Mapas e história
WOOD, Denis. The Power of Maps. Londres: Routledge, 1992.
Os Mapas Estão Embutidos em uma História que Ajudam a Construir
1. Cada visão do mundo é uma perspectiva tomada de algum lugar, e a visão aqui apresentada é a de um indivíduo na América no final do século XX, sendo moldada por sua posição particular no tempo e no espaço, com suas reivindicações de liberdade sendo limitadas por sua origem, ambiente e trajetória de vida.
2. O crescimento e o desenvolvimento pessoal são centrais na experiência, e é possível identificar três aspectos entrelaçados: o crescimento físico, o desenvolvimento (aumento da diferenciação e integração hierárquica) e a história, que molda como o crescimento e o desenvolvimento ocorrem em ambientes sociais e físicos em constante mudança.
3. Os artefatos dos mapas em si, especialmente os produzidos em massa, não crescem ou se desenvolvem da mesma forma que os organismos, embora alguns mapas, como os de Tolkien ou os antigos mapas de seguros Sanborn, tenham sido construídos em camadas ao longo do tempo, interagindo com os sistemas que representavam.
4. O que cresce e se desenvolve são os sistemas ou processos de “mapeamento” e “cartografia”, onde o mapeamento se refere à criação e uso de mapas mentais, uma habilidade fundamental para dar ordem ao mundo, presente em humanos e em muitos animais, e que se desenvolve ao longo da evolução e da vida de cada indivíduo.
5. A capacidade de fazer mapas mentais é universal em todas as populações humanas, e a suposição de que culturas “primitivas” tinham habilidades cognitivas inferiores é infundada, pois o fracasso em produzir mapas artefatuais não indica ausência de habilidade cognitiva, e a avaliação do nível de desenvolvimento intelectual não pode ser feita a partir de gestos isolados.
6. O que diferencia as sociedades não é a capacidade cognitiva, mas o grau de “desenvolvimento” do sistema de cartografia, que se refere à sua organização, e o que se observa é uma transformação que vai da incapacidade de mapear até viver imerso em um mundo de mapas, com a capacidade de produzi-los e comunicá-los.
7. Viver imerso em mapas significa estar tão rodeado por eles, e consultá-los e produzi-los com tanta frequência, que eles se tornam parte da cultura, tão naturais quanto a comida ou o abrigo, e a coleta de mapas encontrados no cotidiano de uma família ilustra como eles são onipresentes em jogos, planejamento, viagens e na vida social.
8. A experiência de viver imerso em mapas contrasta fortemente com a de comunidades como a Zinacantan, onde mapas são raros e não fazem parte do cotidiano, embora haja um rico conhecimento espacial transmitido oralmente e uma capacidade de descrever o mundo sem o uso de mapas artefatuais.
9. A diferença fundamental entre uma sociedade imersa em mapas e uma que não o é está no tamanho e na complexidade da sociedade, onde mapas são necessários para rastrear as pessoas e suas atividades em populações grandes e especializadas, e a especialização exigida por tais sociedades só é possível devido ao seu tamanho.
10. Sociedades maiores são mais desenvolvidas no sentido de serem mais diferenciadas, especializadas e hierarquicamente integradas, e a imersão em mapas está relacionada a essa complexidade, com a produção de mapas emergindo em sociedades acima de um certo limiar de tamanho e especialização.
11. A especialização do trabalho nas sociedades imersas em mapas penetra na consciência e diferencia os indivíduos, criando sociedades mais alienadas, mas também mais capacitadas para integrar massas altamente diferenciadas, com sistemas de produção de mapas que envolvem tecnologias complexas.
12. As sociedades menos especializadas produzem mapas diferentes, onde o processo de fazer o mapa pode ser mais importante que o produto final, e os mapas podem ter funções ritualísticas ou ser produzidos para serem descartados, com uma ênfase na indexicalidade e no conhecimento local, em contraste com a pretensão de universalidade e objetividade dos mapas ocidentais.
13. A ideia de que os mapas ocidentais são mais “precisos” é um critério cultural que pode ser irrelevante para outras culturas, e a história da cartografia mundial, quando escrita sob essa ótica, inevitavelmente coloca a cartografia ocidental como o ápice, ignorando a “funcionalidade” dos mapas em seus próprios contextos.
14. Sociedades com alta especialização do trabalho são mais desenvolvidas no sentido de serem mais diferenciadas e integradas, com um número maior de mapas e uma relação mais complexa entre eles e a sociedade, mas isso não significa que sejam inerentemente melhores ou mais felizes, embora tenham historicamente dominado sociedades com sistemas cartográficos menos desenvolvidos.
15. A fabricação de mapas artefatuais origina-se da necessidade de manter registros em grupos em rápida expansão, para controlar processos sociais, e os sistemas de notação se diferenciaram ao longo do tempo em duas tradições: uma voltada para informações temporalmente ordenadas (que deu origem à escrita) e outra para informações espacialmente ordenadas (que deu origem aos mapas).
16. O crescimento e o desenvolvimento da cartografia estão ligados à história, com o Estado moderno e pré-moderno evoluindo juntamente com o mapa como um instrumento de poder político, para avaliar impostos, travar guerras e facilitar comunicações, sendo a cartografia uma forma de discurso político para aquisição e manutenção do poder.
17. Sociedades menores e mais simples não têm a necessidade de mapear propriedade, distritos fiscais ou geologia, mas isso não significa que não criem mapas mentais densos e ricos em informações sobre o mundo em que vivem, com o conhecimento sendo transmitido oralmente e sendo o bem mais valioso que carregam consigo.
18. As culturas cartográficas diferem das não cartográficas pela necessidade, impulsionada pela própria cartografia, de preencher os espaços em branco nos mapas, o que está ligado a uma busca por recompensas materiais, exploração e colonização, sendo os mapas instrumentos de abertura e fechamento de territórios.
19. A história da cartografia, se vista apenas como um progresso em direção à precisão, mascara a maneira como os povos mapeados, mas não cartógrafos, são excluídos e subsumidos pelo olhar panóptico das sociedades cartográficas, com os mapas sendo um texto para o estudo dos processos de apropriação territorial e alienação étnica.
20. A visão de mundo dos mapas não é desinteressada, mas resultado do entrelaçamento entre política e cartografia, exigido para a estabilidade do Estado, e as sociedades cartográficas, em seu crescimento e desenvolvimento, subsumem outras culturas, apropriando-se de seu lugar, energia, conhecimento e artefatos, diferenciando-se cada vez mais das sociedades que consomem.
