Biografia

CASSOU-NOGUÈS, Pierre. Les rêves cybernétiques de Norbert Wiener. Paris:Seuil, 2014

Desaparecimento e reaparecimento de um cientista

Recortes de imprensa

1. A figura familiar do professor Wiener no campus do MIT é descrita como célebre tanto por seu temperamento efervescente e distração quanto por sua erudição em matemática, filosofia, física teórica, política e linguística.

2. O retrato físico e biográfico de Wiener - baixo, redondo, barbudo e cordial, comparado a um Papai Noel - acompanha a menção precoce de sua licenciatura aos quatorze anos e doutorado aos dezoito, além de seu interesse pelo sistema nervoso humano que conduziu suas pesquisas mais extraordinárias.

3. A substituição dos músculos e cérebros humanos por motores e mecanismos de controle é apresentada, destacando as máquinas de calcular como especialidade de Wiener e sua capacidade de agir como verdadeiros cérebros mecânicos, inclusive sujeitos a distúrbios comparáveis à loucura.

4. A possibilidade de incutir emoções sintéticas em cérebros eletrônicos é anunciada por Wiener, que exige que tais declarações não sejam sensacionalizadas.

5. A comparação de Wiener a um monstro de Frankenstein é retomada, notando-se que suas advertências anteriores, antes ridicularizadas como alarmismo, deixam de suscitar riso.

6. A revolta das máquinas é anunciada como o maior desafio ao domínio humano, advertindo Wiener que computadores e máquinas educadas poderiam escapar ao controle humano sem que seus criadores percebessem o que lhes ocorria.

7. A morte de Norbert Wiener, aos sessenta e nove anos, é noticiada, sendo ele identificado como o pai da automação.

8. O retrato final evoca sua aparência inofensiva de Papai Noel contrastando com sua versatilidade vibrante como matemático de primeira classe, alpinista, autor de ficção e filosofia, e menciona a adoção tardia de suas ideias mesmo pelos soviéticos.

Sur les bords de la rivière Charles

9. A busca por um indício capaz de resolver o enigma que constitui todo cientista, sobretudo um matemático, é apresentada como tentativa de encontrar naquilo que parece alheio à vida algo que de fato concerne ao próprio investigador.

10. O interesse do jovem Wiener pelo movimento browniano, que deu origem ao termo “Wiener process”, é associado ao nome que ele próprio atribuiria depois à disciplina fantástica de seus últimos escritos, a cibernética, cuja celebridade sobrevive ainda que o próprio Wiener tenha caído no esquecimento.

11. A questão sobre por que Wiener se dedicou à cibernética, abandonando parcialmente a matemática, permanece em aberto, alimentando o desejo de encontrar uma chave que revele a relação entre ciência e vida em seu percurso.

12. O universo de Wiener é comparado ao de um filme de ficção científica crepuscular, povoado por fábricas automáticas autorreprodutoras que dispensam os humanos.

13. Os poucos humanos restantes nesse cenário aparecem mutilados, com membros substituídos por próteses.

14. Criaturas puramente digitais sobrevivem na rede telefônica americana dos anos cinquenta, reduzidas a sequências de zeros e uns que o ruído decompõe progressivamente em caos.

15. Num escritório à beira de um rio largo, um cientista tenta adivinhar o futuro, e todas as histórias que imagina terminam em catástrofes nucleares, industriais, econômicas e morais.

Un savant réapparaît

16. A contemplação noturna do rio Charles acompanha o trabalho de pesquisa nos arquivos deixados por Wiener, cartas e rascunhos guardados em caixas, num prédio vizinho aos laboratórios do MIT onde se inventam as máquinas do futuro.

17. Entre os papéis, surge inesperadamente um conto intitulado “A Scientist Reappears”, narrando um assassinato, cuja tradução do título para “savant” busca inserir a obra na tradição literária dos relatos de cientistas anterior ao uso corrente do termo científico.

18. O conto permanece inédito entre os papéis de Wiener, sem menção na literatura crítica a seu respeito, configurando um duplo esquecimento - do personagem e do próprio autor - até sua leitura trazer ambos de volta brevemente à luz.

19. A aparição fugaz do sábio no texto, que logo foge e é abatido, configura uma reaparição intrigante que desperta a expectativa de que Wiener finalmente se explique através dela, ainda que essa clareza talvez não exista, substituída por múltiplos elementos contraditórios.

20. O conto, traduzido em apêndice, contém uma antecipação científica meramente anedótica, pertencendo antes ao gênero policial que à ficção científica, estruturado em torno da pergunta clássica sobre quem matou quem entre um grupo de cientistas disfarçados sob aparências respeitáveis.

La visite au kibboutz

21. Cinco cientistas reunidos à mesa de um restaurante ao entardecer, nos arredores de Haifa, compõem a cena inicial narrada possivelmente pelo próprio Wiener, especialista em fábricas automáticas, situada em 1954 mas ambientada num futuro já realizado.

