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Elena Lamberti

MCLUHAN, Marshall. The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man. Toronto: University of Toronto Press, 2011.

Não apenas um livro sobre os meios: ampliando A galáxia de Gutenberg

Qual era AQUILO? O pequeno ponto de McLuhan

1. Na novela A figura no tapete, de Henry James, a busca pelo “pequeno ponto” de Hugh Vereker representa a tentativa de descobrir o princípio secreto e unificador que orienta toda a criação de um escritor, embora essa figura permaneça inacessível aos críticos incapazes de reconhecê-la por si mesmos.

  • Vereker define seu “pequeno ponto” como a finalidade particular que move toda a sua atividade literária e na qual arde com maior intensidade a chama de sua arte.
  • A descoberta não pode ser transmitida por uma explicação direta, pois deve resultar do esforço interpretativo do próprio leitor.
  • O narrador procura inutilmente a figura complexa oculta no “tapete” das obras de Vereker.
  • George Corvick descobre o segredo durante uma viagem à Índia, mas o comunica integralmente apenas à sua noiva, Gwendolyne.
  • A morte de Corvick e, posteriormente, a de Gwendolyne preservam o segredo, deixando o narrador e o segundo marido dela numa curiosidade permanentemente suspensa.

2. A primeira leitura de A galáxia de Gutenberg produziu uma fascinação acompanhada pela dificuldade de identificar o princípio particular da escrita de McLuhan, cuja compreensão somente se tornou possível mediante o contato posterior com sua crítica literária e com sua apropriação dos experimentos modernistas de linguagem e forma.

  • A experiência inicial assemelhou-se à perplexidade do narrador de Henry James diante da figura imperceptível no tapete.
  • A leitura de A paisagem interior permitiu compreender melhor tanto os autores modernistas quanto a forma de pensamento de McLuhan.
  • James Joyce, Wyndham Lewis e Ezra Pound constituíram referências decisivas para a elaboração de sua escrita.
  • McLuhan não apenas interpretou os experimentos modernistas, mas incorporou seus procedimentos formais à própria atividade intelectual.
  • O “pequeno ponto” que organiza sua obra consiste na forma descontínua, relacional e participativa do mosaico.

3. Na obra de McLuhan, a forma possui a mesma importância que o conteúdo, de modo que a máxima “o meio é a mensagem” se realiza na própria organização de sua escrita e revela as raízes humanísticas de sua investigação dos meios como ambientes.

  • A atenção à forma aproxima McLuhan de Joyce, Pound, Lewis e Eliot.
  • A compreensão de sua técnica literária esclarece simultaneamente suas concepções de literatura e de ambiente midiático.
  • Sua formação na Universidade de Cambridge não constitui mero dado biográfico, mas fundamento de seu modo de investigar os meios.
  • A condição de homem de letras determinou a maneira pela qual linguagem, literatura e tecnologia foram articuladas.
  • A dificuldade de perceber essa formação corresponde à incapacidade do peixe de reconhecer a água antes de experimentar um ambiente exterior a ela.

4. A literatura e as artes constituem o fio estrutural que atravessa as investigações midiáticas de McLuhan, funcionando não como ornamento, mas como fundamento de sua poética, de seu método exploratório e da própria construção narrativa de A galáxia de Gutenberg.

  • A tradição homérica aparece no início do prólogo para esclarecer o confronto entre culturas oral e letrada.
  • As pesquisas de Milman Parry e Albert B. Lord fundamentam a interpretação da passagem da oralidade à alfabetização e, posteriormente, à pós-alfabetização.
  • Rei Lear, de Shakespeare, funciona como modelo da formação do “homem fragmentado” produzido pela galáxia de Gutenberg.
  • A obra shakespeariana reaparece em diferentes capítulos como instrumento para interpretar processos culturais.
  • O capítulo final reúne Blake, Pope, Ruskin, Rimbaud, Proust, Joyce, Mallarmé, Coleridge, Dryden, Swift, Addison, Steele, Samuel Johnson, Poe, Baudelaire, Valéry e Eliot numa fantasmagoria literária que reconfigura a galáxia impressa.
  • A promessa de continuação em Os meios de comunicação como extensões do homem aproxima a composição da tradição do romance seriado.
  • A literatura é compreendida como função inseparável da existência comunitária, e não como disciplina isolada.
  • Richards, Leavis, Eliot, Pound e Joyce permitiram reconhecer o processo poético como meio de ajustar a percepção do leitor ao mundo contemporâneo.
  • A poética, conforme a definição de Umberto Eco, designa o projeto operativo que conduz uma obra a uma forma simultaneamente original e vinculada a tradições anteriores.
  • O projeto de McLuhan consiste em investigar os efeitos dos novos meios sobre a consciência e o ambiente, antecipando e contrabalançando suas consequências.
  • A forma que realiza esse projeto permanece subestimada porque sua descontinuidade e suas inúmeras referências literárias exigem participação interpretativa.
  • A autodefinição como explorador, e não como explicador, corresponde ao emprego do mosaico ou abordagem de campo como forma de investigação e exposição.

