Visível e oculto
WOOD, Denis. The Power of Maps. Londres: Routledge, 1992.
Cada Mapa Mostra Isso… Mas Não Aquilo
1. Os mapas dinâmicos e interativos em jogos como SimCity exemplificam a riqueza de informações acumuladas pelas sociedades cartográficas, onde o acesso a uma enorme variedade de dados é um benefício do capital cultural acumulado ao longo de gerações, tornado conhecimento comum.
2. O famoso “retrato” da Terra criado por Tom Van Sant, apesar de sua aparência de fotografia e de ser chamado de “retrato global”, é na verdade um mapa, uma construção social que pretende ser uma visão realista, mas que não é o que um olho humano veria do espaço.
3. A fotografia, segundo Roland Barthes, é definida como um “analogon perfeito”, uma “mensagem sem código”, mas o mapa de Van Sant não atende a essas condições, pois a realidade foi dividida em unidades (pixels) para sua criação.
4. A imagem de Van Sant foi construída a partir de dados de satélites da NOAA, que utilizam scanners multispectrais e não câmeras fotográficas, e a escolha por esse tipo de sensor, em vez de câmeras de televisão ou satélites de retorno de filme, foi resultado de disputas e compromissos políticos, especialmente a recusa do Departamento de Defesa dos EUA em permitir o uso de imagens de alta resolução para fins civis.
5. A seleção das bandas espectrais para os sensores dos satélites foi alvo de negociações entre agências governamentais (NASA, Departamento do Interior, Departamento de Agricultura) com diferentes interesses, e os compromissos resultantes fortaleceram o controle da NASA sobre o programa, evidenciando que as “janelas” abertas para a observação da Terra foram selecionadas por vantagens burocráticas.
6. Os dados dos satélites são extensivamente manipulados antes mesmo de serem utilizados por Van Sant, passando por processamento digital, redução de resolução e filtragem, com o sistema de processamento de dados sendo moldado por restrições políticas, e não apenas técnicas.
7. Inúmeros códigos intervêm entre o objeto e sua imagem, incluindo o prisma no scanner que filtra a luz em comprimentos de onda específicos, criando “assinaturas espectrais” para diferentes características da Terra, um código que, uma vez decifrado com “verdade de campo”, funciona como um sistema de semáforos.
8. Em imagens de “falso cor”, o código é explícito (vermelho = vegetação, azul = áreas construídas), e Van Sant escolheu cores para dar uma visão “realista”, o que significa que os humanos aplicam as cores apropriadas, fazendo com que as imagens manipuladas se assemelhem cada vez mais a pinturas, e a palavra “realista” é carregada de significados filosóficos complexos.
9. A imagem de Van Sant é submetida a uma transformação matemática para ir da esfera para o plano, e a escolha da projeção cartográfica, como a Robinson, envolve uma escolha entre interesses concorrentes (como a representação de áreas versus formas), sendo a seleção sempre uma forma de incorporar um ponto de vista no mapa.
10. A escolha da projeção é politicamente carregada, como visto na controvérsia da projeção de Peters, que, ao preservar áreas, critica o viés das projeções populares que exageram o tamanho do hemisfério norte, e a reação da comunidade cartográfica americana a Peters revela uma defesa do poder e das “reivindicações de verdade” estabelecidas.
11. A imagem de Van Sant, após ser escaneada, filtrada, corrigida e colorida, é submetida à projeção de Robinson, e a alegação de que esta projeção não defende nenhum ponto de vista é desmentida pela defesa estética de Robinson contra Peters, que é uma questão de preferência artística, não científica.
12. Mesmo que a imagem de Van Sant fosse uma fotografia “sem código”, uma fotografia teria que ser tirada em algum momento, e metade da Terra estaria na escuridão; o mapa de Van Sant mostra uma impossibilidade auto evidente: a Terra como se pudesse ser iluminada de uma só vez, uma construção que nega a noite e a rotação do planeta.
13. O mapa “A Terra à Noite”, do planetário Hansen, é uma imagem frank de um mapa, com notas de advertência sobre suas limitações, e contrasta com o “A Clear Day” ao questionar sua abrangência e ao introduzir a luz irradiada (cultural) versus a luz refletida (natural), revelando que o mapa de Van Sant mostra uma Terra sem pessoas.
14. Uma “fotografia” real da Terra incluiria a camada de nuvens, que é essencial para a identidade do planeta, e ao suprimir as nuvens, o mapa de Van Sant não é um retrato da Terra, mas apenas de suas superfícies terrestre e oceânica, como um retrato que mostra apenas ossos e sangue.
15. O mapa de Van Sant, ao usar dados de diferentes épocas do ano para garantir a melhor iluminação e vegetação, nega as estações, e a escolha da resolução temporal (três anos) é uma forma de definir o assunto, sendo uma questão de conveniência e não um retrato instantâneo.
16. Nem mesmo uma fotografia é uma “mensagem sem código”, pois requer um contexto e um texto para ser decifrada, e o mapa de Van Sant explora todas as estratégias conotativas possíveis, como efeitos de truque, pose e fotogenia, para criar uma mensagem de fragilidade e sacralidade da Terra.
17. O texto que acompanha o mapa, como a história da quase cegueira de Van Sant, explora a conotação, transformando o mapa em uma oferenda votiva para a Northern Telecom e a National Geographic Society, que o utilizam para simbolizar sua contribuição para a proteção ambiental, santificando seus objetivos comerciais.
18. A visão da Terra como frágil e delicada, promovida pelo mapa e por instituições como a National Geographic, é uma visão religiosa e não científica, que se assemelha à função dos mappaemundi medievais como narrativas visuais, e, apesar de sua perfeição cartográfica, o mapa emerge para servir ao interesse daqueles comprometidos com uma visão particular do que significa viver.
