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Revoluções

WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.

** Primeira e segunda revoluções industriais **

1. O estudo do ser humano como organismo comunicante conduz necessariamente à consideração da máquina como organismo igualmente capaz de comunicação, sobretudo no ponto em que as propriedades comunicacionais humanas e mecânicas convergem e passam a determinar conjuntamente a evolução tecnológica e seus efeitos sobre a sociedade.

2. A primeira Revolução Industrial constituiu o grande precedente histórico do impacto das máquinas sobre a cultura humana ao substituir a força muscular humana por energia mecânica, oferecendo assim um modelo para compreender a crise contemporânea correspondente à Segunda Revolução Industrial.

3. A primeira Revolução Industrial originou-se na efervescência intelectual do século XVIII, quando as técnicas científicas desenvolvidas por Newton e Huygens, até então aplicadas sobretudo à astronomia, começaram a revelar possibilidades profundas para outros campos, inicialmente para a navegação e a relojoaria.

4. A navegação permaneceu tecnicamente precária até aproximadamente 1730 porque, embora a latitude pudesse ser determinada pela observação da altura angular do polo celeste, a longitude exigia comparar a hora local com uma hora de referência, tornando necessário transportar um cronômetro suficientemente preciso ou encontrar no céu algum fenômeno que funcionasse como relógio independente do Sol.

  • A determinação aproximada da latitude podia ser feita tomando a Estrela Polar como referência do polo celeste.
  • Procedimentos mais rigorosos permitiam determinar o centro da órbita aparente da Estrela Polar.
  • A longitude, na ausência de levantamento geodésico, dependia essencialmente da diferença entre o tempo local e um tempo padrão, como o de Greenwich.

5. Antes do desenvolvimento de métodos confiáveis para determinar a longitude, a navegação oceânica dependia de trajetórias indiretas e estimativas imprecisas, fazendo de cada travessia uma operação arriscada.

  • Navegava-se inicialmente acompanhando a costa até alcançar a latitude desejada.
  • Em seguida, seguia-se para leste ou oeste ao longo do mesmo paralelo até avistar novamente terra.
  • A distância percorrida nessa etapa era conhecida apenas por estimativa.
  • A aproximação inadvertida de costas perigosas representava risco constante.
  • As rotas de Colombo, da Frota da Prata e dos galeões de Acapulco exemplificam esse procedimento secular.

6. A lentidão e a incerteza desses métodos tornaram-se particularmente inadequadas para Inglaterra e França no século XVIII, cujos interesses marítimos em latitudes elevadas favoreciam rotas diretas de grande círculo e cuja rivalidade naval transformava a precisão da navegação em vantagem estratégica, levando ambos os governos a oferecer recompensas substanciais para a solução do problema da longitude.

7. As competições destinadas a solucionar o problema da longitude culminaram em duas tecnologias distintas que dominaram a navegação até o desenvolvimento do rádio e do radar: o cronômetro marítimo de alta precisão e as tabelas matemáticas do movimento lunar.

  • O cronômetro deveria conservar a hora com erro de apenas poucos segundos apesar dos movimentos violentos do navio.
  • As tabelas lunares permitiam utilizar a Lua como relógio celeste para comparar sua posição com o movimento aparente do Sol.
  • A atribuição das recompensas envolveu disputas nas quais inventores competentes chegaram a perder reconhecimento e recursos financeiros.

8. Os artesãos tecnologicamente mais avançados no início da Revolução Industrial foram, por um lado, os relojoeiros que aplicavam a nova matemática newtoniana aos relógios e, por outro, os fabricantes de instrumentos ópticos, como sextantes e telescópios, cujas técnicas de precisão originaram a moderna indústria de máquinas-ferramentas.

  • Ambos os ofícios exigiam a fabricação precisa de linhas retas e círculos.
  • A graduação rigorosa em graus ou polegadas era indispensável.
  • O torno e a máquina de dividir constituíam instrumentos fundamentais desses trabalhos.
  • As máquinas destinadas a essas operações minuciosas tornaram-se ancestrais das modernas máquinas-ferramentas industriais.

9. Cada máquina-ferramenta possui uma genealogia técnica formada pelas máquinas anteriormente utilizadas para produzi-la, de modo que os pequenos tornos manuais ou movidos a pedal do século XVIII somente puderam originar os grandes tornos modernos mediante sucessivas gerações intermediárias de instrumentos.

