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Orientações

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metaphors we live by. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

** Metáforas orientacionais **

1. Além das metáforas estruturais, nas quais um conceito é estruturado metaforicamente em termos de outro, existem as metáforas orientacionais, que não estruturam um conceito em termos de outro, mas organizam todo um sistema de conceitos uns em relação aos outros, recebendo esse nome porque a maioria delas envolve orientação espacial, como cima-baixo, dentro-fora, frente-trás, ligado-desligado, profundo-raso e central-periférico, orientações que decorrem do tipo de corpo que se possui e de seu funcionamento no ambiente físico, de modo que uma metáfora orientacional confere a um conceito uma orientação espacial, como no caso de feliz é para cima, o que gera expressões inglesas como sentir-se para cima hoje.

2. Essas orientações metafóricas não são arbitrárias, mas fundamentadas na experiência física e cultural, e, embora as oposições polares como cima-baixo e dentro-fora sejam de natureza física, as metáforas orientacionais nelas baseadas podem variar de cultura para cultura, como no caso do futuro situado à frente em algumas culturas e atrás em outras, tomando-se como ilustração as metáforas de espacialização cima-baixo estudadas intensivamente por William Nagy, com indicações breves e sugestivas, não definitivas, sobre sua possível origem na experiência física e cultural.

** Feliz é para cima; triste é para baixo **

3. Expressões como sentir-se para cima, ter o ânimo elevado, ânimo que sobe, estar em alto astral, receber um impulso ao pensar em alguém, sentir-se para baixo, estar deprimido, estar por baixo ultimamente, cair em depressão e ânimo que afunda ilustram essa metáfora, cuja base física está na postura curvada tipicamente associada à tristeza e à depressão e na postura ereta associada a um estado emocional positivo.

** Consciente é para cima; inconsciente é para baixo **

4. Expressões como levantar-se, acordar, já estar de pé, levantar-se cedo, cair no sono, adormecer, estar sob hipnose e afundar em coma ilustram essa metáfora, cuja base física está no fato de que humanos e a maioria dos mamíferos dormem deitados e ficam de pé ao despertar.

** Saúde e vida são para cima; doença e morte são para baixo **

5. Expressões como estar no auge da saúde, Lázaro que ressuscitou, estar em plena forma, saúde lá em cima, adoecer, estar afundando rapidamente, pegar gripe, saúde em declínio e cair morto ilustram essa metáfora, cuja base física está no fato de que doenças graves obrigam a pessoa a deitar-se e de que, quando morta, a pessoa está fisicamente deitada.

** Ter controle ou força é para cima; estar sujeito a controle ou força é para baixo **

6. Expressões como ter controle sobre alguém, estar por cima da situação, estar em posição superior, estar no auge do poder, estar no alto comando, estar no escalão superior, poder que sobe, superar alguém em força, estar sob o controle de alguém, cair do poder, poder em declínio, ser inferior socialmente e estar no último degrau da hierarquia ilustram essa metáfora, cuja base física está na correlação entre tamanho físico e força física e no fato de que o vencedor de uma luta costuma ficar por cima.

** Mais é para cima; menos é para baixo **

7. Expressões como o número de livros impressos que sobe, número de convocação alto, renda que subiu, atividade artística que caiu, número de erros incrivelmente baixo, renda que caiu, ser menor de idade e abaixar o aquecimento ilustram essa metáfora, cuja base física está no fato de que, ao se acrescentar mais substância ou objetos físicos a um recipiente ou pilha, o nível sobe.

** Eventos futuros previsíveis são para cima (e à frente) **

8. Expressões como os próximos eventos listados no jornal, o que está por vir esta semana, o temor do que está por vir adiante e a expressão o que há ilustram essa metáfora, cuja base física está no fato de que os olhos normalmente olham na direção em que a pessoa costuma se mover, de modo que, ao se aproximar um objeto ou a pessoa dele, o objeto parece maior e, como o chão é percebido como fixo, o topo do objeto parece mover-se para cima no campo de visão.

