilação.
99. Os destinos dos prodígios de Harvard foram profundamente diferentes.
-
Adolf Berle tornou-se integrante do Brain Trust do presidente Franklin D. Roosevelt.
-
Roger Sessions transformou-se em compositor de grande prestígio e recebeu três prêmios Pulitzer.
-
Cedric Houghton morreu de apendicite pouco antes de concluir os estudos.
-
William Sidis sofreu colapso nervoso, viveu posteriormente de maneira marginal e morreu aos quarenta e seis anos após ser ridicularizado por uma reportagem da revista The New Yorker.
100. Wiener permaneceu indignado com o tratamento imposto a Sidis pelo pai e pela imprensa e denunciou reiteradamente sua transformação em espetáculo público.
-
Em Ex-prodígio, classificou a reportagem de The New Yorker como ataque cruel que expôs Sidis como aberração de feira.
-
Em 1952, uma nova matéria intitulada “Pode-se transformar o filho em gênio” reabriu a questão.
-
Wiener utilizou a ocasião para rejeitar definitivamente a alegação de que um método educacional correto poderia fabricar prodígios de maneira garantida.
101. A pretensão de fabricar um gênio seria tão absurda quanto supor que uma tela vazia possa ser mecanicamente convertida numa pintura de Leonardo ou folhas em branco numa peça de Shakespeare.
-
Quem pretende modelar uma alma humana segundo uma forma previamente escolhida deve assegurar-se da dignidade do modelo.
-
O poder de moldar uma inteligência em formação contém simultaneamente um poder de vida e um poder de morte.
102. Em Harvard, Wiener sentiu intensamente tanto a competição acadêmica quanto uma hostilidade latente contra os jovens prodígios e contra os pais que pretendiam tê-los produzido.
-
Depois de um ano marcado por dificuldades laboratoriais e assédio jornalístico, Norbert cedeu à insistência paterna e voltou-se seriamente para a filosofia.
-
Solicitou uma bolsa de um ano em Cornell, onde trabalhava um antigo colega de Leo.
-
Embora ressentido com a interferência paterna, desejava afastar-se de Harvard.
-
A experiência inaugurou uma animosidade duradoura contra a universidade e parte de seu ambiente intelectual.
103. O ano em Cornell, porém, produziria novos choques e uma descoberta de enorme importância pessoal.
104. Além do pai e da imprensa, a mãe de Norbert contribuiu para as dificuldades de sua passagem à vida adulta por meio de uma educação socialmente assimilacionista e permeada pelo antissemitismo corrente.
-
Bertha submetia-se a Leo nas questões acadêmicas, mas controlava outros aspectos da formação dos filhos e buscava ascensão nos círculos universitários.
-
A família vivia exteriormente como gentia em Cambridge, talvez para favorecer sua posição social ou proteger os filhos do preconceito.
-
Segundo
Wiener, a mãe não apenas aceitava o antissemitismo como frequentemente atribuía características depreciativas aos judeus individualmente e como povo.
105. Os pais jamais haviam revelado ao filho que sua ascendência judaica incluía importantes rabinos e estudiosos talmúdicos da Europa oriental e, segundo a tradição familiar, o próprio Moisés Maimônides.
106. Aos quinze anos, durante os estudos de filosofia em Cornell, Norbert descobriu acidentalmente sua origem familiar quando Frank Thilly mencionou diante dele Maimônides como antigo filósofo da linhagem Wiener.
-
Como desconhecia até o nome de Maimônides e praticamente nada sabia das tradições judaicas, procurou imediatamente informações numa enciclopédia.
-
Em seguida interrogou o pai sobre a história das famílias
Wiener e Kahn.
-
Descobriu também que Kahn constituía uma variante de Cohen, designação hebraica associada aos antigos sacerdotes de Israel.
107. A descoberta da própria origem judaica desorganizou profundamente a identidade de Norbert, pois o obrigou a confrontar a incompatibilidade entre sua ascendência e os preconceitos assimilados durante a infância.
-
Se os judeus possuíssem realmente as características negativas atribuídas pela mãe, ele teria de atribuí-las também a si mesmo e às pessoas que amava.
-
Essa lógica conduzia à impossibilidade de reconhecer valor na própria pessoa.
-
Manter atitudes antissemitas equivaleria necessariamente a praticar ódio contra si mesmo.
-
Ao mesmo tempo, não conseguia simplesmente ingressar na tradição religiosa judaica, pois fora educado inteiramente fora de seus ritos, costumes e comunidade.
108. Diante dessa contradição, Norbert rejeitou tanto a fé de seus antepassados quanto a aceitação incondicional de qualquer religião, formulando uma posição fundada na atitude crítica do estudioso.
-
Nenhum credo religioso, científico ou político deveria ser aceito integralmente sem possibilidade de revisão.
-
A posição intelectual adequada exigiria conservar o direito de modificar opiniões conforme novas evidências.
-
Não podia aceitar como povo eleito nem os antigos habitantes protestantes da Nova Inglaterra nem Israel.
