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Informática, cultura?

BRETON, Philippe; RIEU, Alain-Marc; TINLAND, Franck. La Techno-science en question: éléments pour une archéologie du XXe siècle. Seyssel: Champ vallon, 1990.

** A noção de cultura informática: ambiguidade ou pluralidade **

1. O surgimento da noção de cultura informática, cuja localização se busca aqui com maior precisão, é contemporâneo de uma difusão crescente dos equipamentos informáticos e mais particularmente dos microcomputadores, transferindo-se para essa nova noção, de contornos incertos mas cujo caráter plural será um trunfo concreto para a difusão de um novo modo de pensamento, toda a ambiguidade que presidira aos debates sobre a natureza da informática como disciplina, abordando a conclusão do capítulo a questão difícil, e que admite mais de uma resposta, da formação em informática implicada pela consideração dessa nova cultura.

O nascimento da noção de cultura informática

2. É difícil, no estado atual dos conhecimentos nesse domínio, reconstituir com precisão a história de tal noção, e em particular seu lugar e momento de surgimento, parecendo porém quase certo que ela se desenvolve a partir de meados dos anos setenta e que vem dos Estados Unidos, mais precisamente da Califórnia.

3. A ideia de uma nova cultura associada à informática é contemporânea do projeto mais amplo de uma contracultura elaborado pelo movimento underground que mobilizava parte da juventude americana desde os anos sessenta, tendo a microinformática, destinada a permitir partilhar a informação como fator de democratização social, acabado de surgir dentro desse movimento, anunciando o governador da Califórnia, Jerry Brown, que soube conciliar e expressar as diferentes tendências da mudança em curso, o advento, graças à microinformática, de uma cultura inteiramente diferente.

4. A contestação da guerra do Vietnã, e do papel que os computadores nela desempenharam, serviu de catalisador para esse movimento crítico, tendo como alvos principais da juventude, de um lado, os grandes sistemas centralizados onde a decisão se concentra no topo, e de outro a política do segredo a eles associada.

  • os computadores da segunda informática, integrados a sistemas de armamento complexos, constituíam o nervo informacional da guerra nuclear e serviam também para planejar bombardeios e organizar reagrupamentos de população na Indochina
  • no domínio civil, a informática era instrumento quase exclusivamente nas mãos dos dirigentes, sendo os anos sessenta e setenta os dos grandes centros de cálculo onde reinavam especialistas informatas elaborando em sua torre de marfim projetos de gestão automatizada dos sistemas sociais, concebidos, à semelhança dos grandes sistemas militares, segundo modelo hierárquico de concentração da decisão

5. Esse período gerou fortes tensões sociais e culturais, tendo, apesar de algumas tentativas românticas ou de origem religiosa, como a de J. Ellul, voltada a questionar a própria técnica, uma das formas principais assumidas pela contestação desse sistema tecnocrático consistido em opor a uma técnica centralizadora uma técnica que permitisse o acesso de todos ao instrumento e, por conseguinte, à informação e à decisão, tendo nascido a microinformática dessa contestação positiva e sendo, do mesmo modo que fora ocasião de crítica global a um sistema, portadora de um projeto de sociedade global, sendo desse contexto que surge o impulso original dado à noção de cultura informática.

O papel de Norbert Wiener

6. Para responder ao que continha esse projeto de sociedade do qual a nova cultura informática era portadora, é preciso remontar aos anos quarenta, quando Norbert Wiener, fundador da cibernética, elaborava uma nova visão do homem que privilegiava seu comportamento de comunicação e insistia no papel novo que as máquinas de comunicar estavam destinadas a desempenhar.

7. Wiener era, como já se viu, uma espécie de anarquista racional por sua preocupação igualitária com a transparência social e a democratização do acesso à informação, e por sua vontade de transformar as novas máquinas em parceiras do homem em sua luta contra a desordem e a entropia social, não sendo a ele, em todo caso, que se devia o fato de os primeiros computadores serem, de um lado, máquinas gigantescas, embora nada tecnicamente impedisse que fossem pequenos, e de outro, máquinas de uso quase exclusivamente militar no início.