  • A fabricação de grandes máquinas exige que fundição, movimentação das peças e fornecimento de energia sejam realizados mecanicamente.
  • As máquinas empregadas nessas operações precisam, por sua vez, ser produzidas por outras máquinas.
  • A evolução industrial constitui assim uma cadeia cumulativa de instrumentos que produzem instrumentos progressivamente mais poderosos e precisos.

10. A origem relojoeira e instrumental dos primeiros inventores industriais decorreu da necessidade de precisão técnica, sendo significativo que até James Watt permanecesse limitado pelas capacidades produtivas disponíveis, considerando satisfatório o ajuste entre pistão e cilindro quando apenas uma pequena moeda pudesse deslizar entre ambos.

11. A navegação e seus instrumentos constituíram uma espécie de revolução industrial preliminar anterior à transformação centrada na máquina a vapor, cuja evolução avançou das máquinas rudimentares e pouco eficientes de Newcomen para as máquinas aperfeiçoadas de Watt, rapidamente incorporadas às fábricas e às minas.

  • A máquina de Newcomen destinava-se principalmente ao bombeamento de água nas minas.
  • Tentativas de utilizá-la para elevar água e posteriormente aproveitar sua queda como fonte de energia mostraram-se ineficientes.
  • As máquinas de Watt forneceram energia industrial de maneira muito mais eficaz.
  • No final do século XVIII, a energia a vapor já estava firmemente instalada na indústria e preparava sua expansão para os navios e transportes terrestres.

12. A primeira aplicação prática da energia a vapor substituiu uma das formas mais penosas e incessantes de trabalho humano e animal, o bombeamento de água das minas, constituindo importante progresso humanitário ao substituir animais de tração, mecanismos rudimentares e até trabalho escravo.

13. A máquina a vapor também substituiu trabalho humano extremamente pesado no transporte, primeiro por meio dos barcos a vapor empregados nos rios e depois mediante locomotivas destinadas inicialmente ao deslocamento de cargas pesadas.

  • Nos transportes marítimos, a propulsão a vapor permaneceu durante algum tempo como complemento discutível das velas.
  • Nos rios, especialmente no Mississippi, o barco a vapor desempenhou papel decisivo na abertura econômica do interior dos Estados Unidos.

14. A mecanização alcançou posteriormente a indústria têxtil, setor que já apresentava condições sociais precárias e capacidade produtiva insuficiente antes da introdução dos equipamentos mecanizados, embora a expectativa de que a tecnologia melhorasse automaticamente essa situação tenha sido contrariada por uma deterioração ainda maior das condições de trabalho.

15. As máquinas têxteis antecederam historicamente a máquina a vapor e passaram gradualmente do acionamento manual para as energias animal, hidráulica e finalmente a vapor, completando a mecanização da fiação e da tecelagem no início do século XIX.

  • Máquinas de tricotar adaptadas ao trabalho manual já existiam desde o período elisabetano.
  • A mecanização da fiação surgiu inicialmente para fornecer fios de urdidura aos teares manuais.
  • A necessidade de fornecer movimento rotativo eficiente à indústria têxtil constituiu um dos estímulos para a difusão da máquina de Watt.

16. As fábricas têxteis tornaram-se o modelo geral da mecanização industrial e promoveram a transferência dos trabalhadores do campo para as cidades e das residências para as fábricas, acompanhada por intensa exploração de mulheres e crianças.

  • As novas tecnologias criaram responsabilidades sociais antes que existissem normas capazes de regulá-las.
  • Parte importante dos efeitos sociais negativos não derivou apenas de injustiças morais, mas também das características técnicas das primeiras fontes de energia.
  • As máquinas a vapor apresentavam baixo rendimento energético segundo padrões posteriores, mas funcionavam economicamente melhor em grande escala.
  • Teares e fusos individuais eram relativamente leves e consumiam pouca energia.
  • Tornou-se economicamente conveniente concentrar numerosas máquinas em grandes fábricas alimentadas por uma única máquina a vapor.
  • A concentração técnica da produção contribuiu assim para a concentração urbana da população trabalhadora.

17. A transmissão da energia dentro dessas primeiras fábricas dependia de sistemas mecânicos constituídos por longas linhas de eixos, correias e polias, posteriormente substituídos em grande parte por máquinas dotadas de motores elétricos individuais.

18. A passagem dos sistemas de transmissão mecânica para configurações posteriores modificou profundamente a própria natureza da construção de máquinas e do trabalho inventivo.

