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WIENER, Norbert. GOD AND GOLEM, Inc.
1. A aprendizagem considerada no plano individual ocorre durante a vida particular do organismo, mas existe uma modalidade igualmente importante de aprendizagem filogenética, realizada na história da espécie e fundamentada, em uma de suas formas essenciais, pela teoria darwiniana da seleção natural.
2. A seleção natural fundamenta-se na articulação entre hereditariedade, variação hereditária e sobrevivência diferencial das variações, mediante a qual a diversidade espontaneamente produzida é selecionada segundo sua contribuição para a continuidade da espécie.
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A hereditariedade permite que plantas e animais produzam descendentes semelhantes a si mesmos.
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A reprodução não produz cópias absolutamente idênticas, pois surgem diferenças que também podem ser hereditariamente transmitidas.
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A variação hereditária não implica a controversa transmissão de características adquiridas.
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A maior parte das variações tende a diminuir a probabilidade de continuidade da espécie, enquanto algumas poucas podem aumentá-la.
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A seleção diferencial dessas variações constitui um dos mecanismos fundamentais da evolução.
3. A sobrevivência e a transformação evolutiva das espécies envolvem processos consideravelmente mais complexos do que o esquema elementar da seleção natural, incluindo variações da própria capacidade de variar e os mecanismos celulares e genéticos responsáveis pela hereditariedade.
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A variabilidade pode ela própria variar, constituindo uma variação de ordem superior.
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Os processos hereditários encontram descrição funcional nas leis de Mendel e fundamento estrutural nos fenômenos celulares associados à mitose.
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A reprodução genética envolve duplicação e separação de genes, organização em cromossomos, ligação genética e outros processos correlatos.
4. Por trás da extraordinária complexidade dos processos reprodutivos encontra-se o princípio molecular segundo o qual determinadas estruturas genéticas, em meio apropriado, podem induzir a formação de novas estruturas semelhantes a si mesmas ou ligeiramente modificadas, oferecendo uma forma elementar de compreender a reprodução.
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Moléculas associadas aos genes podem organizar materiais disponíveis no meio de modo a produzir novas moléculas estruturalmente correspondentes.
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As novas estruturas podem reproduzir o mesmo padrão genético ou apresentar pequenas variações.
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Um processo análogo pode ser observado nos vírus, que utilizam os tecidos do hospedeiro como meio para produzir novas partículas virais.
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A multiplicação molecular de genes ou vírus representa uma etapa analiticamente elementar do vasto e complexo fenômeno da reprodução.
5. A produção de seres humanos à imagem de outros seres humanos estabelece uma analogia com a concepção religiosa da criação do homem à imagem de Deus e permite perguntar se processos semelhantes podem ocorrer nos sistemas não vivos constituídos por máquinas.
6. A possibilidade de reprodução mecânica depende de determinar em que consiste a imagem de uma máquina e se essa imagem pode dirigir um sistema inicialmente indeterminado para produzir uma máquina equivalente ao original ou uma variante capaz, por sua vez, de servir como modelo de novas reproduções.
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Uma máquina ainda não configurada especificamente poderia receber uma organização correspondente à de outra máquina.
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A reprodução poderia produzir tanto uma cópia exata quanto uma versão modificada.
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A variante produzida poderia conservar suas próprias modificações ao funcionar posteriormente como arquétipo de novas máquinas.
7. A reprodução de máquinas pode ser demonstrada mediante uma prova de existência que apresenta ao menos um procedimento pelo qual máquinas são capazes de produzir outras máquinas, sem pretender que esse seja o único procedimento possível ou que corresponda ao mecanismo efetivo da reprodução biológica.
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Uma prova de existência exige apenas demonstrar que determinado processo é possível por pelo menos um método.
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Reprodução mecânica e reprodução biológica não precisam possuir mecanismos idênticos para serem comparáveis.
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Apesar das diferenças entre ambas, podem constituir processos paralelos capazes de produzir resultados funcionalmente semelhantes.
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A análise da reprodução mecânica pode, por isso, fornecer sugestões conceitualmente relevantes para a compreensão da reprodução biológica.
8. A investigação de uma máquina capaz de construir outra à sua própria imagem exige distinguir diferentes sentidos de imagem, sobretudo a diferença entre uma representação meramente pictórica e uma imagem operativa capaz de realizar as funções do original.
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A estátua de Galateia produzida por Pigmalião constitui inicialmente uma representação visual de seu ideal.
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Sua transformação em ser vivo simboliza a passagem de uma simples semelhança figurativa para uma correspondência funcional.
