Caminhadas

CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.

** Caminhadas de Wiener II **

1. A dificuldade de encontrar companhia verdadeiramente afim convive com a facilidade de estabelecer relações pessoais intensas, mas invariavelmente transitórias, fazendo da proximidade humana uma experiência marcada pela separação e pela consciência de que apenas pequenos trechos do caminho podem ser percorridos em conjunto. — J. W. von Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther

2. A fama recém-adquirida não modificou substancialmente as rotinas de Wiener no MIT, onde continuou sendo uma presença familiar, excêntrica e intelectualmente expansiva.

3. A progressiva deterioração da visão dificultava até mesmo sua orientação espacial, levando-o a inventar uma solução óptica própria que, embora funcional, acentuava sua aparência excêntrica.

4. O modo formal de falar de Wiener era frequentemente interpretado como afetação, embora correspondesse autenticamente à formação intelectual recebida do pai e à cultura linguística do final do século XIX.

5. Wiener continuava ministrando o curso fundamental de análise harmônica e suas aplicações à engenharia, embora a extraordinária capacidade matemática nem sempre se convertesse em clareza pedagógica para estudantes comuns.

6. A capacidade de Wiener para chegar rapidamente a uma solução matemática não significava capacidade equivalente para explicar os passos intermediários necessários a outra pessoa.

7. Wiener percorria incansavelmente o MIT e fazia visitas inesperadas aos escritórios dos colegas, comportamento recebido simultaneamente como estímulo intelectual e intrusão.

8. Alguns engenheiros, entretanto, consideravam as visitas de Wiener tão invasivas e extenuantes que organizaram um sistema coletivo para evitá-lo.

9. Um professor chegou a considerar financeiramente dispendiosos seus encontros fortuitos com Wiener porque o esforço de simular o grau de entusiasmo esperado o deixava exausto e inseguro em relação ao próprio trabalho.

10. Wiener tampouco oferecia sistematicamente aos colegas a atenção que exigia deles, pois seu interesse intenso concentrava-se sobretudo em problemas que despertavam sua curiosidade ou na avaliação externa de sua própria obra.

11. A intensidade da atividade intelectual e o excesso de peso contribuíam para que Wiener adormecesse cada vez mais frequentemente em situações profissionais, embora o sono não significasse necessariamente ausência completa de atenção.

12. O hábito de adormecer com um charuto aceso criava também riscos físicos concretos para Wiener e para aqueles ao redor.

13. As histórias sobre as excentricidades de Wiener multiplicaram-se à medida que sua notoriedade crescia, consolidando uma imagem de comportamento social marcado por espontaneidade quase infantil e pouca percepção das convenções.

14. A imagem de Wiener como absolutamente dependente dos cuidados da esposa, entretanto, não correspondia integralmente ao comportamento observado por pessoas que conviveram com ele durante períodos prolongados.

15. Os anos do pós-guerra incluíam também períodos de genuína alegria familiar, nos quais o cinema ocupava lugar privilegiado.

16. Outra preferência pessoal de Wiener era sua atração por mulheres com orelhas furadas, inclinação que comentou abertamente durante uma caminhada noturna por Nova York com Pitts e Lettvin.

17. A atração por orelhas furadas permanecia, segundo Lettvin, uma fantasia inocente sem consequências práticas, mas adquiria significado muito diferente no ambiente doméstico dos Wiener.

18. As relações entre Margaret, o marido e as filhas deterioravam-se progressivamente, processo iniciado antes da publicação de Cibernética e que em diversas ocasiões ultrapassou os limites privados da família.

19. Durante a guerra, um episódio escolar envolvendo Barbara intensificou os receios de Margaret em relação à reputação pública da família.

20. Margaret ameaçou Barbara com institucionalização caso revelasse os segredos familiares e procurou ativamente convencer pessoas próximas de que a filha era uma mentirosa perigosa.

21. O descrédito sistemático imposto a Barbara produziu uma sensação crescente de exclusão e acabou colocando sua própria saúde em risco.

22. Margaret formulou posteriormente nova acusação infundada contra a filha depois de interpretar sexualmente um encontro casual durante uma viagem de trem.

23. Peggy confirmou que a mãe interpretava de maneira obsessivamente sexual situações nas quais nenhuma implicação desse gênero estava presente.

24. A obsessão de Margaret intensificou-se durante uma permanência familiar no México, quando as filhas decidiram furar as orelhas junto com Taffy McCulloch e uma amiga.

