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Temporalização

LOVEJOY, Arthur. The Great Chain of Being. Harvard: Harvard University Press, 1964.

A TEMPORALIZAÇÃO DA CADEIA DO SER

1. Quando o princípio da plenitude era interpretado religiosamente, como expressão da fé na bondade divina, ou filosoficamente, como implicado pelo princípio de razão suficiente, era, em seu sentido usual, inconsistente com qualquer crença em progresso ou em mudança significativa do universo como um todo, sendo a racionalidade alheia a datas.

  • um filósofo inglês do início do século XVIII observou que, se Deus sempre age por algum fundamento, sua Razão para criar deve ter sido a mesma desde toda a eternidade que em qualquer momento particular
  • um contemporâneo apontou que, se verdadeiro, isso implicaria que anjos, homens e toda espécie de criatura, todo planeta com seus habitantes, seriam eternos, e que Deus não poderia doravante criar nenhuma nova espécie de seres

2. A mesma implicação do otimismo foi notada pelo poeta Henry Brooke: ou há adequação absoluta presente nas coisas, ou adequação in futuro; mas se houvesse adequação absoluta no estado presente das coisas, não poderia haver mudança alguma, pois o que é ótimo jamais poderia tornar-se melhor.

3. Para muitas mentes do século XVIII, essa concepção de mundo em que nenhuma novidade jamais surgira nem surgiria parecia inteiramente satisfatória, como ilustra o Abade Pluche, para quem nada mais seria produzido em todas as eras vindouras, tendo os filósofos concordado nesse ponto: nada de novo sob o sol.

4. Essa suposição foi por vezes usada, no início do século, contra a incipiente ciência da paleontologia, combatendo-se a visão de que fósseis são restos de organismos hoje extintos com o argumento de que, num universo bem conduzido, toda espécie deve estar constantemente representada, como escreveu o botânico John Ray em 1703.

5. Essa conclusão era sustentada e ampliada pela teoria embriológica reinante da pré-formação ou emboîtement, segundo a qual não só todas as espécies mas todos os organismos individuais existiram desde o início, sendo o aparente crescimento e mudança individuais mera expansão de estruturas já predelineadas em germes primevos encaixados uns dentro dos outros como caixas.

6. Assim, importante grupo de ideias dominantes no início do século XVIII — a concepção da Cadeia do Ser, os princípios de plenitude e continuidade, o otimismo que ela justificava, a biologia geralmente aceita — estava em acordo com o suposto dito salomônico de que nada há de novo sob o sol; mas foi precisamente no período em que essa implicação das velhas concepções se tornou mais aparente que começou reação contra ela.

7. Um dos principais acontecimentos do pensamento setecentista foi a temporalização da Cadeia do Ser: o plenum formarum passou a ser concebido, por alguns, não como inventário mas como programa da natureza, sendo executado gradual e lentissimamente na história cósmica, sem que todos os possíveis sejam atualizados de uma só vez.

8. As causas dessa mudança foram várias, mas a mais pertinente a nosso tema residiu nas dificuldades a que o próprio princípio da plenitude dava origem, quando suas implicações eram plenamente desenvolvidas e seriamente consideradas — implicações intoleráveis para os sentimentos religiosos de muitas mentes, e cada vez mais difíceis de reconciliar com os fatos conhecidos da natureza.

As dificuldades religiosas e morais

9. O defeito fatal do otimismo — e do princípio da plenitude de que sua dialética principalmente dependia — era, como já vimos Voltaire apontar, não deixar espaço para esperança, ao menos para o mundo em geral ou para a humanidade como um todo, pois se todos os males parciais são exigidos pelo bem universal, não podemos esperar que qualquer deles desapareça.

  • o otimismo logicamente consequente equivale à doutrina da Conservação do Mal, metafísico, moral e físico, devendo a soma de imperfeição nas partes permanecer constante
  • para mentes cujo senso da realidade dos males concretos da existência era profundo demais para ser aliviado por um silogismo, esse paradoxo otimista era escárnio grotesco

10. Para o indivíduo, é verdade, o princípio da plenitude não excluía necessariamente a perspectiva de alcançar estado superior de ser noutra vida; mas a essa possibilidade estava ligada, segundo a interpretação dada por alguns de seus expositores mais aprovados, condição estranha.

  • Edmund Law apontou que os das “ordens inferiores” não poderiam aspirar a posição superior sem prejuízo daquele que a possui, pois este deve deixar seu lugar antes que outro possa ascender
  • a promoção só ocorreria por vacância através da “degradação” de alguém acima, consequência da má conduta — dedução estritamente consistente mas moralmente monstruosa, tornando a prova otimista da racionalidade das coisas prova de sua imoralidade essencial

11. Revolta contra essas duas implicações do esquema era inevitável assim que se tornaram plenamente aparentes; a Cadeia do Ser precisou ser reinterpretada de modo a admitir progresso geral e progresso individual não contrabalançado por deterioração alhures, sugerindo a concepção reinterpretada nova escatologia, ou antes o revigoramento de uma antiga.

