Biografia

CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.

** 1. O menino mais extraordinário do mundo **

1. A curiosidade insaciável da cria do elefante manifesta-se na incessante formulação de perguntas sobre tudo quanto pode ver, ouvir, sentir, cheirar ou tocar, persistindo apesar das punições recebidas de tios e tias. — Rudyard Kipling, Histórias assim

2. Numa manhã de outono de 1906, na Nova Inglaterra, o primeiro menino-prodígio célebre do século XX desceu de seu quarto para encontrar um repórter do jornal The World.

3. O repórter enviado de Nova York a Boston pelo principal jornal de Joseph Pulitzer procurava conhecer o mais jovem universitário da história dos Estados Unidos, num período fascinado por gênios, descobertas e invenções associadas à nova era das máquinas.

4. Do alto da escada, a voz infantil de Norbert perguntou à mãe se já não era hora de ir para a faculdade.

5. A mãe confirmou que chegara a hora, enquanto os passos apressados do menino ecoavam pela escada.

6. O jornalista ficou imediatamente encantado ao ver o menino de onze anos já conhecido como o “prodígio infantil de Boston”.

7. A entrada de Norbert na sala revelou um menino de aparência comum, com meias até os joelhos, roupas infantis, óculos de aro dourado e, sob o braço, um volume de Os problemas da filosofia, de John Grier Hibben.

8. Norbert cumprimentou formalmente o visitante, com uma dicção que pareceu singularmente afetada para sua idade, e sentou-se educadamente para responder às perguntas.

9. Norbert declarou que lia porque sentia prazer nisso e não compreendia por que sua juventude ou seu gosto pelo estudo deveriam ser considerados extraordinários.

10. A fama do filho precoce de Leo Wiener já ultrapassava Cambridge, sustentada por uma extraordinária trajetória intelectual iniciada ainda na primeira infância.

11. O repórter não conseguia compreender como um menino de onze anos podia preferir Huxley e Darwin a histórias infantis como João e Maria.

12. Para Norbert, a filosofia era mais interessante que os contos de fadas e constituía, ela própria, uma espécie de reino maravilhoso.

13. A vida de Norbert já exigia conciliar estudos universitários precoces com os prazeres ainda presentes da infância, sem que ele percebesse incompatibilidade entre brincar e estudar.

14. Bertha Wiener mandou o filho de volta ao quarto para falar reservadamente com o repórter e afirmou que, embora os pais naturalmente se orgulhassem dele, procuravam criá-lo como um menino comum, sem fazê-lo sentir-se diferente.

15. Bertha pediu a Norbert que fechasse a porta de seu quarto.

16. Norbert respondeu obedientemente à solicitação da mãe.

17. Bertha confessou em voz baixa que jamais desejaria que o filho percebesse ser considerado extraordinário pelos pais, embora eles efetivamente o considerassem assim.

18. A reportagem intitulada “O menino mais extraordinário do mundo”, publicada em 7 de outubro de 1906, ocupou toda a primeira página e ainda outras partes do suplemento dominical The World Magazine, superando em destaque acontecimentos tecnológicos e anúncios cotidianos daquele dia.

19. Uma enorme fotogravura apresentava Norbert em traje de marinheiro, mãos nos bolsos e postura confiante, sobreposta a uma ilustração em que aparecia colocado sobre edições luxuosas de A origem das espécies, de Darwin, e dos Diálogos, de Platão.

20. A descrição jornalística reforçava a representação heroica do menino, caracterizando-o como saudável, corpulento, quase gordo, de membros grossos, peito largo, pele lisa, musculatura firme e cabeça de proporções comuns.

21. Aos olhos do jornalista, porém, a singularidade de Norbert concentrava-se sobretudo em seus grandes olhos negros e intensos, cujo olhar parecia quase sobrenatural e sugeria que o menino já tivesse solucionado o enigma do universo.

22. Ao entrevistar Leo Wiener em Harvard, o jornalista encontrou um pai que afirmava evitar falar do filho para não alimentar sua vaidade, mas que ainda assim elogiou sua mente analítica, memória extraordinária e aprendizagem fundada no raciocínio.

23. Leo insistiu que a inclinação fundamental do filho era a filosofia, contrariando a preferência declarada por Norbert pela matemática, e acrescentou que o menino seria preguiçoso e estudaria menos que outros de sua idade.

24. A combinação de elogios e críticas paternas deixou o repórter incerto quanto ao futuro de Norbert, levando-o a concluir a matéria com a mesma grandiloquência cautelosa com que a iniciara.

