Causalidade

CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.

1. O sigilo imposto ao trabalho de guerra de Norbert Wiener impedia a divulgação de suas novas concepções sobre comunicação, levando-o a procurar vias alternativas para compartilhá-las com outros pesquisadores.

2. A difusão inicial dessas ideias marcou o começo de uma revolução científica do pós-guerra destinada a transformar profundamente a vida intelectual e as sociedades, embora Wiener ainda estivesse distante dos acontecimentos e impedido de reivindicar publicamente sua autoria.

3. As primeiras manifestações públicas da nova concepção surgiram em 13 de maio de 1942, numa conferência interdisciplinar promovida pela Fundação Josiah Macy Jr. no Hotel Beekman, em Nova York.

4. Entre os cerca de vinte e quatro participantes encontravam-se figuras destacadas da neurofisiologia, psicanálise e antropologia, enquanto Wiener permanecia em Cambridge trabalhando em seu protótipo de diretor de tiro antiaéreo.

5. Rosenblueth desviou imediatamente o encontro de seu curso previsto ao apresentar, sem revelar informações militares confidenciais, os fundamentos da ciência da comunicação que Wiener começava a formular.

6. Rosenblueth apresentou então a ideia radical de que os problemas de comunicação e controle automático revelavam uma classe de processos ordenados que não obedeciam exclusivamente à causalidade linear tradicional.

7. A causalidade circular permitia compreender máquinas e organismos como sistemas capazes de comportamento orientado por finalidade, constituindo uma primeira formulação científica da lógica de feedback subjacente às formas de comportamento inteligente.

8. A introdução científica da finalidade contrariava frontalmente importantes ortodoxias intelectuais do século XX, para as quais nenhum resultado futuro poderia governar causalmente uma ação precedente.

9. As experiências realizadas por Wiener e seus colaboradores indicavam, entretanto, que numerosos organismos e dispositivos mecânicos efetivamente realizavam ações orientadas para objetivos mediante processos circulares.

10. Essas atividades dirigidas a objetivos dependiam de processos circulares de comunicação regulados por feedback negativo, isto é, por informações continuamente devolvidas ao sistema para indicar desvios e orientar correções.

11. A apresentação de Rosenblueth tornou-se o centro da conferência Macy por oferecer novas bases às controvérsias sobre finalidade, feedback e funcionamento cerebral.

12. Warren McCulloch percebeu imediatamente a relevância das novas concepções de comunicação para suas próprias pesquisas sobre a base lógica das funções cerebrais.

13. Gregory Bateson identificou na ciência da comunicação uma fundamentação teórica e metodológica particularmente promissora para a antropologia e para as ciências sociais.

14. Margaret Mead ficou tão profundamente impressionada com a exposição que somente após o término da conferência percebeu ter quebrado um dos dentes.

15. Os primeiros adeptos da causalidade circular convergiram para um projeto científico destinado a recuperar e explicar os atributos fundamentais da humanidade contra as tendências reducionistas dominantes.

16. No início de 1943, Wiener, Rosenblueth e Bigelow tornaram públicas as primeiras formulações da nova ciência no artigo “Comportamento, finalidade e teleologia”, publicado na revista Philosophy of Science.

17. O artigo constituiu o primeiro manifesto da revolução comunicacional ao propor um sistema alternativo para compreender processos de comunicação e controle orientados por finalidade.

18. A teleologia, relegada durante séculos ao domínio teológico, era recuperada por Wiener e seus colaboradores como componente legítimo de uma ciência dos organismos e das máquinas comunicantes.

19. O manifesto confrontava as ortodoxias científicas ao oferecer uma explicação racional do comportamento intencional e inteligente sem recorrer à metafísica ou à intervenção divina, além de propor um programa sistemático de aplicação desses princípios à ciência e à tecnologia.

20. Wiener entusiasmou-se com essas possibilidades, entusiasmo que rapidamente se difundiria entre muitos outros pesquisadores.

21. Em Chicago, Warren McCulloch tornou-se um importante agente da nova orientação científica, trazendo para ela uma trajetória que partira da formação religiosa e passara progressivamente pela filosofia e pela investigação científica.

22. Desde a juventude, McCulloch buscava compreender a relação entre entidades matemáticas e a mente humana capaz de conhecê-las.