  • sendo a escala ainda suposta minuciosamente graduada, a vida futura deveria ser concebida como ascensão gradual, estágio após estágio, através de todos os níveis acima do alcançado pelo homem aqui, sem termo final, dado o número infinito desses níveis

12. Essa revisão da escatologia tradicional fora prenunciada no século anterior por Henry More, para quem, não fazendo a natureza saltos, os mortos não saltam imediatamente de sua imperfeição terrestre à beatitude celestial, nem a plenitude do ser precisa realizar-se simultaneamente, tal qual um músico não toca todas as cordas ao mesmo tempo.

13. Addison, já visto discorrendo com espécie de arrebatamento poético sobre a Cadeia do Ser, foi por ela levado a rejeitar ainda mais nitidamente que More a concepção protestante ortodoxa da vida após a morte como fixação eterna em beatitude ou miséria imutáveis, encontrando na progressão perpétua da alma rumo à sua perfeição, sem jamais alcançá-la, argumento excelente para a imortalidade da alma.

  • devemos crer que as sucessivas gerações de criaturas racionais recebem aqui apenas seus primeiros rudimentos de existência, para depois serem transplantadas a clima mais amigo onde possam florescer por toda a eternidade
  • essa consideração é particularmente agradável por extinguir toda inveja nas naturezas inferiores e todo desprezo nas superiores, pois mesmo o Querubim sabe que virá o momento em que a alma humana será tão perfeita quanto ele hoje é

14. A Escala do Ser torna-se assim literalmente uma escada de infinitos degraus, pela qual as almas individuais eternamente sobem; na medida em que todas o fazem em ritmo igual, a ordem hierárquica permanece e as posições relativas não se alteram, pois a natureza superior sempre preserva sua distância enquanto sabe que a inferior um dia a alcançará no mesmo grau de glória.

15. Leibniz, poucos anos depois, conclui seus Princípios da Natureza e da Graça (1718) com a garantia de que nenhum homem está destinado a alcançar plenamente a visão beatífica, pois nossa felicidade jamais consistirá, nem deveria consistir, em gozo pleno sem nada mais a desejar, mas em progresso perpétuo rumo a novos prazeres e novas perfeições.

16. Essa reconstrução da doutrina da imortalidade manifesta-se também no mesmo escrito em que as consequências melancólicas do argumento otimista haviam sido tão francamente deduzidas: Edmund Law, teólogo suficientemente ortodoxo para alcançar bispado, não consegue aceitar a conclusão que a lógica de King e a sua própria exigiam.

  • levanta a questão de se Deus poderia ter colocado alguma ordem de seres em condição fixa e imutável, sem admissão de avanço, inclinando-se, embora pareça algo paradoxal, à visão contrária
  • uma criatura que encontra acessão perpétua de prazer novo e desconhecido, sempre se aproximando mais da perfeição, deve ter soma de felicidade superior à daquele cuja condição começou e terminou num mesmo grau, sem jamais conhecer carência, variedade ou aumento

17. Essa mudança na forma da crença numa vida futura estava intimamente associada a observação psicológica, generalização sobre a natureza humana favorita justamente dos filósofos que mais gostavam de discorrer sobre o princípio da plenitude: o homem só é capaz de felicidade através de mudança perpétua.

  • no início do Spaccio della bestia trionfante de Bruno, muito lido e admirado no século XVIII, a “Sabedoria” declara que, sem mudança nos corpos, variedade na matéria e vicissitude nos seres, não haveria nada agradável, bom ou prazeroso
  • a mesma observação psicológica ocorre repetidamente em Leibniz: é lei do prazer que ele não tenha tenor uniforme, pois isso engendra tédio, tornando-nos entorpecidos, não felizes

18. O significado histórico principal de tudo isso está em exibir a emergência e difusão de um novo modo de pensar a natureza do bem, unindo-se ao que já vimos resultar da lógica do otimismo: a identificação platônica do bem consumado com a autarquia e a cessação do desejo cedia lugar ao seu oposto — nenhuma finalidade, nenhuma perfeição última, nenhum repouso do querer.

  • essas passagens de Leibniz, Addison e Law prenunciam claramente o ideal fáustico: o homem é por natureza insaciável, e é vontade de seu Criador que assim seja, não podendo jamais dizer a nenhum momento de sua experiência “Verweile doch, du bist so schön!”
  • essa tendência a substituir o ideal de repouso final da alma na contemplação da Perfeição por um Streben nach dem Unendlichen não foi invenção de Goethe nem dos românticos alemães, mas fora repetidamente expressa ao longo do século, associada em suas mentes à ideia aceita da Escala do Ser

19. No ensaio de Lenz sobre os Primeiros Princípios da Moral (1772) ouve-se de novo, ainda moderadamente, esse prelúdio à corrente romântica, definindo a “aspiração à completude” como impulso fundamental humano, com duas qualificações ligadas aos princípios de plenitude e continuidade.

  • as faculdades superiores da mente devem ser cultivadas em proporção, mas sem negligenciar as inferiores, dada a conexão infinitamente minúscula entre todas elas
  • tanto para a raça quanto para o indivíduo, o mesmo princípio exige rejeição perpétua do status quo, ascensão sem fim da Escala do Ser, pois “bom”, no caso dos primeiros homens, significava aperfeiçoável, não perfeito, caso contrário não teria havido queda

As dificuldades científicas e a crítica de Voltaire e Johnson

20. Embora, numa época em que muitos homens de ciência eram também teólogos, essa mudança na aplicação religiosa e ética da concepção tendesse por si só a promover mudança científica correlata, esta foi reforçada também por razões menos especulativas, entre elas a dificuldade de ver, nos tipos orgânicos existentes, o grau de continuidade exigido pela teoria.

