Manufaturar
ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006
Manufatura e contemplação
1. Cabe agora ver como o paradigma da nutrição se aplica à produção no sentido usual, isto é, à manufatura, à produção artificial tanto quanto à natural, ligando-se assim a teoria antiga da causalidade (= a essência da técnica antiga) à prática da técnica antiga.
2. A diferença essencial entre a produção natural e a manufatura artesanal está em que, na primeira, a fonte (o pôr em movimento) reside naquilo que há de ser produzido, e na segunda a fonte reside em outro, no artesão.
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Isso significa que o artesanato não exibe a unidade das quatro causas tão claramente quanto a natureza, sendo menos facilmente visível, no artesanato, o caráter essencial da causalidade como nutrição, embora, para Heidegger, o mesmo paradigma se aplique, não devendo o artesanato ser entendido em termos de um novo tipo de causalidade, mas do mesmo tipo, ainda que de modo mais oculto.
3. Heidegger oferece três instâncias de produção artesanal — a técnica antiga em prática —, a saber, o agricultor, a roda-d'água e o artesão (como o construtor de casas ou o ourives), mostrando como o paradigma da nutrição se aplica a cada uma.
4. É claro que o agricultor é um nutridor: o campo que o antigo agricultor costumava cultivar aparecia de modo diferente, quando cultivar ainda significava tratar e nutrir, entregando o agricultor a semente às forças do crescimento ao semeá-la, e depois cuidando de seu incremento.
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A noção de entregar-se a uma força superior está no cerne da atitude do agricultor tradicional, que se marca como parteiro, alguém que respeita uma prenhez já dada e se compreende a serviço dela, submetendo-se a ela, engrenando-se a ela, em vez de impô-la.
5. A mesma atitude de respeito se evidencia na construção de uma roda-d'água em comparação com uma barragem hidrelétrica, engrenando-se a roda-d'água, em sentido óbvio, às forças naturais do rio, em vez de impor-se a elas por oposição direta.
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Heidegger exprime isso dizendo que a roda-d'água é construída (baut) no rio, mas o próprio rio é malconstruído (verbaut) na usina hidrelétrica, palavra que comumente significa “bloqueado” ou “obstruído”, mas que também conota uma construção equivocada ou que abusa e esgota os materiais de construção.
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O rio é feito em algo diferente, transformado, passando a receber sua essência da usina; a diferença está clara: a roda-d'água se constrói no rio, engrenando-se ao fluxo, e o rio permanece o que era, ao passo que a usina impõe-se ao rio a tal ponto que este é transformado em outra coisa, esgotado em favor da usina hidrelétrica, comandado por ela, sendo agora, em essência, nada mais que fornecedor de pressão hidráulica à usina.
6. Para Heidegger, a usina hidrelétrica esgota o rio, forçando-lhe nova essência, e ele deixa de ser coisa natural, embora, como o próprio Heidegger admite, o rio ainda possa ser desfrutado como parte da natureza — mesmo represado, o Reno permanece um belo rio.
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Ainda assim, para Heidegger, a atitude moderna de imposição se estende até a beleza natural do rio, pois esta foi comandada pelo turismo, existindo o belo Reno, como Heidegger observa numa rara expressão de ironia, “de nenhum outro modo senão como objeto disponível para inspeção por um grupo turístico ali despachado pela indústria de férias”.
7. Passando ao terceiro exemplo de prática tecnológica antiga, a atividade do fabricante no sentido usual, o artesão, como o ourives — mesmo este não faz ou produz no sentido ordinário, não sendo seu trabalho o de impor forma sobre matéria, sendo, segundo Heidegger, o trabalho essencial do ourives a contemplação.
8. O ourives contempla, e de sua contemplação as outras três causas se reúnem em unidade, contemplação essa que traz à luz seu próprio objeto no sentido preciso de que esse objeto não existiria sem ela, sem, contudo, criá-lo.