23. A partir de sua formação médica em 1927, McCulloch passou a investigar os bilhões de neurônios e suas conexões sinápticas, supondo que a organização cortical pudesse materializar relações formais semelhantes às descritas pela lógica matemática.

24. Na década seguinte, McCulloch produziu um dos primeiros mapas detalhados da anatomia funcional do córtex e encontrou evidências de que redes neurais operavam segundo padrões compatíveis com regras da lógica simbólica.

25. A hipótese de McCulloch representava o cérebro como uma máquina elétrica capaz de executar operações de lógica matemática, mas suas pesquisas revelaram também estruturas aparentemente incompatíveis com essa racionalidade linear.

26. As “redes com círculos” constituíam um paradoxo insolúvel para McCulloch até que as concepções de feedback e causalidade circular apresentadas por Rosenblueth na conferência Macy sugeriram uma possível chave explicativa.

27. Instalado em Chicago desde 1941 como diretor do novo laboratório de pesquisa do Instituto Neuropsiquiátrico da Universidade de Illinois, McCulloch reunira uma equipe de quase trinta pesquisadores de destaque, mas nenhum conseguira solucionar o problema das redes neurais circulares.

28. A solução começou a surgir quando McCulloch encontrou um jovem matemático excepcionalmente talentoso.

29. Walter Pitts era um prodígio matemático extremamente tímido e socialmente desajeitado, nascido numa família operária de Detroit em 1923 e marcado por uma juventude ainda mais difícil que a de Wiener, tendo fugido de casa aos treze anos e chegado posteriormente a Chicago.

30. A trajetória de Pitts tornou-se conhecida sobretudo pelo relato de Jerome Lettvin, que desempenhou papel decisivo em aproximá-lo de McCulloch.

31. Pitts não tinha condições de aceitar o convite de Russell, mas, dois anos depois, encontrou-o numa palestra sobre lógica matemática na Universidade de Chicago e foi encaminhado para estudar com Rudolf Carnap.

32. A formação universitária irregular de Pitts combinava extrema pobreza, autodidatismo e reconhecimento precoce de sua capacidade excepcional.

33. Embora fisicamente discreto, Pitts já havia assimilado até 1941 vastas parcelas das bibliotecas e do currículo universitário, combinando extraordinária capacidade intelectual com um humor travesso que às vezes transformava deliberadamente seu talento em espetáculo.

34. Jerome Lettvin apresentou Pitts a McCulloch justamente quando este buscava construir um modelo lógico do cérebro, dando início a uma colaboração intelectual e pessoal extraordinariamente intensa.

35. O artigo conjunto “Um cálculo lógico das ideias imanentes na atividade nervosa”, publicado em 1943, sustentou que atividades consideradas mentais podiam ser rigorosamente deduzidas da neurofisiologia conhecida.

36. McCulloch e Pitts solucionaram também o paradoxo das redes neurais circulares mediante a aplicação da causalidade circular.

37. O modelo neuronal estabelecia ainda uma conexão fundamental com a concepção de computador universal de Alan Turing.

38. Apesar de sua importância conceitual, o trabalho de McCulloch e Pitts foi praticamente ignorado pelos principais neurocientistas, psicólogos e filósofos contemporâneos.

39. Posteriormente, o artigo seria considerado uma contribuição decisiva à evolução da computação digital, um trabalho fundador da inteligência artificial e um estímulo fundamental à construção do primeiro “cérebro eletrônico”, projeto no qual Wiener também exerceria influência decisiva.

40. Em 1943, McCulloch já conhecia Wiener e suas pesquisas, pois os dois haviam se encontrado anteriormente num jantar organizado por Rosenblueth e discutido imediatamente questões relacionadas às redes neurais.

41. McCulloch considerava Wiener uma figura quase mítica e ficou impressionado com sua precisão intelectual, seu domínio da neurofisiologia e sua capacidade de relacionar computação e funcionamento cerebral.

42. A colaboração entre Cambridge e Chicago consolidou-se rapidamente depois da publicação dos respectivos artigos de 1943, sendo Walter Pitts o elemento decisivo de aproximação.

43. Lettvin telefonou naquela mesma noite para Chicago e, com a ajuda de McCulloch, providenciou uma passagem de trem para que Pitts viajasse a Boston e encontrasse Wiener pessoalmente.