25. Independentemente do que viesse a tornar-se, Norbert Wiener era apresentado como o mais jovem universitário — ou, corrigindo-se a designação, o mais jovem menino universitário — dos Estados Unidos e talvez do mundo.

26. Numa época em que os jornais constituíam a principal fonte de informação, o rádio ainda era experimental e a eletricidade parecia milagrosa, o futuro fundador intelectual da era da informação ingressava na esfera pública como uma das primeiras celebridades midiáticas do século americano.

27. O prodígio de Boston permanecia, em numerosos aspectos, herdeiro da antiga ordem do conhecimento, vinculada filosoficamente à Grécia e a Roma e cientificamente à tradição de Newton, Leibniz, Darwin e outros fundadores da física, do cálculo e da biologia moderna.

28. A linhagem familiar de Norbert, entretanto, seguia outra trajetória histórica, destinada a exercer influência concreta sobre sua vida e seu pensamento.

29. Wiener reconheceria posteriormente sua origem predominantemente judaica, embora nem ele, nem o pai, nem o avô paterno fossem judeus religiosos, valorizando sobretudo uma herança cultural associada à aprendizagem e à resistência histórica diante do preconceito.

30. Uma tradição familiar fazia remontar os Wiener ao filósofo e médico judeu do século XII Moisés Maimônides, conhecido como Rambam, cuja própria trajetória combinava precocidade intelectual, exílio, medicina e erudição.

31. Wiener reconhecia a fragilidade documental de sua suposta descendência de Maimônides, pois a genealogia escrita da família fora destruída num incêndio na Polônia e outros vínculos históricos desapareceram com a devastação nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

32. Investigações genealógicas posteriores localizaram antepassados da família Wiener nos pântanos do Pripet, na Polônia, e encontraram indícios circunstanciais que aproximavam sua linhagem de descendentes modernos de Maimônides.

33. No fim do século XIX, Bialystok integrava uma gubernia semiautônoma do Império Russo, e ali Salomon Rabinowicz, avô materno de Leo Wiener, construíra sua prosperidade como comerciante de madeira e proprietário de um importante hotel.

34. Rosa Rabinowicz, nascida Zabludowska, pertencia a uma próspera família de curtidores cujos integrantes alcançaram a condição de “cidadãos honorários hereditários”, a mais alta posição acessível aos judeus na Rússia imperial.

35. Salomon Wiener, pai de Leo, nascera em 1838 em Krotoschin e recebera uma sólida formação alemã no ginásio clássico de Königsberg, embora um problema auditivo lhe impedisse seguir carreira universitária.

36. Em 1859, Salomon Wiener estabeleceu-se em Bialystok e, dois anos depois, casou-se com Freida Rabinowicz, passando a governar a família segundo princípios iluministas e reformistas germano-judaicos.

37. Salomon possuía temperamento inquieto, gosto por longas caminhadas e tendência familiar à distração, até desaparecer definitivamente depois de habituar-se a ausentar-se de casa por vários dias, deixando Freida sozinha com seis filhos com os quais mal conseguia comunicar-se.

38. Leo Wiener, primogênito de Salomon e Freida, nasceu em 1862 e cresceu desde cedo imerso no ambiente multilíngue de Bialystok.

39. A educação de Leo desenvolveu-se por escolas especializadas, professores particulares e sucessivas mudanças familiares destinadas a favorecer suas capacidades excepcionais, antecipando o percurso que ele próprio imporia mais tarde a Norbert.

40. Embora fisicamente pequeno, Leo herdara vigor atlético e projetava uma imagem de elevada inteligência, acompanhada por intensa disposição para caminhar, conversar e envolver-se precocemente em movimentos políticos.

41. Insatisfeito tanto com o impasse dos ideais russos quanto com o materialismo que percebia na sociedade alemã, Leo procurou uma região em que ciência e ideais superiores pudessem convergir.

42. Leo partiu de Hamburgo em fevereiro de 1882, aos dezenove anos, aproveitando a viagem para ampliar ainda mais seus conhecimentos linguísticos.

43. Sem dinheiro para continuar até Belize, Leo entregou-se ao ideal romântico do trabalho manual e percorreu diferentes ocupações e regiões dos Estados Unidos.

44. Depois de um ano, Leo abandonou a experiência rural e chegou novamente sem recursos a Kansas City, onde sucessivas ocupações humildes foram interrompidas pelo reencontro com sua vocação intelectual.

