A argumentação inicial sobre a humanidade moderna desenraizada, que não mais “habitava” autenticamente a terra, contrasta com a noção posterior de habitação como o “reunir” (
versammelt) das entidades em um mundo intrinsecamente local, uma concepção que Ser e tempo, apesar de sua ênfase no mundo-oficina local, acabou por antecipar a “mobilização total” ao integrar esse local na totalidade referencial abrangente.
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A humanidade moderna desenraizada é caracterizada pela perda da habitação autêntica da terra.
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A habitação autêntica, posteriormente elaborada, ocorre quando as entidades são “reunidas” (versammelt) em um mundo que preserva sua integridade e está intrinsecamente ligado a um lugar.
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Esse mundo local é estranho ao alcance planetário da técnica moderna.
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Ser e tempo antecipou a “mobilização total” ao conceber o mundo-oficina local como uma região subordinada à totalidade referencial abrangente.
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A ênfase inicial na primazia de uma ontologia instrumentalista visava combater a objetificação e o dualismo
sujeito-objeto da modernidade, mas a descrição da vida cotidiana como um jogo de papéis na totalidade referencial antecipou a dissolução posterior da distinção sujeito-objeto na era tecnológica, onde até os humanos se tornam matéria-prima e a atividade instrumental é apresentada como o modo fundamental de ser-no-mundo, restando apenas a alternativa abstrata da contemplação desinteressada.
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A ontologia instrumentalista de
Heidegger contrapunha-se à primazia do ego-sujeito cognitivo, defendendo um eu “impessoal” orientado pela prática, e ao atomismo político, propondo uma individuação autêntica como decisão coletiva.
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Heidegger posteriormente reconheceu que, apesar de seu atomismo, o subjetivismo ao menos mantinha a distinção sujeito-objeto, a qual desaparece na era tecnológica com a vitória do subjetivismo sobre toda a “alteridade”, reduzindo os humanos à matéria-prima.
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A descrição inicial do Dasein como o “para-que” da atividade mundana já indicava sua submissão ao tipo de vida exigido pela produção moderna.
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Ser e tempo estabelece a atividade instrumental como modo básico de ser-no-mundo, colocando a percepção abstrata, seja como curiosidade comum ou escrutínio científico, como a única alternativa à manipulação e produção.
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A crítica à metafísica cartesiana, identificada como uma variante da tese platônica que define o ser como presença constante (
eidos) e o conhecimento matemático como seu modo de captura, é ampliada para mostrar como o impulso cartesiano de formalizar tudo para o conhecimento contribuiu para o impulso tecnológico de tornar tudo totalmente presente como reserva permanente.
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A descrição fenomenológica da vida cotidiana em Ser e tempo, interpretada por alguns críticos como uma visão utilitarista que a revela como trabalho incessante interrompido por distração, aproxima-se da caracterização do mundo tecnológico totalmente mobilizado, embora a instrumentalidade ali descrita seja menos radical que a da técnica moderna posterior.
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Manfred S. Frings argumenta que Ser e tempo expressa uma glorificação do trabalho e do mundo do trabalho diário, gerada pelo isolamento político da Alemanha pós-1918.
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A vida cotidiana é descrita como trabalho incessante com períodos ocasionais de distração, assemelhando-se à descrição de Ernst Jünger do mundo tecnológico totalmente mobilizado.
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A revelação tecnológica das coisas implica um instrumentalismo ainda mais radical do que o presente em Ser e tempo.
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A ambiguidade persiste quanto à possibilidade de autenticidade (
Eigentlichkeit) para o artesão em Ser e tempo, uma vez que as práticas cotidianas são apresentadas como “indiferenciadas” e passíveis de transformação autêntica ou inautêntica, crença que pode ter fundamentado o apelo inicial de
Heidegger a uma recuperação autêntica das possibilidades da Alemanha por Hitler.
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A autenticidade (Eigentlichkeit) não flutua acima do cotidiano, mas transforma as práticas cotidianas.
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As práticas cotidianas não são intrinsecamente inautênticas, mas “indiferenciadas” e, portanto, suscetíveis de se tornarem autênticas ou inautênticas.
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A crença na transformabilidade das práticas cotidianas pela existência autêntica pode ter levado
Heidegger a apoiar a ideia de uma recuperação autêntica da Alemanha por Hitler.
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A oposição binária entre prontidão à mão (
Zuhandenheit) e presença à mão (
Vorhandenheit) em Ser e tempo indica que o modo de desvelamento predominante da técnica moderna ainda não havia sido claramente articulado; quando o foi, por volta de 1930, este passou a incorporar aspectos tanto do utilitarismo da prontidão à mão quanto da objetificação da presença à mão, transformando a atitude pragmática do artesão na mania de trabalho da era tecnológica.
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O “ou/ou” entre prontidão à mão e presença à mão sugere uma falta de articulação clara do modo de desvelamento da técnica moderna.
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A partir de 1930, o exame detalhado da técnica moderna revela que ela atribui a si aspectos do utilitarismo da prontidão à mão e da objetificação da presença à mão.
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A atitude pragmática do artesão, considerada básica, acaba por se tornar a mania de trabalho característica da era tecnológica, uma constatação perturbadora para
Heidegger, segundo Prauss.
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A percepção das implicações da técnica moderna levou a uma mudança na atitude de
Heidegger em relação à ciência, que de uma compreensão inicialmente positiva passa a ser vista como uma atividade motivada pelo desejo de dominação, cuja objetificação contribui para o instrumentalismo da técnica, ao possibilitar maior controle e utilização do que é investigado.