22. Os cinco sábios, reunidos ocasionalmente por conferências, mantêm relações impessoais e discutem naquela noite sobre microinstrumentação, antecipação do que hoje se chamaria nanotecnologia.

23. Essa antecipação da nanotecnologia parece não ter paralelo em nenhum outro escrito conhecido de Wiener, permanecendo exclusiva a este conto inédito.

24. Os comensais descobrem sobre a toalha de mesa uma fórmula que resolve o problema da microinstrumentação, elo perdido que deve ter sido rabiscado por algum cliente recente do restaurante.

25. Os cientistas voltam-se não para o sentido matemático da fórmula, mas para identificar seu autor, certamente um colega de renome cuja identidade permanece a descobrir a partir do que foi deixado.

26. A idiossincrasia própria de cada cientista, suas “impressões digitais intelectuais”, permite reconhecer, pelo estilo e pelos símbolos empregados, a autoria do velho Lilienblum.

27. Lilienblum havia desaparecido anos antes, temendo que suas pesquisas pudessem servir à criação de armas, venenos atômicos capazes de conduzir a humanidade ao abismo, decidindo então abandonar toda atividade científica.

28. No texto do conto, o nome Lilienblum é substituído pelo de Posner, sem alteração relevante na trama, e os cientistas, sabendo que o homem se esconde perto de Haifa, localizam-no facilmente através da garçonete ou do porteiro.

29. Os cientistas dirigem-se de táxi ao kibutz onde Posner se refugiara, encontrando-o à porta de sua cabana, que os recebe cordialmente antes de reconhecer, ao colocar os óculos, quem realmente o visita.

30. Posner refugia-se precipitadamente na cabana, seguem-se dois tiros, e De Gratiansky sai ferido no braço, alegando legítima defesa contra Posner, que teria enlouquecido ao reconhecê-lo e tentado matá-lo; Posner morre.

31. Bill Cohen, ex-policial tornado cientista e detetive da trama, prende De Gratiansky e explica rapidamente a premeditação do assassinato, definindo-o como um crime quase perfeito.

Norbert Wiener

32. O nascimento de Wiener em 1894 no Missouri é situado na trajetória de seu pai Leo, judeu emigrado da Rússia via Berlim, que buscava fundar uma colônia de princípios tolstoianos, projeto abandonado embora o vegetarianismo tenha permanecido em ambos.

33. Leo Wiener, tornado professor de línguas eslavas em Harvard, assume pessoalmente a educação do filho segundo princípios refletidos, o que resulta na precocidade extraordinária de Norbert, que ingressa na universidade aos onze anos e obtém tese de lógica matemática aos dezoito, tendo também estudado filosofia e biologia.

34. Após a Primeira Guerra Mundial, Wiener inicia carreira docente no MIT, onde permanece até a morte, obtendo resultados matemáticos importantes, entre os quais se destaca o trabalho sobre o movimento browniano.

35. Durante a Segunda Guerra Mundial, Wiener dedica-se ao projeto de um canhão antiaéreo capaz de prever trajetórias de aviões, projeto nunca implementado mas do qual extrai o conceito de retroação e a teoria da informação que fundamentará a cibernética.

36. No pós-guerra, Wiener dedica-se essencialmente à cibernética, viajando amplamente pelo mundo - incluindo um ano na China, e depois México, URSS, França e Israel, onde permanece em 1954, período em que provavelmente redige o conto do assassinato.

Et la cybernétique

37. A cibernética é definida como ciência da comunicação e do controle tanto na máquina quanto no animal, termo derivado do grego para o homem do leme, remetendo ao artigo de Clerk Maxwell de 1868 sobre “governadores”.

38. Nos textos de Wiener, a cibernética designa campo muito mais amplo que a ciência da comunicação, constituindo um vocabulário comum aplicável tanto ao humano quanto à máquina, ora descrevendo o humano como máquina, ora a máquina como humano.

39. A questão decisiva permanece saber quem sai vencedor desse confronto, se o humano sobrevive ou se é transformado em máquina.

Les blancs

40. O caso narrado parece resolvido, com cadáver, detetive e assassino identificados, restando porém algumas inverossimilhanças comparáveis às encontradas nas aventuras dos maiores detetives ficcionais.

41. A composição do conto em diferentes sessões de escrita é revelada pela retomada de uma frase já usada anteriormente, indicando interrupção e reinício da redação.

42. Uma segunda sessão de escrita conduz o texto até a página dezessete, seguida de páginas finais manuscritas e não numeradas, incluindo duas dedicadas a detalhar o retrato do assassino De Gratiansky.

43. As interrupções entre as sessões de escrita geram incoerências, como a hesitação entre os nomes Lilienblum e Posner, ou Bill Levy e Bill Cohen, hesitação que Wiener poderia ter corrigido mas não o fez.