45. Como professor, Leo rejeitava a memorização mecânica e procurava transmitir aos alunos as paixões intelectuais que orientavam sua própria existência.

46. Depois de uma palestra ao Clube Feminino Browning, Leo conheceu Bertha Kahn, filha de uma próspera família germano-americana profundamente assimilada à sociedade do Missouri.

47. Em 1892, Leo tornou-se professor de línguas modernas na Universidade do Missouri e, no ano seguinte, casou-se com Bertha; em 26 de novembro de 1894 nasceu o primeiro filho do casal, chamado Norbert em homenagem a um personagem do poema dramático Num balcão, de Robert Browning.

48. A precocidade de Norbert tornou-se evidente aos dezoito meses, quando aprendeu o alfabeto em apenas dois dias, enquanto mudanças profissionais levaram Leo a transferir a família do Missouri para Boston.

49. A família adaptou-se rapidamente à atmosfera intelectual de Cambridge e, em 1897, mudou-se para uma casa com jardim próxima de Harvard Square, onde Bertha lia diariamente para Norbert.

50. Desde pequeno, Norbert demonstrava extrema sensibilidade diante do sofrimento e das deformidades físicas, experiências que contribuíram para seu vegetarianismo permanente.

51. A educação intelectual de Norbert começou informalmente no gabinete do pai, onde explorava livros atraído inicialmente pelas ilustrações e por palavras que já conseguia compreender.

52. Com o nascimento da irmã Constance em 1898, Norbert iniciou o jardim de infância, embora sua formação mais exigente já estivesse sendo conduzida em casa pelo pai.

53. Quando Norbert tinha cinco anos, Leo comprou a Fazenda Catalpa, em Foxboro, proporcionando ao filho intenso contato com plantas, animais e parentes recém-chegados da Europa.

54. A escolarização formal continuava inadequada à combinação entre imaturidade física e extraordinária rapidez intelectual de Norbert, levando Leo a retirá-lo da escola aos sete anos.

55. À formação inicial em línguas, literatura clássica e filosofia alemã, Leo acrescentou Darwin, Huxley e outras obras científicas para desenvolver no filho um espírito científico.

56. Embora Leo não tivesse inicialmente planejado fabricar um menino-gênio, os resultados obtidos transformaram progressivamente sua pedagogia numa experiência consciente de formação excepcional.

57. A lembrança de Norbert contradizia a imagem benevolente divulgada pelo pai, pois a educação doméstica combinava estímulo intelectual com disciplina militar, reprimendas violentas e um programa sistemático de humilhação.

58. Décadas depois, Norbert ainda recordava ter de recitar lições ao lado da mesa de trabalho do pai e ser submetido a insultos devastadores ao menor erro.

59. As aulas podiam começar em tom afetuoso e terminar numa explosão de sarcasmo, humilhação e conflito familiar assim que Norbert cometesse um erro matemático.

60. O esforço de Norbert para corresponder às exigências paternas provocou uma miopia tão grave que, aos oito anos, os médicos proibiram sua leitura durante seis meses.

61. Durante esses seis meses, Leo obrigou Norbert a realizar mentalmente todo raciocínio, cálculo e aritmética.

62. A restrição visual teve consequências intelectuais profundas, pois Norbert aprendeu a operar álgebra, geometria e trigonometria inteiramente na imaginação.

63. Ainda criança, Norbert já adquiria o hábito que conservaria por toda a vida de atravessar fronteiras disciplinares e ocupar-se simultaneamente de múltiplos problemas.

64. Embora dominasse precocemente conceitos de mitose, embriologia e reprodução, Norbert encontrava dificuldades para compreender certos aspectos da sexualidade animal e humana, sobre os quais seus pais evitavam responder.

65. Walter Cannon, amigo de Leo e destacado biólogo e neurofisiologista de Harvard, tornou-se uma das influências decisivas sobre Norbert.

66. As visitas ao laboratório de Cannon reuniram os interesses de Norbert por zoologia, botânica, eletricidade e experimentação científica, oferecendo-lhe um modelo profissional alternativo às expectativas paternas.

67. Os primeiros anos em Cambridge consolidaram a formação de Norbert e da família Wiener, agora ampliada por uma terceira filha, Bertha, e instalada numa casa com biblioteca e amplo quintal na Avon Street.

