Ruptura

CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.

** Ruptura e traição **

1. A acusação de fraqueza de propósito e a decisão de fabricar indícios capazes de transferir a culpa a terceiros introduzem, pela passagem de Macbeth, o motivo da manipulação deliberada das aparências que atravessa os acontecimentos subsequentes. — William Shakespeare, Macbeth

2. Do final da década de 1940 ao início da década de 1950, a cibernética expandiu-se continuamente pela indústria, pela tecnologia e pela imaginação pública, enquanto as obras de Wiener alcançavam crescente circulação internacional e multiplicavam-se os convites para conferências e períodos de docência no exterior.

3. Na primavera de 1951, depois de concluir suas aulas sobre cibernética em Paris, Wiener seguiu com Margaret para Madri, onde fora convidado a falar para matemáticos e engenheiros espanhóis.

4. Depois da permanência restritiva na Espanha, Wiener retornou à França e concentrou-se na redação do primeiro volume de sua autobiografia, dedicado à infância como prodígio e aos primeiros anos da vida adulta.

5. Wiener ditou grande parte das memórias a Margaret durante viagens pela França, mas a reconstituição da infância submetida à pressão paterna provocou intenso sofrimento emocional.

6. A descrição posterior desse episódio como simples dor de cabeça provavelmente atenuava a gravidade de uma crise depressiva mais profunda.

7. Pouco depois de regressar a Boston, Wiener partiu novamente para a Cidade do México, onde recebeu um título honorífico durante as celebrações dos quatrocentos anos da Universidade do México.

8. A rápida expansão da cibernética tornara impossível que Wiener sozinho respondesse à crescente demanda por formação, interpretação e divulgação do novo campo, enquanto Warren McCulloch se consolidava como um de seus principais propagadores.

9. Antes de partir para o período sabático na Europa e no México, Wiener apoiou a iniciativa de Jerome Wiesner de convidar McCulloch para dirigir no MIT um importante programa de pesquisa sobre cérebro e cibernética.

10. O antigo laboratório militar de radar transformava-se rapidamente num centro amplo de pesquisa sobre comunicação sob a direção de Jerome Wiesner.

11. A criação de um laboratório de primeira linha para pesquisa cerebral constituía prioridade central para Wiesner, e McCulloch parecia a escolha natural para dirigi-lo.

12. Walter Pitts já permanecia no MIT, mas continuava sem concluir a tese de doutorado, e Wiener esperava que a presença de McCulloch e a energia de um novo laboratório de neurofisiologia oferecessem a disciplina necessária para finalizar sua teoria das redes neurais aleatórias.

13. O laboratório pretendia concretizar uma ciência ainda em formação na qual a obra de Wiener ocuparia posição conceitual decisiva.

14. Wiener compartilhava com McCulloch e seus colaboradores um objetivo filosófico mais amplo: compreender as operações cognitivas superiores do cérebro em termos de informação e comunicação.

15. Nenhum campo de investigação era considerado demasiado distante no ambiente radicalmente interdisciplinar do RLE, onde Wiener funcionava como principal referência intelectual.

16. A concentração de Wiener, McCulloch, Pitts, Lettvin, Wall, Selfridge e eventualmente Rosenblueth no mesmo ambiente parecia finalmente realizar o antigo projeto de criar no MIT um centro interdisciplinar dedicado às dimensões técnicas e biológicas da cibernética.

17. Antes que essa colaboração pudesse amadurecer, porém, Wiener rompeu abruptamente no final de 1951 com McCulloch e com praticamente todos os integrantes mais próximos do grupo.

18. As causas da ruptura Wiener-McCulloch permaneceram durante anos obscuras inclusive para as pessoas diretamente atingidas por ela.

19. Os principais relatos históricos inicialmente reduziram ou obscureceram a natureza do conflito.

20. A reconstrução posterior revelaria uma situação muito mais grave e complexa que as conjecturas inicialmente formuladas.

21. No outono de 1951, Wiener encontrava-se emocionalmente fragilizado enquanto tentava concluir sua autobiografia no México.

