Cientista

CASSOU-NOGUÈS, Pierre. Les rêves cybernétiques de Norbert Wiener. Paris:Seuil, 2014

O bom cientista, o mau e o detetive

Ser judeu

1. O assassinato ocorre perto de Haifa, em Israel, na presença de cinco cientistas - Rabinovitch, Schmidt-Cohen, Bill Levy (futuro Bill Cohen), De Gratiansky, Jacques Renard e o narrador -, além do cientista desaparecido Lilienblum/Posner, propondo-se retomar a investigação sob outro ângulo para examinar as identidades do assassino, da vítima e do detetive.

2. Antes de examinar os detalhes individualizantes desses cientistas, impõe-se destacar o traço comum que compartilham: todos são judeus, condição tornada verossímil pela própria presença naquele território imaginário onde ocorre a re(des)aparição.

3. A família de Wiener, inteiramente assimilada e sem prática religiosa, mantém o jovem Norbert ignorante de suas origens judaicas até os dezesseis anos, quando a menção a Maimônides por um colega de seu pai revela-lhe a lenda familiar de descendência do filósofo sefardita.

4. Retrospectivamente, Wiener espanta-se por ter demorado tanto a perceber esse segredo evidente, reunindo então indícios já conhecidos, como a história da literatura iídiche escrita por seu pai e o jornal em caracteres hebraicos lido por sua avó.

5. A descoberta revela-se dolorosa diante do antissemitismo latente vivido particularmente em Harvard, onde professores aconselhavam abertamente estudantes judeus a não aspirarem a cargos universitários, conselho cuja veracidade Wiener comprova ao buscar posição acadêmica.

6. Mais dolorosa ainda que o contexto externo é a lembrança do racismo doméstico proveniente da própria mãe, cujas observações cotidianas depreciativas sobre judeus, irlandeses e negros levam Wiener a se reconhecer, ao espelho, como pertencente a um grupo que aprendera a desprezar.

7. Wiener encontra-se então numa posição moralmente impossível: judeu perante a universidade, mas inteiramente desconectado das tradições judaicas por sua educação, contradição agravada pela chegada dos emigrados centro-europeus nos anos trinta, cuja cultura compartilhada lhe permanece igualmente estranha.

8. A aceitação de sua identidade judaica exige de Wiener a rejeição mais ampla de todo preconceito racial e de classe, encontrando paz consigo mesmo apenas ao combater o preconceito antijudaico como preconceito em si, e não por afetar especificamente seu próprio grupo.

9. Ainda assim, Wiener chega a sugerir, ao contrapor os costumes cristãos e judaicos quanto à fertilidade dos sábios, uma explicação genética para a proeminência intelectual judaica, argumento que se aproxima perigosamente de um antissemitismo invertido baseado em características raciais.

10. Em outros textos, contudo, Wiener prefere explicar a vocação científica judaica por fatores culturais ligados à tradição talmúdica reconvertida às novas ciências após a emancipação, comparando a situação dos judeus à dos brâmanes indianos que se voltam à matemática.

11. Já em sua autobiografia, Wiener recusa explicitamente qualquer determinação racial, atribuindo a judeidade a fatores culturais, mas essa oscilação e essas especulações evidenciam que suas origens judaicas permanecem, até o fim, um problema não resolvido, reforçando a hipótese de que o território onde todos os sábios são judeus constitui um país onírico criado para encenar um problema moral fundamental de sua existência.

Bill Cohen/Levy

12. Entre os cientistas reunidos perto de Haifa, apenas Bill Cohen/Levy, futuro detetive, e o narrador são americanos, provindo o primeiro de um bairro pobre de Nova York, em contraste com a infância abastada de Norbert em subúrbio bostoniano de pai professor em Harvard.

13. Wiener e seu detetive compartilham admiração pela figura do policial, evocada tanto pelo personagem quanto pela lembrança autobiográfica de Wiener sobre o policial Murray de sua infância e seu episódio posterior como voluntário durante a greve policial de Boston, quando corrige a lição de álgebra de um garoto que se tornaria seu aluno no MIT.

14. Permanece em aberto a questão de por que um detetive figura entre os cientistas com a tarefa de identificar o mau sábio, remetendo às referências duplas a Sherlock Holmes e a Auguste Dupin.

Lilienblum ou Posner

15. A proximidade entre Wiener e o cientista desaparecido revela-se já no próprio nome: Lilienblum, associado inicialmente ao México, sugere Arturo Rosenblueth por analogia floral, enquanto o nome posterior Posner, como Warschauer no outro conto, remete a uma cidade de origem análoga a Wiener/Viena.

16. Os últimos retratos do sábio desaparecido, sob o nome Posner, correspondem precisamente ao perfil biográfico do próprio Wiener: americano, provavelmente judeu, matemático com mestre europeu, depois voltado à engenharia elétrica ou à física.

Depois da bomba

17. A carta de demissão dirigida ao presidente do MIT em outubro de 1945 declara insustentável a posição moral do cientista transformado em armeiro dos militares sem controle sobre o uso de suas descobertas, anunciando a intenção de abandonar definitivamente a atividade científica.

