Morada
BARRETT, William. The illusion of technique: a search for meaning in a technological civilization. 1st ed ed. Garden City, N.Y: Anchor Press, 1978.
Sem Lar no Mundo
1. A alienação, um dos temas mais profundos da cultura moderna, tornou-se também um dos mais desgastados, convertendo-se numa marca de distinção que, quanto mais é falada, mais esconde o próprio fenômeno em suas verdadeiras dimensões.
2. Alienus significa estrangeiro, alguém que não está em casa onde está, e refletir sobre o que é ter ou não ter um lar ajuda a pensar concretamente sobre a alienação, sem que a conversa informal afaste o perturbador fantasma que ela nomeia.
3. A falta de lar é bem conhecida nesta época de deslocamentos massivos, e mesmo numa sociedade estável a mobilidade constante entre subúrbios e cidades transforma nossas sucessivas casas em meras estações de passagem, como sugeria a popularidade do filme Aeroporto e a imagem do aeroporto como retrato da condição humana global.
4. A metáfora posterior da Terra como nave espacial, embora bem intencionada quanto à conservação de recursos, é desalentadora ao representar nossa falta de lar, pois deixamos de habitar o planeta como sempre fizemos ao concebê-lo como mera viagem pelo espaço vazio.
5. A falta de lar é o destino do homem moderno, tema persistente em Heidegger, cuja obra tardia busca restituir o equilíbrio mostrando como a humanidade poderia reencontrar um lar para habitar, pensar e construir, complementando as obras iniciais sobre a condição de estrangeiro essencial do homem no mundo.
6. Parece irônico que Heidegger, o mais arraigado a uma região entre os pensadores modernos, tenha sido quem mais se dedicou a esse tema, mas na verdade só uma pessoa tão enraizada em seu lugar poderia se preocupar adequadamente com a perda do lar pela humanidade.
7. Esse sentimento regional pode explicar sua atração pelo nazismo nos primeiros anos do regime, questão que a entrevista de 1966 à Der Spiegel, publicada apenas após sua morte em 1976, não esclarece completamente quanto aos motivos internos.
8. Preferindo não aprofundar mais detalhes biográficos, cabe reconhecer que Heidegger fala de um âmbito além dos análises clássicas da alienação feitas por Hegel e Marx no século XIX, pois mesmo superadas as condições que ambos apontavam, restaria uma alienação mais profundamente enraizada no próprio fato de Ser.
I. A Manhã
9. Poucas palavras despertam hoje tão pouco entusiasmo quanto Ser, remota demais diante de nossas preocupações práticas ou ideológicas, mas ao invés de descartá-la convém mergulhar no mundo cotidiano para determinar de que modo estamos nele.
10. Diferentemente de Wittgenstein, que só permite a linguagem cotidiana como medida, Heidegger move-se tanto dentro quanto fora dela para descrever as características gerais da existência corrente, usando terminologia estranha que, assimilado seu significado, perde força objetável, tornando Ser e Tempo um dos marcos filosóficos do século.
11. Seguindo essa descrição ao longo de um dia cotidiano, o despertar revela um tempo presente que já é futuro, e um espaço habitado, não físico, onde os objetos, como sapatos e utensílios, desaparecem em seu uso e só se impõem materialmente quando resistem ou falham.
12. O caminho ao trabalho revela o peso oculto na expressão banal de estar sempre a caminho de algo, e o significado de um sinal de trânsito, como o vermelho que ordena parar, não é fenômeno mental mas aspecto das próprias coisas dentro do mundo cotidiano.
13. No trem, escolhemos o lado direito para evitar o sol, estabelecendo direções espaciais por interesse próprio, não como espaço físico abstrato mas como orientação vivida.
14. O jornal matinal abre um espaço mais vasto, aniquilando distâncias e trazendo os estremecimentos da história como possibilidade humana ao mesmo tempo aterradora e desafiadora, ainda que às vezes prefiramos fugir dela nas palavras cruzadas.
15. Ao longo de tudo isso não houve ego nem si mesmo isolado, apenas o anonimato cotidiano de sermos um passageiro entre muitos, tranquilidade que Sartre, enfeitiçado pelo mundo teatral de Proust, envenenaria com a mirada alheia, distorção que Heidegger, ao contrário, capta como emocional e eticamente neutra, salvo se persistir indefinidamente.
16. As palavras cruzadas oferecem um respiro necessário diante da frustração sempre no horizonte que nos chama a ser, nunca completos mas sempre a caminho.
17. Vivido dessa maneira, um dia inteiro revela nossa existência tal como realmente a vivemos, entrelaçando passado, presente e futuro, com o poder silencioso do que ainda não é mas será.
18. Ao contrário das Investigações de Wittgenstein, sem estrutura definida, o tratamento heideggeriano do cotidiano segue estrutura dramática que lembra a parábola religiosa da salvação, narrando a queda do ser humano no mundo e seu chamado, através da angústia e da morte, à autenticidade.
19. Esse encontro com a angústia e a morte não oferece consolo celestial mas apenas o descobrimento da própria nada, descobrimento contudo libertador, pois a liberdade humana fundamental é a liberdade para a morte, que nos permite assumir autenticamente as tarefas cotidianas.