22. Wiener concluiu naquele outono o manuscrito autobiográfico intitulado modestamente “O galho torto”, mas enfrentou uma sucessão de rejeições editoriais que agravou seu estado emocional.

23. Nesse estado emocional, Wiener recebeu uma carta entusiasmada de Pitts e Lettvin descrevendo as extraordinárias possibilidades do novo laboratório do RLE.

24. Pitts e Lettvin saudaram Wiener e Rosenblueth em linguagem cerimoniosa e jocosa, apresentando o novo laboratório como território quase encantado no qual todos os recursos experimentais desejáveis apareciam prontamente.

25. A carta prosseguia descrevendo detalhadamente os experimentos neurofisiológicos planejados e convidava Rosenblueth a unir-se ao grupo em Cambridge.

26. A carta encerrava-se mantendo a linguagem paródica de submissão medieval e assinando Pitts e Lettvin como humildes e obedientes servidores dos dois cientistas mais velhos.

27. Wiener recebeu a brincadeira no pior momento emocional possível e interpretou-a como afronta, reagindo imediatamente com ruptura total.

28. A intensidade da reação coincidiu diretamente com uma nova e particularmente dolorosa rejeição editorial recebida por Wiener no dia anterior.

29. Wiener não dirigiu sua frustração contra Fassett, mas imediatamente contra Pitts, Lettvin, McCulloch e Wiesner.

30. Na carta a Killian, Wiener alegou inesperadamente estar havia muito tempo preocupado com a situação da cibernética no MIT e apresentou o problema como questão grave e perigosa.

31. Wiener lançou então acusações severas contra McCulloch, Wiesner, Pitts e Lettvin.

32. A carta de Pitts e Lettvin foi utilizada por Wiener como prova da suposta arrogância e apropriação indevida de sua área científica.

33. A carta encerrava-se formalmente com a assinatura de Norbert Wiener, apesar do caráter intensamente acusatório e emocional de seu conteúdo.

34. Killian conhecia o padrão de explosões e ameaças de renúncia de Wiener, mas ficou surpreendido com a amplitude do ataque contra Jerome Wiesner e o novo grupo do RLE.

35. Killian esclareceu ainda as condições de financiamento e procurou assegurar a Wiener que os pesquisadores do RLE permaneciam profundamente comprometidos com sua liderança intelectual.

36. A resposta oferecia precisamente a reafirmação de reconhecimento que Wiener frequentemente necessitava em períodos de insegurança.

37. Killian concluiu afirmando que Wiener não possuía razões concretas para preocupação e que continuava contando com apoio integral dos amigos e colegas do MIT, tanto para suas pesquisas quanto para o reconhecimento de sua contribuição.

38. A correspondência terminou em tom cordial, refletindo a expectativa de Killian de que a crise pudesse ser resolvida pela reafirmação institucional da posição de Wiener.

39. Killian não pretendia minimizar os sentimentos de Wiener e acreditava sinceramente na centralidade de sua obra, mas pressupôs equivocadamente que a explosão desapareceria como tantas anteriores.

40. Lettvin rejeitou posteriormente as justificativas apresentadas por Wiener, pois ele e Pitts haviam escrito a carta movidos apenas por entusiasmo científico e camaradagem.

41. As alegações de que McCulloch e seus colaboradores estavam enriquecendo com recursos públicos não correspondiam às condições concretas em que viviam e trabalhavam.

42. A denúncia do financiamento público era especialmente contraditória porque Wiener conhecia perfeitamente a estrutura financeira do RLE e continuou ele próprio trabalhando ali em projetos com Wiesner, Yuk Wing Lee e outros pesquisadores durante anos depois da ruptura.

43. Para Lettvin, a apresentação posterior de Wiener como alguém principialmente preocupado com o financiamento do laboratório era incompatível com seu comportamento efetivo antes e depois do conflito.