25. Margaret acusou Barbara de tentar deliberadamente seduzir o próprio pai ao furar as orelhas, interpretação considerada pelas filhas e por Taffy uma distorção extrema da situação.

26. As pesquisas de Wiener e Rosenblueth no México avançavam, mas eram prejudicadas pelos atrasos de Walter Pitts, cuja participação experimental fora planejada para aproximar sua teoria matemática das propriedades concretas do sistema nervoso.

27. A rebeldia de Pitts contra autoridades, convenções sociais e ambições profissionais aproximava-o culturalmente dos jovens que pouco depois seriam identificados com a Geração Beat.

28. Wiener irritou-se menos com as viagens em si do que com a incapacidade de Pitts de cumprir os compromissos científicos assumidos.

29. Na primavera de 1947, uma nova dificuldade envolvendo Pitts desencadearia uma crise grave nas relações internas do grupo e produziria consequências inesperadas também para Barbara Wiener.

30. Aos dezesseis anos, depois de concluir o internato e ingressar inicialmente no Radcliffe College, Barbara aproximou-se progressivamente do círculo científico de Wiener.

31. No início de 1947, McCulloch ofereceu a Barbara uma oportunidade de formação em seu laboratório na Universidade de Illinois e hospedagem temporária na casa da família.

32. A casa dos McCulloch apresentou a Barbara um universo cultural radicalmente diferente daquele em que fora criada.

33. A liberdade do ambiente McCulloch contrastava profundamente com a rigidez moral da casa de Margaret Wiener e tinha em Rook McCulloch uma de suas figuras centrais.

34. Barbara trabalhou com dedicação no laboratório, conquistou maior autonomia pessoal e viveu sua primeira relação amorosa, enquanto os jovens colaboradores de Wiener pareciam finalmente estabilizar suas trajetórias científicas.

35. A notícia de que Wiener estava furioso e pretendia romper relações com Pitts, Selfridge, Lettvin, McCulloch e seus projetos conjuntos espalhou-se pelo grupo sem que inicialmente se soubesse a causa.

36. Barbara foi inesperadamente tratada como responsável por uma grave ruptura que ela própria não compreendia.

37. Poucos dias depois, revelou-se que a ira de Wiener não tinha relação alguma com Barbara, mas com um manuscrito científico entregue a Pitts para revisão e desaparecido havia meses.

38. Wiener interpretou inicialmente o desaparecimento do manuscrito como resultado de uma “conspiração de silêncio” envolvendo Pitts, McCulloch e os demais jovens colaboradores.

39. Lettvin assumiu voluntariamente uma parcela de culpa que pertencia essencialmente a Pitts por temer que as consequências da ruptura fossem particularmente graves para o jovem matemático.

40. A primeira grande crise foi superada, mas produziu consequências duradouras sobre todos os envolvidos.

41. A breve permanência de Barbara em Chicago, embora aparentemente encerrada, tornar-se-ia alguns anos depois o elemento desencadeador de uma ruptura ainda mais grave no círculo da cibernética, circunstância então desconhecida por ela e pelos demais envolvidos.

42. A redação de Cibernética agravou definitivamente os problemas visuais de Wiener e tornou necessárias cirurgia, novas formas de assistência e adaptações pessoais diante da possibilidade de cegueira.

43. Em 1948, Wiener reconstituiu no ambiente do MIT os antigos seminários interdisciplinares de Rosenblueth mediante encontros semanais num restaurante chinês próximo ao campus.

44. Wiener mantinha paralelamente uma intensa sociabilidade intelectual em casa, recebendo pesquisadores de grande prestígio tanto em Belmont quanto na residência de verão em South Tamworth.

45. Wiener e Haldane expressavam essa afinidade erudita inclusive por meio do canto conjunto de De contemptu mundi, hino medieval latino de Bernardo de Cluny, após as refeições familiares.

46. O canto evocava a imagem da Jerusalém dourada e de uma pátria ideal abundantemente abençoada, associando a convivência dos dois cientistas seculares a uma tradição espiritual medieval preservada como herança cultural.

47. A continuação da composição celebrava Jerusalém como cidade dourada e espaço simbólico de plenitude, permanecendo viva na memória dos dois estudiosos apesar de suas posições religiosas não ortodoxas.

48. O hino avançava finalmente para uma advertência sombria sobre a corrupção do mundo, a proximidade do fim e a necessidade de vigilância diante de um julgamento iminente.