O mosaico de Marshall McLuhan: uma abordagem diferente do conhecimento e da realidade

5. A apresentação do mosaico nas primeiras linhas de A galáxia de Gutenberg adverte que a diferença da obra reside tanto nos problemas examinados quanto na maneira de examiná-los, pois a combinação de dados e citações constitui um instrumento prático para revelar operações causais na história.

  • O mosaico corresponde a uma abordagem de campo, em oposição à exposição linear e demonstrativa.
  • A justaposição de dados e citações torna perceptíveis relações que permaneceriam ocultas numa argumentação sequencial.
  • Sua origem encontra-se nas humanidades e na compreensão da literatura como função.
  • Sua aplicação dirige-se à atualidade dos meios e à interação entre tecnologia e cultura.
  • A forma literária converte-se, assim, em instrumento operativo de investigação histórica e ambiental.

6. O mosaico designa uma estrutura material ou conceitual composta por unidades discretas cuja combinação produz uma figura dotada de sentido mediante a relação dinâmica entre figura e fundo, exigindo do observador uma participação ativa no reconhecimento do padrão.

  • O termo pode designar uma forma artística romana ou bizantina, um modelo sociocultural canadense ou uma técnica de pavimentação.
  • Apesar da diversidade de aplicações, todas compartilham uma organização baseada em fragmentos, peças ou tesselas.
  • O significado não se encontra isoladamente em cada componente, mas emerge da configuração formada pelo conjunto.
  • O padrão ultrapassa a simples soma das unidades que o constituem.
  • Reconhecer a figura requer disposição cooperativa e atividade interpretativa do observador.
  • A observação transforma o receptor numa espécie de investigador capaz de reconstruir a narrativa latente da composição.
  • A escrita de McLuhan reproduz essa estrutura ao exigir que leitores e espectadores encontrem a “figura no tapete”.
  • A figura descoberta não se separa de seu fundo, pois resulta precisamente das relações entre ambos.

7. O mosaico de McLuhan reelabora a escrita alfabética numa forma não linear, tátil e multissensorial, desmontando a anatomia tradicional da página para treinar leitores conscientes capazes de preservar sua identidade na condição desencarnada da era elétrica.

  • A página deixa de reproduzir metaforicamente a organização do corpo humano.
  • Os títulos convencionais são substituídos por glosas de capítulo, fazendo a página perder sua “cabeça”.
  • As notas de rodapé desaparecem e as referências são integradas ao corpo do texto, fazendo a página perder seus “pés”.
  • Essa desarticulação formal corresponde à condição dos seres humanos eletricamente estendidos, cuja psique se projeta para além do corpo.
  • O indivíduo moderno torna-se uma montagem de partes frouxamente reunidas.
  • No telefone ou no ar, participa-se da comunicação sem presença corporal integral.
  • O problema decisivo consiste em continuar sendo alguém quando a extensão tecnológica parece eliminar o corpo.
  • A participação ativa exigida pelo mosaico impede a passividade, a anestesia perceptiva e a homogeneização dos leitores.

O mosaico de McLuhan: potencialidades verbo-voco-visuais de suas sondas

8. O mosaico de McLuhan substitui a metáfora biológica do corpo pela metáfora tecnológica da sonda, unidade flexível que permite explorar ambientes externos e internos e converter a fixidez visual da página impressa numa experiência acústica e participativa.

  • A sonda funciona como tessela elementar do mosaico.
  • Sua combinação com outras sondas produz padrões que não podem ser reduzidos a proposições isoladas.
  • A página torna-se um campo acústico no qual relações e ressonâncias se manifestam simultaneamente.
  • O leitor deixa de observar exteriormente uma coisa pronta e passa a integrar a paisagem textual.
  • A leitura adquire a natureza de acontecimento, não de simples contemplação de um objeto.
  • A participação no texto coincide com a participação no próprio processo de descoberta.

9. A contracultura juvenil do final da década de 1960 compreendeu a comunicação de McLuhan como acontecimento participativo, mas essa recepção contribuiu para reduzir sua figura pública à de guru dos meios e entusiasta da tecnologia, obscurecendo a densidade intelectual de suas sondas.