  • essa objeção foi muito explorada por poucos escritores suficientemente ousados para atacar toda a suposição da plenitude da criação, sendo Voltaire, o Dr. Johnson e o antropólogo pioneiro Blumenbach os mais notáveis desses críticos na segunda metade do século

21. Voltaire conta que, ao ler Platão pela primeira vez e deparar com a gradação de seres que se eleva do átomo mais leve ao Ser Supremo, ficou tomado de admiração, mas que, examinando-a de perto, o grande fantasma se desvaneceu, como as aparições costumavam desvanecer-se ao canto do galo.

  • essa hierarquia agrada aos bons homens que julgam nela ver o Papa e seus cardeais, seguidos de arcebispos e bispos, párocos, vigários, diáconos, monges, terminando a linha com os Capuchinhos

22. Voltaire argumenta em três frentes que a série contínua não existe no mundo orgânico: primeiro, algumas espécies desapareceram e outras estão em vias de extinção, podendo mesmo ser destruídas pelo homem, tendo provavelmente também havido raças humanas extintas.

  • segundo, o fato de podermos conceber espécies imaginárias intermediárias entre as reais mostra de imediato que a sequência de formas está quebrada, havendo visível abismo entre o macaco e o homem
  • terceiro, a suposição da completude da cadeia exige vasta hierarquia de seres imateriais acima do homem, mas que razão há, além da revelação, para crer neles?

23. Voltaire conclui, então, com apóstrofe a Platão, fonte de toda a ilusão: temo que nos tenhas contado apenas fábulas, e jamais falado senão em sofismas, tendo feito mais mal do que sabes.

24. Voltaire também argumentou, embora com consistência não muito meticulosa, contra as suposições a priori em que se apoiava o princípio do pleno cósmico, negando a infinidade do mundo no espaço mas afirmando sua infinidade no tempo, atacando assim a doutrina tradicional da criação com bases igualmente tradicionais: nada vem do nada, logo o universo deve ser eterno.

25. O ataque do Dr. Johnson à teoria baseou-se em fundamentos semelhantes, mas foi, surpreendentemente, o mais profundo e dialético dos dois: para ele, o princípio da plenitude não só contradizia fatos observáveis, mas contradizia a si mesmo, pois num continuum verdadeiro deve haver infinidade de membros intermediários entre quaisquer dois membros, por mais “próximos” que sejam.

  • a Escala da Existência do Infinito ao Nada não pode possivelmente ter Ser; o mais Alto Ser não infinito deve estar a distância infinita abaixo do Infinito, havendo sempre espaço para série infinita de existência indefinível nessa distância
  • a qualquer distância que se suponha a próxima ordem de Seres acima do Homem, há espaço para ordem intermediária entre eles, e se para uma, então para ordens infinitas

26. Johnson observa ainda que o princípio da plenitude tem implicações que deveriam ser verificáveis empiricamente mas são de fato falsas: toda razão que prove haver seres de toda espécie possível prova também que há o maior número possível de cada espécie, o que, quanto ao Homem, sabemos não ser verdade.

  • conclui Johnson que essa Escala do Ser foi demonstrada por ele repousar sobre o Nada em baixo, apoiar-se no Nada em cima, e ter vacuidades de degrau em degrau, por onde qualquer Ordem de Ser pode afundar na Nulidade sem inconveniência aparente para a ordem vizinha

27. A crítica de Johnson chegou muito perto da raiz da questão; se devidamente considerada por seus contemporâneos, o fim do século XVIII poderia ter sido marcado pelo colapso do princípio da continuidade, mas não parece que suas críticas ou as de Voltaire tenham produzido muito efeito, continuando as suposições de plenitude, continuidade e gradação a operar poderosamente, especialmente nas ciências biológicas.

A conciliação entre plenitude e temporalidade

28. Tornava-se, porém, cada vez mais evidente — como já fora para alguns escritores medievais — que algo precisava ser feito para conciliar o postulado da necessária realização completa de todos os possíveis com o fato de que o mundo concreto é temporal, sendo a necessidade suposta eterna, mas sua execução manifestamente não sendo.

  • um recurso a que até mente tão grande quanto a de Leibniz por vezes se socorreu consistia em atribuir membros consecutivos da série a planetas ou sistemas solares espacialmente distribuídos
  • Maupertuis propôs conjectura igualmente rebuscada: muitas espécies teriam sido eliminadas por acidente, como a aproximação de um cometa, sendo a natureza atual como edifício outrora regular após ter sido atingido por um raio

29. A quem mantinha fé tenaz na plenitude e continuidade do universo, sugeria-se naturalmente hipótese menos insatisfatória: a de que a Cadeia do Ser, embora não observavelmente completa agora, seria vista como tal, ou tendendo a sê-lo cada vez mais, se pudéssemos conhecer toda a sequência de formas no tempo, passado, presente e futuro.

30. Vários estudiosos recentes sustentam que Leibniz não adotou essa solução, mantendo-se fiel à concepção de universo estático; mas a evidência é, no conjunto, contrária a essa interpretação, havendo carta famosa, provavelmente de 1707, em que discorre com entusiasmo ainda maior que o usual sobre a importância científica do princípio de continuidade, confessando ter ideias que “esta época não está preparada para receber”.