49. A imagem do mundo em decadência e da necessidade de permanecer vigilante seria posteriormente reelaborada por Wiener em suas próprias advertências sobre os perigos sociais e morais das novas tecnologias automatizadas.

50. A volta de Yuk Wing Lee ao MIT reforçou o círculo científico de Wiener e forneceu uma ponte importante entre sua teoria matemática e suas aplicações práticas na engenharia.

51. O reconhecimento obtido com Cibernética trouxe satisfação a Wiener, mas não eliminou as inseguranças profundamente enraizadas nem as oscilações emocionais que continuavam a marcar sua vida.

52. Margaret apropriava-se parcialmente da fama do marido como compensação pelas renúncias que julgava ter realizado, enquanto as filhas experimentavam o peso dessa notoriedade de maneira muito mais ambivalente.

53. As oscilações emocionais de Wiener continuavam capazes de destruir abruptamente a autoconfiança proporcionada pelo sucesso e levá-lo a ataques contra colegas, concorrentes e discípulos.

54. Peggy insistia que o pai não agia movido por malícia, embora pudesse confrontar duramente outras pessoas quando acreditava possuir motivos legítimos.

55. Os períodos de grande vitalidade intelectual alternavam-se com dias sombrios nos quais Wiener procurava dirigentes do MIT para protestar contra acontecimentos científicos, administrativos ou políticos que o alarmavam.

56. Nos períodos depressivos, Wiener enviava repetidamente cartas exaltadas de renúncia ao MIT ou a organizações profissionais.

57. Algumas organizações compreenderam e absorveram o caráter recorrente dessas renúncias, mas a Academia Nacional de Ciências aceitou definitivamente sua saída.

58. As renúncias de Wiener eram recebidas com hostilidade, perplexidade ou humor conforme o observador, e combinavam motivações éticas reais com efeitos de seus estados depressivos.

59. Pessoas próximas à família consideravam que Margaret frequentemente agravava as oscilações emocionais do marido e podia até desencadear deliberadamente algumas crises profissionais.

60. Tornara-se perceptível que Margaret considerava Wiener mais administrável e socialmente respeitável quando deprimido do que quando eufórico e, consciente ou inconscientemente, procurava interromper seus estados de entusiasmo.

61. As oscilações de Wiener podiam levá-lo de períodos prolongados de autodepreciação à recuperação súbita da atividade e da confiança.

62. Diante da insuficiência do apoio doméstico e do medo persistente de sofrer um colapso maior, Wiener voltou a procurar tratamento psiquiátrico.

63. À medida que as filhas conquistavam gradualmente independência, Margaret intensificava seus esforços para manter controlado o ambiente social e profissional em torno do marido.

64. A obsessão de Margaret por orelhas furadas produziu consequências profissionais concretas para Margot Zemurray, secretária do Departamento de Matemática.

65. Margaret compareceu pessoalmente ao Departamento de Matemática e exigiu a demissão imediata da secretária por ter furado as orelhas.

66. A conduta controladora de Margaret assumia progressivamente uma intensidade que não podia ser explicada apenas pelas dificuldades reais de conviver com Wiener e continuava a transformar Barbara em alvo privilegiado de seus temores.

67. Margaret convidou Raisbeck formalmente para uma conversa particular e apresentou uma série de acusações graves contra a própria filha com o objetivo de afastá-lo.

68. Raisbeck recusou-se a aceitar as advertências de Margaret e aprofundou a relação com Barbara, enquanto Wiener recebeu com entusiasmo paternal a perspectiva de casamento.

69. Barbara e Tobey Raisbeck casaram-se em dezembro de 1948 e mudaram-se para Nova Jersey, iniciando uma vida distante das pressões familiares que ambos desejavam deixar para trás.

70. No final de 1950, Wiener voltou à França a convite de Szolem Mandelbrojt para lecionar no Collège de France e participar de um congresso internacional sobre computadores e automação.

71. Margaret interpretou novamente uma situação inteiramente cotidiana como evidência de comportamento sexual impróprio da filha.

72. Enquanto permanecia alheio à nova acusação de Margaret contra Peggy, Wiener desfrutava Paris em companhia de amigos franceses, frequentando cafés, jogando xadrez e descobrindo restaurantes.

73. Benoît Mandelbrot recordou um jantar em que a aparência de Wiener fez o restaurante esperar dele os hábitos sofisticados de um grande gastrônomo norte-americano, expectativa imediatamente frustrada por sua miopia e seu vegetarianismo.