  • A filosofia do happening favoreceu a compreensão de uma comunicação que deveria ser experimentada, e não apenas explicada.
  • A aproximação com jovens rebeldes, Yoko Ono e John Lennon enfraqueceu sua reputação convencional como professor de literatura.
  • Fórmulas como “os computadores são o LSD do mundo corporativo” foram interpretadas como slogans superficiais.
  • A afirmação sobre os “novos turistas” como viajantes interiores relacionava-se aos efeitos psíquicos de meios então recentes, como a televisão.
  • A leitura exclusivamente letrada impediu a percepção dessas frases como dispositivos interativos.
  • As sondas funcionam como unidades de conexão entre o leitor e a rede fragmentada de conhecimentos presente nos textos.
  • Sua dimensão verbo-voco-visual provoca sinestesia e reorganiza a percepção das paisagens interiores e exteriores.

10. A densidade aforística, paratática e paradoxal da sonda compensa sua brevidade ao estimular investigações mais profundas, funcionando como glosa dinâmica que abre relações de conhecimento dentro e fora do texto.

  • A designação “glosa” remete à exegese bíblica e às notas marginais de manuscritos e livros impressos.
  • A sonda não apenas explica uma passagem, mas acrescenta uma unidade textual capaz de gerar novos padrões.
  • Sua leitura em profundidade transforma-a numa janela para paisagens textuais e contextuais mais amplas.
  • O leitor é levado a investigar significados possíveis, vínculos intertextuais e implicações não explicitadas.
  • Uma leitura rápida permite entretenimento e associações inesperadas, ainda que não produza compreensão imediata.
  • O humor desempenha função cognitiva, pois rompe hábitos perceptivos e prepara a formação posterior do conhecimento.

11. A sonda ou glosa constitui o componente fundamental do mosaico porque transmite um conhecimento fragmentário que, embora possa assumir aparência formular, transforma o leitor em participante ativo e desencadeia relações intertextuais entre situações heterogêneas.

  • A tradição aforística fornece o modelo de condensação e descontinuidade.
  • Cada sonda liga o texto presente a outros textos, contextos, conhecimentos e experiências.
  • Questões aparentemente desconexas são formuladas de maneira paradoxal e provocadora.
  • A exploração das relações não é realizada previamente pelo escritor, mas confiada ao leitor.
  • As sondas desenvolveram-se de aforismos tradicionais para construções paratáticas que também incorporam imagens.
  • Sua função permaneceu constante: provocar, envolver e modificar a maneira de abordar uma situação.
  • O leitor converte-se em “jogador ativo” diante de uma descontinuidade substancial que precisa ser articulada.

12. Embora as perguntas introdutórias dos quarenta e nove capítulos de A noiva mecânica já possam ser consideradas formas preliminares de sondas, somente em A galáxia de Gutenberg a glosa se torna um elemento estrutural plenamente concebido e próximo de um poema constituído por uma única imagem.

  • A sonda não deve ser apenas lida em sentido informativo.
  • Sua compreensão exige experiência, atravessamento e exploração de suas ressonâncias.
  • A unidade breve contém uma estrutura imagética capaz de abrir um campo conceitual mais amplo.

13. A civilização substitui o ouvido do ser humano tribal pelo olho e, ao instituir uma ordem predominantemente visual, entra em conflito com o ambiente elétrico que recupera formas acústicas e simultâneas de percepção.

14. A sonda sobre o olho e o ouvido condensa uma visão cíclica da história dos meios, articulando três formações sociais, três relações entre indivíduo e ambiente e três diferentes ordens sensoriais.

  • O ser humano bárbaro ou tribal corresponde ao mundo anterior ao alfabeto fonético.
  • A civilização representa o mundo posterior ao alfabeto e à imprensa.
  • O mundo elétrico surge após a comercialização da eletricidade e a constituição de ambientes comunicativos instantâneos.
  • A passagem do ouvido ao olho simboliza a transição da percepção acústica, inclusiva e simultânea, para a percepção visual, sequencial e linear.
  • A ordem visual caracteriza a sociedade letrada ocidental.
  • O ambiente elétrico torna essa ordenação insuficiente e obsoleta.
  • A eletricidade promove uma retribalização e recupera dinâmicas acústicas que haviam sido reprimidas pela alfabetização.
  • A formulação breve contém um campo histórico e sensorial que precisa ser recuperado pelo leitor.
  • Todas as demais sondas operam de maneira semelhante, comprimindo conhecimentos que somente se atualizam pela investigação.