8. Ainda que em nenhum momento empregue a palavra, Wiener está na origem da maioria dos grandes temas da futura cultura informática, bastando para se convencer disso ler ou reler Cibernética e sociedade, publicado na França em 1953, sendo ele quem inspira os californianos que lançam a microinformática dentro do projeto contracultural dos anos sessenta e setenta.

A cultura contra a revolução

9. A revolução informática era tema típico da segunda informática que os informatas dos anos sessenta haviam tentado popularizar recorrendo de bom grado à metáfora política, sendo esse tema progressivamente substituído pelo de cultura informática, menos radical e menos brutal, tendo os anos oitenta amplificado consideravelmente essa nova ideia ao mesmo tempo em que a desprendiam progressivamente, tal como seus próprios promotores dela se haviam desprendido ao se tornarem frequentemente os novos quadros da informática, dos acentos bucólicos da contracultura que lhe dera origem.

10. Parte do sucesso da ideia de cultura informática deve-se sem dúvida ao fato de não se perguntar para que serve a cultura, sendo esta uma atividade como que natural para o homem em sociedade, difundindo-se o tema da cultura informática justamente num momento em que se coloca a questão da real utilidade da informática.

  • os progressos dos equipamentos, por volta de 1970, tinham sido fulgurantes, em miniaturização, rapidez e custo, sendo os dos programas que permitem sua utilização um pouco menos expressivos
  • as aplicações da informática esbarravam em sérias dificuldades assim que se saía dos dois domínios tradicionais do cálculo científico e da gestão
  • os projetos de tradução automática não avançavam, tampouco os sistemas integrados de gestão, sendo os usos civis da informática raramente inovadores
  • certos especialistas se interrogavam sobre o fenômeno do subemprego generalizado do equipamento, potente demais para a maioria das aplicações

11. Nesse contexto era extremamente cômodo falar de cultura informática, pois essa formulação permitia evitar abordar de modo frontal a questão das finalidades e dos usos da informática, já que, sendo ela uma nova cultura, não precisaria servir para algo, fazendo parte naturalmente da paisagem da modernidade, cabendo perguntar quantas instituições e empresas se informatizaram sem que a questão essencial de para que isso serviria fosse sequer levantada, tendo apenas alguns sociólogos denunciado, na época, os efeitos perversos da precedência da oferta técnica sobre a demanda social.

12. No plano prático, a invenção do Basic, corolário do microcomputador, reforçou essa ideia de que a informática poderia doravante ser partilhada por todos, tornando-se o código esotérico reservado a poucos profissionais, graças a essa nova linguagem de programação, instrumento que tornava acessível a todos a manipulação dos computadores.

A nova imagem da informática

13. Há, portanto, à saída da segunda informática, a dos sistemas centralizados e dos especialistas informatas, por volta de 1978, convergência de vários interesses, convindo a nova noção de cultura informática, de fato, a todos.

  • os profissionais viam nela a ocasião de um alívio da pressão que sobre eles se exercia, passando do estatuto de tecnocratas centralizadores ao de atores e promotores de uma nova cultura
  • os defensores da corrente antitecnocrática que utilizavam a técnica para impor valores novos, menos hierárquicos, encontravam nela uma noção militante bem adaptada a seus projetos, contribuindo os ecologistas, por exemplo, para difundir a ideia de que a informática era uma técnica natural e convivial
  • aqueles que, por exemplo no setor sociocultural e socioeducativo, suportavam mal a exclusão de parte do público de um saber cada vez mais comentado, encontraram na defesa da cultura informática o meio de atenuar a clivagem tradicional entre o especialista e o leigo

14. A nova imagem da informática forjada a partir desse molde que é a cultura informática reúne, portanto, interesses que de outro modo seriam divergentes, sendo a contrapartida desse consenso aparente a extrema imprecisão dessa noção, que acaba dizendo tudo o que se quer que ela diga, sem por isso apagar certos problemas aos quais supostamente deveria responder.

15. Quaisquer que sejam as aparências, os grandes sistemas centralizados continuam existindo e os informatas permanecem especialistas inacessíveis em setores essenciais.

