Lanciani
Albino Lanciani
LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.
1. O cognitivismo constitui uma das correntes de pensamento mais sintomáticas dos últimos cinquenta anos, não apenas por sua importância científica, mas também por sua profunda relação com as transformações sociais e por suas consequências para as ciências humanas e, sobretudo, para a filosofia, cujo campo reconhecido de competência foi progressivamente reduzido diante da expansão das ciências cognitivas.
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A relevância do cognitivismo ultrapassa a atividade científica estrita, pois ele simultaneamente condicionou os costumes da sociedade contemporânea e foi condicionado por eles.
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A filosofia havia conservado, na segunda metade do século XX, um domínio de intervenção já bastante reduzido em comparação com outras épocas históricas, limitado sobretudo às áreas nas quais ainda lhe era reconhecido algum direito de pronunciamento perante a comunidade científica e a opinião pública.
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Esse domínio restringia-se principalmente às ciências humanas e a campos considerados menos rigorosamente constituídos, como a crítica literária, a estética e determinadas relações com a psicologia.
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A competência filosófica acabava assim confinada aos âmbitos considerados imprecisos ou pouco suscetíveis de rigor, nos quais diferentes teses podiam ser tomadas como aproximadamente equivalentes.
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A atribuição à filosofia de competência apenas sobre domínios considerados vagos equivale, em última instância, à negação de uma competência efetiva, quando se pressupõe que a cientificidade rigorosa constitui o horizonte necessário de toda disciplina que pretenda ser séria e plausível.
2. O progressivo abandono das ciências puras pelas principais tradições filosóficas rompeu a relação historicamente fecunda entre filosofia e ciência, enquanto a crescente formalização e matematização da linguagem científica tornaram mais difícil uma compreensão filosófica capaz de acompanhar os problemas fundamentais da atividade científica em seu próprio processo de constituição.
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Desde a filosofia grega, filosofia e ciência haviam mantido uma relação produtiva, chegando frequentemente a coincidir nas mesmas figuras intelectuais, mas a especialização e a crescente complexidade formal das ciências enfraqueceram profundamente essa ligação.
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Quando a filosofia contemporânea se ocupa das ciências, tende frequentemente a acompanhá-las retrospectivamente, procurando justificar resultados já alcançados e deixando de lado os problemas de fundamentação que poderiam conferir autonomia à investigação filosófica.
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Essa intervenção tardia transforma frequentemente a filosofia em uma espécie de análise post mortem da ciência, obrigada a reconstruir retrospectivamente processos cuja criatividade e originalidade já desapareceram.
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A reflexão filosófica sobre a ciência passou então a oscilar sobretudo entre a catalogação histórica dos resultados científicos e a investigação psicológica da descoberta, sem alcançar a questão mais radical das condições e do sentido do próprio mundo científico.
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Depois da problematização husserliana da crise das ciências europeias, a questão do mundo constituído pelas ciências deixou de ser enfrentada em toda a sua amplitude, enquanto grande parte da filosofia da ciência passou a funcionar como acompanhamento descritivo das pesquisas científicas já estabelecidas.
3. A transformação da filosofia em disciplina auxiliar das ciências produziu uma dupla catástrofe: tornou sua função aparentemente redundante diante do conhecimento científico e, ao mesmo tempo, permitiu que as próprias ciências assumissem autonomamente a tarefa de interpretar o sentido de sua atividade e do mundo por elas constituído.
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A subordinação da filosofia às ciências tornou progressivamente obscura sua própria utilidade, fazendo-a parecer, no melhor dos casos, uma duplicação dispensável do conhecimento científico, comparável à perda de função explicativa da mitologia diante das teorias físicas modernas.
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Ao abandonar a investigação do sentido do empreendimento científico e da realidade produzida por ele, a filosofia deixou aberto um espaço no qual as próprias ciências passaram a elaborar uma interpretação global de si mesmas.
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Essa auto-interpretação científica implicou também uma redefinição do próprio conceito de filosofia, modificando tanto o sentido atribuído ao questionamento filosófico quanto o entendimento da filosofia como compreensão racional da totalidade do mundo.
4. O cognitivismo ocupa precisamente o espaço filosófico aberto por essa retração da filosofia, constituindo-se como disciplina de fronteira eclética que combina questões filosóficas profundamente reinterpretadas com resultados provenientes das diversas ciências contemporâneas, o que exige simultaneamente uma crítica de sua consistência filosófica e a elaboração de uma função alternativa para a filosofia, especialmente para a fenomenologia.
5. A análise do cognitivismo exige concentrar-se nos elementos estruturais comuns à multiplicidade de correntes que compõem sua heterogênea constelação, privilegiando a epistemologia pressuposta pelo projeto cognitivista e a concepção filosófica dela derivada, cuja estrutura apresenta uma circularidade fundamental por partir de uma determinada compreensão implícita do ser humano e terminar pela explicitação dessa mesma compreensão.
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A enorme diversidade das posições individuais torna impraticável uma investigação exaustiva de todas as variantes surgidas nas últimas décadas, razão pela qual se tornam decisivos os pressupostos compartilhados pelas diferentes formas de cognitivismo e pelas correntes teóricas paralelas a ele associadas.
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Algumas posições particularmente significativas podem ser consideradas, mas a investigação deve privilegiar os elementos fundamentais que estruturam o conjunto da abordagem cognitivista.
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O núcleo da análise encontra-se na epistemologia implicitamente sustentada pelo projeto cognitivista e, de maneira mais ampla, na filosofia produzida a partir dessa epistemologia.
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A circularidade constitutiva do cognitivismo decorre de uma tese sobre o ser humano que já orienta implicitamente o ponto de partida da investigação e reaparece explicitamente como seu resultado final.