20. Embora angústia e morte pareçam temas sensacionalistas para filósofos mais formais, ambas são partes integrais da vida, e o propósito de Heidegger ao tratá-las não é terapêutico nem moral, mas iluminar nossa condição, questão que remete à pergunta pela verdade, unindo o Heidegger jovem e o tardio sem ruptura drástica.
II. A Tarde
21. A questão da verdade oscila entre parecer remota e óbvia demais, prejuízos que podem coexistir e até se reforçar, escondendo a origem de nossa alienação num assunto aparentemente trivial.
22. A tradição, a partir de Aristóteles, definiu a verdade como correspondência entre pensamento e realidade, fórmula codificada na Idade Média como adaequatio intellectus et rei, aparentemente óbvia como senso comum mas na verdade um nível de abstração gerador de enigmas.
23. Esses enigmas surgiram com o dualismo cartesiano entre mente e matéria, transformando a verdade numa questão de coerência entre conteúdos da própria consciência, o que elimina alguns acertijos mas nos aprisiona no fantasma do subjetivismo moderno.
24. Deixando de lado esses acertijos acadêmicos, um episódio cotidiano ilustra melhor a questão: distraído em meu trabalho, sinto vaga inquietação até que um amigo aponta um quadro torto na parede, revelando algo que eu via mas não percebia.
25. Nesse incidente trivial testemunhamos o próprio acontecer da verdade, contrariando a explicação filosófica usual que reduz o episódio à correspondência entre a afirmação e o fato.
26. Comparar uma proposição com um fato exigiria que ambos fossem igualmente acessíveis à mente, processo absurdo que dissecaria artificialmente a proposição de sua situação concreta de funcionamento.
27. Se o amigo apenas dissesse mire, apontando o quadro, o mesmo efeito de trazer algo oculto à luz ocorreria sem qualquer correspondência mental, mostrando que a linguagem, infectada pela ideia mental cartesiana, na verdade descobre algo dentro do mundo aberto, não dentro da cabeça.
28. As antigas tiras cômicas que desenhavam a verdade como uma lâmpada acesa na cabeça seguiam o modelo cartesiano que ainda hoje nos influencia, quando na verdade a luz revela uma porção do mundo, não algo interior à mente.
29. Libertos da noção da proposição como único lugar da verdade, podemos reconhecer outras formas de iluminação, como a verdade encarnada nas obras de arte, capaz de iluminar todo um período do espírito humano de modo irredutível à estrutura proposicional.
30. Isso se relaciona com a controvérsia pragmatista de James e Dewey contra a teoria da correspondência, controvérsia em que, contrariando o desdém de Russell, os pragmatistas revelam-se mais sofisticados, ainda que não tenham se desprendido completamente da própria noção de correspondência nas verificações diretas.
31. A palavra grega alethes, não-oculta, não fala de correspondência mas de emergência do oculto ao aberto, sentido que Heidegger não derivou de mera etimologia, mas alcançou através de reflexão sobre a teoria da evidência de Husserl, transformando a fenomenologia mais radicalmente do que sua análise da angústia e da morte.
32. Os gregos não possuíam propriamente uma palavra para verdade, apenas para o evidente e manifesto, o que constitui não uma deficiência mas uma vantagem que nos ensina a buscar ta alethea, as coisas evidentes do cotidiano.
33. Assim, a verdade acompanhou todo o percurso pelo dia cotidiano desde o despertar, revelando que estar em qualquer mundo é estar na verdade, por mais modesto que esse mundo revelado seja.
34. O próprio dia vivido é algo manifesto embora não capturável como as coisas presentes nele, sendo mais próximo e presente que qualquer coisa contida em seu interior.
35. Esse dia presente não se reduz a uma abstração de vinte e quatro horas nem a uma data de calendário, pois o que buscamos captar é precisamente o é dessa presença, irredutível a qualquer marcação temporal.
36. Tampouco a presença se reduz ao instante presente medido pelo relógio, pois o contar dos segundos já ocorre dentro dessa presença englobante que jamais se deixa capturar pelas formas do tempo.
37. Chegamos assim ao Ser como esse simples e envolvente fato da presença, realidade nem remota nem abstrata que permeia nosso dia cotidiano, ainda que a palavra Ser, carregada de distorções históricas, seja difícil de manejar sem cair na linguagem própria das coisas.
38. No coração do que deveria ser mais luminoso, a própria verdade, tropeçamos com um mistério que nos aliena, cabendo perguntar se não fomos nós mesmos, em nossa liberdade, que escolhemos não nos sentir confortáveis com ele.
III. A Noite
39. Podemos ter dado a falsa impressão de possuir mais verdade do que realmente temos, sugerindo um universo mais radiante do que conhecemos.
40. Os medievais formularam que Ser e verdade são convertíveis dentro da radiância do teísmo cristão, mas hoje o mundo em que nos movemos contém também grandes zonas de escuridão, pois só uma criatura capaz de verdade é também capaz de mentira.
