Tecnologias transformativas
HEIM, Michael. Electric Language. A Philosophical Study of Word Processing. New Haven: Yale University Press, 1999.
A Teoria das Tecnologias Transformativas
1. A história da palavra falada não é uma mera cadeia de eventos, mas uma sucessão de reorientações traumáticas da psique humana, e a súbita aparição da escrita eletrônica, ao fazer sobressair o elemento dos símbolos, suscita uma reflexão filosófica sobre as condições concretas em que os símbolos prevalecem, mesmo que a escrita digital busque a transparência.
2. Nos últimos quarenta anos, com o advento dos meios eletrônicos, estudiosos têm avaliado as mudanças históricas ligadas aos meios de comunicação, e o termo “meios” (media), que antes se referia a conceitos mentais, passou a designar a tecnologia acústico-óptica que se torna um problema complexo e um fato da vida, deslocando o argumento da seleção de símbolos específicos para o próprio elemento simbólico.
3. Duas mudanças nos procedimentos de simbolização da civilização ocidental atraíram estudo: a transição de uma sociedade oral-auditiva para uma baseada na transmissão escrita, e as mudanças históricas possibilitadas pela invenção da imprensa, e ambos os estudos, embora tenham se concentrado na alfabetização e em suas ramificações históricas, antropológicas e sociológicas, apenas tocaram na dimensão ontológica, geralmente por implicação.
4. Para responder à questão sobre as conexões entre tecnologias da escrita e o pensamento, recorre-se ao trabalho de Eric Havelock e Walter J. Ong, expoentes da “teoria da transformação” (transformation theory) das tecnologias da escrita, que, usando achados históricos, antropológicos e sociológicos, apontam os efeitos que diferentes sistemas de comunicação têm sobre o processo de pensamento humano, fornecendo termos para descrever a dimensão ontológica e avaliar o fenômeno.
5. A teoria da transformação, que subsume tanto Havelock quanto Ong, possui o poder de interpretar e iluminar formas culturais como educação, política e religião, indicando funções culturais internas que as conectam, mas ela também abriga certos pressupostos epistemológicos que subvertem a avaliação crítica do processamento de texto, exigindo que noções como hábitos mentais, campo poético, armazenamento e recuperação de informação, habilidades de comunicação e desenvolvimento cultural progressivo sejam rejeitadas ou ampliadas.
6. A tese de Havelock sobre a filosofia grega antiga afirma que o mundo do pensamento da civilização grega sofreu uma transformação drástica com o desenvolvimento da escrita, e o “mundo homérico”, onde os bardos cantavam a fama dos heróis em uma cultura não-alfabetizada, é diametralmente oposto ao mundo clássico, pois a poesia épica, com sua forma acústica memorável, era o paradigma de comunicação em uma cultura oral, servindo para preservar ideais e informações entre gerações.
7. O “estado de espírito homérico” (Homeric state of mind) é caracterizado por uma linguagem poética funcional, com frases formulaicas, regularidade métrica e padrões de composição cíclica, que operam para preservar o sistema cultural de signos, e esse paradigma de linguagem significativa, ao esculpir hábitos verbais e métricos, também fomenta um certo modo de consciência, um estado mental distinto daquele cultivado por uma sociedade que considera os livros como o paradigma da comunicação significativa.
8. Havelock ilumina as tensões na obra de Platão ao vê-la contra o pano de fundo da adoção generalizada da escrita, mostrando que a crítica de Platão à poesia não é estética, mas uma defesa do pensamento filosófico contra o idioma oral homérico, que reforçava uma identificação emocional tribal (mimesis) com heróis culturais, e para que a filosofia se desenvolvesse, era necessário romper com essas identificações imediatas e forjar conceitos abstratos, um distanciamento que a escrita tornava possível.
9. O livro e a tradição livresca de uma cultura letrada estabelecem as formas de pensamento dessa cultura, limitando-as ou estendendo-as, e Platão, ao escrever os diálogos de Sócrates, buscava expandir novas formas de pensamento abstrato e impessoal, em conflito com o paradigma oral de comunicação, e ao fazê-lo, tornou-se o profeta de uma revolução no armazenamento de informação, onde o olho substituiu o ouvido como órgão principal, possibilitando o pensamento conceitual fluente.
10. Os muitos escritos de Ong baseiam-se na premissa, compartilhada com Havelock, de uma mudança fundamental na história da civilização na passagem da transmissão de informação oral-auditiva para o paradigma da mente letrada, mas sua versão da teoria da transformação é mais abrangente, estendendo-se das civilizações antigas à imprensa e aos meios eletrônicos, e frequentemente é comparada à de McLuhan, embora o trabalho de Ong mostre um trabalho conceitual mais rigoroso.
