Hottois
Gilbert Hottois (1946-2019)
Prefácio de Anne Fagot-Largeault, in HOTTOIS, Gilbert. Philosophies des sciences, Philosophies des techniques. Paris: Odile Jacob, 2004.
Gilbert Hottois formou-se em humanidades greco-latinas antes de se dedicar à filosofia e defender uma tese de doutorado sobre *A inflação da linguagem na filosofia contemporânea* (publicada em 1979). Leitor atento tanto dos filósofos continentais quanto dos filósofos do mundo anglófono, publicou uma valiosa *História da filosofia moderna e contemporânea*, que faz um panorama das correntes filosóficas desde o Renascimento até a Pós-modernidade (Bruxelas, 1997; 3ª ed., 2001). É também o principal coordenador da obra de referência sobre *As Palavras da Bioética*, que, em uma reedição ampliada, tornou-se a *Nova Enciclopédia de Bioética* (Bruxelas, 2001). Seu empenho na reflexão sobre as consequências antropológicas de nossa civilização tecnocientífica se traduziu em uma participação ativa e lúcida nos trabalhos do Comitê Consultivo de Bioética da Bélgica (desde 1995) e nos do Grupo Europeu de Ética das Ciências e das Novas Tecnologias junto à Comissão Europeia. Ele também contribui para dar vida ao pensamento filosófico francófono por meio das coleções que dirige, nas editoras De Boeck (Bruxelas) e Vrin (Paris).
A obra mais inquietante de Gilbert Hottois é um romance de ficção científica intitulado *Species Technica* (Paris, Vrin, 2002); sua obra mais serena é, sem dúvida, o opúsculo *Technoscience et sagesse?* (Nantes, Pleins Feux, 2002). O contraste entre esses dois textos sugere a coexistência, em seu autor, de uma consciência aguda das incertezas que nossas invenções biotecnológicas trazem para o futuro da humanidade e de uma vontade ponderada de assumir filosoficamente as exigências de nosso tempo, em que a dinâmica de um processo tecnocientífico de integração planetária coexiste com um mosaico de culturas e tradições díspares. O fio condutor do pensamento de Hottois está inscrito no título do livro em que ele traça sua trajetória filosófica: Entre símbolos e tecnociências (Seyssel, Champ Vallon, 1996). O ser humano é dotado de uma dupla faculdade de se transcender: por meio de representações simbólicas (poesia, mitos, textos religiosos), através das quais a condição humana é verbalizada e ganha sentido, sem ser modificada; e por meio de técnicas operacionais (agrícolas, médicas, cirúrgicas), que podem remodelar profundamente a condição humana sem produzir um significado legível. Nossa época, impulsionada pelo avanço da RDTS (pesquisa e desenvolvimento tecnocientífico), testemunhou o desenvolvimento de uma operatividade humana sem precedentes nos campos das biotecnologias, das nanotecnologias, da informática etc., e essa operatividade efetiva muitas vezes ultrapassou ou desconcertou as representações culturais herdadas do passado, pelas quais se tentava contê-la ou regulá-la. O problema do “acompanhamento simbólico das tecnociências” está no cerne da civilização tecnocientífica que hoje busca se definir. A tarefa do filósofo, tal como apresentada nos Ensaios de filosofia bioética e biopolítica (Paris, Vrin, 1999), é contribuir para esse acompanhamento, exercendo sua capacidade de transcendência de maneira construtiva e “inventiva em termos de evolução”, e aprendendo a articular a necessidade de simbolização e a relação operativa com o mundo.
A presente obra parte de uma constatação: enquanto ciências e técnicas são hoje indissociáveis, as filosofias das ciências e as filosofias das técnicas ignoram-se mutuamente. Os filósofos das ciências fingem acreditar que a ciência “pura”, teórica e contemplativa, visa nos dar uma “representação do mundo”; eles examinam o que a ciência diz, ou seja, os enunciados contidos em suas publicações, discutindo eruditamente os critérios pelos quais se reconhece que o que é dito corresponde ao que é (problema do realismo). Nesse sentido, as filosofias da ciência do século XX foram filosofias da linguagem da ciência; elas falharam na tarefa de refletir sobre a capacidade das ciências de transformar o mundo. Os filósofos da tecnologia, que muitas vezes têm formação em engenharia, interessam-se, por sua vez, pelos objetos produzidos pela atividade humana (lasers, motores a jato, celulares), em um nível de realidade em que o homo faber prevalece sobre o homo loquax: computadores, vacinas, sementes de plantas geneticamente modificadas para resistir à seca são avaliados por seu desempenho, independentemente de qualquer comentário verbal ou ideológico. Ora, esses seres técnicos estão hoje repletos de ciência; seu desenvolvimento é indissociável da pesquisa fundamental, e seria de se esperar que a filosofia da técnica conduzisse, em relação à pesquisa tecnocientífica, o debate que a filosofia das ciências vinha ocultando: o poder científico não é mais apenas um fator do desenvolvimento econômico e do prestígio político das nações; ele abre para nossa espécie um universo de possibilidades e a liberdade de uma “criação contínua”, incluindo uma autocriação (antropotécnica) – e o que queremos fazer com essa liberdade? Podemos ter campos de arroz geneticamente modificados, animais de estimação geneticamente modificados, seres humanos transgênicos – vamos nos engajar nesses caminhos e, se sim, com quais precauções? Infelizmente, com raras exceções (como a de Gilbert Simondon), a filosofia das técnicas, arrastada pela deriva pós-moderna, tem-se reduzido com demasiada frequência a uma retórica ideológica, estigmatizando a “tecnociência capitalista” ou reduzindo as criações tecnológicas a artefatos sociais. Gilbert Hottois se empenha aqui em restabelecer uma noção correta da “tecnociência”, em construir uma ponte entre as filosofias das ciências e as filosofias das técnicas, e em repensar a antropologia filosófica na perspectiva das responsabilidades éticas e cósmicas que nossas tecnociências nos conferem. A empreitada não carece de envergadura; é conduzida com solidez, modéstia e sabedoria. Não podemos deixar de admirar a coragem de quem encara assim, de frente e sem rodeios, os problemas de seu tempo.