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A contemplação descobre algo que permaneceria oculto se não fosse pelo ourives, sendo, por assim dizer, semicriativa.
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Heidegger diz que a contemplação se baseia em ἀποφαίνεσθαι (apophainesthai, “deixar ver”), e que para os gregos contemplar (sich überlegen) significa λέγειν, λόγος (legein, “reunir”; logos, “discurso”), gathering-se nas palavras aquilo que faz de algo o que é como tal, isto é, a essência.
9. É precisamente isso que, segundo Heidegger, a contemplação do artesão visa, o que o artesão vê em contemplação: a essência, sendo a tarefa fundamental do ourives descobrir a essência do cálice antes que essa essência exista de fato na prata.
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O ourives não cria essa essência, nem esta simplesmente jaz ali como objeto preexistente à sua consideração cuidadosa; a essência está de início oculta, latente na prata, e a tarefa primária do ourives é descobrir, em contemplação, o cálice potencial soterrado no material.
10. A tarefa primária do artesão é, portanto, ver de antemão, sendo aquele para quem algo se torna visível (apophainesthai) de modo privilegiado, aparecendo-lhe precisamente aquilo que será nomeado no discurso (logos): a essência.
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O ourives não impõe essa essência latente à prata, algo já ali de modo incoativo, devendo contemplar até que o cálice potencial se lhe revele; nem essa revelação da essência é imposta ao ourives, sendo-lhe antes revelada, mas não sem sua cooperação, exigindo abertura, o olho treinado, as mãos criativas e o gênio que marca propriamente o artesão hábil como tal.
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O ourives é, assim, semicriativo: o cálice soterrado não se descobre a qualquer um (exigindo habilidade e criatividade), nem o ourives impõe a forma do cálice sem consideração à matéria (exigindo passividade e aceitação da autorrevelação da essência já latente); deve, em suma, deixar ativamente que a essência lhe seja revelada de antemão.
11. A tarefa primária do artesão, aquilo que o faz artesão, é assim mais assunto de teoria que de prática, de perspicácia, de olhar revelador, que de habilidade prática, sendo sua tarefa desvelar a essência, ver, em contemplação, o cálice latente soterrado na matéria.
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Isso marca a genuína poiesis, o produzir próprio: o que o artesão traz à frente não é primariamente aquilo visível a todos, mas aquilo visível apenas a ele, a essência que vê com os olhos da mente, sem criá-la, embora não sendo tampouco incriativo.
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O artesão é semicriativo: através dele a essência vem à luz; sem ele, jamais seria desenterrada, coadjuvando o artesão a essência a se revelar, nutrindo-a; a poiesis do artesão é, assim, para os gregos, nutrição, e não produção no sentido usual.
12. Quanto ao trazer à frente do cálice efetivo, o trazer da essência à existência concreta, à fabricação do cálice visível a todos — não seria isso mais um fazer que a mera contemplação da essência, um assunto de produção mais que de nutrição?
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Para os gregos, segundo Heidegger, a resposta a ambas as questões é não: a fabricação do cálice é, sim, questão de nutrição, sendo essa fabricação, na verdade, menos poiesis que o trazer à frente da essência em contemplação.
13. A compreensão grega desse trazer à frente do cálice visível se exprimiria perfeitamente, para Heidegger, no já citado testemunho de Michelangelo de que o escultor apenas cinzela os fragmentos supérfluos de mármore para liberar a estátua latente em seu interior.
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O artesão não impõe forma sobre matéria passiva, mas vê aquilo de que a matéria já está prenhe e o nutre até a existência efetiva, sendo nutridor tanto quanto à essência visível em contemplação, quanto quanto ao artefato em que a essência se tornará visível a todos, estando constantemente a serviço da essência, coadjuvando-a a tornar-se cada vez mais visível, submetendo-se a ela, vendo-se como sua serva, criada ou parteira.
