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Kant

Tópicos do capítulo referente à “Crítica da Razão Pura”, do livro “Kant, Vida y Doctrina” de Ernst Cassirer. Trad. Wenceslao Roces. Fondo de Cultura Económica, 1948.

As grandes ideias centrais

1. As reflexões da crítica da razão partem do conceito de metafísica e das vicissitudes que atravessou ao longo do tempo, consistindo a contradição interna de toda sua história no fato de pretender ser instância suprema para o problema do ser e da verdade sem ter criado, em seus próprios domínios, norma de certeza, desafiando a sucessão de sistemas todo intento de trajetória segura de ciência.

2. Ainda que a metafísica pareça impossível como ciência, permanece necessária como dote natural, revelando-se falso todo intento de resignação diante de seus problemas fundamentais, mostrando-se igualmente inaceitáveis o dogmatismo, que nada ensina, e o ceticismo, que nada ensina nem promete.

3. Chegou-se, ao cabo de todos os esforços espirituais dos séculos, a ponto em que não é possível avançar nem retroceder, sendo tão impossível resolver os problemas resumidos sob o nome de metafísica quanto renunciar à sua solução.

4. O matemático, o homem de engenho e o filósofo da natureza não escapam ao impulso interior que os leva a tentar o campo metafísico, questionando-se quem são e de onde procede o universo, sendo o astrônomo particularmente compelido a tais indagações, entrando já no terreno metafísico com o primeiro juízo que emite, acendendo a crítica da razão pura sua tocha não sobre as regiões misteriosas além dos sentidos, mas sobre os recantos obscuros do próprio entendimento.

5. A Crítica da razão pura não vem tratar novamente o objeto da metafísica, mas ajuda a compreender mais profundamente seu problema e a descobrir as primeiras raízes daquela em nosso entendimento.

6. Fica assim expresso o primeiro contraste característico da teoria kantiana frente aos sistemas anteriores, sendo a metafísica antiga ontologia que partia de afirmações gerais sobre o ser para depois penetrar no conhecimento das funções especiais das coisas, aplicando-se isso tanto ao empirismo quanto ao racionalismo, ambos partindo de determinada afirmação sobre a realidade da qual derivam as demais teses.

7. Surge aqui a primeira objeção kantiana: o orgulhoso nome de ontologia deve ceder lugar ao modesto título de simples analítica do entendimento puro, invertendo-se a relação entre ser e problema, pois enquanto antes se tomava qualquer estrutura do mundo objetivo como início seguro, agora exige-se explicar previamente o que significam em geral o conceito de realidade e o postulado da objetividade, revelando-se esta como problema originário da razão.

8. Isso se esclarece ao remontar ao embrião da crítica da razão presente na carta a Herz de 1772, na qual Kant afirma que o problema da relação entre a ideia e o objeto constitui a chave de todo o mistério até então oculto da metafísica, insatisfazendo-lhe as teorias anteriores por reduzirem o problema à simples receptividade do espírito ou por atribuírem essa capacidade a algum deus ex machina inato.

9. Essa solução mítica revela-se desnecessária ao compreender-se que o problema geral do objeto do conhecimento não é tanto metafísico quanto lógico, pois a antítese entre ideia e objeto não expressa dois caracteres do ser absoluto, mas determinada qualidade e orientação do juízo, sendo o suposto de validade necessária e geral aquilo em que consiste nossa própria consciência da verdade.

10. Somente na Crítica da razão pura, nos capítulos sobre a dedução transcendental das categorias, essa clareza se completa, embora já esboçada na carta a Herz.

11. Kant insiste em ser necessário concordar sobre o que se entende por objeto das ideias, concebível apenas como algo igual a X, encontrando-se na relação de todos os conhecimentos com seu objeto algo necessário que determina a priori sua concordância mútua, exemplificando-se essa unidade sintética com o conceito de triângulo.

12. A necessidade do juízo não provém da unidade de um objeto além do conhecimento, mas constitui o único sentido concebível da ideia de objeto, sendo a existência de juízos incondicionalmente certos, e não a existência de um mundo de coisas, o que faz existir para nós uma ordenação de objetos.