  • a rede vem recolocar o microcomputador num grande circuito cuja parte permanece opaca para seus usuários
  • o perigo bem real representado pela delinquência informática, como o desvio de fundos mediante acesso ilícito aos programas do computador de um banco, reforça essa tendência ao segredo e à segurança que a microinformática havia atenuado
  • a telemática inaugura o reinado dos servidores de sentido único, em troca de mensagens ditas horizontais cujo alcance permanece muito marginal
  • o efeito alfabetizador do Basic revelou-se em parte uma ficção, pois, mesmo podendo introduzir ao espírito da programação, essa linguagem para iniciantes tem alcance limitado demais para ser equiparada a uma prática efetiva da informática
  • a difusão dos microcomputadores esbarra, por fim, nos mesmos problemas dos demais computadores, sendo preciosos para certos usos locais, como o processamento de texto, mas rigorosamente inúteis para a maioria das aplicações para as quais se imaginavam indispensáveis

16. A ideia de uma cultura informática não é, no entanto, inteiramente um mito, na medida em que responde em parte ao problema colocado pela integração do modo de pensamento informático em nossa vida cotidiana, sendo preciso de algum modo integrar os efeitos profundos e duradouros da presença dos computadores no cerne dos dispositivos intelectuais ou informacionais até então de exclusiva competência do espírito humano.

17. A informática é a ponta de lança de uma nova faceta da cultura humana, existindo doravante, ao lado da cultura artística, da cultura literária e de todos os diferentes elementos que compõem nosso mosaico cultural, a cultura material, aquela que se forma em nosso contato cotidiano com os objetos técnicos e as máquinas.

18. Por longo tempo, a cultura dos homens existiu em oposição, ou em indiferença, às criações da técnica, consistindo a grande mutação da época contemporânea no lugar novo que a técnica passou a ocupar nos valores de nossa vida cotidiana e, por conseguinte, em nossa cultura, mutação diretamente relacionada à informática, já que, onde as técnicas energéticas concerniam apenas a funções secundárias, as técnicas informacionais tocam nossas maneiras de pensar, raciocinar e comandar, tendo a técnica adquirido importância excessiva, quer se queira ou não, para não ser integrada e pensada no interior de nossa cultura.

Cultura informática e formação

19. Não se poderá abordar o fim do século raciocinando como se a técnica ainda fosse a do século XIX, colocando nesse sentido a cultura material, e portanto a informática, verdadeiro problema de formação que não concerne apenas às gerações vindouras ou às que estão em escolarização, mas, quase com urgência, também aos públicos adultos que veem diante de seus olhos o mundo mudar em ritmo acelerado, encontrando-se todos os responsáveis por formação atualmente confrontados com a questão de saber como integrar o saber informático, e em que nível, ao conjunto dos conhecimentos que propõem, notadamente aos adultos.

20. Três interpretações diferentes podem, a grosso modo, ser dadas à noção de cultura informática num contexto de formação, conforme se situe num nível de vulgarização, oferecendo conhecimento mínimo do que é a informática e de seus desafios econômicos, sociais e intelectuais, podendo-se nesse sentido proceder com a informática como com qualquer outra técnica; num nível que se poderia chamar de aprendizado da comunicação com as novas máquinas, permitindo certo domínio do que, no ambiente de cada um, é transformado pelos computadores; ou num nível de aprendizado técnico propriamente dito, em particular da programação informática, que permitiria, em certa medida, praticar a informática.

21. A escolha de um desses níveis depende evidentemente do público e dos objetivos de formação, parecendo no entanto que o nível do aprendizado da comunicação com as novas máquinas informáticas é sem dúvida o mais próximo das realidades atuais e, em todo caso, o que melhor corresponde às necessidades da maior parte do público.

22. Cabe perguntar se o aprendizado da programação é de fato necessário para quem jamais terá de escrever um programa ou definir uma aplicação em termos informáticos, não podendo a capacidade de formular um problema em termos utilizáveis pelo computador ser atividade de amador, e se alguns nela conseguem sem serem profissionais, é porque nela dedicam frequentemente mais tempo e energia do que os próprios profissionais.