18. A correspondência de Wiener nos dias seguintes a Hiroshima e Nagasaki revela um exame de consciência formulado de maneira ambígua sobre uma “responsabilidade potencial”, contrastando com o tom despreocupado do restante da carta sobre férias em família e a visita de von Neumann.

19. Somente em 16 de outubro, numa carta a Santillana, Wiener expressa claramente o ataque de consciência que o acomete desde a bomba, considerando seriamente abandonar toda produção científica por não encontrar meio de publicar sem risco de apropriação indevida de suas invenções.

O dilema do cientista

20. Wiener relata ter sido contatado em 1942 para trabalhar no projeto Manhattan sem manifestar entusiasmo, permanecendo à margem de Los Alamos, possivelmente por desconfiança quanto às suas relações com cientistas marxistas ou sua tendência à discussão aberta de pesquisas.

21. Um teorema obtido com Hopf nos anos trinta parece ter contribuído indiretamente ao projeto da bomba, fundamentando o argumento de Wiener de que qualquer publicação científica acessível ao exército implicaria responsabilidade compartilhada em usos letais não aprovados pelo autor.

22. Esse mesmo dilema moral reaparece quase textualmente na pena de Lilienblum/Posner em 1954, que se vê emocionalmente devastado ao perceber que suas pesquisas poderiam conduzir a humanidade ao abismo, fechando-se-lhe o caminho natural até então trilhado.

23. Apesar de não demitir-se efetivamente do MIT, Wiener recusa em 1946 fornecer artigo a serviço militar de mísseis, justificando-se em carta aberta publicada no Atlantic Monthly sobre a responsabilidade do cientista na escolha de seus destinatários.

24. Wiener reconhece o caráter simbólico dessa recusa, já que o material poderia ser obtido por outras vias, mas mantém, ao contrário de seu personagem, a intenção de continuar na ciência, levantando a questão de por que não rompeu definitivamente como fez Lilienblum/Posner.

25. Bachelard, em conferência de 1952, critica implicitamente essa posição moral, argumentando que a responsabilidade recairia sobre quem fabrica ou usa a arma, não sobre o cientista cujos resultados são aplicados, comparando a atribuição de culpa científica à antiga responsabilização jurídica da faca pelo crime.

Rejeitar a bomba

26. Em nenhum texto conhecido Wiener condena categoricamente o uso da bomba nem exige o desarmamento nuclear, expressando antes um ceticismo moderado quanto à direção tomada pelos Estados Unidos, incluindo satisfação contida pelo fim rápido da guerra acompanhada de mal-estar profundo.

27. Wiener admite considerar parcialmente válida a acusação de que a bomba não teria sido usada contra um inimigo branco, e desenvolve argumentos sobre a inutilidade estratégica da corrida armamentista entre potências que, como prisioneiros com granadas na mão, desejam sobreviver mutuamente.

A ciência por um milhão

28. A crítica central de Wiener recai sobre a transformação da atividade científica provocada pelo Projeto Manhattan, que fragmentou o trabalho dos cientistas em grupos compartimentados e ignorantes da arquitetura geral, reduzindo-os a operários de uma vasta fábrica científica sem responsabilidade teórica ou moral pelo produto final.

29. Wiener denuncia desde 1947 essa degradação da posição do sábio, reafirmando dois anos depois que o pesquisador tornou-se peça impessoal de uma máquina científica sujeita a erros grosseiros por sua própria escala e volume.

30. O diário de Lilienblum/Posner retoma essa crítica à técnica de grande fábrica aplicada ao laboratório científico, retratando o mau sábio De Gratiansky como administrador milionário que retorna ao antigo colega para obter ideias, empregando expressões autênticas de Wiener sobre bispos e papas substituindo os santos da nova Igreja científica.

31. Assim como Lilienblum/Posner, Wiener recusa essa vida de administrador de milhões, preferindo o direito de errar em papel a contribuir para gastos milionários, restando novamente em aberto por que apenas seu personagem efetivamente desaparece.

Um primeiro suspeito

32. A busca pela identidade do assassino De Gratiansky, judeu às margens da aristocracia europeia, aponta primeiramente para John von Neumann, próximo também de Stanislav Ulam.

33. Apesar do desentendimento posterior, Wiener nunca critica explicitamente von Neumann em termos pessoais, limitando-se a questionar as premissas da teoria dos jogos, embora o conto “The Brain” retrate um chefe mafioso lobotomizado e “The Day of the Dead” submeta um cientista à vivisecção sob curare.

34. A fascinação de von Neumann pelos militares e pelo poder é atestada por anedotas de Ulam, confirmada por seu envolvimento direto no desenvolvimento da bomba de hidrogênio e mísseis intercontinentais, além de sua posição favorável a ataque preventivo contra a URSS.

35. Von Neumann reconhece que foi a guerra que o converteu à matemática aplicada, situando-se numa tradição que remonta a Arquimedes, e permanece consultor de dezenas de organizações governamentais até seu ingresso obrigatório na Comissão de Energia Atômica em 1955.