15. A escrita aberta de McLuhan adquire significados diversos em cada ato de leitura e transforma os leitores em coprodutores, recuperando a força evocativa da linguagem e sua capacidade de abrir as portas da percepção por meio de um conhecimento fragmentário.

  • A obra permanece em processo porque sua significação depende da interação contínua com diferentes leitores.
  • A participação interpretativa assume a forma de uma prática de “faça por si mesmo”.
  • A palavra é libertada de um modelo exclusivamente classificatório e reconduzida à tradição dialógica e retórica.
  • A Escola de Paris simboliza a submissão da palavra à organização analítica, enquanto a Escola de Atenas representa sua potência evocativa.
  • A linguagem amplia a inteligência assim como a roda amplia os pés e o corpo.
  • A literatura constitui a reunião de textos que forma a matriz histórica das linguagens.

O mosaico: hipertexto ou hiperlinguagem?

16. As sondas de McLuhan empregam imaginação, intuição e linguagem de maneira artística, mas estendem essa atitude exploratória e lúdica a todos os campos cognitivos, convertendo a articulação linguística no princípio unificador de sua abordagem humanística, elétrica e interdisciplinar.

  • Todos os meios são tratados simultaneamente como produtos humanos e extensões das faculdades humanas.
  • Conforme Derrick de Kerckhove, métodos artísticos são aplicados a áreas normalmente reservadas às ciências humanas.
  • A linguagem funciona como arché capaz de unificar forma e substância.
  • O estilo aforístico combina conhecimentos antigos e experiências formais de vanguarda.
  • A condição de humanista da era elétrica permite reunir materiais provenientes de campos e linguagens culturais diversos.
  • A abordagem inclusiva de situações móveis procura revelar padrões sociais emergentes.
  • As figuras amplas ocultas no tapete cultural somente aparecem quando os fragmentos são relacionados.
  • A sintaxe imprecisa e descontínua desconcerta leitores incapazes de ruminar os aforismos e participar de seu desenvolvimento.

17. A redescoberta de McLuhan transformou suas formulações paradoxais em profecias tecnológicas e consolidou sua imagem como guru da comunicação digital, embora suas antecipações resultassem menos da previsão de aparelhos específicos do que da compreensão humanística dos efeitos já inscritos nas transformações presentes.

  • Não foram previstos diretamente dispositivos como BlackBerry, iPod ou iPhone.
  • Foram antecipados seus efeitos tecnológicos e as consequências ambientais das tecnologias digitais e interativas.
  • A afirmação de que somente se pode prever aquilo que já aconteceu exprime a prioridade do efeito sobre a causa formal.
  • O futuro aparece como invenção ou atualização de possibilidades provenientes do passado.
  • A classificação do mosaico como hipertexto anterior ao hipertexto pode simplificar uma forma mais complexa.
  • A comparação com tecnologias conhecidas torna a obra imediatamente compreensível, mas também a reduz a um clichê.
  • O mosaico deve ser compreendido preferencialmente como hiperlinguagem que examina novas tecnologias por meio das humanidades.

18. A concepção do hipertexto como atualização do memex pode ser examinada à luz do mito platônico de Theuth e Thamus, no qual a escrita, apresentada como auxílio à memória, é denunciada como causa de esquecimento e aparência de sabedoria.

  • O memex combina conceitualmente memória e índice num dispositivo imaginado em 1945.
  • Theuth apresenta suas invenções a Thamus e destaca os benefícios que trariam à humanidade.
  • A escrita é anunciada como instrumento de fortalecimento da memória e da inteligência.
  • Thamus adverte que o inventor de uma técnica não é necessariamente o melhor juiz de sua utilidade.
  • A dependência de sinais externos enfraquece a memória interna e a participação efetiva no aprendizado.
  • A escrita pode produzir aparência de sabedoria sem conhecimento verdadeiro.
  • O memex relaciona-se à memória de modo análogo à relação da escrita com a oralidade.
  • As sondas possuem função semelhante à dos vínculos hipertextuais, mas sua substância verbo-voco-visual aproxima-se mais da memória e da oralidade do que da escrita e do arquivo externo.
  • O problema decisivo consiste em olhar através do instrumento para perceber o ambiente e os efeitos que ele torna possíveis.

19. As sondas podem ser compreendidas como cabos adaptadores que conectam meios diferentes sobre um sistema operacional textual, renovando o livro e transformando a página de baixa tecnologia numa interface capaz de incorporar formas descontínuas de vida e comunicação.