  • há razão para crer que uma dessas implicações era justamente a conclusão de que o mundo ainda está incompleto, devendo a Cadeia do Ser ser interpretada como processo em que todas as formas são gradualmente realizadas na ordem do tempo

31. Na Protogaea (1693), Leibniz aponta que muitas espécies de organismos existentes em períodos geológicos anteriores hoje se extinguiram, e que muitas conhecidas hoje então provavelmente não existiam, sugerindo ser hipótese digna de crédito que, no curso das vastas mudanças da crosta terrestre, até as espécies animais tenham sido muitas vezes transformadas.

  • escreve ainda que é possível que espécies com algo de felino, como o leão, o tigre e o lince, tenham em época anterior pertencido à mesma raça, sendo agora consideradas subvariedades da espécie gato original
  • sugere também ser provável que os primeiros animais fossem formas marinhas, das quais descendem anfíbios e animais terrestres

32. Em escrito posterior, Leibniz pronuncia-se com toda a definição possível a favor da hipótese de avanço contínuo: o pleno de possibilidade é agora, e será para sempre, como campo parcialmente cultivado, do qual devem brotar sem fim novos e mais finos crescimentos, já que um continuum jamais pode se esgotar.

  • mesmo que muitas substâncias tenham atingido grande grau de perfeição, restarão sempre, devido à infinita divisibilidade do continuum, partes ainda dormentes no abismo das coisas, a serem despertadas e elevadas a condição maior e melhor, de modo que o progresso jamais chegará ao fim

33. Essa tese geral do avanço criativo da natureza, e as afirmações ocasionais mais concretas da transformação das espécies, Leibniz precisou reconciliar com outros aspectos de seu sistema que a princípio pareceriam incongruentes, sendo tanto sua teoria das mônadas quanto sua embriologia pré-formacionista afirmações de que todo ser sempre existiu, em certo sentido, na natureza.

  • pode-se afirmar com certeza que a alma de todo animal preexistiu desde a criação, e num corpo orgânico próprio, sendo todo nascimento de animal apenas a transformação de animal já vivo
  • isso não significava, contudo, que o ancestral fosse morfologicamente semelhante ao descendente, sendo através de vasta série de “mudanças, evoluções e involuções” que o animálculo original “se tornou o animal presente”

34. Na concepção, uma mudança radical pode ocorrer: não só o corpo orgânico, mas também uma alma nesse corpo, e o próprio animal, já estavam ali antes da concepção, sendo o animal apenas preparado, por meio dela, para grande transformação, a fim de tornar-se animal de outra espécie — elevação do germe individual a espécie superior que Leibniz considera exceção, não regra.

  • as almas pré-existentes dos homens não eram, estritamente falando, almas humanas, tendo existido como almas sensitivas ou animais desde o início das coisas até receberem a razão, seja por método natural de elevação, seja por operação especial divina, uma espécie de “transcriação”

35. Uma vez geradas, as almas racionais não só ficam isentas de recaída a grau inferior, mas avançam e amadurecem continuamente, como o próprio mundo do qual são imagens, embora as almas de outros animais individuais, também indestrutíveis enquanto o mundo durar, possam, através de vicissitudes naturais, afundar na escala.

  • Leibniz pronuncia, contudo, ser “verdade certa que toda substância deve alcançar toda a perfeição de que é capaz”, intimando por vezes que a possibilidade de avanço ilimitado se estende diante de todas as mônadas

36. Essa introdução da doutrina do progresso universal — evolução individual, biológica e cósmica de uma só vez — na filosofia de Leibniz cindiu seu sistema completamente em dois, conflitando primeiramente com o princípio de razão suficiente, que exigia a atualização, em todos os tempos, de todos os possíveis compossíveis; uma “verdade necessária e eterna” não pode estar em processo de gradualmente se tornar aproximadamente verdadeira.

37. A versão evolucionista do sistema também prejudicava a lógica do próprio princípio da plenitude e a teoria das mônadas, sendo parte essencial dessa teoria que a totalidade da realidade sempre consiste dos mesmos indivíduos em número fixo, determinado pelo número de graus de diferença que a Razão Eterna reconhece como possíveis entre as mônadas.

  • mas se uma mônada muda de lugar na escala tornando-se capaz de representação mais adequada do resto do universo, ela perde sua identidade, dificuldade que Leibniz podia contornar, no caso das almas racionais dotadas de memória, definindo de outro modo o principium individuationis
  • mas há almas “sensitivas” e “animais” além das racionais, às quais essa base psicológica de individualidade não se atribui, sendo o progresso de todas as mônadas de graus inferiores incompatível com o princípio da plenitude, a menos que se assumisse aumento no número das mônadas existentes com o curso do tempo

38. Finalmente, a doutrina leibniziana do progresso universal e perpétuo era manifestamente abandono do otimismo, no sentido filosófico próprio do termo, em favor do melhorismo — este mundo não é agora, nem jamais será, “o melhor dos mundos possíveis”, mas apenas um mundo em processo de se tornar melhor, ainda que, para Leibniz, isso o tornasse superior ao “melhor” do otimista, pois um bem finito incapaz de ser transcendido carece do primeiro requisito do valor.

