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Memória

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La désorientation. Paris: Galilée, 1996.

** 1. A síntese industrial da finitude retencional **

1. Há síntese passiva porque há finitude retencional, sendo esta hoje tomada a cargo economicamente na época das sínteses analógica, numérica e biológica, tornando-se objeto privilegiado do investimento industrial que impõe o cálculo como cumprimento hegemônico do tempo.

  • Desde o século XIX gesta-se a genese efetiva das identidades diferentes analógicas e numéricas, quando se torna patente que o domínio da informação pela conquista da velocidade é o desafio primordial, comandando explicitamente a epistémè após a Segunda Guerra.
  • Uma “desconstrução objetiva” do quem como subjetividade se esboça no paradigma informacional, fechado tanto à epocalidade da epistémè quanto à temporalidade do quem, sendo o tempo apenas aspecto subordinado à resolução automática de problemas.
  • A exteriorização do sistema nervoso, nova época da lembrança terciária, delega a orientação do quem em seu mundo-historial, prefigurando o funcionamento das identidades diferentes numéricas, e tem por consequência o fim da maiêutica étnico/técnica.

2. A revolução termodinâmica impunha a mobilização de capital rapidamente descontextualizável, exigindo uma rede de praças bursáteis como infraestrutura informacional — imperativo econômico-informacional que comanda a gênese das sínteses analógica e numérica.

  • A memória, de fundo patrimonial que era, torna-se sobretudo fundo de comércio: o valor, calculável a partir do conceito de informação, entra em conflito com o valor que constituía o saber como acolhimento do novo e abertura ao improvável.
  • A identidade diferente biológica investe e sintetiza os suportes somáticos e germinativos do vivente, não apenas exteriorização por organização do inorgânico, mas desorganização do orgânico para reorganizá-lo — questionando-se até o nome de “homem” e “zoon”.

** 2. A informática **

3. A informática é a concretização instrumental e industrial da cibernética anunciada por Heidegger em 1962; em 1977, Giscard d'Estaing encarrega Nora e Minc de um relatório sobre o impacto social da informática, publicado em 1978.

  • Alargando o conceito além dos sistemas numéricos, a informática designaria todo tratamento e transmissão de informação sob todas as formas, incluindo sínteses analógicas; o conceito de informação nasce no século XIX com o telégrafo, tornando-se mercadoria cujo valor decresce à medida que se difunde.

** 3. A telemática **

4. Nora e Minc nomeiam telemática a integração crescente entre informática e telecomunicações, abrindo horizonte radicalmente novo: a informatização crescente da sociedade está no cerne de uma crise de civilização sem precedentes desencadeada pelo choque petrolífero de 1973.

  • A “revolução informática” transforma o sistema nervoso das organizações e da sociedade inteira; a desterritorialização torna-se horizonte da decisão política, deslocando os desafios de soberania e exigindo audaciosa política de Estado sobre poderes, saberes e memórias.
  • Quatro focos problemáticos se destacam: os satélites de transmissão em direto, as normas de direito e soberania, a industrialização da memória e da linguagem, e o impacto da informática sobre os mecanismos de poder comparados à escrita.

** 4. Redes, poderes, saberes **

5. Os satélites de telecomunicação, subtraindo às legislações nacionais o controle das transmissões, homogeneízam o espaço perante a informação, desencadeando batalha de normas entre grupos industriais multinacionais que o Estado assiste mais do que participa.

  • Há industrialização da memória na medida em que esta se torna “informação” no sentido rigoroso da teoria da informação, mercadoria cujo valor se correlaciona ao tempo e espaço de difusão, dominando toda a organização das condições de acesso ao saber.
  • Lyotard, em A Condição Pós-Moderna, retoma essas análises: o saber é produzido para ser vendido e consumido para ser valorizado, perdendo seu valor de uso e tornando-se aposta maior na competição mundial pelo poder.

** 5. Informática e escrita **

6. A informatização do saber só é possível porque a informática é ela mesma uma espécie de escrita, analogia sublinhada por Nora e Minc com a invenção sumeriana; uma análise conjunta da escrita ortográfica e da informática revela seu caráter ortotético comum.

  • A escrita, ciência da gramática, engendra regras que sempre foram as condições de funcionamento da memória, mas que, ao serem explicitadas, constituem regulação inteiramente nova — o que também vale para a informática enquanto tecnologia de formalização do já-aí.
  • “Informacionalizado”, o saber é posto a serviço direto de um poder não mais político mas econômico — a “pós-modernidade” de Lyotard —, conflito entre duas concepções do valor irredutíveis uma à outra.

** 6. O aparelho analógico-numérico **

7. A Havas cria em 1834 o primeiro dispositivo industrial de exploração da informação; as redes de atualidade trabalham à velocidade da luz porque atualidade e informação são mercadorias cujo valor depende do tempo.