44. O primeiro encontro intelectual entre Wiener e Pitts demonstrou imediatamente a excepcional capacidade analítica do jovem.

45. Wiener percebeu em Pitts um colaborador cuja capacidade analítica podia aproximar-se da sua própria e decidiu ajudá-lo a transformar-se num matemático de primeira grandeza.

46. No outono de 1943, Pitts estabeleceu-se em Cambridge e matriculou-se no MIT como estudante especial sob orientação de Wiener.

47. Wiener, Pitts e McCulloch começaram a circular regularmente entre Cambridge e Chicago, e a posterior transferência de Rosenblueth para a Cidade do México ampliou a colaboração para uma rede científica internacional.

48. Outros jovens pesquisadores incorporaram-se ao grupo, ampliando ainda mais sua diversidade disciplinar.

49. A rede de pesquisa caracterizava-se por diversidade de talentos, intensa mobilidade e forte convivência pessoal, mas Pitts despertava admiração especial em Wiener.

50. Wiener incorporou Pitts, Lettvin e Selfridge à própria vida familiar, estabelecendo com os jovens uma relação simultaneamente científica e afetiva.

51. Durante a guerra, Pitts mudou-se para Nova York para realizar trabalho matemático numa empresa petroquímica envolvida no processamento de material radioativo destinado à bomba atômica, enquanto Lettvin treinava no Hospital Bellevue para eventual serviço militar no exterior.

52. Wiener compartilhava também atividades recreativas com os jovens colaboradores e com a própria família, demonstrando em ocasiões inesperadas habilidades físicas incompatíveis com sua fama de desajeitado.

53. As expectativas de Wiener em relação à expansão de seu círculo interdisciplinar cresceram ainda mais quando outro dos maiores matemáticos de sua geração se aproximou do empreendimento.

54. John von Neumann acompanhava em Princeton com especial interesse as ideias de Wiener sobre comunicação, controle e computação.

55. Von Neumann destacava-se no Instituto de Estudos Avançados de Princeton tanto pela capacidade intelectual quanto pela sociabilidade e elegância, contrariando os estereótipos do prodígio fracassado e do professor distraído.

56. Apesar das profundas diferenças pessoais, Wiener e von Neumann possuíam afinidades matemáticas que os levaram a uma troca intelectual cada vez mais intensa.

57. O avanço progressivo da computação mecanizada despertava interesse crescente entre matemáticos, especialmente em torno da concepção de máquina universal desenvolvida por Alan Turing.

58. À medida que a guerra se aproximava dos Estados Unidos, projetos concretos começaram a transformar a máquina universal abstrata em diferentes formas de computador.

59. Wiener acompanhava atentamente esses desenvolvimentos enquanto ele próprio permanecia envolvido na pesquisa de guerra e von Neumann penetrava cada vez mais profundamente no sistema científico-militar.

60. A crescente necessidade militar de cálculos tornou insuficientes as máquinas existentes e aproximou von Neumann do projeto do computador eletrônico ENIAC.

61. Poucos meses depois surgiu uma orientação distinta para a computação eletrônica, ligada a uma reunião em Princeton destinada a aproximar computadores e funcionamento cerebral, iniciativa originalmente impulsionada por Wiener e orientada por seus princípios científicos.

62. Em dezembro de 1944, Wiener reuniu matemáticos, engenheiros de computação e importantes neurofisiologistas para preparar uma conferência interdisciplinar em Princeton.

63. As circunstâncias da guerra impediam que o encontro fosse plenamente aberto, de modo que se pretendia reunir um grupo pequeno para discutir problemas compartilhados e preparar o desenvolvimento futuro de um campo científico que ainda nem sequer possuía nome.

64. Os organizadores convidaram apenas sete participantes e propuseram que a futura organização se chamasse “Sociedade Teleológica”, adotando a finalidade como princípio unificador de sua agenda.

65. Wiener, Aiken e aparentemente von Neumann concordavam inicialmente que a nova organização não deveria depender financeiramente das grandes corporações de comunicação, eletrônica ou máquinas comerciais.

66. Howard Aiken compartilhava a desconfiança de Wiener em razão das próprias dificuldades com a IBM, e Wiener acreditava que von Neumann possuía posição semelhante.

67. Wiener reafirmava simultaneamente o objetivo de criar depois da guerra um centro de pesquisa no MIT para desenvolver a nova ciência.