44. Nenhum dos integrantes do MIT compreendeu naquele momento a verdadeira causa da reação de Wiener, que não estava fundamentalmente relacionada ao financiamento, à carta de Pitts e Lettvin, às demais acusações profissionais ou mesmo à rejeição da autobiografia.

45. Mesmo meio século depois, Lettvin continuava emocionalmente afetado pela ruptura e durante décadas recusara-se a divulgar publicamente todos os detalhes que posteriormente chegariam apenas ao seu conhecimento.

46. A convicção de Lettvin de que Margaret Wiener provocara deliberadamente a separação consolidou-se posteriormente.

47. As razões exatas da antipatia de Margaret por McCulloch permaneciam difíceis de determinar, embora seu estilo pessoal e cultural contradissesse profundamente as normas que ela valorizava.

48. Diversos elementos do modo de vida de McCulloch explicavam por que Margaret poderia considerá-lo moral e socialmente inaceitável.

49. Peggy considerava igualmente provável que a mãe reagisse com extrema condenação ao modo de vida livre e sexualmente liberal da família McCulloch.

50. Além da condenação moral, Margaret podia acreditar que protegia Wiener de um ambiente potencialmente perigoso para sua estabilidade emocional.

51. A transferência de McCulloch para o MIT provavelmente foi percebida por Margaret como invasão do território científico de Wiener e ameaça à sua primazia institucional.

52. Wiener soube posteriormente da intervenção da esposa e, meses depois, passou a apresentá-la como expressão de preocupações que ele próprio supostamente já compartilhava.

53. Peggy interpretava as intervenções profissionais de Margaret como expressão de uma motivação social mais profunda.

54. Para conservar sua posição dominante na vida pessoal e profissional de Wiener, Margaret precisava impedir que novas relações científicas reduzissem sua influência como companheira e principal conselheira.

55. À medida que se aproximava a data de retorno de Wiener, Margaret realizou uma última tentativa de destruir definitivamente a colaboração com McCulloch antes mesmo que o novo empreendimento pudesse começar.

56. Lettvin somente conheceu a causa profunda da ruptura cerca de dez anos depois, quando visitou Arturo Rosenblueth na Cidade do México.

57. Rosenblueth reconstruiu a noite em que Wiener, emocionalmente devastado pela autobiografia e pelas rejeições editoriais, recebeu de Margaret uma acusação muito mais perturbadora.

58. A acusação abalou Wiener profundamente e forneceu a causa imediata da ruptura.

59. A acusação decisiva, entretanto, não correspondia aos fatos e constituía uma fabricação de Margaret.

60. Wiener aceitou a versão da esposa sem realizar qualquer verificação independente.

61. A acusação pessoal também garantiu que a verdadeira causa da ruptura permanecesse oculta.

62. Lettvin interpretava as acusações morais como cobertura de um temor ainda mais profundo: a crença de que McCulloch pretendia apropriar-se da cibernética e substituir Wiener como sua figura central.

63. Pauline Cooke interpretou igualmente o medo de perda de primazia como motivo central da intervenção de Margaret e comparou o drama à tragédia de Macbeth.

64. As filhas de Wiener não ficaram inteiramente surpreendidas quando conheceram a verdadeira história.

65. Embora exteriormente procurasse manter-se firme, Wiener sofreu profundamente com a ruptura durante meses, chegando a apresentar sintomas cardíacos.

66. Mesmo depois de alguma melhora na primavera de 1952, Wiener continuou durante muitos meses emocionalmente perturbado e desconfiado.

67. McCulloch e os jovens demoraram a compreender que a ruptura era definitiva porque inicialmente esperavam que se repetisse o padrão da crise de 1947.

68. McCulloch ficou profundamente abalado quando percebeu que perdera definitivamente a amizade e a parceria com Wiener.

69. Walter Pitts sofreu a consequência pessoal mais devastadora da ruptura.

70. McCulloch procurou interpretar simbolicamente a ruptura comparando-se a um cavaleiro realista e Wiener a um puritano parlamentarista da Guerra Civil Inglesa, reconhecendo assim uma incompatibilidade profunda de temperamentos e estilos de vida.