68. A Cambridge do início do século XX reunia professores ilustres e empresários ricos num ambiente que ainda conservava aspectos de uma pequena cidade rural.

69. Em 1903, Leo aceitou traduzir para o inglês os vinte e quatro volumes das obras de Tolstói por dez mil dólares, empreendimento que exigia condições especiais de trabalho.

70. A Fazenda Old Mill proporcionou a Norbert uma rica vida de jovem naturalista, mas também uma crescente sensação de isolamento.

71. Sobrecarregado com a fazenda, os deslocamentos diários e a tradução de Tolstói, Leo deixou de controlar integralmente a educação do filho e, em 1904, matriculou Norbert, aos nove anos, na escola secundária pública de Ayer.

72. Aos dez anos, Norbert escreveu seu primeiro ensaio filosófico, “A teoria da ignorância”, no qual sustentava que todo conhecimento humano permanece incompleto e aproximativo.

73. Apesar da imaturidade filosófica própria da idade, a ênfase precoce de Norbert na incerteza antecipava problemas destinados a abalar fundamentos centrais da filosofia e da ciência no século XX.

74. A velocidade extraordinária de seu desenvolvimento intelectual começava a impor custos ao crescimento físico, emocional e social, produzindo dificuldades particularmente sensíveis num domínio da experiência infantil.

75. Aos onze anos, no último ano da escola secundária, Norbert apaixonou-se por uma pianista de quinze anos e posteriormente consideraria esse sentimento um amor verdadeiro, e não mera afeição infantil.

76. Leo e Bertha não conseguiam orientar adequadamente o filho em suas dificuldades afetivas, agravadas pela diferença de idade que sempre o separara dos colegas.

77. Em 1906 nasceu Frederic, chamado Fritz, último irmão de Norbert, enquanto este concluía a escola secundária de Ayer como primeiro aluno da turma, embora permanecesse muito atrás dos colegas em maturidade social.

78. Leo evitou matricular o filho pré-adolescente em Harvard, onde sua notoriedade seria ainda maior, e escolheu o Tufts College, em Medford.

79. A imagem pública do mais jovem universitário da história ocultava problemas físicos importantes que acompanhavam Norbert desde a infância.

80. Mais graves que as limitações físicas eram as marcas psicológicas deixadas pelas constantes humilhações paternas, que convenceram o jovem universitário de que sua própria mente “não prestava” e instauraram uma insegurança destinada a acompanhá-lo durante toda a vida.

81. Apesar da pressão paterna em favor da filosofia, Norbert pretendia especializar-se em zoologia, mas sua deficiência visual e motora tornava extremamente difíceis as atividades laboratoriais.

82. No segundo ano, Norbert cursou filosofia para satisfazer o pai e assistiu em Harvard às aulas de William James, fundador da psicologia experimental americana e um dos criadores do pragmatismo.

83. O interesse de Norbert pela ciência continuou afastando-o da filosofia e aproximando-o progressivamente da matemática.

84. Na primavera de 1909, aos quatorze anos e depois de apenas três anos de estudos, Norbert formou-se bacharel em matemática, mas a aceleração acadêmica produziu profundo esgotamento físico e mental.

85. As dúvidas sobre o futuro começaram a corroer a saúde e o orgulho de Norbert, especialmente depois de sua exclusão da sociedade honorífica Phi Beta Kappa.

86. A autoconfiança exibida publicamente três anos antes desaparecia, enquanto Norbert começava a temer que a precocidade intelectual pudesse consumir prematuramente a energia vital e conduzir à mediocridade, à miséria ou mesmo à loucura na idade adulta.

87. O medo de fracassar combinou-se com uma aguda consciência da mortalidade, sentimentos de culpa e sintomas que hoje seriam reconhecidos como graves sinais de sofrimento psíquico.

88. Essa condição de fragilidade constituía um ponto de partida particularmente desfavorável para iniciar, aos quatorze anos, uma exigente carreira de pós-graduação em Harvard.

89. Em setembro, com a aprovação do pai, Norbert ingressou na pós-graduação de Harvard, enquanto a família retornava a Cambridge.

90. As portas do sucesso, porém, estavam cercadas por intensa competição interna entre os homens de Harvard e por pressões externas que ameaçavam a segurança do jovem estudante.

91. Harvard permanecia uma instituição fortemente marcada por sua tradição elitista, apesar das transformações científicas e sociais em curso.