39. Há, portanto, dois sistemas leibnizianos de filosofia, inteiramente irreconciliáveis entre si, embora seu autor pareça ter permanecido alheio a esse fato: uma visão de mundo através e através racional, imutável em sua estrutura essencial, próxima da de Spinoza, em que o tempo não é “levado a sério”; outra em que o processo temporal, concebido como aumento contínuo de valores realizados, é o aspecto mais significativo da realidade, sendo a mudança a marca mais indispensável de excelência.

Expressões poéticas e científicas do evolucionismo

40. Young, nos Night Thoughts (1742-44), dá aplicação astronômica a essa concepção, supondo que cada planeta, ou antes cada sistema solar, passou por longa série gradual de estágios do que hoje chamaríamos evolução estelar, ascendendo do obscuro ao brilhante segundo a lei sagrada da natureza.

  • o que interessa nessa passagem é, mais uma vez, a ilustração de que a noção geral do nosso e de outros sistemas estelares como cenários de avanço evolutivo antecedeu em muito a descoberta da maior parte da evidência científica dessa hipótese

41. Young volta característicamente essa concepção aos usos da edificação moral, mas não é na regularidade ou imutabilidade do comportamento das estrelas que o homem deve encontrar modelo, e sim em sua progressividade, sua passagem contínua “do baixo ao elevado, do obscuro ao brilhante” — imitação moral consistindo em esforço consciente e deliberado de perpétuo autoaperfeiçoamento, moral precisamente oposta à que Pope extraíra da Cadeia do Ser estática.

42. Quase na mesma época, outro e melhor poeta inglês, Akenside, elaborava o tema muito mais completamente em The Pleasures of the Imagination, versão vagamente evolucionista, em estilo poético setecentista, da cosmogonia do Timeu, sendo sua inspiração principal claramente platônica.

  • mas o poeta se afasta de seu original platônico: não pode crer que o processo temporal não traga enriquecimento à realidade, sendo Deus, com mão paterna sempre em novo acréscimo de felicidade e virtude, quem adorna a vasta estrutura harmoniosa, do mudo peixe-molusco arquejante à praia aos homens, aos anjos, às mentes celestes

43. Akenside parece, contudo, ainda influenciado pela suposição de que a série de formas possíveis deve permanecer “plena”, assegurando que ordens inferiores surgem sucessivamente para preencher o vazio abaixo; numa revisão posterior do poema, contudo, declara que nem em tempo infinito todas as Ideias serão realizadas no mundo criado, constituindo as Formas do ser “vasto exército ideal” que as obras de Deus jamais revelarão por completo.

44. Kant, na década seguinte, propôs teoria de evolução cósmica que era simplesmente versão temporalizada do princípio da plenitude, sendo a potência criativa do fundamento do mundo infinita, e o número e excelência dos sistemas de mundos comensuráveis com a imensidão de seu Criador, não se dando essa conversão do infinito ideal em atualidade concreta de uma só vez.

  • na Allgemeine Naturgeschichte, Kant ocupa-se sobretudo da evolução pré-orgânica, a formação de sistemas estelares e de sistemas de sistemas, tentativa de combinar as implicações do princípio da plenitude com o conhecimento astronômico de seu tempo
  • mesmo na condição original da natureza, Kant vê o traço daquela completude derivada de sua origem na eterna Ideia da Inteligência divina, tendo a matéria elementar impulso a moldar-se por evolução natural em constituição mais perfeita

45. A partir do núcleo da condensação primeira, a criação, ou antes o desenvolvimento da Natureza, se espalha por graus com avanço contínuo a uma amplitude sempre maior, a fim de que, no processo da eternidade, a infinidade do espaço se encha de mundos e sistemas de mundos; embora esse processo tenha tido começo, jamais terá fim.

  • cada sistema, após atingir a “maturidade de seu desenvolvimento”, estará sujeito a processo reverso de dissolução e destruição eventual, mas a fecundidade infinita da Natureza garante que as perdas numa região serão compensadas pela produção de novos mundos noutra

46. Assim, para Kant nesse momento, o desenvolvimento contínuo e a diversificação progressiva são a lei suprema da natureza, não só para o universo como um todo mas para cada componente dele; mas em cada parte as potencialidades latentes de desenvolvimento têm limite fixo, e quando toda a “multiplicidade” de que é capaz se realiza, ela deixa de se ajustar ao esquema cósmico e é eliminada.

  • Kant considera razoável supor que mesmo as lacunas causadas pela morte de mundos não permanecerão sem preenchimento, sendo essa ideia tão provável quanto conforme ao plano geral das obras divinas

47. Aproximadamente no terceiro quartel do século, teorias que se podem chamar, em sentido amplo, evolucionistas se multiplicaram, tendo a hipótese geral da derivação de todas as espécies atuais de pequeno número, ou talvez um único par, de ancestrais originais sido proposta por Maupertuis em 1745 e 1751, e por Diderot em 1749 e 1754.

  • mesmo quando os princípios de plenitude e continuidade não eram fatores importantes na promoção dessa tendência, o resultado era, ainda assim, aumentar a pressão rumo à transformação desses princípios em sua forma temporalizada, como em passagem de d'Holbach negando que a natureza seja estéril de novos seres

O caso curioso de Robinet

48. O exemplo mais interessante e curioso da transformação que a Cadeia do Ser sofria nesse período encontra-se nos escritos, no final do terceiro quartel do século, do filósofo francês J. B. Robinet, cujas incursões pela história natural o levaram a algumas extravagâncias por que ficou mais conhecido que por suas realizações mais meritórias.