  • Longas linhas de eixos precisavam ser cuidadosamente alinhadas ou ligadas mediante juntas e mecanismos capazes de admitir movimentos relativos.
  • Numerosos mancais consumiam parcela importante da energia transmitida.
  • As máquinas individuais exigiam rigidez estrutural e redução do número de mancais para diminuir perdas e simplificar a fabricação.
  • Esses problemas resistiam à formulação matemática geral e favoreciam soluções baseadas na engenhosidade prática dos artesãos.
  • O sistema de patentes desenvolveu-se historicamente em um ambiente no qual esse tipo de inventividade mecânica possuía importância central.

19. A substituição das conexões mecânicas pelas elétricas transformou radicalmente a organização industrial porque pequenos motores elétricos permitiram distribuir energia diretamente para máquinas individuais com reduzidas perdas de transmissão.

  • Cada máquina pôde receber um motor próprio.
  • As conexões elétricas dispensaram extensas estruturas rígidas de eixos e peças mecânicas.
  • Permaneceram razões logísticas e organizacionais para reunir máquinas em uma mesma fábrica.
  • Entretanto, a necessidade energética deixou de impor a concentração física das unidades produtivas.
  • Tornou-se tecnicamente possível retornar a formas dispersas de produção quando outros fatores as tornassem convenientes.

20. Embora as dificuldades de transmissão mecânica não tenham sido a única causa do sistema fabril, elas contribuíram significativamente para a concentração industrial, o crescimento urbano e o despovoamento rural.

  • As primeiras fábricas surgiram antes da mecanização também como forma de disciplinar o trabalho doméstico e assegurar níveis regulares de produção.
  • As fábricas mecanizadas rapidamente substituíram essas primeiras organizações.
  • Se pequenos motores individuais estivessem disponíveis desde o início, parte da disciplina necessária à produção em série poderia ter sido aplicada à indústria doméstica de fiação e tecelagem sem exigir concentração maciça em grandes estabelecimentos.

21. A possibilidade de incorporar vários motores pequenos a uma única máquina simplificou a construção industrial e deslocou parte da invenção da engenhosidade dos mecanismos físicos para o cálculo matemático das conexões elétricas, substituindo progressivamente o inventor de articulações mecânicas pelo projetista de circuitos.

22. Quando começou a ser difundido industrialmente no último quarto do século XIX, o motor elétrico foi inicialmente concebido apenas como novo meio de executar técnicas já existentes, sem que se percebesse de imediato que acabaria produzindo uma concepção inteiramente nova da fábrica.

23. O tubo a vácuo percorreu trajetória semelhante, surgindo em um contexto no qual o controle de sistemas de grande potência dependia de numerosos aparelhos separados e frequentemente exigia consumo considerável de energia.

24. A antiga direção de grandes navios mostra a magnitude dos esforços necessários antes do desenvolvimento de sistemas adequados de amplificação de forças, pois mecanismos manuais de emergência podiam exigir simultaneamente o trabalho de cerca de dez homens para manter uma embarcação em sua rota durante uma tempestade.

25. O servomecanismo de direção naval já permitia amplificar mecanicamente o pequeno esforço exercido pelo timoneiro e transformá-lo em força suficiente para movimentar o pesado leme, embora esse princípio ainda não estivesse incorporado em um dispositivo universal capaz de operar eficientemente entre níveis de energia muito diferentes.

26. O tubo a vácuo tornou-se um instrumento particularmente flexível para amplificar pequenos níveis de energia até níveis elevados, derivando historicamente de uma observação experimental de Edison que, excepcionalmente, não foi imediatamente transformada por ele em invenção comercial.

27. A observação de que uma corrente podia ser controlada pela relação entre uma eletrodo positivo e um filamento aquecido conduziu, mediante desenvolvimentos posteriores, à possibilidade de controlar grandes potências por sinais elétricos muito pequenos.

  • Esse princípio tornou-se fundamento técnico da indústria radiofônica.
  • Seu alcance industrial ultrapassou amplamente as comunicações.
  • Modelos de comportamento podiam ser construídos e avaliados em níveis de energia muito baixos.
  • Séries de amplificadores permitiam então aplicar esses sinais ao controle de equipamentos industriais de enorme potência, como laminadores.
  • A discriminação e a determinação do comportamento do sistema podiam ser realizadas praticamente sem perdas energéticas significativas, enquanto o efeito final ocorria em níveis arbitrariamente elevados de potência.

28. O tubo a vácuo transformou a indústria tão profundamente quanto o pequeno motor elétrico porque separou o processo de decisão e controle do nível energético em que se realiza o trabalho material.

