CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.
1. A caracterização de Norbert Wiener como pai da era da informação é estabelecida, atribuindo-se à sua obra a transformação das economias e culturas mundiais.
2. A genialidade precoce, o pensamento visionário e as excentricidades célebres de Wiener são descritos, situando-o como autor de best-sellers durante o primeiro auge da alta tecnologia americana.
3. A presença difusa de sua influência no cotidiano contemporâneo contrasta com o silenciamento de suas ideias na memória coletiva.
4. A trajetória de Wiener é apresentada como a de um herói sombrio esquecido pela era da informação, cuja luta em defesa dos seres humanos assume contornos lendários.
5. A infância precoce de Wiener, descendente de rabinos e estudiosos do Leste Europeu, é traçada desde o ingresso na faculdade aos onze anos até sua entrada no corpo docente do MIT em 1919, passando pelo doutorado em Harvard aos dezoito anos.
6. A trajetória científica inicial de Wiener percorre a resolução de problemas práticos em eletrônica, o trabalho no projeto do primeiro computador moderno nos anos 1920 e a criação das primeiras máquinas automáticas inteligentes durante a Segunda Guerra, culminando na nova ciência interdisciplinar batizada de cibernética.
7. A publicação de “Cybernetics” em 1948 desencadeia uma revolução científica e tecnológica que transforma, em menos de uma década, o trabalho cotidiano em todas as indústrias.
8. As contribuições conceituais de Wiener incluem a popularização do termo feedback, a primeira compreensão da essência da informação, a colaboração com biólogos e neurofisiologistas na decifração dos códigos do sistema nervoso e a liderança na criação do primeiro braço biônico controlado pelo pensamento.
9. Ao lado da percepção das promessas técnicas do novo mundo, Wiener enxerga isoladamente entre seus pares o lado sombrio da era cibernética, prevendo convulsões sociais, políticas e econômicas e o risco de submissão humana à eficiência das máquinas inteligentes.
10. O temor pelo futuro da humanidade acompanha essa percepção antecipada dos riscos.
11. Os últimos anos de Wiener são dedicados a advertir governos, corporações, sindicatos e o público sobre as transformações no trabalho e na vida cotidiana, alertando pioneiramente sobre máquinas capazes de aprender e agir de modo imprevisível, o que lhe rendeu o National Book Award e a National Medal of Science.
12. O declínio da cibernética como ciência visionária ocorre paralelamente ao reconhecimento de suas ideias, sendo Wiener marginalizado por seus pares e pelo público consumidor, até sua morte súbita em 1964, quando muitas de suas previsões começavam a se confirmar.
13. O esquecimento das contribuições revolucionárias de Wiener remonta a razões até então obscuras, situando-se este relato num período da história da era da informação intimamente ligado às realidades tecnológicas e sociais do século vinte e um.
14. A ciência de Wiener oferece instrumentos para compreender complexidades modernas que vão do genoma humano à dinâmica da economia global e das redes da internet, consolidando-o como herói técnico e moral para poucos fiéis após sua morte.
15. As biografias acadêmicas de 1980 e 1990, memórias profissionais esparsas e a autobiografia em dois volumes de Wiener revelam aspectos de sua infância e vida adulta, deixando, contudo, lacunas e tons perturbadores não resolvidos pela versão oficial do MIT.
16. Entre os mistérios não resolvidos figuram os efeitos da infância de alta pressão sobre a vida adulta de Wiener, as relações turbulentas com colegas, seu ativismo político em defesa dos trabalhadores e suas incursões espirituais tardias.
17. Questões relativas ao destino da cibernética permanecem em aberto, indagando-se seu legado duradouro e as razões de seu quase desaparecimento do cenário americano uma década após a morte de Wiener.
18. Conversas com colegas e familiares sobreviventes, somadas ao levantamento de arquivos da era da informação, permitem agora responder a muitas dessas questões.
19. A saga de Wiener é repleta de testemunhos de sua genialidade e excentricidades, incluindo suas caminhadas errantes pelo campus do MIT e seus célebres roncos durante palestras alheias.
20. Por trás das lendas cômicas encontra-se a realidade mais sombria de um homem que travava constante batalha com demônios íntimos, resultado de feridas psíquicas da juventude e de décadas de transtorno maníaco-depressivo.
21. Os períodos de euforia impulsiva e petulância alternavam-se com depressões paralisantes que o levavam a ameaças frequentes de suicídio, enquanto sua esposa Margaret adotava estratégias para neutralizar ameaças percebidas à proeminência do marido, uma delas com consequências catastróficas.
22. A parceria produtiva de uma década com Warren McCulloch e Walter Pitts termina abruptamente, configurando uma crise pessoal e profissional que fragiliza a revolução cibernética em momento decisivo.
23. O ativismo de Wiener contra a pesquisa militar durante a Guerra Fria atrai investigação do FBI, enquanto o interesse soviético pela cibernética leva a CIA a avaliar a ameaça, resultando em hostilidade governamental e escassez de financiamento que travam definitivamente o avanço da cibernética nos Estados Unidos.
24. O tempo confirma o caráter revolucionário da obra de Wiener, que identifica novas entidades fundamentais do universo - mensagens, informação e processos de comunicação e controle - constituindo a primeira revolução científica interdisciplinar e a primeira de origem predominantemente americana.
25. A cibernética gera ou influencia diversos campos técnicos e científicos, da inteligência artificial à teoria econômica moderna, ainda que muitas contribuições de Wiener tenham sido negadas ou atribuídas a outros, permanecendo ele o primeiro a alertar sobre a necessidade de definir propósitos e valores humanos frente às máquinas.
26. As previsões mais sombrias de Wiener não se concretizaram integralmente, mas seu legado se manifesta nas bolhas especulativas de novas tecnologias que ele próprio observara e advertira, bem como no deslocamento global de empregos industriais e tecnológicos.
27. Outra dimensão do legado de Wiener, ligada a suas paixões analógicas por máquinas que imitam músculos e mentes humanas, ressurge hoje nos avanços da biotecnologia, robótica e nanotecnologia, retomando seu alerta sobre a tecnologia cibernética como espada de dois gumes.
28. Wiener permanece um enigma mesmo para os mais próximos, sobretudo em suas incursões espirituais, incluindo encontros semanais com um swami hindu e seu papel, a pedido do governo indiano, no planejamento tecnológico de longo prazo daquele país nos anos 1950.
29. A personalidade multifacetada de Wiener evoca as parábolas do Elefantinho de Kipling e do elefante dos cegos hindus, sendo descrito por diferentes testemunhas como brilhante e deficiente, robusto e enfermo, magnânimo e inseguro, num paradoxo extremo mesmo entre gênios célebres.
30. Como os heróis sombrios e antiheróis da cultura contemporânea, Wiener desafia convenções e códigos superficiais da sociedade em busca de propósito mais profundo e verdade superior.
31. Assim como a matéria escura, cuja presença só se infere por seus efeitos sobre o universo, a ciência e as ideias de Wiener continuam a influenciar todas as dimensões do mundo contemporâneo.