  • A forma do livro é reprogramada pelo contato com outros meios.
  • A página pode ser submetida a uma espécie de engenharia reversa.
  • Diferentes entradas midiáticas são introduzidas no suporte impresso.
  • O mosaico torna a escrita inclusiva e simultânea.
  • A linguagem da página é intensificada por maior compressão, ampliação da memória e enriquecimento da lógica de articulação.
  • A forma fonética ultrapassa a linearidade e abre-se a potencialidades antes reprimidas.

20. O mosaico nasce do encontro entre oralidade e alfabetização, antecipa certos aspectos do hipertexto e permite deslocamentos livres entre fragmentos, mas distingue-se dele por permanecer enraizado na antiga arte liberal da gramática.

  • A intensidade resultante do encontro entre oral e escrito rompe a narcose perceptiva produzida pela mecanização da alfabetização.
  • A combinação analógica de sondas e fragmentos assemelha-se estruturalmente ao hipertexto.
  • A movimentação não linear para diante e para trás aproxima seus modos de leitura.
  • O fundamento gramatical não é uma propriedade necessária dos hipertextos contemporâneos.
  • A gramática orienta o conhecimento pela exposição e interpretação dos fenômenos.
  • O mosaico não se limita a reunir conceitos previamente compartimentados por meio de ligações externas.
  • A própria linguagem produz as relações e reorganiza o campo cognitivo.

21. O mosaico constitui sobretudo um instrumento de aprendizagem que mobiliza sabedoria antiga, jogos de palavras e analogias para ativar o arquivo interior do leitor, em vez de funcionar apenas como banco de dados acessível externamente.

  • Sua finalidade não se reduz a comunicar simultaneidade ou a tornar a experiência mais animada mediante a imitação de diversos meios.
  • A forma corresponde ao trabalho de um gramático dos meios, não à celebração de um admirador da tecnologia.
  • Trocadilhos e aproximações espirituosas permitem perceber relações entre elementos aparentemente inconexos.
  • A linguagem contém conhecimentos comprimidos que precisam ser desdobrados.
  • A mobilidade interna da linguagem permite que o próprio pensamento avance.
  • Cada frase de Harold Innis pode conter uma pequena monografia e incorporar uma biblioteca de referências.
  • A leitura torna-se ativa não apenas porque constrói significado, mas porque impulsiona novas explorações.
  • O texto não oferece simplesmente um arquivo a ser consultado; alcança o próprio leitor e o transforma em ambiente de acesso.
  • O mosaico ativa o depósito interior de memória, experiência e conhecimento.
  • O leitor é integrado ao processo de escrita e levado a realizar descobertas que o próprio escritor pode não ter previsto.

22. A leitura do mosaico atualiza conhecimentos historicamente elaborados pela linguagem, desperta o leitor da narcose narcísica e funciona como meio frio e tátil por exigir o preenchimento ativo daquilo que permanece implícito nas sondas e nos jogos de palavras.

  • O conhecimento não aparece como conteúdo concluído, mas como possibilidade que precisa ser atualizada.
  • O leitor compensa lacunas e desenvolve relações apenas comprimidas no texto.
  • A necessidade de participação caracteriza o mosaico como meio frio.
  • Sua tatilidade resulta do envolvimento simultâneo de diferentes faculdades perceptivas.
  • A mobilidade do pensamento torna a forma uma hiperlinguagem, e não apenas um hipertexto.
  • A linguagem preserva uma dimensão oral e acústica, enquanto o texto convencional permanece associado à linearidade visual.
  • A diferença implica graus distintos de consciência sensorial e participação interpretativa.

23. A recapitulação final das glosas de A galáxia de Gutenberg forma um sumário imagético que permite recombinar as sondas como imagens intelectuais e emocionais, fazendo do leitor um cocriador de novas associações, interpretações e narrativas.

  • A imagem, segundo Ezra Pound, apresenta instantaneamente um complexo intelectual e emocional.
  • As glosas finais produzem sinestesia, simultaneidade e multiplicidade de perspectivas.
  • O leitor pode trabalhar exclusivamente sobre essa sequência e gerar novas especulações.
  • Cada aforismo evoca campos de conhecimento desenvolvidos ao longo da obra.
  • As sondas funcionam como caixas de ideias, versos imagistas e trocadilhos contextuais.
  • A musicalidade inicialmente enigmática abre-se posteriormente numa representação concreta de ideias.
  • A justaposição não obedece a subordinação linear.
  • O sentido emerge das associações desencadeadas entre unidades autônomas.

Paideia pós-letrada

24. A capacidade de McLuhan para compreender antecipadamente os efeitos dos novos meios decorreu de sua formação humanística, de sua paixão pela literatura e do treinamento permanente para olhar simultaneamente as coisas e através delas.

