Arquivos

CASSOU-NOGUÈS, Pierre. Les rêves cybernétiques de Norbert Wiener. Paris:Seuil, 2014

Os arquivos

O caso Gödel

1. O interesse pelas histórias que os cientistas contam ou se contam remonta ao trabalho anterior sobre Kurt Gödel, origem da investigação sobre o cientista desaparecido.

2. Em “Les Démons de Gödel”, busca-se evidenciar o vínculo entre a lógica de Gödel e sua filosofia bizarra ou “loucura”, a partir do teorema da incompletude publicado em 1931, que implica a existência de problemas aritméticos absolutamente indecidíveis caso a mente funcione como uma máquina.

3. As mesmas aberrações interpretativas repercutem na vida de Gödel, que elabora um sistema filosófico povoado por demônios e espíritos atemporais, temendo-os também na vida cotidiana, o que lhe rende fama de louco nos círculos lógicos de Princeton.

4. A tese central sustenta que a “loucura” de Gödel se manifesta tanto na lógica quanto na vida, unidos pelos mesmos elementos determinantes, revelando que sua prática lógica se enraíza num fundo imaginário.

5. A objeção levantada é que tal relação entre lógica e seu exterior permaneceria subjetiva ou restrita ao caso Gödel, sem afetar o estatuto universal e independente dos teoremas obtidos por razões contingentes ligadas à sua psicologia.

6. A questão que permanece é se o interesse contemporâneo pela incompletude estaria de fato livre de todo imaginário, ou se a própria lógica comum também se enraíza num fundo imaginário que passa despercebido justamente por estarmos nele mergulhados.

7. A tarefa proposta desloca-se para evidenciar não mais imagens “loucas”, mas imagens ordinárias e comuns nos trabalhos científicos, que passam despercebidas justamente pela fascinação que exercem, salvo quando desenvolvidas por si mesmas na literatura, no cinema ou na ficção científica.

Derrapar

8. A busca dirige-se a um cientista cuja obra evidencie de modo convincente a relação entre conceitos científicos e imagens “canônicas”, tão difundidas que dificilmente são questionadas, centrando-se na ideia de máquina e no acoplamento homem-máquina presente na lógica contemporânea desde Turing, e essencial tanto à ficção científica quanto à cultura ocidental desde Descartes.

9. É nos papéis, rascunhos, cadernos e cartas que o lógico deixa transparecer as imagens que animam seu trabalho, apagadas tanto quanto possível nas publicações científicas, tendo sido consultados, além dos arquivos de Gödel em Princeton, os de Emil Post em Filadélfia, e localizados os de von Neumann na Biblioteca do Congresso, os de Ulam e McCulloch na American Philosophical Society, e os de Wiener no MIT.

10. Von Neumann, McCulloch e Wiener figuram como os participantes mais importantes das conferências Macy, de onde nasceu a cibernética a partir de 1946, sustentando juntos o grupo cibernético até as rupturas ocorridas por volta de 1954, quando von Neumann rompe com Wiener e este com McCulloch, afastando-se definitivamente do grupo ao qual dera nome.

John von Neumann

11. O nascimento de von Neumann em Budapeste em 1903, filho de um rico banqueiro enobrecido, é acompanhado por relatos de sua precocidade prodigiosa, culminando na descoberta, aos dezenove anos, de uma definição mais simples dos números ordinais que a de Cantor.

12. A trajetória acadêmica de von Neumann em Göttingen e Berlim nos anos vinte, seu rigor formal dado à mecânica quântica, seu ingresso no Institute for Advanced Studies de Princeton ao lado de Einstein, e a fundação da teoria dos jogos com Morgenstern precedem seu envolvimento na Segunda Guerra Mundial, incluindo o Projeto Manhattan, onde figura entre suas anotações uma lista de cidades japonesas-alvo com Hiroshima em segundo lugar.

13. O esboço biográfico fornecido busca apenas identificar o personagem como se reconhecesse um rosto numa fotografia às margens das conferências Macy, onde von Neumann reaparece esporadicamente ao lado de Wiener.

14. Heims, em obra pioneira de 1980, aproxima e opõe von Neumann e Wiener como dois prodígios de famílias judias assimiladas alcançadas pelo antissemitismo, que colaboram durante a guerra mas assumem posições antitéticas diante da bomba atômica, mantendo ainda assim correspondência e colaboração nas conferências Macy até a ruptura final.

Um bloqueio psicológico

15. Os arquivos de von Neumann revelam o mistério de praticamente nada ter sido preservado de próprio punho, restando apenas cópias de correspondência formal e discursos oficiais ditados a secretários, sem rascunhos, diários ou pensamentos pessoais.

16. Pouco antes de morrer, von Neumann concede entrevista ao jornalista McDonald, conservando as notas recebidas, sem que se saiba se destruiu deliberadamente seus papéis ou nunca escreveu para si mesmo.

17. As próprias palavras de von Neumann a McDonald revelam uma tensão ou bloqueio psicológico que o impedia de falar sobre aquilo de que tratam os livros, superando seus medos através da mecânica do trabalho.

Une parfaite mécanique

18. A imagem de mecânica perfeita retorna constantemente nas descrições feitas por contemporâneos de von Neumann, evocando algo excessivamente perfeito, quase desumano, em seu funcionamento mental.

19. As festas oferecidas por von Neumann e sua segunda esposa em Princeton aos emigrados europeus revelam sua grande presença social e calor humano, contrastando com sua fama de semideus intelectual capaz de imitar perfeitamente os humanos comuns.

20. Wiener, impressionado após jantar com o casal, registra em carta a riqueza e o gosto pela alta sociedade dos Neumann, notando contudo sua acessibilidade, num contraste marcante entre o excêntrico e irascível Wiener e o sólido e mundano von Neumann.

