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Ilusão de uma técnica

BARRETT, William. The illusion of technique: a search for meaning in a technological civilization. 1st ed ed. Garden City, N.Y: Anchor Press, 1978.

A Ilusão de uma Técnica

1. Wittgenstein chegou a Cambridge no outono de 1911 e, matriculado como aluno de Russell na primavera seguinte, transformou-se rapidamente de aluno em amigo e colaborador crítico.

2. Sua chegada coincidiu com um momento auspicioso, pois um ano antes Russell e Whitehead haviam publicado o primeiro volume de Principia Mathematica, obra já com forma inalterável quando Wittgenstein chegou tarde demais para colaborar nela, ainda que tenha se tornado partícipe pleno das questões que ela suscitava.

3. A imagem de três mentes extraordinárias reunidas em torno do mesmo tema permanece intelectualmente válida, ainda que fisicamente imprecisa, já que Whitehead já residia em Londres e a colaboração se dava sobretudo por correspondência, situando-se esses anos, vistos retrospectivamente, como o fim de um capítulo da civilização europeia e o início de outro na história da lógica matemática.

  • o esplendor intelectual de Cambridge antes da Grande Guerra nunca mais se repetiu
  • o momento histórico em que essas três mentes convergiram merece ser destacado

4. É raro que três mentes dessa magnitude se concentrem no mesmo tema, e a unidade momentânea entre elas ressalta ainda mais diante de suas extraordinárias diferenças pessoais, o que suscita a pergunta sobre se as filosofias individuais resultam do peso do destino ou de uma criação livre de si mesmo.

5. Russell, a figura mais pública dos três, deixa a impressão de algo estranho e não realizado em sua vida, marcado pela dupla solidão de órfão aristocrata e por contradições entre seu liberalismo humanitário e sua conduta pouco generosa com antagonistas filosóficos.

6. Whitehead pertencia a outra categoria social, herdeira de devoção ao terruño rural de East Kent, o que explica sua posterior gravitação, mesmo em filosofia, para a poesia da natureza de Wordsworth e dos românticos.

7. Na relação com a religião, Russell e Whitehead são diametralmente opostos, sendo o primeiro um racionalista inveterado cujo breve flerte com o misticismo se resumia a uma intoxicação intelectual com a matemática.

8. Os impulsos religiosos de Whitehead, ao contrário, são profundos e genuínos, desembocando num sistema metafísico que dá voz à devoção tradicional de seus antepassados locais.

9. Russell e Whitehead pertencem em boa medida à civilização do século XIX, podendo ser comparados respectivamente a John Stuart Mill e ao clima newmaniano de devoção regional e eclesiástica.

10. Com Wittgenstein situamo-nos indubitavelmente no próprio século XX, num mundo atonal cuja diferença em relação aos outros dois não é apenas de anos, ainda que Whitehead tivesse cinquenta anos, Russell quarenta e Wittgenstein apenas vinte e dois.

11. Vienense de origem, Wittgenstein expressa-se em fragmentos brilhantes próprios do modernismo, pratica uma religiosidade ascética comparável à autonegação de Kafka e encarna o genio neurótico representativo de sua época, sem excluir sua homossexualidade e os conflitos amargos dela decorrentes.

12. Diante de personalidades tão diferentes, cabe perguntar qual ideia poderosa poderia unir essas três mentes sob uma mesma bandeira filosófica.

13. Para a maioria, a lógica não constitui tema central, e a lógica matemática parece ainda mais remota, mas Principia não fazia afirmações comuns, coroando os avanços do século XIX na matematização da lógica.

14. Além de codificar a lógica, os autores buscavam reduzir as matemáticas a ela, prometendo estabelecer os fundamentos matemáticos sobre a base mais pura e simples da própria lógica.

15. Essa obra parecia realizar o antigo sonho leibniziano de uma characteristica universalis, um lenguaje lógico universal capaz de servir a todas as ciências.

16. Embora Russell e Whitehead não falassem explicitamente de técnica, e desdenhassem o pragmatismo americano por misturar filosofia com assuntos práticos, sua pretensão de um lenguaje ideal e exato fazia de Principia, na prática, a técnica das técnicas, o instrumento de pensamento mais poderoso já concebido.

I

17. Apesar das dificuldades iniciais de um texto erizado de símbolos, o prestígio de Principia cresceu rapidamente, pois sob a riqueza simbólica as ideias básicas eram simples e acessíveis, sendo justamente essa simplicidade a responsável por seu poderoso atrativo posterior.

18. O impacto inicial recaiu sobre especialistas, espalhando-se nos anos 20 entre os filósofos e consolidando-se nos anos 30, quando C. I. Lewis declarou que o livro marcava um vuelco no pensamento humano, reforçado pelo surgimento simultâneo do positivismo lógico.

19. Os positivistas anexaram o empirismo humeano à nova técnica lógica, transformando-a em arma contra o passado filosófico, declarado pseudoproblema, num esquema simplista que dividia tudo entre questões de fato e questões de lógica, fazendo a própria filosofia desaparecer ao se questionar a si mesma.

20. Essa postura não surpreende, pois desde Kant a filosofia moderna busca redefinir seu papel legítimo, e o positivismo ao menos oferecia uma resposta clara, ainda que a mais francamente suicida entre as propostas do período.