14. Heidegger exprime isso diretamente nos termos da compreensão grega de techne (τέχνη), referida ao modo humano de poiesis, contrastado ao modo natural: techne significa apreender os entes em seu aspecto exterior, eidos, ideia, e, de acordo com isso, cuidar dos próprios entes e deixá-los crescer, ordenando-se a si mesmo dentro do ente em sua totalidade por meio de produções e instituições.
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A techne é um modo de proceder contra a physis, ainda que não para dominá-la ou explorá-la, e sobretudo não para converter uso e cálculo em princípios, mas, ao contrário, para reter a soberania (Walten) da physis no desvelamento (Unverborgenheit).
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Isso significa que a techne é primariamente questão de perspicácia ou compreensão: um apreender os entes ou, mais propriamente, um perceber de antemão seu aspecto exterior, seu eidos, sua essência, envolvendo então, de acordo com essa essência percebida, “cuidar dos entes e deixá-los crescer” — deixar os entes virem à sua essência, deixar sua essência vir à existência efetiva neles.
15. O trazer à frente das coisas efetivas é, assim, questão de cuidado, de deixar ou coadjuvar a essência, motivo pelo qual Heidegger disse que, na compreensão grega, a techne é questão de ordenar-se a si mesmo, não de ordenar as coisas, submetê-las à vontade humana; ao contrário, é um submeter-se à essência das coisas, colocar-se a serviço dessa essência.
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A techne é, em certo sentido, contra a natureza, interferindo nela, mas precisamente para “reter a soberania da natureza no desvelamento”, frase difícil que certamente significa que a techne interfere na natureza justamente para permitir que o que nela está desvelado venha a ser plenamente si mesmo, torne-se visível, desvelado, para todos.
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A técnica antiga não é, portanto, um dominar, uma imposição de uma essência arbitrária, mas equivale a permitir que o autoemergente se torne mais plenamente autoemergente, tornando-se visível para todos; a “interferência” da técnica antiga na natureza é um “engrenar-se” à natureza, não uma imposição sobre ela, mas apenas um coadjuvar ou fomentar a natureza.
16. Os antigos entendem, assim, o artesanato humano — a prática tecnológica — como um processo de nutrição: o artesão não impõe sua vontade à matéria, mas coadjuva o que se lhe revela, coadjuvando-o a ser revelado a todos.
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É questão de nutrição, pois o artesão está a serviço de uma prenhez, de algo incipientemente autoemergente, que ele respeita e coadjuva; nessa compreensão, o artesão não impõe sua vontade a uma matéria passiva — ao contrário, é ele quem é “imposto sobre”: sua atividade é resposta a um apelo feito pela essência oculta, apelo a coadjuvar seu vir a ser visível, o que marca decisivamente a prática tecnológica, na compreensão antiga, como nutrição.
17. A segunda questão levantada acima — o que é mais propriamente um trazer à frente: a contemplação da essência ou a fabricação efetiva do produto? — pode ser formulada em termos da distinção entre techne e empeiria (ἐμπειρία).
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Quem vê a essência de antemão nem sempre é quem a traz à existência concreta: o arquiteto tem techne, sabe o que há de ser feito, mas pode não ser habilidoso na construção efetiva da casa, ao passo que o operário é habilidoso na construção, embora dependa da planta fornecida pelo arquiteto, tendo este o logos, o eidos, a essência, e aquele a experiência (empeiria), a habilidade prática de produzir a casa efetiva.
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Outro exemplo seria o fisiólogo (em nosso sentido) frente ao clínico: o primeiro conhece a função própria do corpo, ao passo que o segundo pode carecer de conhecimento teórico, mas possui a habilidade prática de servir à restauração dessa função quando perturbada.
18. A questão é qual desses tem a prioridade: quem é mais propriamente o fabricante da casa, o arquiteto ou o operário; quem é mais propriamente o gerador da saúde, quem conhece a saúde em essência ou quem tem experiência prática em restaurá-la em casos particulares?
