Técnica como des-encobrimento
(MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000:46-47)
Como possibilitar um acesso à interpelacão a partir dos dispositivos técnicos? A conferência sobre a “questão da técnica” é expressamente dedicada ao “caminho rumo à essência da técnica”. Uma primeira visão geral do movimento como um todo pode nos ajudar a definir uma orientação.
A técnica repousa na revelação. Se a técnica não se reduz à fabricação, nem aos conhecimentos relativos à produção e ao uso dos instrumentos, é porque a fabricação só é possível na abertura e na clareza prévia da “revelação”. Heidegger reinterpreta Aristóteles: a “poiesis” é “acompanhada por uma regra verdadeira”. Para fabricar um baú, é preciso, de antemão, ter visto o baú na madeira, sendo a forma o próprio baú, o baú correspondendo à realização das mais elevadas virtualidades da madeira. Por sua vez, a visão do baú é guiada pela luz do uso e do mundo ao qual ele está ligado. A produção conduz a coisa à luz da presença, na medida em que se deixou guiar pelo ser da coisa.
Tal produção permite que a coisa se apresente “por si mesma”, segundo o desdobramento que lhe é próprio — a produção se deixa levar pelo livre desabrochar; nela se manifesta a liberdade da physis.
Mas como a técnica moderna poderia ser concebida como “revelação”? Heidegger responde que existe uma experiência moderna do revelamento; mas o revelamento moderno provoca, no sentido de que exige que a natureza forneça uma energia passível de ser reprocessada e acumulada. Em que sentido a provocação é um revelamento? No sentido de que obedece a uma injunção que é a da apreensão. A apropriação é o traço fundamental da relação com a presença — portanto, do revelamento — que apresenta a natureza como calculável. Característica da ciência moderna, tal atitude implementa, por meio da técnica, a representação matemática da natureza. Mas de onde a apropriação retira seu caráter de injunção? Ela o obtém da dispensa do Ser, cuja retirada libera o poder calculista da técnica. É esse jogo da verdade do ser — reunido sob o título enigmático de *Ereignis* — que submete a provocação, ou seja, o cálculo, à injunção da apropriação. E é em virtude desse jogo que a técnica é designada a se desdobrar até o limite mais extremo de seu poder. A aproximação desse limite corresponde ao maior perigo, mas “onde está o perigo, ali também / cresce o que salva”. No extremo de seu poder, a técnica encontra seu limite, ou seja, sua essência. Ao encontrar esse limite, ela experimenta o poder daquilo que se desdobra por si mesmo, que não é produzido tecnicamente e que é visado como a ordem da physis. Aquilo que se desdobra por si mesmo surge “em si mesmo” nesse encontro: é esse evento da eclosão do próprio que se manifesta através do Ereignis. No Ereignis, o próprio se manifesta a partir de seu afastamento — a “propriação” que é o Ereignis é a unidade da desapropriação e da apropriação. A técnica moderna, como cálculo absoluto, está “atribuída” ao Ereignis: é nisso que ela se fundamenta na revelação.