** Alto status é para cima; baixo status é para baixo **

9. Expressões como ter uma posição elevada, chegar ao topo, estar no auge da carreira, subir na escada, ter pouca mobilidade ascendente, estar no fundo da hierarquia social e cair em status ilustram essa metáfora, cuja base social e física está na correlação entre status e poder social, sendo o poder físico associado ao para cima.

** Bom é para cima; ruim é para baixo **

10. Expressões como as coisas estão melhorando, o pico atingido no ano anterior seguido de declínio, coisas em nível historicamente baixo e trabalho de alta qualidade ilustram essa metáfora, cuja base física para o bem-estar pessoal está no fato de que felicidade, saúde, vida e controle, elementos que caracterizam principalmente o que é bom para uma pessoa, estão todos associados ao para cima.

** Virtude é para cima; depravação é para baixo **

11. Expressões como ter mentalidade elevada, ter padrões elevados, ser reto, ser um cidadão exemplar, uma jogada baixa, não ser dissimulado, não se rebaixar a algo, algo abaixo da própria dignidade, cair no abismo da depravação e um ato reles ilustram essa metáfora, cuja base física e social está associada ao bom é para cima somada à metáfora sociedade é uma pessoa, segundo a qual ser virtuoso é agir conforme os padrões estabelecidos pela sociedade ou pessoa para manter seu bem-estar, de modo que a virtude é para cima porque ações virtuosas correlacionam-se com o bem-estar social do ponto de vista dessa sociedade ou pessoa, ponto de vista que prevalece por ser a base social parte da cultura.

** Racional é para cima; emocional é para baixo **

12. Expressões como a discussão que caiu ao nível emocional e foi elevada de volta ao plano racional, deixar os sentimentos de lado para uma discussão intelectual de alto nível e não conseguir elevar-se acima das próprias emoções ilustram essa metáfora, cuja base física e cultural está na visão, própria da cultura em questão, de que os seres humanos têm controle sobre animais, plantas e o ambiente físico, sendo sua capacidade única de raciocinar o que os coloca acima dos demais animais e lhes confere esse controle, de modo que controle é para cima fornece a base para homem é para cima e, portanto, para racional é para cima.

** Conclusões **

13. Com base nesses exemplos, propõem-se conclusões sobre o fundamento experiencial, a coerência e a sistematicidade dos conceitos metafóricos.

  • A maioria dos conceitos fundamentais organiza-se em termos de uma ou mais metáforas de espacialização.

14. Existe uma sistematicidade interna a cada metáfora de espacialização, de modo que feliz é para cima define um sistema coerente em vez de casos isolados e aleatórios, ao contrário do que ocorreria num sistema incoerente em que sentir-se para cima significasse sentir-se feliz, mas meu ânimo subiu significasse tornar-se mais triste.

15. Existe também uma sistematicidade externa geral entre as várias metáforas de espacialização, que define a coerência entre elas, de modo que bom é para cima confere uma orientação para cima ao bem-estar geral, coerente com casos específicos como feliz é para cima, saúde é para cima, vivo é para cima e controle é para cima, sendo status é para cima coerente com controle é para cima.

16. As metáforas de espacialização enraízam-se na experiência física e cultural, não sendo atribuídas ao acaso, e uma metáfora só pode servir de veículo para a compreensão de um conceito em virtude de sua base experiencial.

17. Há muitas bases físicas e sociais possíveis para uma metáfora, e a coerência dentro do sistema geral parece ser parte da razão pela qual uma é escolhida em detrimento de outra, como no caso da felicidade, que também se correlaciona fisicamente com o sorriso e uma sensação geral de expansão, o que poderia em princípio fundamentar uma metáfora feliz é largo e triste é estreito, existindo de fato expressões metafóricas menores como sentir-se expansivo, que capturam um aspecto da felicidade distinto daquele capturado por sentir-se para cima, mas a metáfora principal na cultura em questão é feliz é para cima, havendo uma razão para se falar do auge do êxtase em vez da largura do êxtase, já que feliz é para cima é maximamente coerente com bom é para cima, saudável é para cima, entre outras.