  • seu mérito residia justamente no traço que Grimm considerava seu principal defeito: possuía em alto grau o esprit de système, insistindo em desenvolver plenamente as consequências de premissas que seus predecessores haviam deixado inexploradas

49. Nos primeiros volumes de seu De la Nature (1761-68), Robinet detém-se antes na forma estática que temporalizada da concepção da Cadeia do Ser, sendo o terceiro volume reafirmação especialmente completa e metódica do princípio da plenitude e de todas as deduções familiares dele extraídas por escritores anteriores.

  • a atividade da Causa Única é completa; no produto dessa atividade está tudo quanto poderia existir, tendo Deus preenchido o reino fóssil com todas as combinações possíveis e feito todas as espécies vegetais que poderiam existir

50. Já que a mesma lógica que exige supor que a Causa Infinita nunca esteve inativa exige também supor que sua atividade sempre se exerceu ao máximo, segue-se que sempre houve no universo tantas espécies de criaturas quantas há agora; pergunta Robinet se Deus não pode fazer mais nada de novo, respondendo que não, pois já fez tudo — toda extensão possível, toda matéria possível, todas as inteligências possíveis, todos os seres possíveis.

51. Infelizmente para sua reputação, Robinet levou sua fé na plenitude da natureza a extremos surpreendentes, sendo talvez mais conhecido não por seu lugar na história do evolucionismo biológico mas por sua crença na realidade do homem marinho, citando numerosos testemunhos de sereias e homens-peixe avistados em diversas partes do mundo.

  • como Robinet mesmo colocou, muito à maneira de Descartes: formei ideia tão vasta da obra do Criador que, do fato de uma coisa poder existir, infiro prontamente que ela existe
  • Lord Monboddo observou em 1774 que um investigador modesto da natureza não deveria pôr outro limite à variedade de suas produções além daquele estabelecido por Aristóteles: quicquid fieri potest, fit

52. Já em seu primeiro volume, Robinet adotou a noção de perfectibilidade de Turgot e Rousseau, aplicando-a a todos os seres vivos, embora com limites fixados pelas potencialidades preordenadas de cada espécie, sendo desde o início opositor do ainda influente primitivismo, pois a mente humana deve estar sujeita à lei geral do progresso.

  • o verdadeiro Estado de Natureza não é aquele em que os seres se encontram ao nascer, mas inclui os acréscimos que podem dar a si mesmos ou receber da ação de objetos externos, sendo a sociedade obra da natureza, produto natural da perfectibilidade humana

53. Robinet, característicamente, percebe aqui uma dificuldade: se a perfectibilidade é atributo do homem, por que tantas raças permanecem em estado de selvageria? A explicação, encontra-a divertidamente no solvente universal, o princípio da plenitude — a causa produtiva deve necessariamente preencher, com magnífica profusão, todas as classes de animalidade.

54. A perfectibilidade logo se estende, em Robinet, de tendência ao progresso dentro dos limites de caracteres específicos a lei cósmica universal; os “germes” de todas as coisas sempre existiram, mas todos contêm em si princípio interno de desenvolvimento que os impele através de vasta série de metamorfoses pelas quais ascendem na “escala universal”, conectando-se curiosamente a garantia do progresso infinito do universo inteiro ao princípio matemático da divisibilidade infinita do continuum.

55. Robinet faz sua uma proposição sugerida por Diderot duas décadas antes: a existência da Natureza é necessariamente sucessiva, não lhe convindo estado de permanência, pois os germes criados todos juntos não se desenvolvem todos juntos, havendo a lei de suas gerações trazido esses desenvolvimentos um após outro.

  • nessa vicissitude contínua, não há dois pontos na existência da Natureza precisamente semelhantes; embora sempre a mesma, é sempre diferente, respondendo assim que é verdade que a Natureza jamais foi, nem jamais tornará a ser, precisamente o que é no momento em que fala

56. Tanto antes quanto depois dessa aparente transformação evolucionista do princípio da plenitude, Robinet é igualmente zeloso em desenvolver as implicações da lei de continuidade, considerando-a “primeiro axioma da filosofia natural”: a Escala dos Seres constitui um todo infinitamente graduado, sem linhas reais de separação, havendo apenas indivíduos, e não reinos, classes, gêneros ou espécies.

57. Robinet queixa-se de que alguns naturalistas que prestaram homenagem geral a essa lei falharam em levá-la a cabo rigorosamente; assim, Bonnet, “grande amador da lei de continuidade”, ainda achara possível dividir a escala do ser em quatro classes gerais, o que Robinet considera negação clara da continuidade, pois credita a algumas classes atributos positivos que outras absolutamente não têm.

  • “o negativo está sempre à distância infinita do positivo”, devendo as distinções entre membros da série ser sempre em termos de mais ou menos de algum caráter comum, não de positivo e negativo

58. Considerando essa observação, o princípio da continuidade revela consequências filosóficas abrangentes geralmente negligenciadas: toda diferença puramente qualitativa entre duas coisas é necessariamente descontinuidade, sendo a única forma de salvar o princípio supor que todas as coisas têm algum grau ou medida de qualquer qualidade possuída por qualquer outra.