  • Os antigos mecanismos destinados a minimizar atrito, número de peças e perdas energéticas perderam parte de sua importância.
  • A concepção das máquinas deslocou-se do domínio do artesão especializado para o laboratório científico.
  • A teoria dos circuitos passou a substituir grande parte da antiga engenhosidade mecânica.
  • A invenção tradicional cedeu lugar à aplicação sistemática e inteligente das leis naturais.
  • A distância entre conhecimento científico e aplicação industrial foi drasticamente reduzida.

29. As consequências mais profundas de uma invenção normalmente só se tornam perceptíveis muito depois de seu aparecimento, como demonstram os impactos posteriormente reconhecidos da aviação sobre as relações internacionais e a dificuldade ainda existente de avaliar plenamente as consequências históricas da energia atômica.

30. O tubo a vácuo também foi inicialmente interpretado apenas como complemento das técnicas existentes de telefonia, sendo durante anos restrito a determinadas partes das redes de comunicação antes que os engenheiros reconhecessem sua função geral como elemento ativo de circuitos.

31. As primeiras aplicações do tubo a vácuo concentraram-se na telefonia de longa distância e na radiotelegrafia, mas logo sua utilização permitiu o desenvolvimento da radiotelefonia e tornou tecnicamente possível a radiodifusão.

32. As potencialidades civilizadoras da radiodifusão não devem ser confundidas com seus usos comerciais posteriores, ainda que uma realização técnica extraordinária tenha sido amplamente submetida à publicidade e ao entretenimento superficial.

33. Embora o tubo a vácuo tenha surgido no campo das comunicações, suas possibilidades industriais permaneceram inicialmente fragmentárias e conceitualmente separadas dessa origem comunicacional.

  • Tubos a vácuo e células fotoelétricas passaram a ser utilizados esporadicamente na inspeção e no controle de produtos.
  • Podiam controlar a espessura da pasta na produção de papel ou verificar a cor de embalagens industriais.
  • Essas aplicações ainda não constituíam uma técnica geral e racional de automação.
  • Os engenheiros tampouco reconheciam claramente sua relação conceitual com a comunicação.

34. A Segunda Guerra Mundial acelerou decisivamente a integração entre comunicação e controle industrial, sobretudo mediante o desenvolvimento do radar como resposta à necessidade urgente de detectar e combater ataques aéreos contra a Inglaterra.

  • A guerra proporcionou recursos financeiros praticamente ilimitados e incorporou novos pesquisadores à indústria.
  • O radar utilizou inicialmente técnicas provenientes da radiofonia antes de desenvolver procedimentos próprios.
  • Sua natureza tornou natural considerá-lo como aplicação da teoria da comunicação.

35. A necessidade de destruir os aviões detectados pelo radar introduziu o problema do controle automático de tiro e exigiu máquinas capazes de calcular rapidamente trajetórias e desempenhar funções comunicacionais anteriormente confiadas a seres humanos.

  • A velocidade das aeronaves tornou insuficiente o cálculo humano convencional.
  • A máquina passou a receber, processar e transmitir informações destinadas diretamente a outras máquinas.
  • A comunicação deixou de significar exclusivamente interação entre pessoas.
  • Sistemas como as centrais hidrelétricas automáticas já haviam antecipado essa possibilidade.

36. Antes da Segunda Guerra Mundial, o tubo a vácuo começou igualmente a ser combinado diretamente com máquinas de calcular, embora os primeiros grandes projetos de cálculo, como os desenvolvidos por Vannevar Bush, permanecessem fundamentalmente mecânicos e utilizassem discos, engrenagens e eixos para realizar operações e transmitir resultados.

37. A concepção de máquinas de calcular remonta pelo menos a Babbage, cuja visão ultrapassava as possibilidades mecânicas de seu tempo porque extensas cadeias de engrenagens exigiam energia progressivamente maior e sofriam perdas incapazes de alimentar adequadamente as etapas seguintes.

  • Vannevar Bush encontrou soluções mecânicas para parte desse problema.
  • Amplificadores de torque podiam multiplicar uma pequena força aplicada a um cabo enrolado em um tambor rotativo.
  • O princípio era semelhante ao empregado por trabalhadores portuários para movimentar grandes cargas.

38. A amplificação mecânica permite que a força exercida por um único homem seja suficiente para movimentar cargas de várias toneladas.

39. Bush incorporou amplificadores mecânicos de força ou torque entre os diferentes estágios de suas máquinas de calcular, tornando tecnicamente possível realizar parte da concepção anteriormente imaginada por Babbage.

40. A necessidade de resolver equações diferenciais parciais e manipular numerosas variáveis espaciais em grande velocidade tornou evidente a insuficiência dos processos mecânicos e apontou para computadores eletrônicos capazes de leitura, escrita, apagamento, cálculo, lógica e programação automáticos.