92. Norbert foi um entre quatro prodígios que ingressaram em Harvard no outono de 1909.

93. Quando a imprensa percebeu a concentração de jovens prodígios em Harvard, submeteu-os a intensa perseguição jornalística.

94. Embora procurasse proteger o filho da imprensa, Leo aproveitava a visibilidade pública para promover suas próprias concepções pedagógicas.

95. Leo aproveitou a exposição para afirmar que seus métodos de educação estavam produzindo resultados extraordinários em todos os filhos.

96. Leo sustentava publicamente que os filhos não eram gênios nem excepcionalmente inteligentes, atribuindo seus conhecimentos superiores exclusivamente ao treinamento diferenciado.

97. O verão de 1910 trouxe a Norbert alívio das pressões acadêmicas e o início de uma ligação permanente com Sandwich, em Nova Hampshire.

98. A convivência entre os prodígios de Harvard não se transformou numa amizade profunda, apesar dos encontros e aventuras juvenis, pois a simples partilha de uma trajetória escolar excepcional não constituía fundamento mais sólido para amizade do que a partilha de uma mutilação.

99. Os destinos dos prodígios de Harvard foram profundamente diferentes.

100. Wiener permaneceu indignado com o tratamento imposto a Sidis pelo pai e pela imprensa e denunciou reiteradamente sua transformação em espetáculo público.

101. A pretensão de fabricar um gênio seria tão absurda quanto supor que uma tela vazia possa ser mecanicamente convertida numa pintura de Leonardo ou folhas em branco numa peça de Shakespeare.

102. Em Harvard, Wiener sentiu intensamente tanto a competição acadêmica quanto uma hostilidade latente contra os jovens prodígios e contra os pais que pretendiam tê-los produzido.

103. O ano em Cornell, porém, produziria novos choques e uma descoberta de enorme importância pessoal.

104. Além do pai e da imprensa, a mãe de Norbert contribuiu para as dificuldades de sua passagem à vida adulta por meio de uma educação socialmente assimilacionista e permeada pelo antissemitismo corrente.

105. Os pais jamais haviam revelado ao filho que sua ascendência judaica incluía importantes rabinos e estudiosos talmúdicos da Europa oriental e, segundo a tradição familiar, o próprio Moisés Maimônides.

106. Aos quinze anos, durante os estudos de filosofia em Cornell, Norbert descobriu acidentalmente sua origem familiar quando Frank Thilly mencionou diante dele Maimônides como antigo filósofo da linhagem Wiener.

107. A descoberta da própria origem judaica desorganizou profundamente a identidade de Norbert, pois o obrigou a confrontar a incompatibilidade entre sua ascendência e os preconceitos assimilados durante a infância.

108. Diante dessa contradição, Norbert rejeitou tanto a fé de seus antepassados quanto a aceitação incondicional de qualquer religião, formulando uma posição fundada na atitude crítica do estudioso.

109. Depois de anos de conflito interior, Wiener aproximou-se de uma espiritualidade universalista e de um humanismo que posteriormente fundamentariam sua filosofia pessoal, sua ciência e seu ativismo social.

110. Essa elaboração humanista ainda demoraria a estabilizar-se, e durante o ano em Cornell a crise de identidade e a ausência da disciplina paterna contribuíram para uma forte queda de rendimento acadêmico.

111. No verão de 1911, Leo provocou novo abalo ao reivindicar publicamente para seu método educacional os êxitos intelectuais de Norbert e das duas filhas.

112. No mesmo período em que Leo se tornou o primeiro judeu a alcançar a posição de professor titular em Harvard, Norbert retomou o doutorado em filosofia e passou a estudar com George Santayana e Josiah Royce.

113. Santayana e Royce introduziram Norbert na nova visão científica do século XX, associada ao “novo realismo” e à nascente lógica matemática de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead.

114. Norbert sentiu imediata afinidade com o novo realismo, e seus trabalhos filosóficos começaram a reunir temas que décadas depois reapareceriam em sua produção científica.

115. Wiener destacou-se nos novos estudos filosóficos, escreveu uma dissertação apreciada sobre o Principia Mathematica e superou facilmente os exames escritos, embora enfrentasse os exames orais com intenso temor.

116. A história dos prodígios não oferecia garantias de que uma precocidade extraordinária se converteria em genialidade adulta.

117. Na primavera de 1913, ao receber em Harvard o doutorado aos dezoito anos, Norbert Wiener reunia numa mesma figura uma realização intelectual histórica e profundas incertezas sobre a própria inteligência, identidade e valor pessoal.