11. A história secular proposta por Ong é uma história do crescente letramento da psique humana, onde a “psique” (psyche) é usada deliberadamente para evitar as concepções errôneas de termos como mente ou intelecto, e o “sensorium” humano, ou a configuração da consciência sensorial da psique, pode ser configurado de diferentes maneiras, resultando em uma hierarquia dos sentidos que fomenta estruturas de personalidade distintas, de modo que cada mudança histórica na simbolização da realidade traz consigo uma reestruturação da psique.
12. As mudanças no sensorium são mais evidentes no contraste entre culturas orais-auditivas e culturas orientadas para a impressão, onde na cultura oral a audição é o sentido predominante, com o conhecimento transmitido através da presença física de outro ser humano, enquanto na cultura impressa a visão se torna paradigmática, promovendo uma sensibilidade espacial para a realidade e um distanciamento crítico que permite questionar as realidades transmitidas passivamente pelas culturas orais.
13. A virada kantiana na filosofia torna-se explícita na leitura de Ong, pois, ao analisar culturas orais, ele vê a natureza ilusória da alegação de que a transmissão da realidade é uma recepção passiva do que é pura e simplesmente real, rejeitando o realismo filosófico ingênuo, que assume que as realidades metafísicas fundamentais são invariantes e sempre acessíveis à mente.
14. O mesmo letramento revolucionário descrito por Havelock é encontrado por Ong no desenvolvimento geral da cultura quirográfica (manuscrita), onde a escrita manual desprende a memória da fala, mas o conhecimento ainda não está disponível para muitos, exigindo uma elite de escribas, e a cultura quirográfica, embora pré-tipográfica, ainda é amplamente oral, com ênfase na presença vocal, que só é gradualmente suplantada pela impressão.
15. O estudo de Ong sobre Peter Ramus fornece o caso mais forte para a conexão entre modos tipográficos de pensamento e o desenvolvimento da lógica moderna, pois Ramus defendeu o pensamento lógico por meio de auxílios visuais claros, identificando a lógica e a retórica com a exibição de um assunto em diagramas visuais, e sua lógica, baseada na disposição espacial da página impressa, deu ímpeto à democratização do conhecimento, estabelecendo as bases culturais para um novo modelo de mente inteligente.
16. A mídia impressa revolucionária do meio do século XV deslocou o conhecimento da memória e do manuscrito para o livro impresso, onde o conhecimento se torna algo que se pode consultar, divorciado do falante ou performer, e o novo ideal de conhecimento torna-se a objetividade, ou cognição não contaminada por qualidades pessoais, onde a pergunta “Quem diz?” torna-se irrelevante para a verdade de uma afirmação.
17. A teoria da transformação não argumenta que a impressão causou o ideal de conhecimento objetivo, mas que ela foi uma condição necessária para sua descoberta e cultivo, e ela busca iluminar as conexões entre várias mudanças históricas, descrevendo uma alteração qualitativa na maneira como a mente formula pensamentos na passagem da oralidade para a literacia, e da cultura quirográfica para a tipográfica, sem invocar uma causalidade histórica linear simples, mas sim uma interação holística.
18. A versão de Ong da teoria culmina em um estudo da mudança dos meios tipográficos para os eletrônicos, onde a televisão e o rádio reintroduzem uma “oralidade secundária” (secondary orality), revivendo a presença do contato aural e visual, e a teoria, ao se concentrar em “sistemas de comunicação”, traça como cada novo meio se baseia e estende os anteriores, com o resíduo das formas anteriores persistindo como momentos integrais de toda a configuração da rede de comunicação de uma cultura.
19. A visão de Ong sobre a história, com sua culminação desenvolvimentista no estudo dos meios eletrônicos, que reavivam impulsos da cultura oral e superam o individualismo da cultura impressa, contém uma dimensão escatológica, comparável à filosofia hegeliana ou à de Teilhard de Chardin, onde as formas anteriores do espírito humano são sublimadas em uma complexidade cada vez maior, resultando em uma avaliação otimista ou mesmo uma afirmação absoluta das transformações da tecnologia da comunicação.
20. A teoria da transformação, ao hesitar em julgar a história e ao parecer uma forma de determinismo histórico, oferece, no entanto, uma avaliação fundamentalmente positiva do desenvolvimento tecnológico nos meios de comunicação, pois, sendo uma teoria da comunicação e da troca de informação socialmente valorizada, não pode deixar de afirmar os “desdobramentos progressivos” da história.
21. Para fornecer a possibilidade de uma avaliação crítica da tecnologia de processamento de texto, é necessário olhar para o elemento em que os símbolos persistem e para os hábitos da mente fomentados por esse elemento, em vez de focar apenas na comunicação, pois os símbolos existem independentemente de objetivos e propósitos humanos imediatos, e os ganhos e perdas inerentes à natureza finita dos mundos históricos podem significar que a escrita eletrônica traz uma mudança abrupta para uma estrutura psíquica totalmente diferente para o pensamento humano.
