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Gilbert Simondon

HOTTOIS, Gilbert. Simondon et la philosophie de la « culture technique ». Bruxelles: De Boeck, 1993.

1. O pensamento de Gilbert Simondon, após gozar de reconhecimento imediato pela originalidade intensa e fecunda de Do modo de existência dos objetos técnicos e de O indivíduo e sua gênese físico-biológica, atravessou cerca de um quarto de século de longo purgatório do qual começa finalmente a sair, sendo que seu primeiro livro nunca deixou de circular, tornando-se referência clássica para quem reflete sobre a modernidade tecnológica.

2. É a partir de 1989, ano de sua morte, que o nome de Simondon reemerge com insistência, marcado pela publicação da continuação de IG sob o título A individuação psíquica e coletiva, por um número especial dos Cahiers philosophiques e pela organização, em 1992, de um colóquio internacional pelo Collège international de philosophie em colaboração com a Cité des Sciences et de l'Industrie.

3. Tratando-se aqui de um primeiro livro sobre Gilbert Simondon, de caráter introdutório e incitativo, ainda que fortemente centrado em uma questão determinada, convém apresentar brevemente o homem e a obra.

4. Gilbert Simondon nasceu em Saint-Étienne em 1924, estudou no liceu dessa cidade e depois na École Normale Supérieure da rue d'Ulm, tendo sido professor sucessivamente em Tours, na Faculdade de Letras de Poitiers e na Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Paris-Sorbonne até 1984.

5. A obra publicada compreende três livros e alguns artigos, correspondendo IG e IPC à essência da tese principal e MEOT à tese complementar, tendo essa obra cristalizado de uma só vez ao final da década de cinquenta, compacta e diversificada, completa quanto a seus esquemas essenciais, mas carregada de uma fecundidade múltipla que hoje repercute.

6. A obra não publicada é considerável, compreendendo principalmente cursos policopiados, textos de conferências e notas manuscritas sobre todos os temas abordados nos livros e artigos.

7. Do ponto de vista temático e problemático, a obra de Simondon é muito rica, compreendendo uma ontologia do ser-devir, uma filosofia da natureza, uma filosofia da técnica, uma antropologia filosófica atenta à ética e à estética, e uma reflexão aprofundada sobre as ciências humanas, a sociedade e a cultura, com atenção especial à educação.

8. Sobretudo, a obra de Simondon constitui tentativa amplamente bem-sucedida de articulação unitária dessa diversidade, sentido intenso de reliance próprio à vocação totalizadora da filosofia, de modo que toda filosofia da técnica, levada suficientemente longe, desemboca na filosofia da natureza e na antropologia filosófica, e além disso na ontologia.

9. Simondon produziu uma obra no sentido forte do termo, dotada de estilo expresso por conceitos próprios e discursividade específica de progressão analógica, cujo acesso, embora não fácil, se articula admiravelmente uma vez assimilados os esquemas segundo sua operatividade, sendo difícil situá-la no panorama filosófico do século vinte, aproximando-se indicativamente das filosofias do devir, sem que essas filiações sejam plenamente esclarecedoras, dado o interesse desproporcional de Simondon pelas ciências e técnicas em relação a seus predecessores.

10. A presente obra pretende contribuir para esse reconhecimento e sublinhar sua importância para quem vive cada vez mais integralmente em um universo tecnocientífico atravessado por múltiplas e perigosas tensões.

11. A obra simondoniana é abordada aqui em função da questão da cultura técnica, escolha determinada pelo reconhecimento dessa problemática como eixo pivô do pensamento de Simondon, de grande atualidade, sendo a coevolução do homem e da técnica aquilo que deve ser pensado, prevenindo riscos de bloqueio e dissociação, tornando urgente a elaboração de uma cultura tecnocientífica como tarefa essencial da filosofia.