  • As máquinas de Bush destinavam-se originalmente a equações diferenciais ordinárias cujo parâmetro independente era o tempo.
  • Técnicas semelhantes às da varredura televisiva permitiam imaginar a tradução de variáveis espaciais em sequências temporais.
  • A elevada velocidade exigida favorecia processos eletrônicos em vez de mecanismos físicos.
  • O computador deveria registrar e modificar números na mesma velocidade de suas operações.
  • Além de dispositivos aritméticos, seriam necessários mecanismos lógicos.
  • A programação deveria tornar possível ordenar automaticamente sequências de operações.
  • A organização científica do trabalho desenvolvida por Taylor e pelos Gilbreth já havia familiarizado a indústria com a ideia de programação de atividades.
  • Por volta de 1940, já se tornava possível antever a fábrica automática como elemento decisivo de uma futura Segunda Revolução Industrial.

41. Nos primeiros analisadores diferenciais de Bush, os amplificadores mecânicos ainda desempenhavam as principais funções, enquanto a eletricidade servia sobretudo para fornecer energia aos motores, mas essa configuração transitória foi rapidamente substituída por amplificadores elétricos e tubos a vácuo, mais econômicos, flexíveis e facilmente conectáveis.

  • Os sistemas elétricos utilizavam fios no lugar de extensas conexões por eixos.
  • Tubos a vácuo passaram a ser empregados nos modelos posteriores.
  • Essa solução foi posteriormente adotada tanto em computadores analógicos quanto digitais.

42. O rápido desenvolvimento dos computadores após a guerra tornou-os muito superiores ao cálculo humano em velocidade e precisão para grandes tarefas, eliminando progressivamente a possibilidade de intervenção humana durante suas operações internas e tornando indispensável a comunicação autônoma entre diferentes componentes da própria máquina.

  • As partes do computador precisam comunicar-se mediante linguagens adequadas.
  • A intervenção humana tende a limitar-se às etapas inicial e final.
  • Essa organização contribuiu decisivamente para estender o conceito de comunicação das relações humanas para as relações entre máquinas.

43. A comunicação interna da máquina exige frequentemente utilizar informações produzidas por operações anteriores, fazendo da retroação um princípio central já presente tanto no regulador centrífugo da máquina a vapor de Watt quanto em sistemas posteriores de servocontrole.

  • Quando a máquina de Watt acelerava excessivamente, as esferas do regulador elevavam-se pela força centrífuga.
  • Seu movimento acionava uma alavanca que diminuía a entrada de vapor.
  • A aceleração produzia assim uma ação compensatória destinada a reduzi-la.
  • Clerk Maxwell realizou em 1868 uma importante análise matemática desse tipo de mecanismo regulador.

44. No servomecanismo de direção naval, a retroação controla a posição do leme ao transformar pequenas ações do timoneiro em movimentos de grande potência que continuam até que a posição efetiva do dispositivo coincida com a posição comandada.

  • O timoneiro opera um sistema leve de transmissão mecânica ou hidráulica.
  • A diferença entre a posição comandada e a posição efetiva determina a admissão de energia na máquina de governo.
  • A ação resultante tende automaticamente a eliminar essa diferença.
  • Um único timoneiro consegue assim realizar uma tarefa que anteriormente poderia exigir uma tripulação inteira.

45. Os mesmos princípios de retroação encontrados em dispositivos mecânicos podem ser implementados por meios elétricos e eletrônicos, destinados a constituir a base dominante dos futuros sistemas de controle.

46. A automação industrial não constitui fenômeno inteiramente novo, pois máquinas já executavam automaticamente tarefas repetitivas, mas a combinação de retroação, eletrônica e uma teoria geral da comunicação tornou possível substituir mecanismos automáticos isolados por uma política sistemática de construção de máquinas automáticas de funções muito variadas.

  • A fabricação de parafusos já podia ser realizada automaticamente por máquinas específicas sem intervenção humana contínua.
  • Esses dispositivos antigos não dependiam necessariamente de retroação ou tubos a vácuo.
  • A inovação decisiva consiste na possibilidade de generalizar a automação.
  • A comunicação de máquina a máquina oferece a estrutura conceitual necessária para essa generalização.
  • A convergência dessas técnicas inaugura uma nova era do automatismo.

47. A indústria contemporânea combina ainda os resultados da primeira Revolução Industrial com invenções precursoras da segunda, tornando difícil estabelecer uma fronteira histórica precisa entre ambas, embora o tubo a vácuo pertença potencialmente a uma transformação distinta daquela centrada simplesmente na produção e transmissão de energia.