21. A lógica matemática permeava o ambiente intelectual geral, tornando-se um pons asinorum obrigatório para qualquer jovem estudante de filosofia, sustentada pela fé de que ela era técnica decisiva para todo pensamento filosófico.

II

22. Essa confiança decaiu hoje entre os filósofos, mas a crença no papel decisivo da técnica se transmitiu à cultura geral, tornando-se fé generalizada em sua capacidade de abarcar toda verdade.

23. O caso dos três filósofos ganha assim grande importância como um dos raros experimentos cruciais que a história oferece, cuja lição, segundo a advertência de Santayana, não deveria ser ignorada.

24. Se a técnica fosse decisiva na formação de uma filosofia, seria de esperar que os três, tendo se apossado do mesmo instrumento poderoso, seguissem caminhos aproximadamente paralelos, o que a realidade histórica desmentiu por completo.

25. É difícil detectar papel importante da lógica na formação das filosofias de Russell e Whitehead, já que em The Problems of Philosophy (1912) Russell desenvolve independentemente seu platonismo como rebelião contra o idealismo.

26. Em 1914, Russell proclama que a lógica é a essência da filosofia, antecipando o positivismo lógico, mas suas posições mudam com tal frequência que a lógica se revela um guia incerto e pouco conclusivo.

27. Partindo em 1912 de um dualismo tradicional entre mundo subjetivo e objetivo, Russell tenta em 1914 construir uma ponte entre mente e matéria adotando de Whitehead uma técnica lógica para derivar conceitos físicos abstratos dos dados sensoriais, sem contudo eliminar a dualidade original.

28. Em Analysis of Mind (1921), Russell avança para o monismo neutro, tomando de William James os termos e a sugestão inicial, segundo o qual existe apenas um mundo construído a partir de dados sensoriais elementares, neutros entre mental e material.

29. Esse esforço barroco e de êxito duvidoso revela que a escolha dos dados sensoriais como elementos básicos não decorreu da lógica, mas de uma fenomenologia particular anterior à técnica, a mesma técnica que, nas mãos de Whitehead, produziu resultados completamente diferentes por partir de uma visão distinta da experiência.

  • para Russell a experiência chega fragmentada em átomos separados
  • para Whitehead cada percepção sensorial revela imediatamente o mundo em seu conjunto

30. Em Human Knowledge (1948), Russell dá um giro completo e declara que a lógica não é parte da filosofia, reconhecendo que ela se tornara disciplina matemática especializada, perdendo o status de lenguaje universal sonhado por Leibniz.

31. Também em Whitehead o papel da lógica matemática não é determinante, servindo apenas de instrumento a serviço de uma intuição fundamental inserida numa visão especulativa mais ampla do universo, uma das poucas ainda sustentadas em sua época.

32. Fiel ao sentido pleno da palavra especulativa, Whitehead defendia que renunciar a essas conjeturas racionais embotava o intelecto humano, e suas palavras pouco antes de morrer sobre a decadência da filosofia especulativa como doença cultural visavam o estreito positivismo apoiado em Principia.

33. A premissa orgânica da filosofia de Whitehead, fundada em relações internas recíprocas entre as partes de um todo, contradiz a lógica extensional de Principia, que só admite conexões externas, tendo Whitehead prosseguido sua obra posterior como se a colaboração com Russell jamais tivesse ocorrido.

34. Wittgenstein, o discípulo mais jovem, foi quem mais atrelou sua evolução filosófica às fortunas da lógica matemática, construindo inicialmente uma visão total do mundo dentro dela, para depois renunciar ao seu domínio em favor da linguagem corrente, oscilando entre a aceitação incondicional e a rejeição total dessa técnica.

III

35. Ao longo do século, cada um dos três tomou seu lugar como homem inseparável de sua filosofia, concluindo-se que a lógica matemática desempenhou papel pequeno em sua formação, tendo a imagem definitiva de cada um se originado de uma área de experiência e personalidade mais profunda e anterior a qualquer técnica.

36. À pergunta sobre o que nos conduz às filosofias que adotamos, uma anedota entre Whitehead e Russell responde com humor sério: existem simplórios e confusos, sendo Russell classificado como simplório e Whitehead como confuso, distinção que ecoa a divisão jamesiana entre mentes fortes e fracas, porém em termos puramente intelectuais.

37. Essa distinção se confirma nas carreiras subsequentes de ambos, com Whitehead criando uma filosofia confusa e de vocabulário próprio, e Russell permanecendo resolutamente simplório até o fim.

38. Wittgenstein parece oscilar entre os dois extremos, exibindo ora a simplicidade do engenheiro que busca modelos concretos, ora a sutileza do artista que comunica apenas indireta e parcialmente.

39. Essa dualidade integra o conjunto de conflitos que fazem dele um moderno por excelência, justificando sua escolha como caso especial de estudo, já que seu desenvolvimento filosófico está mais explicitamente ligado à lógica do que o de Russell ou Whitehead.

40. Não se encontrando relação decisiva entre a lógica e as filosofias individuais desses três homens, isso não diminui a enorme importância filosófica do desenvolvimento da lógica moderna, cujo valor, embora mais limitado que o sonhado, revelou-se avassalador ao mostrar, num sentido kantiano, os próprios limites de seus sistemas formais e, com isso, os limites das técnicas humanas.

41. Para as expectativas de uma civilização técnica, essa conclusão reveste-se de grande importância.

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