12. Simondon possui percepção penetrante da diferença entre signo e técnica e sentido profundo da necessidade filosófica de superá-la mediante símbolos que religam, abordando a questão da cultura técnica não de ponto de vista ideológico mas resolutamente filosófico, o que conduz toda grande reflexão sobre a técnica e a ciência contemporâneas, como também na obra de H. Jonas, à elaboração de uma filosofia da natureza, de uma antropologia filosófica e, em última instância, a tomadas de posição ontológicas.

13. O trabalho apoia-se tanto na obra publicada, privilegiando os três livros e certos artigos, quanto na obra não publicada, evocada exclusivamente em nota, citando-se no texto principal apenas escritos publicados, e de modo relativamente extenso, para dar a palavra ao próprio Simondon.

14. A obra abre-se com um Liminar que apresenta a questão da cultura tecnocientífica sob ângulo histórico e crítico, independentemente do pensamento simondoniano, retomando a formulação clássica das duas culturas de C.P. Snow, dissociação cultural que Simondon busca resolver essencialmente como questão de linguagem e comunicação entre discursos heterogêneos, tarefa à qual dedicou vocabulário e método próprios.

15. O primeiro capítulo, Uma filosofia da individuação, expõe os elementos essenciais da linguagem simondoniana, definindo as noções diretrizes e as grandes constantes críticas e construtivas de sua abordagem, dando primeira ideia da amplitude e riqueza dessa filosofia geral da individuação.

16. Desde o segundo capítulo, Cultura e técnica, o tema pivô é introduzido a partir da qualificação do problema até a elaboração da solução, que coincide com o desdobramento de uma cultura técnica exigindo a constituição de uma tecnologia, mas que só pode se fundar e se completar como filosofia.

17. Os capítulos terceiro e quarto são consagrados à ética, cujo sentido é constitutivo do empreendimento simondoniano, sendo o sentido moral o sentido da individuação, e a ética, na tese complementar, introduzida como tentativa parcial de superar a oposição entre técnica e religião, reconciliação que somente a filosofia é capaz de conduzir a bom termo.

18. Na tese principal, a ética é abordada de modo mais próximo à linha de fundo do pensamento simondoniano, como sentido da individuação ou do devir, exigindo comunicação viva entre normas e valores, distinção entre comunidade e sociedade, e sublinhando a importância ético-prática da dinâmica tecnocientífica para a construção de uma sociedade plural e de vocação universal.

19. O capítulo quinto, Técnica e humanismo, faz o balanço da recepção cultural da técnica segundo Simondon, revisando suas virtudes e mostrando sua convergência com o humanismo, constituindo síntese-conclusão do exposto e início de uma tomada de distância crítica aprofundada nos três capítulos finais.

20. Essa interpelação crítica concerne à ontologia no capítulo sexto, à função da filosofia no capítulo sétimo, e ao vínculo de Simondon com a tecnociência e o símbolo no capítulo final.

21. O primeiro desses capítulos mostra que o pensamento de Simondon oscila entre uma filosofia do primado do tempo e uma filosofia do primado do ser.

22. O segundo interroga a valorização exclusiva, por Simondon, das virtudes de reliance da filosofia, sua função simbólica.

23. O último manifesta a ambiguidade profunda de Simondon, que cria um objeto exclusivamente simbólico ao promover uma tecnociência que não é da ordem do símbolo.

24. Concluindo, seria equívoco reduzir apressadamente o pensamento de Simondon a uma filosofia progressista, enciclopedista e laica, simples herdeira das Luzes, pois é infinitamente mais complexo, atestado por seus interesses pelo simbolismo, pela alquimia, pelo hermetismo e pela ficção científica, não sendo sua ambição de cultura tecnocientífica redutível a pragmatismo ou funcionalismo, já que recusa reduzir a técnica a instrumento a serviço de projeto definido de sociedade, concebendo-a antes como instrumento de evolução aberta e amplamente imprevisível, de modo que a cultura deve ser apropriada, não adaptada, mediante capacidade dinâmica de gerir a metaestabilidade evolutiva universal que constitui também o fundo do ser.

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