  • A linguagem tornou possível investigar a reconfiguração do mundo como aldeia global.
  • As mudanças culturais, sociais e comunicativas foram examinadas dentro de ambientes altamente tecnológicos.
  • A linguagem também serviu para despertar a consciência acerca dos efeitos prolongados das inovações sobre os sentidos e a realidade.
  • A condição de visionário não dependeu de poderes proféticos, mas de uma disciplina perceptiva cultivada pelas humanidades.
  • A observação simultânea da figura e do fundo permitiu reconhecer processos ainda pouco evidentes para seus contemporâneos.

25. McLuhan reúne as diversas acepções de humanista ao combinar erudição clássica, estudo das artes liberais, interesse pelo humanismo renascentista e preocupação com o bem-estar material, intelectual e emocional dos seres humanos.

  • Sua tese de doutorado sobre o Renascimento inglês examinou profundamente as artes do trivium: gramática, retórica e dialética.
  • Sua formação articulou os princípios liberais e seculares do humanismo com uma preocupação concreta pela condição humana contemporânea.
  • O bem-estar não foi reduzido à dimensão material da existência.
  • Os meios foram estudados por causa de seus impactos tecnológicos, culturais, sociais, intelectuais e afetivos.
  • Liberdade, independência e livre-arbítrio dependem do conhecimento dos processos ambientais em curso.
  • A noiva mecânica já estabelece a necessidade de compreender criticamente as forças que moldam a percepção.
  • A galáxia de Gutenberg converte essa exigência numa estratégia operativa de investigação.

26. A galáxia de Gutenberg compartilha um modo epistemológico de leitura do mundo fundado no conhecimento fragmentário e no aforismo de Francis Bacon, atualizado pelos experimentos modernistas para estimular a investigação autônoma dos leitores.

  • O processo central da obra é aprender a ler e compreender simultaneamente livros, ambientes e situações.
  • A escrita permite experimentar analogicamente o mundo que está sendo investigado.
  • O mosaico não apenas representa um objeto, mas reproduz formalmente seu dinamismo.
  • McLuhan pode ser compreendido como humanista da oralidade pós-secundária.
  • Essa posição resulta da combinação entre formação erudita e curiosidade permanente por todas as produções humanas.
  • O conhecimento fragmentário impede a passividade ao deixar incompletas as relações que o leitor deve desenvolver.

27. A associação deliberadamente desconcertante de ideias e campos distintos subverteu séculos de escolarização compartimentada e antecipou a interdisciplinaridade moderna, embora se fundamentasse em paradigmas antigos, especialmente no trivium e na abordagem do gramático.

  • A aparente celebração do novo ocultava uma fidelidade profunda às tradições intelectuais antigas.
  • Na disputa entre antigos e modernos, McLuhan posicionava-se entre os antigos.
  • Gramática, retórica e dialética forneceram os fundamentos de suas teorias dos meios.
  • A aplicação dessas artes permitiu procurar relações por meio das diferenças.
  • A superação da escrita recuperaria uma integralidade não apenas nacional ou cultural, mas cósmica.
  • A vocação do gramático consiste em explorar essa totalidade sem apagar a diversidade de seus elementos.

28. A combinação entre erudição, literatura contemporânea, arte e cultura popular permitiu elaborar uma visão integrada do ambiente elétrico e digital, rejeitando a especialização e os métodos acadêmicos incapazes de representar uma realidade simultânea.

  • Os processos culturais em andamento foram examinados para alertar os leitores sobre transformações ainda pouco percebidas.
  • A compreensão da totalidade exige reunir domínios normalmente separados.
  • O especialista torna-se anacrônico porque evita pequenos erros enquanto avança para uma grande falsidade.
  • A educação compartimentada reproduz uma realidade linear já superada pelos meios elétricos.
  • Observar a simultaneidade elétrica pelo espelho retrovisor da linearidade produz uma imagem deformada.
  • A mudança ambiental exige novas lentes perceptivas.
  • Essas lentes aparentemente novas correspondem, na realidade, às antigas artes do trivium.

29. A aplicação das experiências modernistas e das tradições antigas conduziu a um projeto de educação global destinado a desenvolver uma atitude crítica diante dos meios e a recuperar a paideia como formação integral capaz de contrabalançar seus efeitos subliminares sobre o sensório humano.