13. Fica assim caracterizado o ponto de partida da teoria kantiana em oposição a toda formulação metafísica anterior, recorrendo o próprio Kant, no prólogo à segunda edição da Crítica, à comparação de sua revolução de pensamento com a façanha de Copérnico.

14. Kant explica que, tendo o pressuposto de que os conhecimentos deveriam ajustar-se aos objetos fracassado nas tentativas de conhecimento a priori, cabe tentar o inverso, supondo que os objetos se ajustem ao conhecimento, à maneira de Copérnico ao fazer girar o observador em vez do firmamento.

15. Fazer girar o espectador consiste em desfilar diante de si todas as funções de conhecimento de que dispõe a razão, representando-as uma a uma quanto ao seu tipo de vigência, sem que se possa permanecer fixo em determinado ponto no cosmos do conhecimento racional.

16. Existe para nós forma determinada de objetividade espacial que devemos compreender não a partir de espaço absoluto, mas das leis da construção geométrica; existe coesão sistemática entre os números derivada do método de numeração; e existe o conjunto dos corpos físicos, ou natureza, que também deve ser compreendido não pela existência empírica dos objetos, mas pela peculiaridade da função empírica de conhecimento.

17. A metafísica como ontologia geral só conhece um tipo de objetividade, substâncias que existem, mas para o sistema da razão existem necessidades imanentes puras e pretensões objetivas de validade que pertencem a tipo completamente distinto, não expressável sob a forma de existência.

18. Dessa classe é a necessidade manifesta nos juízos éticos e estéticos, existindo também, em sentido próprio, o reino dos fins traçado pela ética e o reino das formas puras revelado pela arte, existência distinta da existência empírica das coisas no espaço e no tempo, por descansar em princípios próprios de plasmação.

19. É a variedade encontrada na própria razão, em suas orientações fundamentais, que serve de veículo à variedade dos objetos, devendo chegar-se a conhecimento sistemático dela, pois o conceito de razão consiste em poder prestar contas de nossos conceitos e afirmações, arrancando a revolução do pensamento da reflexão da razão sobre si mesma antes da reflexão sobre os objetos.

20. Traça-se aqui a modalidade peculiar de dois conceitos fundamentais decisivos para o problema da crítica da razão: a subjetividade kantiana e o transcendental kantiano, que se completam e determinam mutuamente na atitude copernicana.

21. Kant chama transcendental todo conhecimento que verse não sobre os objetos, mas sobre nosso modo de conhecê-los, sendo possível a priori, de modo que nem o espaço nem qualquer determinação geométrica são em si transcendentais, mas apenas o conhecimento de que essas ideias não têm origem empírica.

22. Do mesmo modo, os conceitos de magnitude, número, permanência ou causalidade não são transcendentais em si, mas apenas a teoria segundo a qual todo conhecimento da natureza descansa neles como condições necessárias, valendo o mesmo para a liberdade em relação à consciência do dever.

23. Compreende-se assim em que sentido, do ponto de vista transcendental, deve reconhecer-se subjetividade a esses conceitos fundamentais, significando essa subjetividade exatamente a ideia copernicana de que deve girar o espectador, indicando o ponto de partida de certas leis do conhecimento, e não do objeto.

24. Desaparece assim o sentido secundário do subjetivo como individual e caprichoso, expressando o conceito aqui empregado sempre fundamentação em método necessário e lei geral da razão, não significando o giro subjetivo da teoria do espaço a determinação de sua essência pela análise psicológica, mas pela compreensão da natureza do conhecimento geométrico.

25. Partir da peculiaridade da função de conhecimento para determinar nela a peculiaridade do objeto é a única subjetividade aqui defendida, explicando-se assim tanto os números a partir do princípio da numeração quanto a forma dos imperativos éticos a partir da certeza da liberdade, sem confundir essa subjetividade da razão com a do capricho psicofísico.

26. Esse critério fundamental destaca-se ainda mais claramente em reflexões e apontamentos soltos de Kant, alguns anteriores à redação definitiva da Crítica, que permitem restabelecer a trajetória dos conceitos de modo mais vivo que a exposição dos resultados finais.

