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Heidegger e Marcuse

FEENBERG, Andrew. Heidegger and Marcuse: the catastrophe and redemption of history. New York: Routledge, 2005.

1. O projeto do Iluminismo, iniciado no século dezoito por pensadores crentes no progresso, libertou a ciência e a tecnologia para a aventura da modernidade, mantendo-se a natureza humana essencialmente inalterada, ainda que os meios técnicos disponíveis hoje sejam infinitamente mais poderosos, alterando a quantidade em qualidade e gerando novos dilemas numa sociedade reconstruída em torno desses novos meios.

2. Dois filósofos refletiram mais profundamente sobre essa situação: Heidegger, que convida a estudar a tecnologia como questão filosófica decisiva de nosso tempo, definindo a própria modernidade como o predomínio da técnica, e Marcuse, seu antigo aluno, que reformulou essa filosofia da tecnologia no âmbito de uma teoria social radical, projetando uma alternativa à situação desesperada descrita por Heidegger.

  • para Marcuse, ao contrário de Heidegger, a tecnologia não constitui destino fixo, permanecendo a promessa iluminista ainda por cumprir através de uma transformação profunda da própria tecnologia

3. A filosofia heideggeriana da tecnologia combina de modo intrigante nostalgia romântica por uma imagem idealizada da Antiguidade com profunda percepção da modernidade, residindo sua originalidade em tratar a técnica não como mero meio funcional, mas como modo de revelação através do qual um mundo se configura.

  • mundo, em Heidegger, não designa a soma das coisas existentes, mas uma estrutura ordenada e significativa de experiência, dependente de práticas básicas que caracterizam sociedades e eras históricas inteiras
  • o Dasein humano só pode ser compreendido como sempre já envolvido nesse mundo, encontrando as coisas como equipamento disponível para uso

4. A linguagem heideggeriana soa misteriosa, mas seu ponto essencial é que o sentido das coisas está indissociavelmente ligado à nossa existência como seres experientes e ativos, sendo literalmente sem sentido qualquer coisa concebida fora desse horizonte finito de um ser-no-mundo.

  • sem um ser finito que as encontre, montanhas e estrelas também estariam vazias de significado fora do contexto de um mundo no qual tais coisas ocupam um lugar, ainda que puramente estético, imaginário ou científico

5. Essa imagem do Dasein ativo e engajado no mundo obscurece-se na modernidade pelo pensamento tecnológico, que trata tudo, inclusive os próprios seres humanos, como mero objeto de conhecimento, indo essa perspectiva objetivista de par com a reestruturação fundamental do mundo pela tecnociência.

  • é essa aparente neutralidade ou isenção valorativa da tecnologia que Heidegger, e depois Marcuse, identificam como fonte da singularidade e da tragédia da modernidade, permitindo que a tecnologia destrua tanto o homem quanto a natureza
  • o perigo não reside apenas nas armas nucleares, mas na obliteração da dignidade humana como ser através do qual o mundo adquire inteligibilidade, tornando-se os próprios seres humanos meras matérias-primas

6. Marcuse e Heidegger são figuras controversas, sendo o primeiro lembrado sobretudo como guru da Nova Esquerda de 1968, encurtamento drástico de uma carreira de mais de cinquenta anos de intensa atividade filosófica, e o segundo o filósofo que traiu sua vocação ao tornar-se nazista e reconhecer Hitler como seu Führer, jamais renunciando publicamente a esse erro mesmo após a guerra, sendo ainda assim considerado por muitos o maior filósofo do século vinte.

7. Sem pretender aprofundar essas questões controversas já amplamente exploradas por outros, conclui-se que, embora o pensamento heideggeriano pudesse acomodar-se a certos aspectos do nazismo, sobretudo seu tom escatológico e elitista, apenas uma insensibilidade espantosa poderia tê-lo cegado para incompatibilidades ainda mais fundamentais, não sendo ele porém o único a combinar brilho acadêmico e cegueira moral.

  • apesar disso, sua filosofia não é aqui descartada como mera ideologia nazista, permanecendo relevante para a compreensão da tecnologia

8. Marcuse compartilhou dessa mesma avaliação durante seu período de formação sob Heidegger, jamais percebendo, como os demais alunos judeus deste, suas inclinações políticas até o anúncio surpreendente de sua nomeação como reitor nazista de Freiburg, tendo louvado até o fim da vida a leitura heideggeriana dos textos filosóficos clássicos e recorrido abertamente à sua crítica da tecnologia moderna em O Homem Unidimensional.