48. A primeira Revolução Industrial substituiu sobretudo seres humanos e animais enquanto fontes de energia, sem substituir de maneira equivalente as demais funções humanas, tornando economicamente obsoleto o trabalhador que somente dispõe de força física para vender.

  • Máquinas como avião, automóvel, bulldozer e diversos equipamentos de construção modificaram profundamente a vida moderna.
  • O trabalho manual realizado com pá ou picareta tornou-se marginal diante da capacidade produtiva das máquinas pesadas.
  • A força muscular humana deixou de possuir valor econômico significativo quando confrontada com fontes mecanizadas de energia.

49. Uma fábrica de automóveis plenamente automatizada poderia utilizar um computador de alta velocidade como centro lógico de comando da cadeia de montagem, realizando operações matemáticas e comparações lógicas para determinar a sequência das ações industriais.

  • O computador é fundamentalmente uma máquina lógica capaz de comparar proposições e deduzir consequências.
  • As operações matemáticas podem ser traduzidas em sequências de operações lógicas.
  • A mesma estrutura lógica capaz de calcular pode igualmente ordenar e coordenar processos produtivos.
  • O sistema industrial automatizado exigiria assim um grande componente de processamento lógico semelhante aos computadores de alta velocidade.

50. As instruções fornecidas à máquina constituem seu programa, que pode ser inteiramente predeterminado ou permitir modificações decorrentes das próprias contingências encontradas durante o funcionamento.

  • Informações sobre condições efetivamente encontradas podem servir de base para novos ajustes.
  • A máquina pode operar segundo um novo programa ou modificar parcialmente o anterior.
  • Essa capacidade apresenta analogias funcionais com processos de aprendizagem.

51. O elevado custo dos primeiros computadores não constitui obstáculo definitivo à sua utilização industrial porque grande parte desse custo decorre da construção de modelos únicos e continuamente redesenhados, enquanto a padronização e a produção em série reduziriam drasticamente os preços.

  • Computadores destinados aos problemas matemáticos mais avançados custavam centenas de milhares de dólares.
  • Mesmo esse valor poderia ser aceitável para controlar instalações industriais muito grandes.
  • Grande parcela do custo decorria do projeto original e da fabricação artesanal de peças novas por técnicos altamente especializados.
  • A produção de dezenas de unidades padronizadas poderia reduzir o preço a algumas dezenas de milhares de dólares.
  • Máquinas menos complexas, suficientes para controle fabril, poderiam custar apenas alguns milhares de dólares quando produzidas em escala média.

52. Mesmo uma produção relativamente pequena de computadores completos permitiria fabricação em série de componentes porque memória, unidades lógicas e unidades aritméticas utilizam numerosas peças repetidas, proporcionando economias típicas da produção industrial em massa.

53. A versatilidade dos computadores elimina a necessidade de projetar uma máquina completamente nova para cada tarefa, pois diferentes funções podem ser obtidas principalmente pela alteração dos programas.

  • O hardware lógico e matemático conserva ampla semelhança entre aplicações distintas.
  • A programação constitui atividade altamente especializada.
  • Grande parte desse trabalho precisa ser realizada apenas uma vez.
  • Novas aplicações industriais exigem principalmente modificações parciais dos programas.
  • O custo do programador pode ser distribuído por uma produção suficientemente grande, tornando-se economicamente secundário.

54. O computador constitui o centro lógico da fábrica automática, mas precisa receber informações provenientes de dispositivos equivalentes aos órgãos sensoriais dos organismos vivos.

  • Células fotoelétricas, sensores de espessura, termômetros, medidores de pH e outros instrumentos industriais podem fornecer informações sobre o processo produtivo.
  • Muitos desses instrumentos já eram capazes de transmitir sinais elétricos a estações distantes.
  • Bastaria converter suas leituras em sequências numéricas inteligíveis pelo computador.
  • Dispositivos capazes dessa conversão já existiam e não apresentavam dificuldades técnicas fundamentais.
  • O problema dos órgãos sensoriais da fábrica automática encontrava-se, portanto, essencialmente resolvido.

55. Além de sensores, a fábrica automática exige efetores capazes de agir fisicamente sobre o ambiente, incluindo motores, embreagens e dispositivos que reproduzam funções coordenadas semelhantes às da mão e do olho humanos.