27. Kant pergunta se a metafísica pode inventar algo, respondendo que sim quanto ao sujeito, mas não quanto ao objeto, aseveração que, tomada isoladamente, apenas admitiria metafísica sobre a alma sem diferir substancialmente do espiritualismo dogmático anterior.

28. Kant estabelece fórmula mais precisa ao afirmar que a metafísica não trata de objetos, mas de conhecimentos, complementando a subjetividade a que tende, distinta da subjetividade da natureza humana de Locke e Hume, manifestando-se antes nas ciências, na construção geométrica, na numeração, na observação empírica ou nos experimentos físicos.

29. Assinala-se assim o abandono do caminho da antiga ontologia, mantendo-se porém o conceito de metafísica aprofundado no sentido subjetivo, sendo o objetivo das ciências seus ensinamentos e o subjetivo seus princípios, exemplificando-se com a geometria vista objetiva ou subjetivamente.

30. Define-se metafísica como a ciência dos princípios de todo conhecimento a priori e do que deles deriva, contendo a matemática esses princípios sem ser ciência sobre sua possibilidade.

31. Também a filosofia transcendental deve tratar das formas de objetividade, mas estas só lhe são acessíveis através de determinada forma de conhecimento, sendo seu material sempre já formado, buscando a análise transcendental descobrir como se representa a realidade através da geometria, da física matemática, da intuição artística ou do dever moral.

32. Não há resposta possível para o que seja a realidade em si desligada das concepções espirituais específicas, devendo a metafísica, para reclamar conteúdo próprio, ser metafísica das ciências, da matemática e do conhecimento da natureza, ou metafísica da moral, do direito, da religião, da história.

33. Ao resumir essas múltiplas direções na unidade de um problema, não se pretende fazê-las desaparecer, mas iluminar cada uma em sua peculiar condicionalidade, tendo a filosofia como ponto de partida necessário a totalidade da cultura espiritual, buscando esclarecer sua estrutura e as normas de validade geral que a governam.

34. Compreende-se assim plenamente que a tocha da crítica da razão não ilumina as zonas misteriosas além dos sentidos, mas os recantos obscuros do próprio entendimento, entendido este não psicologicamente, mas como a totalidade da cultura do espírito, abrangendo a ciência e suas premissas axiomáticas e as ordenações intelectuais, éticas e estéticas demonstráveis pela razão.

35. O que na vida empírico-histórica aparece solto e ao sabor de circunstâncias fortuitas deve ser visto pela crítica transcendental como necessário a partir de fundamentos primeiros e exposto como sistema, não possuindo a filosofia mais território privativo, mas concebendo a relação das funções fundamentais do espírito em sua verdadeira universalidade, sendo o cosmos dessas forças o novo objeto que a filosofia ganhou.

36. Ao esclarecer a estrutura da matemática, não se trata de desenvolver o conteúdo particular dos princípios matemáticos, mas de evidenciar o método geral sem o qual não existiriam princípios, baseando-se toda prova geométrica em intuição concreta e isolada, mas formulando juízo sobre totalidade infinita de formas.

37. Questiona-se o que autoriza remontar do concreto, único revelado pela intuição, à totalidade dos casos possíveis, ilimitada e não captável por ideia empírica, ou seja, como se converte conteúdo parcial e limitado em exponente de declaração referente a conjunto infinito.

38. Para responder, basta representar o método peculiar da geometria científica tal como historicamente se desenvolveu, devendo sua elevação de arte prático de medir a conhecimento teórico fundamental a revolução no modo de pensar análoga à da filosofia transcendental.

39. Kant relata, através da lenda transmitida por Diógenes Laércio, que o primeiro a demonstrar o triângulo equilátero percebeu não precisar aprender da figura suas propriedades, mas representá-las por conceitos a priori mediante construção, sem atribuir à coisa nada que não decorresse necessariamente de seu próprio conceito.

40. Se a prova geométrica dependesse de seguir as marcas da figura como objeto fixo, o juízo geométrico jamais transcenderia o conteúdo concreto examinado, mas isso não é necessário porque a totalidade dos casos geométricos não existe antes da construção nem fora dela, surgindo no próprio ato construtivo.