  • O evento moderno resulta de uma verdadeira fabricação industrial do presente: nada “acontece” senão o que é “coberto”, sendo o krach bursátil de 1987 e a explosão do Challenger exemplos de eventos co-produzidos pela transmissão direta e mundial.
  • A verdade da informação é o “tempo-luz”: transmissão sem atraso permitida pelas ortoteses analógicas e numéricas, ao passo que a ortotese literal implica atraso essencial entre evento, captura e recepção.

** 7. A eventualização **

8. As tecnologias analógicas e numéricas inauguram experiência coletiva inédita do tempo, saída da época histórica fundada num tempo essencialmente diferido: a “cobertura” define o que “acontece”, sendo a fabricação do tempo pela imprensa sempre coprodução, nunca simples relato.

  • Algo absolutamente novo ocorre quando as condições de memorização se concentram num aparato técnico-industrial cuja finalidade é a produção de mais-valia, regido pela lei da audiência: os “atores” antecipam as condições de registrabilidade de seus atos.
  • A finitude retencional requer um direito como critério de diferenças e hierarquias; assim como o mapa não pode coincidir ponto a ponto com o território, a memória deve reduzir o memorizável para torná-lo memorável — orientar-se no já-aí é necessariamente esquecer.

** 8. “Tempo real”, evento e História **

9. Barthes evoca o retrato de William Casby, “nascido escravo”, que certifica a existência da escravidão por ordem experimental de provas e não por testemunho histórico — congestionamento dado pela fotografia ao trabalho do historiador.

  • Pierre Nora observa que o monopólio da história pertence hoje aos mass media, sendo o evento moderno inseparável do jornal que lhe deu tudo; num “sistema tradicional”, era o historiador quem, retroativamente, produzia o evento pela narração.
  • A conjugação do efeito de real da captura e do tempo real da transmissão promove imensamente o imediato ao histórico, dando certezas “que nenhum escrito pode me dar” mas também incertezas sobre o quem e o nós.

** 9. Tempo real e política **

10. O “tempo real” mercantiliza o político: sondagens em tempo real substituem programas políticos coerentes por objetivos de comunicação, ameaçando a différance democrática e alimentando reivindicações de referendo popular.

  • Virilio interroga a geopolítica da transmissão: à profundidade de campo substitui-se a profundidade de tempo, sistema calendárico eletrônico onde um “falso-dia” eletrônico suspende as condições cósmicas da temporalidade.
  • O tempo real é desrealização do tempo como deslocalização: a chegada suplanta a partida, e sua performatividade generalizada é militaro-industrial — a tarefa é afirmar que a antecipação não pode se resolver em puro cálculo nem se realizar fora de todo cálculo.

** 10. Suportes, duplicações, tratamentos, arquivamentos **

11. Em 1934 a BASF lança o primeiro suporte magnético, permitindo a conservação do fluxo informacional e tornando concebível a constituição de arquivos analógicos, base da posterior digitalização.

  • A história das técnicas de memorização mostra crescente mobilidade dos suportes até a reprodutibilidade absoluta; da imobilidade da caverna de Lascaux ao Petit Journal, o sentido do percurso se inverte, culminando na rede onde a informação se confunde com o tempo “que se expõe instantaneamente”.
  • A memória se constitui apenas por seus esquecimentos; a “rentabilidade” da memória não é calculável — é um diferendo, pois o que a memória mantém em reserva é o incalculável mesmo, a abertura de um improvável.

** 11. A descomunitarização **

12. A síntese literal supõe que o destinatário disponha de competência de leitura e escrita, um leitor “aparelhado”; com as tecnologias analógicas e numéricas, as funções de codificação e decodificação são delegadas às máquinas, deslocando a instrumentalidade do quem para o quê.

  • A comunitarização é essencial ao saber geométrico enquanto saber de objetos ideais, reativáveis: só a escrita ortográfica torna possível a re-presentificação do pensamento dos geômetras precedentes sem perda de substância.
  • Ler é sempre também escrever; ver verdadeiramente é mostrar; o “sistema traditional” da comunicação literal supunha reciprocidade mínima entre destinador e destinatário, rompida pelas tecnologias do tempo-luz onde a “competência” tornou-se poder de compra.

** 12. Informação e saber **

13. O saber não é informação porque todo saber é saber da improbabilidade do saber e da indeterminidade do quem; a reativação husserliana é análoga à conhecimento racional kantiano, que deve ser refeito por quem conhece, distinto da mera conhecimento histórico.

  • O saber originário, “matemático” no sentido antigo, é intransmissível como tal — daí Sócrates concluir em Mênon que a virtude não pode ser ensinada —, mas por isso mesmo a transmissibilidade dos saberes é atributo essencialmente acidental do saber.
  • A informação vale por sua improbabilidade a priori saturável, sendo por princípio não repetível sem esgotar seu valor — ao contrário do saber, que deve ser repetido sem nunca se esgotar, diferenciando-se em cada repetição.

** 13. A velocidade, a urgência, o risco **

14. O incalculável não calculável é em sua essência inesperado; há paradoxo da velocidade de cálculo que é o incalculável como risco, o acidente, mas há também outro incalculável que é forma do próprio tempo em que o risco é também a chance.