71. A separação ultrapassou amplamente a dimensão de um conflito familiar ou pessoal, tornando-se um acontecimento permanente e profundo com consequências para a própria história da cibernética.

72. O novo laboratório de neurofisiologia do RLE continuou produzindo pesquisas importantes, mas sem a participação de Wiener e, muitas vezes, sem direção direta de McCulloch.

73. Quase simultaneamente à ruptura pessoal ocorreu uma divisão conceitual no próprio domínio das ciências da comunicação, separando progressivamente os paradigmas analógico e digital.

74. A separação entre os paradigmas transformou profundamente a prática dos engenheiros e começou também a pressionar cientistas de outras áreas a escolher entre abordagens concorrentes.

75. Para Lettvin, essa separação representava uma clivagem histórica que distribuiu diferentes pensadores conforme suas inclinações intelectuais.

76. Durante a formação de Pitts e Lettvin, os paradigmas analógico e digital ainda coexistiam e eram tratados como manifestações diferentes de princípios fundamentais comuns.

77. Chegou-se inclusive a investigar máquinas capazes de combinar processamento analógico e digital.

78. O ponto culminante da abordagem integrada e, paradoxalmente, um momento decisivo da posterior separação ocorreu no Simpósio Hixon, realizado no Instituto de Tecnologia da Califórnia em 1948.

79. Von Neumann aproximava-se assim da posição anteriormente formulada por Wiener ao reconhecer a importância dos mecanismos neuroquímicos e hormonais de caráter analógico.

80. A crítica de von Neumann abriu um problema teórico importante justamente quando a indústria começava a produzir os primeiros computadores comerciais apresentados como “cérebros eletrônicos”.

81. Para a neurociência, a coexistência dos dois modos de funcionamento apresentava uma dificuldade especialmente profunda.

82. McCulloch tentou durante anos revisar seu modelo das redes neurais, mas aproximou-se progressivamente de uma posição favorável ao paradigma lógico.

83. Wiener já havia identificado em Cibernética um sistema cerebral de comunicação diferente dos mecanismos binários de tudo ou nada.

84. A tese de Pitts sobre redes aleatórias avançava paralelamente para uma concepção profundamente analógica e tridimensional do processamento cerebral.

85. Não é possível determinar com segurança quanto a ruptura custou pessoal ou cientificamente aos envolvidos, nem reconstruir o desenvolvimento que teria ocorrido caso a colaboração tivesse continuado, embora existam indícios concretos das possibilidades perdidas.

86. A continuidade do grupo poderia ter produzido muito antes uma revisão do modelo cerebral baseado exclusivamente em redes neurais de tudo ou nada.

87. Lettvin evitava conjecturas contrafactuais, enquanto Selfridge considerava possível que a continuidade das conversas entre Wiener e McCulloch tivesse preservado maior atenção à teleologia e à ciência dos processos orientados por finalidade.

88. Para Selfridge, a consequência mais grave atingiu a própria cibernética, pois o grupo que continuava a levar suas ideias a sério ficou separado justamente de Wiener, criador do conceito e principal formulador da perspectiva.

89. Décadas depois, Lettvin recordava aquele período simultaneamente como época extraordinária de criatividade e como promessa interrompida.

90. McCulloch, Pitts, Lettvin e os demais haviam contribuído diretamente para o desenvolvimento da cibernética e para a evolução do próprio pensamento de Wiener, mas essa relação humana e científica foi destruída pela reação precipitada de Wiener e pela intervenção oculta de Margaret.

91. A intervenção de Margaret, e não qualquer iniciativa de McCulloch ou dos jovens pesquisadores, interrompeu a continuidade da cibernética justamente em seu principal centro institucional, embora essa causa permanecesse desconhecida fora do pequeno círculo diretamente envolvido.

92. Depois da ruptura, Wiener reformularia progressivamente sua própria missão como cientista e direcionaria sua atividade para novos problemas e novas formas de intervenção intelectual.