  • que continuidade pode haver entre o orgânico e o inorgânico, entre o animado e o inanimado, entre o racional e o não-racional? É evidente que não há termo médio entre o positivo e o negativo

59. Essa foi observação aguda e importante sobre o conceito do continuum qualitativo, tornando explícita e generalizando a lógica que seria seguida mais vagamente e menos consistentemente por muitos filósofos posteriores, entre eles motivo principal do panpsiquismo contemporâneo: evitar a descontinuidade implicada pela suposição de que a consciência é propriedade “emergente”.

  • subjacente a todo esse raciocínio está a suposição da necessidade do “método retrotensivo” — regra de que tudo empiricamente encontrado nas entidades naturais mais complexas e evoluídas deve ser inferencialmente relido nas mais simples e antigas

60. Onde escritores posteriores aplicaram esse método apenas esporadicamente, Robinet viu que ele deveria ser aplicado universalmente ou reconhecido sem força alguma, resultando o que ao leitor sensato pareceria simples reductio ad absurdum do princípio da continuidade, mas que a Robinet parecia estabelecer, com um único golpe de lógica, todo um grupo de conclusões filosóficas importantes — hilozoísmo, panpsiquismo e espécie peculiar de panlogismo.

  • preferiria dar até ao menor átomo de matéria alguma inteligência, em grau e qualidade adequados a ele, a recusar organização aos fósseis e fazer deles seres isolados sem conexão com os demais

61. Consequência adicional, e importante para Robinet, da mesma observação sobre o significado lógico da lex continui é a restrição, por esse princípio, do alcance do próprio princípio da plenitude, do qual era concebido como corolário: já que não há série contínua a menos que todos os membros tenham algo em comum, deve haver forma-tipo anatômica única comum a todos os seres vivos.

  • havia apenas um plano possível de existência orgânica ou animal, mas esse plano poderia e deveria ser variado de infinitas maneiras, sendo a unidade de modelo mantida na prodigiosa diversidade de formas a base da continuidade ou sequência graduada dos seres

62. Mas um padrão exemplificado igualmente em tão grande variedade de formas deve ser, ele mesmo, simples e escasso no último grau, sendo o protótipo nada mais que “tubo alongado ou cilindro oco, naturalmente ativo”, equivalente, em termos concretos, ao que Robinet chama de “órgão”, por sua vez equivalente à célula protoplasmática.

  • ao afirmar que esse é o “modelo” do qual todas as formas orgânicas são variantes, Robinet parece muitas vezes realmente querer dizer que é a unidade de que todas as estruturas orgânicas são integrações

63. Aqui também Robinet apenas elaborava e ampliava sugestão de Diderot, igualmente ligada aos postulados de plenitude e continuidade, tendo Diderot escrito em 1754 que parece a Natureza ter tomado prazer em variar o mesmo mecanismo de infinitas maneiras diferentes, só abandonando um tipo de produtos depois de multiplicar indivíduos em todos os modos possíveis.

64. Por “protótipo” Robinet entendia geralmente não simples germe primordial de todos os organismos, mas modelo ideal encarnado em incontáveis particulares diferentes, sendo modelo que representa o ser vivo “reduzido a seus termos mais baixos”, terreno inexaurível de variações; se Robinet tivesse limitado a aplicação dessa noção aos vertebrados, teria expressado fato científico definido, mas o princípio da continuidade, tal como interpretado por ele, obrigava-o a postular modelo único para todos os indivíduos naturais, animados e mesmo inanimados.

65. Robinet foi assim, embora não o originador, o primeiro elaborador e campeão entusiástico daquela noção de Urbild sobre a qual todas as formas orgânicas e talvez todas as formas naturais são variações, noção que seria retomada por Herder e se tornaria quase obsessão de Goethe em certo período.

66. Robinet oscila, contudo, entre duas maneiras de conceber o que a Natureza faz em seu incessante labor: ora vê nele mera ilustração daquilo que chamamos forma temporalizada do princípio da plenitude, esforço para multiplicar a variedade ao maior grau possível, não deixando nenhuma nuance ou variação sem realizar.

67. Noutras passagens, contudo, sob a influência da ideia do protótipo universal, Robinet vê na história passada da formação de novas espécies algo mais que impulso à variação promíscua: movimento discernível da Natureza numa direção geral, esforço rumo a objetivo particular — embora hesitante e cheio de desvios, progresso, diríamos hoje, por tentativa e erro.

  • na sequência prodigiosamente variada dos animais abaixo do homem, vejo a Natureza em trabalho de parto avançando hesitantemente rumo àquele excelente ser que coroa sua obra

68. Quando o homem é assim visto como objetivo dos lentos processos da criação, a unidade e especificidade característica da sequência sucessiva de formas pode, sugere Robinet, ser melhor reconhecida considerando-se a meta antes que o início, o que o levou infelizmente a encontrar similitudes de rostos, além de braços e pernas, no rabanete e outras plantas, publicando desenhos desses antropoides vegetais.

A filosofia romântica de Robinet e a Palingénésie de Bonnet

69. O papel curiosamente misto de Robinet na história pode ainda ser visto no fato de que o tipo de evolucionismo biológico por ele adotado se desenvolveu em filosofia geral da natureza de tipo essencialmente “romântico”, antecipando algumas das concepções mais características tanto da Naturphilosophie de Schelling quanto da de Bergson em nosso tempo.