  • A urgência, radicalização da inovação permanente, é fator ao mesmo tempo dinâmico e vulnerabilizante; o terrorismo, explorando radicalmente a lógica do sensacional, é uma de suas manifestações, tanto quanto a política-espetáculo incapaz de resolver questões de longo prazo.
  • O capital é fundado no princípio de que a moeda é tempo estocado para prevenir o que advém; pensar, ao contrário, requer que “algo aconteça cuja razão ainda não é conhecida” — a escrita, sempre já telegrafia, não pode simplesmente opor-se a esse processo que ela mesma significa.

** 14. Memória e política **

15. A questão da relação contemporânea do quem e do quê caracteriza-se por descontextualização resultante de nova síntese industrial da finitude retencional, cuja efetividade espacial é a desterritorialização e cuja efetividade temporal é o tempo real.

  • Não há território sem rede; a rede é sempre já programática, articulando os programas em seu conjunto; a extensão da rede literal de memorização deu origem à polis, sendo a isonomia dos cidadãos impensável sem igualdade de acesso à memória.
  • Uma política da memória favoreceria a constituição de práticas e culturas instrumentais próprias às novas sínteses, regulando uma criteriologia orientada por antecipação que ultrapasse a rentabilidade imediata — não se trata de “sair da crise”, mas de entrar na crítica.

** 15. A síntese biológica: quando fazer é dizer **

16. A questão política da memória industrial é a questão do idioma, cujo sentido é o schibboleth, marca de cumplicidade inscrita na linguagem passando pelo corpo; a biologia molecular suspende seu próprio axioma — “o programa não recebe lições da experiência” — ao tornar-se cirurgia genética efetiva.

  • A variação imaginária husserliana entra em crise porque a ficção biotecnológica é já efetiva: a única coincidência constante das variantes que se mantém no eidos “homem” é o eidos “técnica”, isto é, ficção, defeito de ser.
  • Minsky imagina interfaces cérebro-máquina que tornariam fluida a fronteira entre mente e máquina, entre senhor e escravo, questionando a “minhamento” e o corpo próprio; a variação imaginária colide com a possibilidade da teleprocessão.
  • A questão de Derrida sobre o comme tel em Heidegger — o animal “pobre em mundo” versus a pedra “sem mundo” — remete à mesma estrutura do “primeiro presente”: o eugenismo é a possibilidade terrível de eliminação do defeito, isto é, do fim, isto é, de toda possibilidade do novo.

** 16. As ciências da “cognição” **

17. As ciências da cognição, tomando a técnica como vetor heurístico, postulam que somos, no fundo, computadores; contudo, ignoram estranhamente o caráter epifilogenético essencial do conhecimento e o evento técnico como exteriorização da memória.

  • Turing postula neutralidade teórica do suporte de memória, ignorando a finitude retencional; uma máquina de Turing de memória infinita não existe efetivamente — o “fosso intransponível” entre organização abstrata e realização material permanece irredutível.
  • Os sistemas multiagentes cognitivos e reativos (formigueiros) evidenciam suportes de memória inorgânicos já presentes em coletividades animais, mas sem transmissão epifilogenética propriamente dita, faltando ainda o conceito de organização da matéria inorgânica pela tendência técnica.
  • Fodor e Chomsky, com sua hipótese de “órgãos mentais”, ignoram profundamente a exteriorização da memória; Changeux, ao contrário, esboça uma antropogenia que reconhece na escrita uma memória extracerebral, ainda que sem tematizar plenamente o evento técnico como tal.
  • Winograd e Flores confundem preocupação e projeto na leitura de Heidegger, situando a linguagem como puro engajamento sem jamais alcançar a questão do já-aí protético — permanecendo, como Varela, presos ao eterno esquecimento do papel.

** 17. A questão das identidades diferentes: quem programa o quê? **

18. Heidegger, em Langue de tradition et langue technique, sustenta que a técnica moderna só foi possível porque tekhnè significou desde a Grécia o mesmo que epistémè, mas caracteriza a técnica moderna apenas como arraisonnement de energia, esquecendo a retenção que precede todo estocagem.

  • A conservação do saber-fazer neolítico já era caso particular de memorização e antecipação; se técnica e conhecer se ajuntam, é porque o conhecer, em sua essência, é finitude retencional — telegrafia onde cálculo e indeterminado não se opõem simplesmente.
  • A industrialização da memória engendra um esvaimento da diferença idiomática de caráter étnico-territorial, tradução generalizada de saberes, saber-fazeres e modos de vida em informação, formação e “look” — diferendo comandado pelo caráter mercantil da informação.
  • “On” seria indisponível a toda determinação porque, como a khora do Timeu, disponível a tudo — a possibilidade do saber absoluto aparece como imanência de uma iminência do fim, o risco estando em toda parte.
  • Não há memória “natural” do vivente epifilogenético que não seja já artificial, produzida por programas que são próteses da memória — resta indeterminada a questão “quem programa o quê”, questão que exigirá, no capítulo final, examinar o objeto temporal husserliano até a constitutividade de um “Nós” na história transcendental.
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