  • Determinados pontos de referência podem ser incorporados às peças industriais durante sua fabricação.
  • Ferramentas como brocas ou rebitadoras podem ser guiadas por mecanismos fotoelétricos orientados por marcas visuais.
  • O posicionamento final pode aproximar a ferramenta da superfície até estabelecer contato preciso sem danificá-la.
  • Essa solução representa apenas uma entre muitas possibilidades tecnicamente concebíveis.

56. Quando os sensores registram tanto o estado inicial quanto os resultados das operações anteriores, a fábrica automática pode funcionar mediante retroação e realizar processos de discriminação controlados logicamente pelo computador central.

  • A retroação pode assumir formas simples ou envolver decisões matemáticas e lógicas complexas.
  • O sistema completo passa a apresentar analogia funcional com um organismo vivo.
  • Sensores correspondem aos órgãos dos sentidos, efetores aos órgãos de ação e sistemas de retroação aos mecanismos proprioceptivos.
  • O computador isolado deixa então de funcionar como um cérebro dependente da intervenção humana e passa a integrar um organismo técnico completo.

57. A velocidade de adoção da automação varia segundo a natureza das indústrias, sendo particularmente favorável em processos contínuos, atividades perigosas e operações nas quais erros humanos imprevistos podem produzir consequências graves.

  • Sistemas automáticos já eram empregados em fábricas de conservas, laminadores, trefilarias, indústrias de folha metálica e fábricas de papel.
  • Refinarias, indústrias químicas e instalações relacionadas à energia atômica apresentam forte necessidade de controle automático.
  • Em ambientes perigosos, decisões precisam ser previstas antecipadamente em vez de depender do julgamento improvisado de operadores locais.
  • Programas registrados em fitas perfuradas podem estabelecer respostas adequadas aos valores captados pelos instrumentos.
  • O princípio aproxima-se dos sistemas ferroviários em que sinais e mudanças de via são comandados centralmente.

58. A automação da linha de montagem também pode incorporar controle estatístico contínuo de qualidade por amostragem sequencial, permitindo que computadores realizem automaticamente procedimentos anteriormente confiados a técnicos.

  • A análise sequencial, desenvolvida por Wald e outros pesquisadores, substitui amostras isoladas por acompanhamento contínuo da produção.
  • Procedimentos suficientemente padronizados para serem executados por assistentes sem domínio de sua lógica fundamental podem igualmente ser realizados por máquinas.
  • Os computadores podem assumir tanto o controle rotineiro da produção quanto os controles estatísticos de níveis inferiores e intermediários.

59. A automação pode estender-se da produção à contabilidade, à documentação e às tarefas administrativas, permitindo que dados industriais sejam enviados diretamente ao computador e reduzindo o trabalho humano a atividades excepcionais ou de comunicação externa.

  • Informações destinadas ao cálculo de custos podem ser transferidas diretamente das máquinas e linhas de montagem.
  • Outros dados podem ser introduzidos periodicamente por operadores humanos.
  • Grande parte do trabalho burocrático pode ser mecanizada.
  • Cartões perfurados permitem entrada e saída de dados mediante mão de obra pouco especializada.
  • Classificação de documentos e gestão informacional também podem ser parcialmente automatizadas.

60. A Segunda Revolução Industrial ameaça substituir não apenas trabalhadores manuais, mas também trabalhadores administrativos e todos aqueles cujas funções consistem em decisões rotineiras de baixo nível, assim como a primeira Revolução Industrial substituiu amplamente o esforço muscular.

  • Pequenos negócios podem permanecer protegidos quando o custo das máquinas de controle exceder as vantagens proporcionadas pela automação.
  • Atividades extremamente variadas podem resistir à mecanização quando cada tarefa exigir programação quase inteiramente nova.
  • Pequenos armazéns ou oficinas locais apresentam condições menos favoráveis à automação do que atacadistas e grandes fabricantes.
  • A agricultura permanece parcialmente protegida pela extensão territorial, diversidade das culturas e variabilidade das condições meteorológicas.
  • Entretanto, máquinas de colheita, capina e outros equipamentos já reduzem progressivamente essa proteção.
  • Onde a mecanização física se torna possível, a introdução posterior de máquinas decisórias também se torna concebível.

61. A velocidade da introdução industrial dos novos mecanismos dependerá principalmente de condições econômicas e políticas, podendo decorrer gradualmente ao longo de décadas ou acelerar drasticamente em caso de guerra.