9. Reconhece-se que essa posição pode incomodar estudiosos de ambos os lados, sendo Heidegger tratado como figura demoníaca na tradição da Escola de Frankfurt, enquanto poucos heideggerianos demonstram interesse pela Teoria Crítica, cujos problemas de dominação política e econômica costumam ser descartados nessa tradição como meramente ônticos.

10. Pretende-se avançar apesar dessas controvérsias, baseando-se a abordagem adotada na distinção heideggeriana entre a noção grega de techné e a ideia moderna de tecnologia, tendo o artesão antigo construído seu mundo ao fabricar, enquanto a tecnologia moderna destrói o mundo na medida mesma de seu sucesso técnico.

  • Heidegger não vislumbra caminho de volta ao mundo grego, sendo suas especulações tardias sobre um novo começo demasiado vagas e abstratas para gerar consenso interpretativo convincente

11. Embora tenha deixado Heidegger em 1933 para juntar-se à Escola de Frankfurt no exílio, Marcuse preserva no fundo de seu pensamento uma análise da filosofia grega que só pode ter origem em seu antigo mestre, revelando porém interesse não pela escatologia secularizada que fascina os pós-modernos, mas por uma leitura do Heidegger de seus primeiros estudos que permite pensar uma tecnologia fundada no respeito à natureza e incorporando valores afirmativos da vida em sua própria estrutura material.

  • essa exigência utópica pode ser entendida como recuperação implícita da ideia de techné em contexto moderno, liberta das limitações do pensamento grego antigo

12. Contrariando a visão comum segundo a qual Marcuse teria abandonado Heidegger em favor de Hegel e Marx, propõe-se que Aristóteles constitui o elo perdido entre esses pensadores, evidenciado pelo fato de que, já em 1930, Marcuse apresentou a Heidegger uma tese doutoral sobre a Ontologia de Hegel redigida em termos inteiramente heideggerianos.

13. O pensamento de Aristóteles revelou-se absolutamente crucial para os três filósofos, sendo a admiração heideggeriana por ele compartilhada com Hegel, embora o Aristóteles reconstruído por Heidegger seja transformado num ontólogo existencial avant la lettre praticamente irreconhecível.

14. Numa conferência de 1923, Heidegger identificou como maior conquista aristotélica a análise do movimento da vida fática, posteriormente chamada Dasein, movimento consistente em engajamentos práticos com o mundo interpretados através da teoria aristotélica da techné, modelo grego de revelação que antecipa a própria teoria heideggeriana da atividade instrumental cotidiana como acesso básico à realidade.

15. Ao desenvolver posteriormente sua crítica da tecnologia, Heidegger passa a considerar o modelo produtivista como fonte remota e fundamentalmente equivocada do pensamento tecnológico moderno, recuando já durante a redação de Ser e Tempo da posição esboçada em sua conferência inicial sobre Aristóteles.

  • em obras tardias, o conceito grego de produção é redefinido como processo puramente ideal de manifestação dos entes, desligado de suas raízes na fabricação de artefatos
  • já em 1939 Heidegger nega que a techné seja útil para compreender a physis, posição diametralmente oposta à de seus primeiros trabalhos, culminando na conferência de 1950 sobre “A Coisa”, onde Platão e Aristóteles são rejeitados por terem confundido a essência da coisa com o eidos mobilizado em sua fabricação técnica

16. Marcuse já havia partido quando Heidegger operou essa reviravolta, permanecendo seu pensamento fiel à análise produtivista do ser característica do jovem Heidegger, ainda que essa influência do modelo da techné logo se dissimule sob a influência do jovem Marx.

  • a reinterpretação inovadora que Marcuse faz de Hegel constitui um estudo dessa mesma problemática do movimento central à filosofia heideggeriana inicial, propondo-se aqui que sua guinada a Hegel não representa afastamento de Heidegger, mas tentativa de desenvolver as implicações de sua interpretação aristotélica inicial para a dialética hegeliana, que Marcuse considerava ela própria fundada em Aristóteles

17. Os capítulos centrais deste livro desenvolverão detalhadamente esse pano de fundo, permitindo compreender sob luz diferente a obra tardia de Marcuse, na qual muitos elementos que intrigaram e por vezes escandalizaram comentaristas desde os anos sessenta revelam-se reflexos de influências heideggerianas persistentes, sobretudo nas exigências existenciais de sua política, em sua ontologia bidimensional e em sua abordagem da arte e da tecnologia, temas a serem discutidos nos capítulos finais.

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