  • o aprendizado da programação pode, paradoxalmente, por vezes afastar de uma verdadeira formação cultural em informática, como mostram Joseph Weizenbaum ou Sherry Turkle ao analisarem o caso de programadores mentalmente enclausurados no espaço do computador e, por isso, incapazes, por uma espécie de fanatismo lógico, de conceber produtos utilizáveis, prevalecendo a estética do programa sobre suas finalidades

23. A vulgarização tradicional, ao contrário, parece ser abordagem insuficiente no caso da informática, não dando acesso às verdadeiras chaves que permitem dominar o instrumento informático, cabendo perguntar se as transformações esperadas em todos os domínios em razão do uso dos computadores não deveriam antes ser experimentadas do que narradas ou desenhadas, e se o essencial da técnica, sobretudo no domínio da informação, não decorreria de um gesto mental que é preciso poder repetir por si mesmo, sendo então talvez o complemento indispensável da vulgarização justamente o aprendizado da programação.

24. Saber utilizar um objeto informático nunca é redutível a uma simples abordagem técnica de manipulação de programa, do mesmo modo que um automóvel é sempre mais do que a mecânica que o compõe, sendo o uso da moeda eletrônica, por exemplo, verdadeiro problema de cultura técnica no sentido de exigir domínio do conjunto dos processos nele envolvidos.

  • é preciso, em certos casos, formar para a utilização de cartões de crédito, sob pena de ver certas pessoas perderem a capacidade de gerir o orçamento familiar
  • muitos empregados e quadros ganhariam menos em saber escrever um programa em Basic do que em dispor de elementos de cultura técnica que lhes permitissem negociar concretamente com os informatas que, frequentemente arrebatados pelo espírito da racionalidade, esquecem que a lógica nunca é o único elemento de um problema dado

25. Os objetos informáticos estão destinados a povoar cada vez mais frequentemente nosso ambiente, e, embora seu domínio não exija necessariamente conhecer os componentes e programas que estão sob o capô, nem por isso deixa de exigir sua condução saberes específicos que só a formação pode assegurar em grande escala, com vistas a reduzir as desigualdades já flagrantes nessa matéria.

26. A questão colocada hoje não seria a da comunicação entre o homem e as máquinas que o cercam por todos os lados, estando-se tentados a ver nos objetos técnicos apenas sua função de uso, função essa pervertida pela ideia de que os objetos devem ser fáceis de usar, contribuindo largamente as técnicas de venda atuais, notadamente a publicidade, para gerar essa ilusão.

27. As máquinas de hoje não são, no entanto, simples de usar, melhorando sem dúvida nossa vida, mas ao preço de uma complexidade crescente que exige aprendizado e formação específicos, tornando-se as máquinas verdadeiras parceiras que é melhor conhecer antes de utilizar, e cujas regras próprias de funcionamento é preciso respeitar para poder utilizá-las corretamente, sendo preciso, em suma, aprender a comunicar com os objetos, o que era aliás a grande mensagem de Norbert Wiener, sem contudo ver neles um substituto de humanidade, sendo as máquinas de espécie diferente da do homem, e não podendo nossa comunicação com elas prescindir, por exemplo, de certo espírito de dominação sem violência que temos de exercer sobre elas.

28. Todo um mundo de valores novos se abre assim diante de nós, tendo já, de fato, sem sabê-lo, dado lugar às máquinas em nossa cultura cotidiana, sendo porém apenas uma verdadeira formação para a cultura material capaz de reduzir a anarquia das práticas e aumentar a convivência do homem com seu ambiente, sendo o conteúdo de tal formação, voltada à comunicação com as novas máquinas, mais fácil de definir em seus princípios do que de elaborar na prática, não podendo a formação para a cultura informática excluir de todo nem a prática da programação, nem a vulgarização dos conhecimentos na matéria, residindo porém o desafio antes na aquisição de um domínio concreto do que é cotidianamente transformado pelos computadores e pela maneira informática de pensar.

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