  • Em condições relativamente estáveis, a difusão ampla poderia exigir entre dez e vinte anos.
  • Uma guerra contra grande potência poderia gerar necessidade urgente de substituir trabalhadores mobilizados para funções militares.
  • A automação industrial poderia então tornar-se questão estratégica de sobrevivência nacional.
  • O estágio técnico da automação já seria comparável à situação do radar em 1939.
  • Assim como a Batalha da Inglaterra acelerou em poucos anos um desenvolvimento que poderia durar décadas, uma guerra poderia produzir efeito semelhante sobre as máquinas automáticas.
  • Técnicos formados durante o desenvolvimento do radar — radioamadores, matemáticos, físicos e engenheiros — poderiam ser reaproveitados na construção de sistemas automáticos.
  • Uma nova geração de especialistas já estaria sendo formada nesse campo.

62. Em condições de mobilização militar, a fábrica automática poderia atingir maturidade operacional em período comparável ao rápido desenvolvimento do radar e difundir-se amplamente em menos de cinco anos.

  • Ao final de uma guerra, o conhecimento técnico necessário à construção dessas instalações estaria amplamente disseminado.
  • Equipamentos produzidos pelo Estado poderiam tornar-se excedentes e ser vendidos ou transferidos à indústria privada.
  • Uma nova guerra tenderia, portanto, a acelerar quase inevitavelmente a consolidação da era da automação.

63. A consequência econômica mais imediata de uma automação avançada seria a queda definitiva da demanda por trabalhadores destinados a tarefas puramente repetitivas, resultado potencialmente benéfico por eliminar trabalhos extremamente monótonos e ampliar o tempo disponível para o desenvolvimento cultural, embora o lazer assim produzido também possa ser preenchido por formas culturais superficiais semelhantes às predominantes no rádio e no cinema.

64. A introdução inicial e rápida da automação tende, entretanto, a produzir grave período de desorganização social quando as novas capacidades forem exploradas prioritariamente segundo critérios de lucro privado imediato.

  • A indústria tende a reivindicar que novas tecnologias permaneçam disponíveis a qualquer investidor privado e não sejam tratadas como questão de responsabilidade pública.
  • Existe historicamente disposição para extrair rapidamente os lucros de determinado setor e transferir posteriormente ao conjunto da sociedade os custos de suas consequências.
  • A exploração das florestas e das minas oferece precedentes desse comportamento dentro da concepção tradicional norte-americana de progresso econômico.

65. A indústria tende a adotar maciçamente as novas tecnologias enquanto produzirem lucros imediatos, sem considerar suficientemente seus danos de longo prazo, reproduzindo a lógica pela qual a aplicação militar da energia atômica recebeu prioridade sobre suas possíveis utilizações para substituir recursos energéticos esgotáveis.

  • Petróleo e carvão possuem reservas finitas que podem esgotar-se em escala histórica relativamente curta.
  • O desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos poderia contribuir para substituir essas fontes.
  • A produção de bombas, porém, não compete economicamente com as empresas tradicionais de energia elétrica, favorecendo prioridades distintas das necessidades energéticas coletivas.

66. A máquina automática constitui economicamente o equivalente do trabalho escravo porque qualquer trabalhador que concorra diretamente com ela precisa competir com custos de trabalho extremamente baixos, criando possibilidade de desemprego muito superior ao observado até mesmo na crise de 1929.

  • A automação pode destruir grande número de empregos e provocar colapso em vários setores industriais.
  • As próprias empresas inicialmente beneficiadas pela nova tecnologia podem posteriormente sofrer seus efeitos econômicos gerais.
  • A tradição industrial não impede que empresários obtenham lucros rápidos e abandonem seus investimentos antes que as consequências sociais e financeiras mais amplas se manifestem.

67. A Segunda Revolução Industrial possui caráter profundamente ambivalente, podendo libertar a humanidade de trabalhos repetitivos e ampliar o lazer e a vida espiritual, mas também produzir desemprego, desorganização e destruição social caso seja orientada exclusivamente pelo lucro e pela veneração da máquina.

  • Os benefícios da automação dependem de sua utilização consciente em favor das necessidades humanas.
  • A tecnologia não possui por si mesma orientação social inevitavelmente benéfica.
  • Responsáveis pela administração industrial começam a reconhecer os perigos sociais produzidos pelas novas técnicas.
  • Cresce também a consciência de que a gestão empresarial possui responsabilidades que ultrapassam a obtenção imediata de lucros.
  • As novas máquinas podem servir ao aumento do tempo livre e ao enriquecimento da existência humana.
  • A transformação da tecnologia em fim absoluto equivaleria à adoração de um novo bezerro de ouro.
  • Embora persistam perigos consideráveis, a emergência dessa consciência social permite uma perspectiva menos pessimista sobre o futuro da automação.
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