44. Nas últimas páginas, os personagens perdem completamente seus nomes, substituídos por espaços em branco, tornando por vezes difícil identificar quem é quem, o que reitera a questão central de quem matou quem e quem determina a identidade do assassino.

Un problème d'identification

45. A primeira verdadeira narrativa policial, com crime, detetive e narrador observador, é atribuída a Edgar Allan Poe em “Assassinatos na Rua Morgue”, cuja solução por Dupin - reconhecer que a voz ouvida não pertencia a nenhuma língua humana - revela que o assassino é um gorila fugitivo.

46. Wiener insere seu conto nessa mesma tradição, citando outra narrativa de Poe com Dupin e mencionando Sherlock Holmes, situando a questão da identidade na origem do gênero policial, comparável ao método psicanalítico que reconstrói o indivíduo a partir de elementos negligenciados.

47. Wiener afirma explicitamente tratar-se, no conto, de um problema de identidade, ambientado num país onde tais questões são particularmente difíceis de resolver por faltarem os procedimentos habituais de identificação civil e, sobretudo, os próprios nomes das pessoas.

48. A fórmula deixada sobre a toalha torna-se assim o único meio de identificar e localizar o sábio desaparecido, conforme adverte o próprio detetive da trama.

Ma propre enquête

49. A reaparição espectral do sábio no conto sugere uma leitura do texto como mensagem deixada pelo próprio Wiener, consciente ou não, exigindo investigação própria que retome o raciocínio do detetive Bill Cohen/Levy na distinção entre o bom e o mau cientista.

50. A identificação dos diferentes papéis da cena - vítima, assassino, detetive - constitui o problema central a ser elucidado.

Le monde réel

51. A leitura do conto em múltiplos planos remete à recém-criação do Estado de Israel em 1948, e à prática de imigrantes que adotam nomes hebraicos, tornando necessário evocar os cientistas do mundo real do período posterior à Segunda Guerra, à bomba atômica e aos campos de concentração.

52. Wiener, nascido americano e judeu, condição incomum entre cientistas americanos de sua geração devido às cotas antissemitas então vigentes nas universidades, relata em sua autobiografia o sofrimento causado por esse preconceito, sobretudo em Harvard.

53. O afluxo de cientistas emigrados da Europa central diante do nazismo, como von Neumann, Ulam e Szilard, contribui essencialmente à ciência americana, ainda que Wiener não compartilhe plenamente a cultura desses colegas judeus emigrados, situando-se num isolamento particular.

54. É notável que Wiener situe sua narrativa de reaparição e desaparição em Israel, entre cientistas judeus de origens culturais e sociais diversas, vindos da América do Norte, do Sul, de guetos ou subúrbios abastados, da Europa Ocidental ou Oriental.

55. A vigilância exercida sobre cientistas ligados aos laboratórios de Los Alamos ou a outros setores da ciência militarizada é evocada, contrapondo aqueles que permanecem a serviço militar, como von Neumann, aos que se afastam, como Szilard ou Oppenheimer, este último convocado a depor perante o Senado no auge do macarthismo.

56. Os raros casos reais de desaparecimento de cientistas são evocados, do fingido desertor do filme de Hitchcock ao físico Pontecorvo, que passa à URSS sem de fato desaparecer, sendo o caso mais próximo ao de Lilienblum/Posner o do físico italiano Ettore Majorana, desaparecido em 1938.

57. O relato de Sciascia sobre Majorana consagra a imagem do físico genial e imprevisível, protegido e temido por Fermi, que teria compreendido antecipadamente a possibilidade da fissão atômica e desaparecido misteriosamente numa travessia marítima entre Nápoles e Palermo, sem que seu corpo fosse jamais encontrado.

58. Embora o livro de Sciascia seja posterior ao conto de Wiener, é possível que este tenha tomado conhecimento do caso Majorana por meio de Fermi ou de outro cientista encontrado, talvez durante sua viagem a Israel.

59. A peça “Os Físicos” de Dürrenmatt apresenta enredo próximo ao do conto de Wiener, com um físico que se esconde sob identidade falsa num asilo de loucos, alegando razões de consciência similares às de Lilienblum/Posner para evitar que suas descobertas fossem usadas na destruição da humanidade.

60. Ainda que Dürrenmatt não pudesse conhecer o conto inédito de Wiener, a coincidência temática do desaparecimento do cientista sugere que tal preocupação estava difusamente presente na época, na fronteira entre ficção e realidade.

61. O conto de Wiener talvez se refira a cientistas reais em circunstâncias contemporâneas, situando-se num país sem nome, onde as questões de identidade permanecem embaralhadas, não inteiramente equivalente a Israel nem ao asilo de Dürrenmatt, mas antes um país próprio de Wiener, espécie de território onírico que concerne, antes de tudo, a ele mesmo.