41. Ao conceber parábola e elipse construtivamente por determinado preceito, cria-se a condição sob a qual devem necessariamente ser concebidas as figuras concretas, precedendo o conceito construtivo geométrico os casos concretos, numa relação não temporal, mas da própria coisa: a construção é anterior à figura porque dá seu sentido.

42. Sobre esse estado de coisas descansa toda a necessidade dos juízos geométricos, não existindo os casos como algo à parte fora da lei, mas brotando dela mesma, confirmando geometria e aritmética o princípio kantiano de que só sabemos a priori das coisas o que nós mesmos colocamos nelas, surgindo assim o terceiro conceito cardinal: a síntese a priori.

43. Esse pôr as leis nos objetos, compreensível nas construções matemáticas ideais, parece impraticável para os objetos empíricos, que existem em seu modo concreto anteriormente a todo conceito, parecendo constituir muralha intransponível a existência das coisas no espaço e no tempo.

44. O idealismo transcendental kantiano não pretende esfumar a peculiaridade do conhecimento empírico, mas busca nela seu mérito essencial, sendo conhecida a frase do fecundo banho da experiência, devendo deixar-se momentaneamente de lado o problema de saber o que é o objeto empírico.

45. Antes de formular esse problema, é preciso compreender o que significa o tipo de conhecimento da física, revelando-se aqui dificuldade fundamental do modo tradicional de consideração, pois na ciência matemática da natureza medição e observação, experimento e teoria não se substituem, mas se complementam e condicionam mutuamente.

46. Kant expõe no prólogo à segunda edição, com clareza magistral, como Galileo, Torricelli e Stahl fizeram a razão abordar a natureza levando em uma mão seus princípios e na outra o experimento concebido conforme a eles, à maneira de juiz que obriga as testemunhas a responder, e não de discípulo que repete o que o mestre quer.

47. Assim, embora percepção isolada ou sua soma não se submeta previamente ao plano da razão, é este plano que determina e torna possível o experimento físico, sendo necessário que a variedade qualitativa das percepções se converta em variedade quantitativa referida a sistema de magnitudes mensuráveis.

48. Para que Galileo medisse a aceleração da queda livre, precisou existir previamente a concepção matemática da aceleração como instrumento de medição, sabendo de antemão, pelo plano da razão, que tais magnitudes deveriam existir e ser buscadas.

49. A física matemática aparece assim claramente não como ser lógico híbrido de elementos heterogêneos, mas como método sistemático e unitário, superando a crítica transcendental tanto a unilateralidade do racionalismo quanto a do empirismo.

50. Resta saber se, tal como a síntese a priori explicava a precedência da totalidade da intuição sobre as formas especiais do espaço e do tempo na matemática pura, cabe relação semelhante quanto à natureza em geral, existindo algo que só se obtém pela restrição de totalidade originária.

51. Enquanto se concebe a natureza no sentido usual como conjunto de objetos físico-materiais, a resposta seria negativa, mas o próprio conceito de natureza implica determinação distinta, definindo Kant a natureza como a existência das coisas enquanto determinada por leis gerais.

52. Se em sentido material a natureza é o conjunto de todos os objetos da experiência, do ponto de vista formal representa a adequação a leis desses objetos, transformando-se o problema em saber como é possível conhecer em geral a conformidade a leis da própria experiência.

53. Os Prolegômenos tratam da experiência e das condições gerais e apriorísticas de sua possibilidade, determinando a natureza como objeto total de toda experiência possível, sendo as condições apriorísticas da possibilidade da experiência as fontes de todas as leis gerais da natureza.

54. O problema retrocede assim dos conteúdos da experiência para a função da experiência mesma, possuindo esta determinabilidade originária comparável à das formas puras do espaço e do tempo, não podendo Galileo ter realizado seus experimentos sem a ideia de equação, permanência do movimento e método geral de medição.

55. A experiência é, portanto, modo de conhecer que requer entendimento, processo de deduções baseado em premissas lógicas, revelando-se nova totalidade que torna possível o estabelecimento de partes, devendo a natureza também ser concebida como sistema antes de observada em detalhes.