68. A pequena Sociedade Teleológica reuniu-se no Instituto de Estudos Avançados de Princeton em 6 e 7 de janeiro de 1945, com a presença da maior parte das figuras que liderariam posteriormente a revolução da comunicação, excetuando-se Rosenblueth e Aiken.

69. O encontro caracterizou-se por intenso entusiasmo interdisciplinar e por debates que aproximaram computação, comunicação e neurofisiologia.

70. Von Neumann contestou a adequação universal do ruído branco ao problema da caixa-preta, dando origem a uma vigorosa disputa intelectual com Wiener.

71. Wiener ficou profundamente satisfeito com a dinâmica alcançada no encontro e posteriormente a recordaria como confirmação de sua expectativa interdisciplinar.

72. Em pouco tempo, pesquisadores oriundos de campos distintos começaram a utilizar uma linguagem conceitual comum.

73. Wiener classificou a reunião de Princeton como um grande sucesso e passou a considerar viável um programa contínuo de pesquisa acompanhado da criação de um instituto para a nova ciência.

74. Durante o inverno e a primavera de 1945, Wiener e von Neumann mantiveram contato intenso, mas começaram a aparecer diferenças sutis em seus projetos.

75. Wiener tentou então convencer von Neumann a abandonar Princeton e transferir-se para o MIT.

76. Wiener considerava a capacidade organizacional de von Neumann um complemento essencial às próprias limitações empresariais e administrativas.

77. Von Neumann, entretanto, desenvolvia paralelamente projetos próprios que não coincidiam com as expectativas de Wiener.

78. Em junho de 1945, o ENIAC aproximava-se de sua conclusão, embora a guerra europeia já tivesse terminado e os acontecimentos ligados à bomba atômica avançassem rapidamente.

79. Em 30 de junho de 1945, von Neumann apresentou o projeto do EDVAC, estabelecendo princípios arquitetônicos destinados a dominar a computação digital durante décadas.

80. O EDVAC foi concebido como máquina menor, mais flexível e verdadeiramente universal no sentido formulado por Turing.

81. O único trabalho publicado citado no relatório de von Neumann era o artigo de McCulloch e Pitts de 1943, cuja concepção das redes neurais fornecia um modelo decisivo para a arquitetura computacional.

82. A linguagem utilizada por von Neumann introduziu uma nova maneira de conceber máquinas, pois descrevia o computador digital como construção deliberadamente análoga à organização física e lógica do cérebro humano.

83. O projeto do EDVAC reunia numa única máquina quase todos os elementos que Wiener havia proposto a Vannevar Bush cinco anos antes.

84. Embora Vannevar Bush jamais tivesse desenvolvido ou distribuído a proposta de Wiener, é provável que muitas de suas ideias tenham alcançado von Neumann por meio das reuniões e conversas entre ambos.

85. Durante o verão de 1945, Wiener continuou tentando atrair von Neumann para o MIT e acreditou repetidamente que sua aceitação era iminente.

86. Em novembro de 1945, von Neumann recusou formalmente a oferta do MIT e informou que o Instituto de Estudos Avançados lhe permitiria construir em Princeton seu próprio computador em colaboração com a RCA.

87. O projeto do computador de Princeton possuía objetivos militares secretos que von Neumann não revelou a Wiener.

88. Na visita seguinte de Wiener a Princeton, von Neumann recrutou Julian Bigelow para dirigir a implementação técnica do novo computador.

89. A busca agressiva de von Neumann por financiamento militar e governamental e sua associação com a RCA anteciparam uma concepção do desenvolvimento computacional cada vez mais distante da posição de interesse público defendida por Wiener.

90. Nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, diferentes linhas de pesquisa começaram silenciosamente a convergir numa nova configuração da ciência e da tecnologia do pós-guerra.

91. A revolução científica de Wiener tinha como finalidade fundamental uma investigação filosófica e científica sobre inteligência, mente e organização, e não simplesmente a construção de máquinas.

92. Antes mesmo do término da guerra, os fundamentos dessa nova visão científica já emergiam através das fissuras da antiga ordem, enquanto a colaboração interdisciplinar buscada por Wiener desde a juventude permitia que sua ciência ainda sem nome começasse a adquirir existência e dinâmica próprias.