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Segundo Heidegger, o primeiro tem a prioridade no modo grego de pensar e é mais honrado; mesmo que quem possua techne possa falhar na prática, é ele o genuíno fabricante, por ser autônomo, dependendo dele, para seu fim, os que possuem habilidade prática — quem apreende a essência é, portanto, mais genuinamente a fonte do movimento ou da mudança, mais genuinamente aquele que traz à frente o movimento.
19. Mais precisamente, para Aristóteles, é a própria essência que é a fonte do movimento, como se lê na Metafísica (1032b21), na tradução de Heidegger: “o genuíno produtor [no caso de algo trazido à frente pela techne], e aquilo que inicia o movimento, é o eidos na alma”.
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O eidos é o produtor porque rege todo o processo de produção, estando tudo o mais (o trabalho do arquiteto e o do operário) a serviço de seu tornar-se visível; assim, aquele em cuja alma reside esse eidos é mais produtor — por estar mais próximo do eidos — que aquele que possui habilidade prática mas depende do outro para o eidos.
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Quem vê o eidos de antemão é o genuíno produtor, sendo o arquiteto mais produtor da casa, mais causa da casa, que o pedreiro; é a techne, em sentido mais próprio, que produz a casa, não a empeiria.
20. Para Aristóteles, essa distinção entre quem vê o eidos de antemão e quem fabrica manualmente o artefato equivale à diferença entre senhor e escravo: quem tem o poder — da mente — de ver de antemão é por natureza governante e por natureza senhor, ao passo que quem tem o poder — do corpo — de fabricar essas mesmas coisas está sujeito ao governante e é por natureza escravo.
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Para Aristóteles e os gregos, um senhor deve ser considerado mais causa que um escravo, sendo assim a techne, o ver o eidos de antemão, o trabalho da alma, a teoria, mais causa que o trabalho manual.
21. Na compreensão grega, a genuína poiesis ou produção é, portanto, o trazer à frente do eidos; a fabricação do artefato concreto é uma forma derivada de fazer, tal como é forma derivada de nutrição, sendo o caso paradigmático de poiesis não um assunto de prática, de trabalho manual, mas obra da alma, obra de teoria, a saber, a contemplação do artesão, seu ver de antemão ou desvelamento da essência ainda soterrada na matéria e invisível aos olhos comuns.
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O artesão traz essa essência à frente, primeiramente, em sua alma, e esse trazer à frente, o paradigma do trazer à frente, é entendido pelos gregos como uma espécie de obstetrícia ou nutrição; quem já contemplou, ou outra pessoa — algum escravo — com a habilidade requerida, trará subsequentemente, com seu corpo, essa essência à matéria, sendo isso também entendido pelos gregos como uma espécie de obstetrícia, um coadjuvar a essência a alcançar plena visibilidade.
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O trazer à frente na matéria é menos honrado que o trazer à frente na alma, sendo o primeiro menos um feito, menos um causar, menos um trazer algo a efeito, menos uma poiesis; embora seja também menos manifestamente uma instância de nutrição, isso nada muda quanto ao paradigma, que rege todo o processo de poiesis: nutrição, um deixar ativamente que alguma essência venha à plena visibilidade — sua primeira e mais importante visibilidade sendo na alma daquele capaz de trazê-la à frente de antemão, sua segunda visibilidade, comum, sendo sua subsequente visibilidade a todos os olhos.
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Ao longo de todo o processo, como diz Aristóteles, o eidos, a essência, é, em sentido estrito, o genuíno produtor, já que tanto o artesão contemplativo quanto o trabalhador manual apenas o servem, sendo ambos, por assim dizer, escravos dele; ainda assim o artesão é menos escravo que o trabalhador manual, por estar mais próximo do eidos, sendo, portanto, mais produtor que o trabalhador que põe a mão na fabricação efetiva da coisa — sendo o modo de causalidade do artesão contemplativo, seu modo de produção ou trazer à frente, a saber, a nutrição, o paradigma da produção e o paradigma da prática tecnológica, tal como entendida pelos antigos.