36. Nesse mesmo ano, von Neumann proclama diante de Wiener, no próprio MIT, que os cientistas não podem mais permanecer isolados em torres de marfim, devendo assumir posições de responsabilidade administrativa e influência social, visão que corresponde exatamente àquela atribuída ao assassino De Gratiansky.

37. Apesar dessas coincidências, ambos os homens permanecem amigos por longo tempo após a bomba, sugerindo ambivalência mais profunda que suas declarações públicas, evidenciada pelas confissões irônicas de von Neumann sobre a perda de sua pureza matemática original.

Então, quem matou quem? Uma primeira hipótese

38. Ao contrário de seu personagem, Wiener toma apenas meias-medidas - recusar artigos aos militares, ausentar-se de certos colóquios - sem jamais abandonar efetivamente a ciência ou se retirar como Lilienblum/Posner, sugerindo consciência própria do descompasso entre pensamento e ação.

39. Nessa primeira leitura, Lilienblum/Posner representaria uma versão idealizada do próprio Wiener, um Wiener sem família capaz de desaparecer, sendo o assassinato uma denúncia de que os maus cientistas, os que jogam com milhões e bombas, estariam efetivamente matando aquele que tenta escapar da ciência-fábrica.

40. A identidade específica do assassino De Gratiansky perde importância nessa leitura, podendo representar amálgama de diferentes cientistas, incluindo possivelmente Stanislav Ulam, cuja relação tensa com Wiener nos anos cinquenta é ilustrada por anedota de desconfiança mútua no MIT.

41. Essa primeira solução, contudo, revela-se insatisfatória por sua simplicidade excessiva, levantando a questão de por que Wiener precisaria recorrer a um duplo, W. Norbert, se os termos do problema fossem assim tão claros.

A máquina e a bomba

42. Wiener explica, em texto autobiográfico, ter considerado e rejeitado a possibilidade de impor a si mesmo um segredo pessoal equivalente ao sigilo militar, decidindo ao contrário adotar a máxima publicidade para alertar sobre os perigos dos novos desenvolvimentos.

43. A ideia de retroação, originada em suas pesquisas sobre o canhão antiaéreo, conduz Wiener à imagem da fábrica automática, que pode representar tanto a libertação do trabalhador quanto sua obsolescência letal.

44. Diante do dilema entre destruir suas pesquisas e desaparecer ou continuar desenvolvendo a cibernética como possível instrumento de libertação humana, Wiener opta por permanecer na ciência, abrindo um novo campo onde o drama moral da bomba pode se rejogar com chance de redenção.

45. Desde a introdução de “Cybernetics”, Wiener situa explicitamente a nova disciplina no mundo de Bergen-Belsen e Hiroshima, marcando a cibernética como alternativa ao mesmo tempo pressuposta pela guerra e distinta dela.

46. A cibernética representaria assim o que separou o destino de Wiener do de seu personagem Lilienblum/Posner, que na micro-instrumentação encontra um campo sem escapatória e desaparece, enquanto Wiener prossegue defricando o território cibernético que o salva do desaparecimento.

47. Permanece, contudo, a necessidade de explicar por que Wiener, já em 1954, situa seu personagem nesse mesmo impasse sem solução, sugerindo dúvida persistente de que a cibernética estivesse igualmente condenada ao destino da bomba.

Dr Wiener, algumas perguntas?

48. As perguntas extraídas de entrevistas de Wiener sobre a possibilidade de máquinas dominarem a humanidade, sobre robôs pensantes e sobre a preservação da liberdade numa sociedade coordenada por máquinas, evidenciam a transposição do problema da bomba para o problema da máquina.

49. O interesse da investigação não reside em julgar Wiener quanto à ciência militarizada ou à cibernética, mas em compreender como ele e seu duplo Norbert se situam na oposição que eles próprios estabelecem entre o bom e o mau sábio.

50. A micro-instrumentação funciona como metáfora deslocada da própria cibernética, sendo esta, por sua vez, o outro da bomba atômica, reabrindo em novo terreno a mesma questão fundamental sobre os limites da ciência.

51. O perigo cibernético manifesta-se em múltiplos planos: no plano real, pela automatização que elimina postos de trabalho; e em planos teóricos, jurídicos e imaginários, ao modificar radicalmente a autoimagem humana e as leis que regem o uso do corpo, ameaçando tornar obsoleta a própria noção de humano.

52. Numa primeira leitura, Wiener ocupa a posição de vítima, versão humana do sábio santo; numa segunda leitura, encontra-se do lado dos maus cientistas que manejam armas, sendo a cibernética ela própria uma arma contra o humano e o sábio desaparecido o único que permaneceu genuinamente humano.

53. Essas duas leituras poderiam ser atribuídas respectivamente a Wiener e a seu duplo Norbert, que transformaria sob sua pena a história de um bom sábio vitimado pela má ciência na história de um assassino, talvez sem que o próprio Wiener disso se desse conta.

54. Permanece em aberto, aos olhos do próprio Wiener, se a cibernética representa ou não o fim do humano, e o que significariam exatamente essas máquinas capazes de desnaturar, desfigurar ou simplesmente substituir a humanidade na superfície da Terra.