As esposas, a de von Neumann

21. Os cientistas estudados deixaram viúvas responsáveis por doar seus papéis às instituições, sendo notável o caso de Klari, segunda esposa de von Neumann, que preservou as cartas que ele lhe escrevia, praticamente os únicos documentos manuscritos não publicados restantes de sua autoria.

22. As cartas de von Neumann a Klari, sempre motivadas por brigas conjugais recorrentes, revelam apelos constantes por reconciliação e normalidade emocional, incluindo o reconhecimento explícito de um bloqueio mental que o impede de expressar certos sentimentos.

23. A reprodução dessas cartas obedece a múltiplas razões: evidenciar a humanidade por trás da imagem de máquina calculadora, destacar o “bloqueio mental” como traço essencial da autoimagem do cientista, e sublinhar o contraste absurdo entre seu trabalho diário na concepção de armas de destruição em massa e sua ansiedade doméstica cotidiana.

Os escritos de Wiener

24. O exame da bibliografia e do catálogo dos arquivos de Wiener revela ausência do bloqueio de von Neumann, escrevendo ou ditando incessantemente durante férias, viagens e estadias hoteleiras, com a colaboração datilográfica constante de sua esposa Margaret.

25. Das décadas anteriores à Segunda Guerra restam principalmente cartas e artigos matemáticos, além de um romance iniciado no retorno da China em 1936, intitulado “The Professor's Progress” ou “A Lifetime of Learning”, cujo manuscrito permanece lacrado a pedido de Margaret, assim como seu próprio diário.

26. A produção pós-guerra de Wiener é extensa: “Cybernetics” em 1948, “The Human Use of Human Beings” em 1950, sua reedição politicamente atenuada em 1954 sob o macarthismo, os dois volumes autobiográficos de 1953 e 1956, o romance “The Tempter” de 1959, a segunda edição ampliada de “Cybernetics” em 1961, e a publicação póstuma de “God and Golem, Inc.” em 1964.

27. Paralelamente, Wiener mantém intensa produção jornalística, entrevistas, conferências e correspondência, revisando repetidamente seus textos, inclusive eliminando de sua autobiografia passagens pessoais e críticas mais contundentes sobre o antissemitismo institucional dos anos vinte.

28. Entre os materiais preservados encontram-se contos e roteiros enviados a Hitchcock e Orson Welles, dos quais apenas dois foram publicados, permanecendo os demais inéditos em caixas de arquivo, entre eles aquele em que o cientista Lilienblum ou Posner reaparece e desaparece.

29. Apesar da fartura documental de Wiener, contrastando com o silêncio de von Neumann, tal abundância não exclui a possibilidade de um bloqueio psicológico próprio, manifesto não pelo silêncio mas pelo excesso de palavras que talvez nada revelem.

L'autofiction du savant

30. Na obra literária de Wiener, personagens ficcionais frequentemente remetem a ele mesmo, a amigos ou inimigos, sendo relatado por Masani que Wiener escrevia contos sobre colegas com quem se desentendia.

31. No conto “The Day of the Dead”, o personagem Warschauer, matemático americano trabalhando no México sobre problemas de neurofísica, corresponde fisicamente e biograficamente ao próprio Wiener durante sua estadia mexicana de 1947 junto a Rosenblueth.

32. O personagem do “Patrão”, Dr. Rodriguez, apresenta traços físicos e comportamentais que correspondem precisamente à figura real de Arturo Rosenblueth, conforme descrito na autobiografia de Wiener.

33. Opondo-se a Warschauer e Rodriguez, o personagem Dr. Smythe, retratado com desprezo físico e comportamental, sugere identificação possível com John von Neumann, reforçada por uma fotografia deste em traje impecável durante passeio a cavalo perto de Los Alamos.

O caso Woodbury

34. Em 1959, Wiener recusa furiosamente proposta de interpretar a si mesmo no papel de Woodbury numa adaptação cinematográfica de seu romance “The Tempter”, negando compartilhar as características do personagem além do temperamento difícil.

35. Apesar da recusa, Wiener compartilha efetivamente com Woodbury a surdez, a suscetibilidade extrema, o gosto pela conversa e a atenção crítica dispensada igualmente a jovens colegas e laureados, além de emprestar-lhe diretamente suas próprias perspectivas científicas e concepções de vida.

36. A questão central permanece saber por que Wiener rejeita tão veementemente essa identificação, levantando a hipótese de que reconheceria nos personagens situações ou problemas que preferiria não enfrentar abertamente.

W. Norbert e N. Wiener

37. A ambivalência de Wiener quanto a seus personagens reflete-se no uso do pseudônimo transparente W. Norbert para assinar suas ficções, inclusive o conto inédito “Un savant réapparaît”, numa tentativa de separar claramente seu trabalho científico de suas histórias de entretenimento.

38. A preocupação de Wiener em manter estanque a fronteira entre ciência e ficção revela, paradoxalmente, sua consciência da porosidade entre ambas, temendo tanto que sua ciência fosse confundida com ficção científica quanto que sua ficção fosse tomada por testemunho verídico.

39. A leitura do conto “Un savant disparaît” como testemunho verídico revela-se improvável, dadas as digressões e a inserção do diário de Lilienblum/Posner que evidenciam seu caráter manifestamente ficcional, tornando redundante o próprio pseudônimo nesse caso específico.

40. A hipótese conclusiva sustenta que, sob o nome W. Norbert, Wiener inventou um duplo capaz de expressar aquilo que não conseguia enunciar diretamente como Norbert Wiener, configurando uma voz alternativa que emerge dos arquivos para por vezes contradizer a voz oficial do cientista.