  • A galáxia de Gutenberg recupera princípios da tese doutoral de McLuhan e da concepção baconiana de conhecimento fragmentário.
  • O mosaico simultaneamente recupera conhecimentos anteriores e provoca novas descobertas.
  • As conferências públicas associavam a investigação dos meios à necessidade de reformular a educação de massa.
  • Um programa global deveria permitir que a humanidade assumisse as rédeas de seu destino.
  • A educação não deveria conquistar consentimento nem homogeneizar o pensamento.
  • Sua finalidade seria formar uma postura crítica diante de todos os meios.
  • A educação superior necessária para resistir à uniformização cultural corresponde à educação clássica.
  • A paideia designa uma formação cultural completa, orientada para a vida pública e para o bem comum.
  • Literatura e artes permitem recuperar essa formação antiga em circunstâncias pós-letradas.
  • As leis dos meios constituem um instrumento pedagógico fundado na ação combinada de gramática, retórica e dialética.
  • A força evocativa das palavras recebe importância especial na observação das transformações ambientais.

30. O mosaico integra-se à filosofia educacional de McLuhan ao rejeitar a progressão linear e a acumulação quantitativa de dados como modelos do conhecimento, obrigando o leitor a passar de uma perspectiva visual e sucessiva para uma percepção acústica e simultânea.

  • A descontinuidade impede a assimilação passiva de conceitos organizados numa única sequência.
  • Diversos fenômenos devem ser percebidos em ação conjunta.
  • O conhecimento emerge da interação entre processos presentes no aqui e agora.
  • Cada fenômeno modifica continuamente os demais e também é modificado por eles.
  • A educação torna-se treinamento perceptivo para reconhecer campos de relações, e não simples transmissão de informações.

31. A filosofia educacional de McLuhan enfrentou uma cultura escolar fundada na autoridade, na transmissão unilateral e na preservação de instituições, mas seus seminários transformaram a sala de aula numa ágora experimental em que estudantes, intelectuais e celebridades participavam de explorações coletivas.

  • A galáxia de Gutenberg e Os meios de comunicação como extensões do homem precederam por poucos anos a expansão mundial das contraculturas.
  • O ensino convencional exigia escuta passiva, memorização de noções e aceitação da autoridade do livro.
  • Os seminários das noites de segunda-feira na Coach House romperam essa organização.
  • As aulas assumiam a forma de sondas destinadas a desafiar e ativar os participantes.
  • A presença posterior de personalidades públicas ampliou o caráter aberto e provocador das reuniões.
  • Literatura e artes funcionavam como instrumentos para deslocar a percepção da torre de marfim para a torre de controle.
  • A criatividade constituía o antídoto mais eficaz contra o medo da mudança.
  • O marinheiro de Edgar Allan Poe no redemoinho oferecia o modelo de distanciamento racional e espírito lúdico diante de forças aterrorizantes.
  • A aprendizagem ocorria pela participação na investigação, não pela recepção de conclusões acabadas.

32. A previsão de que o futuro do livro seria inclusivo reconhecia que a alfabetização e o suporte impresso permaneceriam no ambiente elétrico, mas precisariam adaptar-se ao novo fundo sensorial constituído pelo rádio e pela televisão.

  • Crianças e estudantes aprenderiam progressivamente mais pela prática e menos pelo estudo convencional.
  • O aprendizado assumiria a forma de aprendizagem artesanal e participação direta.
  • O livro não desapareceria, mas perderia sua condição de ambiente exclusivo.
  • Alfabetização e livro passariam a funcionar como figuras inseridas num fundo elétrico mais amplo.
  • Sua sobrevivência dependeria da capacidade de responder às mudanças sensoriais e ambientais.

33. Os meios antigos permanecem, mas são remodelados pelas potencialidades dos novos, razão pela qual o mosaico procura abrir a escrita à simultaneidade elétrica e preservar seus processos reflexivos mediante uma forma visual capaz de expressar uma percepção acústica.

  • Simbolismo, futurismo e vorticismo demonstraram que a página poderia funcionar como interface.
  • McLuhan elaborou essa possibilidade quando o hipertexto ainda era apenas hipótese de poucos pesquisadores.
  • O paradoxo consiste em abrir o meio antigo aos novos meios para conservar as capacidades cognitivas da alfabetização.
  • A percepção acústica elétrica precisa ser representada numa forma inevitavelmente visual.
  • A era elétrica sucede a era letrada e pode ser compreendida como produto extremo dela.
  • O novo meio toma a era anterior como conteúdo e a reorganiza.
  • Séculos de alfabetização não podem ser simplesmente apagados.
  • A oralidade elétrica é uma oralidade secundária formada no interior da cultura letrada.
  • O problema educacional deixa de ser apenas saber ler palavras e passa a envolver a alfabetização crítica para os meios.

34. A oralidade secundária constitui uma forma híbrida em que escrita e impressão permanecem integradas a linguagens acústicas e táteis, fazendo os meios antigos reaparecerem dentro dos novos em combinações que revelam propriedades anteriormente ocultas.