56. Há muitas leis que só conhecemos pela experiência, mas as leis que regem a concatenação dos fenômenos não podem ser reveladas por nenhuma experiência, pois esta pressupõe tais leis como base a priori de sua possibilidade.

57. As leis empíricas não derivam do entendimento puro, assim como a variedade infinita dos fenômenos não pode ser compreendida apenas pela forma pura da intuição sensível, mas todas as leis empíricas são determinações especiais das leis puras do entendimento, sob as quais os fenômenos assumem forma legal.

58. As constantes numéricas de zona específica da natureza só se determinam por medição empírica, mas o fato de buscarmos tais constantes e pressupormos leis causais obedece ao plano da razão que atribuímos à natureza, e não que dela extraímos.

59. Fixa-se assim a segunda direção fundamental da síntese a priori, a dos conceitos intelectivos puros ou categorias, cumprindo o conceito puro sua obra característica não ao descrever o dado da experiência, mas ao construir sua forma pura e fundamentar a unidade sistemática de seu tipo de conhecimento.

60. Deve preceder um juízo completamente distinto antes que a observação se converta em experiência, precisando a intuição dada cair sob conceito intelectivo puro a priori que determine o modo geral como as intuições podem servir de elemento à formação de juízos.

61. Nem os próprios juízos da matemática pura escapam a essa condição, pressupondo a tese de que a reta é a distância mais curta entre dois pontos o conceito de magnitude, sediado exclusivamente no entendimento e destinado a determinar a intuição para os juízos que dela se possam emitir.

62. Esse ponto de vista aparece com maior clareza na determinação dinâmica do objeto, quando se trata de determinar sua relação com outras coisas, apoiando-se toda ordenação relacional na ideia de influência pressuposta, que por sua vez pressupõe a de dependência funcional e, portanto, conceito intelectivo puro.

63. Apesar desses exemplos esclarecerem a cooperação entre as duas formas de síntese a priori, falta ainda princípio preciso para desenvolver sistematicamente a segunda forma, tendo já a carta a Herz de 1772 apontado como missão da filosofia transcendental reduzir os conceitos da razão pura a certo número de categorias derivadas de poucas leis fundamentais do entendimento, e não enumeradas aproximativamente como Aristóteles.

64. No capítulo sobre o princípio supremo de todos os juízos sintéticos, descobre-se novo fundamento de divisão: a possibilidade da experiência é o que confere realidade objetiva a priori a nossos conhecimentos, descansando a experiência sobre a unidade sintética dos fenômenos baseada em conceitos, sem a qual haveria apenas rapsódia desconexa de observações, sendo os juízos sintéticos a priori possíveis quando as condições de possibilidade da experiência coincidem com as condições de possibilidade dos objetos da experiência.

65. Descobre-se aqui toda a trama interna da Crítica da razão pura, partindo-se da experiência não como soma de coisas definitivas nem rapsódia de observações, mas caracterizada pela necessidade do engarce e o império de leis objetivas, apenas explicitando a metodologia transcendental o que já vigorava, consciente ou inconscientemente, na física matemática desde Galileu.

66. Opera-se aqui a revolução do modo de pensar: se antes se considerava a necessidade baseada nos objetos e apenas indiretamente deslocada para o conhecimento, agora compreende-se que é a necessidade originária do próprio conhecimento que engendra toda ideia de objeto, pois este não é senão aquilo cuja necessidade de síntese o conceito expressa.

67. Na sucessão de nossas sensações e ideias não reina o capricho, mas regem leis estritas que excluem todo ponto de vista subjetivo, sendo por isso que existe para nós coordenação objetiva dos fenômenos, condicionando e possibilitando a experiência, como tipo de conhecimento, o estabelecimento de objetos empíricos.

68. Enquanto não se compreende ou não se realiza outro tipo de conhecimento distinto do da experiência, não cabe outra conclusão que a do princípio supremo: as condições sobre as quais descansa a experiência como função são, ao mesmo tempo, as condições de tudo o que dela derivamos como resultado, baseando-se toda determinação enquanto objeto no entrelaçamento das formas puras de intuição com os conceitos intelectivos puros, que converte o múltiplo das percepções em sistema de regras e, portanto, em objeto.

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