-
Permanecia, portanto, a questão de encontrar uma orientação ética que não dependesse de privilégios religiosos ou étnicos.
109. Depois de anos de conflito interior, Wiener aproximou-se de uma espiritualidade universalista e de um humanismo que posteriormente fundamentariam sua filosofia pessoal, sua ciência e seu ativismo social.
-
A experiência reconduziu-o simbolicamente a Maimônides por uma afinidade intelectual e espiritual que não exigia adesão religiosa.
-
A percepção do preconceito contra judeus ampliou-se mediante o reconhecimento do imperialismo britânico, da opressão ocidental na China, do racismo contra negros nos Estados Unidos e da hostilidade entre protestantes tradicionais e imigrantes católicos.
-
A única posição moral coerente consistia em combater o preconceito enquanto preconceito, e não apenas quando dirigido ao próprio grupo.
-
A defesa dos judeus tornou-se inseparável da resistência à discriminação contra orientais, católicos, imigrantes e negros.
110. Essa elaboração humanista ainda demoraria a estabilizar-se, e durante o ano em Cornell a crise de identidade e a ausência da disciplina paterna contribuíram para uma forte queda de rendimento acadêmico.
-
A bolsa não foi renovada e Leo obrigou o filho a retornar a Boston.
-
Norbert voltou profundamente abalado pelas descobertas daquele ano, sentindo-se privado das últimas bases de identidade e confiança juvenil diante de um futuro incerto e deprimente.
111. No verão de 1911, Leo provocou novo abalo ao reivindicar publicamente para seu método educacional os êxitos intelectuais de Norbert e das duas filhas.
-
Numa matéria da American Magazine, reiterou que os filhos não possuíam dons excepcionais e apenas sabiam mais porque haviam recebido treinamento diferente.
-
Norbert tomou conhecimento diretamente dessa declaração pela primeira vez.
-
A publicação num periódico nacional respeitado fez com que interpretasse a posição paterna como uma divisão cruel segundo a qual seus fracassos lhe pertenciam, enquanto seus sucessos pertenciam ao pai.
112. No mesmo período em que Leo se tornou o primeiro judeu a alcançar a posição de professor titular em Harvard, Norbert retomou o doutorado em filosofia e passou a estudar com George Santayana e Josiah Royce.
-
Santayana trabalhava questões de moral e estética.
-
Royce, simultaneamente idealista filosófico e realista substantivo, introduziu Norbert nos rigores do método científico.
-
A morte de William James deixara espaço para essas novas influências no ambiente filosófico de Harvard.
113. Santayana e Royce introduziram Norbert na nova visão científica do século XX, associada ao “novo realismo” e à nascente lógica matemática de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead.
114. Norbert sentiu imediata afinidade com o novo realismo, e seus trabalhos filosóficos começaram a reunir temas que décadas depois reapareceriam em sua produção científica.
-
Interessava-se por novas concepções da realidade e pelos fundamentos físicos do pensamento racional.
-
Investigava possibilidades científicas para compreender finalidade e organização na natureza.
-
Embora ainda não constituíssem trabalhos maduros ou geniais, essas ideias semeavam em sua mente componentes fundamentais das futuras revoluções científicas do século.
115. Wiener destacou-se nos novos estudos filosóficos, escreveu uma dissertação apreciada sobre o Principia Mathematica e superou facilmente os exames escritos, embora enfrentasse os exames orais com intenso temor.
-
Leo acompanhou obsessivamente a preparação final, caminhando durante horas com o filho por Cambridge, transmitindo confiança e simulando todas as possíveis situações de exame.
-
Norbert venceu a prova e recebeu o doutorado com apenas dezoito anos.
116. A história dos prodígios não oferecia garantias de que uma precocidade extraordinária se converteria em genialidade adulta.
-
Em antigas tradições, prodígios eram interpretados como presságios de transformações futuras ou como seres monstruosos e excepcionais.
-
Algumas concepções modernas viam-nos como experiências raras da natureza capazes de oferecer contribuições decisivas à humanidade.
-
Enquanto a maioria apresentava talento extremo num único domínio,
Wiener era um “prodígio universal”, precoce em línguas, matemática e ciências naturais e dotado de curiosidade quase ilimitada.
-
Mesmo assim, a experiência histórica mostrava que raramente crianças prodigiosas se transformavam em gênios adultos capazes de alterar fundamental e irreversivelmente um campo do conhecimento.
117. Na primavera de 1913, ao receber em Harvard o doutorado aos dezoito anos, Norbert Wiener reunia numa mesma figura uma realização intelectual histórica e profundas incertezas sobre a própria inteligência, identidade e valor pessoal.
-
A miopia, as humilhações paternas e a sensação de inadequação acompanhavam o jovem cuja precocidade despertava orgulho familiar.
-
Para os pais e irmãos, continuava sendo afetuosamente chamado “Nubbins”, termo que designava uma pequena espiga imperfeita ou qualquer coisa atrofiada ou incompletamente desenvolvida.