  • A palavra falada é condicionada pelas estruturas da escrita e da impressão.
  • A comunicação torna-se simultaneamente fala escrita e escrita falada.
  • A interação entre fala e texto manifesta-se na tela do computador, nas mensagens e nas interfaces acionadas por imagem e toque.
  • A predominância visual é remodelada por uma tendência oral e acústica.
  • Os meios anteriores continuam a atuar como componentes do processo comunicativo.
  • Novos meios não substituem os antigos, mas tornam suas relações mais complexas.
  • Cada inovação pode intensificar propriedades sutis dos suportes anteriores.
  • O “efeito do espelho retrovisor” designa a tendência a compreender o novo por meio das formas e categorias do passado.

35. A convergência digital conduz da oralidade secundária à oralidade pós-secundária ao recuperar alfabeto e palavra impressa num novo ambiente participativo, realizando nos hipertextos digitais potencialidades heurísticas que o mosaico de McLuhan já havia introduzido na página.

  • O acesso digital transforma o conteúdo analógico e integra o conjunto da paisagem midiática ao próprio conteúdo do pensamento.
  • A nova convergência constitui um fundo ambiental distinto daquele descrito pela oralidade secundária.
  • A escrita descontínua de A galáxia de Gutenberg revelou possibilidades latentes do antigo meio linear.
  • A libertação das estruturas rígidas da cultura impressa permite recuperar capacidades investigativas antigas.
  • Essas capacidades relacionam-se a formações sociais e sistemas de conhecimento anteriores à especialização moderna.
  • Os novos meios intensificam a participação em processos, ainda que muitas vezes de modo indireto ou vicário.
  • Privacidade e distanciamento cedem espaço a formas mais envolventes de produção de sentido.

36. A transformação da página em interface elétrica permite articular palavras e intervalos, conhecimento e ignorância, numa heurística modernista que exige participação profunda e impede que a navegação fragmentária reduza o conhecimento a informação descontextualizada.

  • A leitura de Norbert Wiener permitiu compreender que o livro seria preservado sob o comando e o controle eletrificados da era computacional.
  • A combinação de diferentes campos semânticos revelou os efeitos da nova forma sobre a cibernética e os estudos da comunicação.
  • A simultaneidade elétrica foi incorporada às páginas impressas por estratégias derivadas dos exploradores modernistas.
  • Palavras e lacunas desempenham funções igualmente importantes.
  • As associações ousadas somente adquirem sentido quando o intervalo entre elas ressoa no conhecimento e no desconhecimento do leitor.
  • Montagem e colagem deixam de ser simples técnicas ant lineares e tornam-se estratégias retóricas de produção de conhecimento.
  • A recusa da participação transforma a arquitetura complexa do mosaico numa simplificação semelhante a uma digestão superficial.
  • A navegação na rede apresenta risco semelhante quando se salta entre fragmentos sem investigar suas relações.
  • A ausência de ressonância converte conhecimento em mera informação.
  • A simplificação excessiva apaga a história e a estratificação das memórias culturais.
  • Professores e estudiosos devem deixar de ser fontes de dados para tornar-se fontes de percepção e discernimento.
  • Estudantes já atuam como consumidores, coautores e coprodutores de informação e conhecimento.
  • As sondas comunicam dinâmicas investigativas, não conjuntos de dados.
  • A aprendizagem ocorre por prática, experiência e participação no campo interativo do mosaico.

37. A compreensão intelectual dos meios não basta para proteger de seus efeitos, como demonstra a transformação do próprio McLuhan de analista privado em imagem pública manipulada, tornando necessário recuperar o fundo literário, humanístico e epistemológico de sua obra.

  • Edmund Carpenter reconhece que o conhecimento abstrato de um meio não elimina sua capacidade de envolver e transformar quem o utiliza.
  • Ao tornar-se participante público, McLuhan converteu-se numa figura explorada pelos mesmos meios que analisava.
  • A imagem do guru precisa ser reconduzida ao fundo complexo de sua formação erudita e de suas investigações.
  • A exploração do mosaico permite recuperar as raízes literárias de seus discursos sobre tecnologia.
  • Seu “pequeno ponto” consiste na união entre forma literária, participação perceptiva e investigação ambiental.
  • A galáxia de Gutenberg não trata apenas dos meios, mas da maneira humana de perceber mudanças e ambientes.
  • A leitura deve assumir a forma de jogo, experiência e aprendizagem pela prática.
  • No jogo mobilizam-se todas as faculdades, enquanto no trabalho especializado cada faculdade tende a ser isolada das demais.

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