41. A história grega ilustra essas contraditórias tendências humanas, sendo os gregos o povo da luz que extraía cada detalhe para um primeiro plano iluminado, ao mesmo tempo produzindo os mais espetaculares exemplos de traição e engano, justificando a preservação do Letheia dentro da própria palavra para verdade.
42. Édipo encena a tragédia entre luz e escuridão, cegando-se justamente ao alcançar a sabedoria, ensinando que verdade e mentira sempre se entremeiam.
43. O substituto secular desse drama é a psicanálise, onde o paciente também luta pela luz contra a escuridão em busca da verdade sobre si mesmo, luta conhecida como resistência, ainda que essa palavra já invoque a liberdade e chame a atenção da filosofia.
44. Existe assim relação íntima entre verdade e liberdade, sendo a capacidade de mentir não mero assunto psicopatológico privado mas consequência trágica da própria liberdade humana.
45. Essa mescla inextricável entre verdade e mentira também afeta nossos esforços teóricos de compreensão, pois toda teoria grandiosa, como a mecânica newtoniana, a lógica de Russell e Whitehead, a sexualidade infantil freudiana ou o materialismo histórico marxista, tende a cegar-nos ao torcer toda a experiência para caber em seu arcabouço.
46. Tornamo-nos assim totalitários da mente, vítimas de nós mesmos por medo do mistério, esquecendo que a realidade acessível está sempre contida na presença englobante de tudo o que existe.
47. Retomando o exemplo do quadro torto, esse fato presente na sala remete à presença mais ampla da casa e do exterior, pois Ser é estar dentro de um mundo cujos limites se estendem infinitamente.
48. Caminhando ao exterior nesta noite de inverno, as estrelas presentes, a lua nova e as constelações de Órion e Sírio marcam a passagem das estações dentro dessa presença noturna.
49. Sabemos, contudo, que essas estrelas estão distantes e que sua luz talvez já não corresponda mais a sua existência atual, revelando o eterno conflito grego entre aparência e realidade também presente nessa noite clara.
50. Esse engano só se configura se concluirmos precipitadamente, pois foi dentro da presença dos fenômenos que os astrônomos calcularam a velocidade da luz, unindo seus resultados através de séculos e continentes na presença comum da linguagem.
51. Diante da longa vida humana frente ao insondável pano de fundo estelar, confrontamo-nos com o mistério de por que existe um mundo, formulado por Leibniz como pergunta e por Wittgenstein como assombro místico ante o simples fato de o mundo existir.
52. A resposta tradicional de Leibniz remete a um ser necessário, Deus, cuja existência decorreria de sua própria natureza, posição sustentada pelo teísmo ocidental que moldou como os entes se manifestaram à humanidade por séculos.
53. Esse teísmo, porém, apenas desloca o mistério para a natureza divina, tornando-a incompreensível apesar da multiplicação de atributos, já que, segundo a observação humeana, tudo que imaginamos existente também podemos imaginar inexistente.
54. Ainda que esse arcabouço teísta tenha mantido certa união do homem ocidental com o Ser através da prática religiosa, seu afastamento do mistério presente pode ter causado dano à consciência ocidental, deixando a época alienada sem raízes agora que esse arcabouço também se afastou.
55. Heidegger insiste que não podemos afastar o mistério de nós porque estamos sempre dentro dele, mistério oculto na própria natureza privativa da palavra grega para verdade, a-letheia, que preserva o que permanece oculto mesmo no que se desvela.
56. Essa estrutura de acertijo permeia tanto as verdades mais corriqueiras do cotidiano quanto as especulações sobre galáxias distantes, remetendo de volta ao trivial exemplo do quadro torto e à envolvente presença noturna das estrelas.
57. Nenhuma descoberta futura eliminará essa situação, pois ciência conhecida e desconhecida se captam sempre dentro do envolvente fato da existência, e mesmo novas revelações que porventura chegassem não dissolveriam o mistério presente desde a primeira consciência humana até a última.
58. Basta, porém, a meditação desta noite sob as estrelas, num estado de ânimo nem sombrio nem exaltado, bastando estar presente para que o mistério também esteja, como o escolar que responde presente ao ser chamado pelo nome.
59. Um ruído no matagal e o pio distante de uma coruja lembram as demais criaturas terrestres que não se atormentam com essa pergunta, sendo o ser humano a única espécie capaz de perceber tal mistério.
60. É nesse plano que se deve enfrentar a alienação final do ser humano, mais profunda que qualquer fenômeno cultural ou social, sendo justamente essa condição de estranheza o peculiar lar onde o homem se sente mais próximo de tudo o que existe, de modo que qualquer utopia social que pretenda eliminar facilmente a alienação apenas alienaria a humanidade mais verdadeiramente de seu próprio ser.
61. Consciente de sua morte, a humanidade também carrega o peso deste outro mistério, mas em vez de fardo, esse enfrentamento pode ser antes um dom exclusivo que nos torna íntimos de tudo o que é, fazendo com que, nesta noite, as estrelas brilhem como velhas e confiáveis amigas, e o cosmos permaneça nosso na medida em que sigamos capazes de nos assombrar diante de sua estupenda presença.