  • a realidade fundamental na natureza, para Robinet, não é a matéria mas a atividade, sendo o espetáculo da evolução a manifestação da energia expansiva e autodiferenciadora, o impulso criativo dessa puissance active

70. No início, e nos graus inferiores da Escala do Ser, a matéria bruta domina, sendo a tendência à ação espontânea inteiramente entravada por ela; mas pouco a pouco a força que faz pela vida ganha força, estabelecendo no homem seu domínio tão completo que a matéria se torna menos obstáculo que instrumento pelo qual essa força alcança seus fins.

  • a força ativa parece esforçar-se para elevar-se acima da massa extensa, sólida e impenetrável à qual está acorrentada, mas à qual muitas vezes é obrigada a submeter-se

71. A progressão não terminou, acrescenta Robinet: pode haver formas mais sutis, potências mais ativas, que as que compõem o homem, podendo a força livrar-se insensivelmente de toda materialidade e assim começar um novo mundo — mas não devemos deixar-nos perder nas regiões sem limite do possível.

  • é manifestamente esboço de filosofia de l'évolution créatrice, com semelhança acentuada por estar também, no fim, combinada de modo intrigante com espécie de fenomenalismo

72. Bonnet, em sua Palingénésie philosophique (1770), apresentou um dos compostos especulativos mais extraordinários da história tanto da ciência quanto da filosofia, entrelaçando geologia, embriologia, psicologia, escatologia e metafísica numa visão geral da história, passada e futura, de nosso planeta e dos seres vivos nele.

73. Bonnet, seguindo Leibniz, não está disposto a abandonar formalmente a implicação tradicional do princípio da plenitude segundo a qual tudo foi criado desde o início; todas as partes componentes do universo são contemporâneas, tendo a Vontade Eficaz criado num só ato tudo quanto poderia ser criado.

  • mas o fato da mutabilidade universal da natureza é evidente demais para necessitar argumento, parecendo a Bonnet conclusivas as indicações de diferenciação e aumento progressivos das formas de vida em nosso globo

74. Como reconciliar isso com a doutrina da completude da criação original? A resposta encontra-se na teoria embriológico-metafísica que Bonnet toma emprestada de Leibniz: todos os indivíduos que compõem o universo são tão antigos quanto ele e indestrutíveis, sendo primariamente “almas”, tendo cada organismo também “germe” ou pequeno corpo orgânico igualmente indestrutível.

  • a alma de um pólipo, sendo indivisível, não se quebra em partes quando o pólipo se quebra, mas isso dá oportunidade a certos germes de se desenvolver, formando-se assim tantas pessoas novas, novos egos

75. Segundo Bonnet, nosso globo passou por longa série de épocas, cada uma terminada por “revolução” ou cataclismo em que todas as estruturas orgânicas então existentes eram destruídas — mas não os germes nem suas almas associadas —, sendo o tipo de corpo bruto que dado germe assume ao renascer numa nova época diferente de suas encarnações anteriores, tudo isso já previsto na constituição do germe desde a criação.

76. Bonnet está certo, por fundamentos científicos e religiosos, de que a sequência de épocas, e portanto de tipos orgânicos, constitui progresso do inferior ao superior, mostrando os estágios embriológicos da ontogênese as formas pelas quais o animal sucessivamente passou nas épocas anteriores do globo — um dos primeiros prenúncios da teoria da recapitulação.

77. As “revoluções do globo” não podem ter fim, de modo que, no futuro como no passado, todo germe reaparecerá numa sucessão de encarnações cada vez mais elevadas, transformando-se nossas espécies presentes em formas “tão diferentes das atuais quanto o estado de nosso globo será diferente de seu estado atual”.

  • essa progressão de tipos não parece, para Bonnet, ser progresso de geração em geração, mas sim que o corps organique de cada indivíduo será conservado sem alteração até que o estado adequado do globo sobrevenha para suscitar seu próximo desdobramento superior

78. Todo indivíduo cujo germe efetivamente se desenvolveu em animal pleno nesta ou em época anterior terá também conservação de espécie de identidade pessoal pela memória; entre os germes que não vieram a nascer “na presente economia de nosso mundo”, também haverá ressurreição, mas sem memória.

  • o Homem, então transportado a outra morada mais adequada à superioridade de suas faculdades, deixará ao macaco ou ao elefante a primazia que hoje detém entre os animais de nosso planeta, podendo haver um Leibniz ou um Newton entre os macacos, um Perrault ou um Vauban entre os castores

79. Parece, portanto, que só em sentido bastante duvidoso Bonnet pode ser chamado “precursor do evolucionismo”, pois a sequência progressiva de formas orgânicas que afirmava não era concebida como resultante dos processos ordinários de geração dentro de nossa época atual, mas consistia em mutações extremas e descontínuas ocorrendo apenas a vastos intervalos de tempo, após grandes cataclismos — especulações comparativamente cruas e retrógradas frente às hipóteses evolutivas já propostas por Maupertuis, Diderot e Robinet.

80. Chegamos assim, na ordem aproximadamente cronológica de nossa revisão histórica, ao início daquela mudança profunda e momentosa, mas complexa e confusa, em pressupostos e valorações comumente chamada, embora de modo algo infeliz, de Romantismo, cuja relação com nosso tema geral as conferências seguintes examinarão.

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