18. Em alguns casos a espacialização é parte tão essencial de um conceito que se torna difícil imaginar qualquer metáfora alternativa capaz de estruturá-lo, como ocorre com alto status na sociedade em questão, enquanto outros casos, como a felicidade, são menos claros, colocando-se a questão de saber se o conceito de felicidade é independente da metáfora feliz é para cima ou se a espacialização cima-baixo da felicidade é parte do conceito, entendendo-se que ela é parte do conceito dentro de um dado sistema conceitual, já que a metáfora feliz é para cima situa a felicidade num sistema metafórico coerente, e parte de seu significado provém desse papel no sistema.

19. Os chamados conceitos puramente intelectuais, como os de uma teoria científica, costumam basear-se, talvez sempre, em metáforas com fundamento físico ou cultural, como se observa no alto de partículas de alta energia, baseado em mais é para cima, no alto de funções de alto nível, na psicologia fisiológica, baseado em racional é para cima, e no baixo de fonologia de baixo nível, referente aos aspectos fonéticos detalhados dos sistemas sonoros das línguas, baseado em realidade mundana é para baixo, sendo o apelo intuitivo de uma teoria científica relacionado à adequação de suas metáforas à experiência.

20. A experiência física e cultural oferece muitas bases possíveis para metáforas de espacialização, e quais delas são escolhidas, e quais se tornam principais, pode variar de cultura para cultura.

21. É difícil distinguir a base física da base cultural de uma metáfora, uma vez que a escolha de uma base física entre muitas possíveis relaciona-se com a coerência cultural.

** Bases experienciais das metáforas **

22. Pouco se sabe sobre as bases experienciais das metáforas, razão pela qual elas foram descritas separadamente, acrescentando-se apenas posteriormente notas especulativas sobre suas possíveis bases experienciais, prática adotada por ignorância, não por princípio, entendendo-se que nenhuma metáfora pode ser compreendida ou mesmo adequadamente representada independentemente de sua base experiencial, como se observa no fato de que mais é para cima possui uma base experiencial muito diferente da de feliz é para cima ou racional é para cima, de modo que, embora o conceito de para cima seja o mesmo nessas metáforas, as experiências em que se baseiam são muito diferentes, não havendo múltiplos para cima, mas sim múltiplas formas pelas quais a verticalidade entra na experiência, dando origem a diferentes metáforas.

23. Uma forma de enfatizar a inseparabilidade das metáforas de suas bases experienciais seria incorporar essa base experiencial às próprias representações, de modo que, em vez de escrever mais é para cima e racional é para cima, teria-se uma relação mais complexa, como mostrado no diagrama, representação que enfatizaria que as duas partes de cada metáfora ligam-se apenas por meio de uma base experiencial, sendo somente por meio dela que a metáfora pode servir ao propósito da compreensão.

24. Tais representações não serão usadas, apenas por se saber tão pouco sobre as bases experienciais das metáforas, mantendo-se o uso da palavra é ao formular metáforas como mais é para cima, devendo esse é ser entendido como abreviação de um conjunto de experiências em que a metáfora se baseia e por meio das quais ela é compreendida.

25. O papel da base experiencial é importante para compreender o funcionamento de metáforas que não se encaixam entre si por se basearem em tipos diferentes de experiência, como no caso de desconhecido é para cima e conhecido é para baixo, exemplificado por expressões como isso está no ar e o assunto está resolvido, metáfora com base experiencial semelhante à de compreender é agarrar, como em não consegui captar a explicação dele, já que, com objetos físicos, agarrar algo e segurá-lo nas mãos permite examiná-lo com cuidado e obter uma compreensão razoável dele, sendo mais fácil agarrar e examinar algo cuidadosamente quando está no chão, em local fixo, do que quando flutua no ar, como uma folha ou um pedaço de papel, de modo que desconhecido é para cima e conhecido é para baixo é coerente com compreender é agarrar.

26. Desconhecido é para cima não é, contudo, coerente com metáforas como bom é para cima e terminado é para cima, como em estou terminando, esperando-se que terminado se associasse a conhecido e não terminado a desconhecido, o que não ocorre no que diz respeito às metáforas de verticalidade, pela razão de que desconhecido é para cima possui uma base experiencial muito diferente da de terminado é para cima.

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