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Uma imagem operativa não apenas representa externamente aquilo de que é imagem, mas reproduz sua capacidade de agir.
9. A distinção entre imagem pictórica e imagem operativa pode ser observada na diferença entre a cópia formal de um objeto relativamente simples e a reprodução funcional de estruturas mais complexas, como circuitos elétricos impressos capazes de executar as mesmas operações dos circuitos representados.
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Um torno copiador pode reproduzir a forma de uma coronha porque sua função depende diretamente de uma configuração física relativamente simples.
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Um circuito elétrico realiza funções muito mais complexas.
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A impressão de circuitos com tintas metálicas pode produzir uma estrutura que não apenas representa graficamente o circuito original, mas funciona efetivamente como ele.
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Os circuitos impressos demonstram tecnicamente a possibilidade de uma imagem material possuir equivalência operacional com seu modelo.
10. A reprodução de máquinas deve ser considerada a partir da semelhança operativa, pois uma imagem capaz de exercer as mesmas funções do original constitui uma equivalência mais profunda do que a simples semelhança visual, independentemente de conservar ou não a aparência física do modelo.
11. A máquina pode ser definida não primordialmente como fonte de energia, mas como dispositivo que transforma mensagens de entrada em mensagens de saída, sendo cada mensagem constituída por uma sequência de grandezas que funcionam como sinais.
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Os sinais podem assumir a forma de correntes ou potenciais elétricos, mas não se limitam a grandezas dessa natureza.
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Os componentes de uma mensagem podem distribuir-se de maneira contínua ou discreta no tempo.
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Uma máquina recebe uma ou várias mensagens de entrada e produz uma ou várias mensagens de saída.
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A saída produzida em determinado instante depende das entradas recebidas até aquele momento.
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Em linguagem de engenharia, a máquina pode ser caracterizada como um transdutor de múltiplas entradas e múltiplas saídas.
12. Muitos dos problemas envolvendo máquinas com múltiplas entradas e saídas podem ser aproximados dos problemas mais simples dos transdutores de entrada e saída únicas, aparentemente semelhantes aos problemas clássicos dos circuitos elétricos relativos à impedância, admitância e relação entre tensões.
13. Os conceitos clássicos de impedância, admitância e relação de tensão caracterizam com precisão apenas circuitos lineares, nos quais a combinação das entradas corresponde à combinação das respectivas saídas, permitindo descrever completamente o circuito mediante respostas a oscilações controladas.
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Resistências, capacitâncias e indutâncias puras, assim como circuitos constituídos exclusivamente por esses componentes segundo as leis de Kirchhoff, aproximam-se desse modelo linear.
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Uma entrada oscilatória trigonométrica pode ser aplicada ao circuito em diferentes frequências, amplitudes e fases.
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O circuito linear produz uma saída oscilatória de frequência correspondente.
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A comparação entre amplitude e fase das entradas e das saídas permite caracterizar integralmente o comportamento do transdutor.
14. Nos circuitos não lineares, especialmente aqueles contendo retificadores, limitadores de tensão ou dispositivos semelhantes, uma entrada trigonométrica não constitui teste suficiente porque não produz necessariamente uma saída da mesma forma, sendo a própria linearidade absoluta apenas uma idealização aproximativa.
15. A caracterização de circuitos não lineares pode utilizar uma entrada de natureza estatística denominada efeito de disparo, aplicável também aos circuitos lineares e capaz, em princípio, de servir como conjunto padronizado de estímulos para qualquer transdutor.
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Diferentemente do sinal trigonométrico, que precisa ser variado por toda uma faixa de frequências, o teste estatístico pode utilizar um único conjunto de entradas.
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O efeito de disparo fornece o padrão estatístico adequado a esse procedimento.
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Geradores desse efeito existem como instrumentos físicos definidos e disponíveis na engenharia elétrica.
16. A mensagem produzida por um transdutor depende simultaneamente da mensagem introduzida e da própria estrutura do transdutor, de modo que, quando a entrada contém quantidade mínima de informação, a organização presente na saída pode ser atribuída predominantemente à própria máquina.
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Em condições ordinárias, considera-se principalmente a saída como transformação da mensagem de entrada.
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Uma entrada minimamente estruturada reduz a informação exterior responsável pelas características da saída.
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O fluxo aleatório de elétrons do efeito de disparo constitui uma entrada de conteúdo informacional mínimo.
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A estrutura estatística produzida na saída pode então ser interpretada como expressão do modo particular de funcionamento do transdutor.
17. A resposta estatística de um transdutor submetido ao efeito de disparo constitui uma imagem operativa capaz de representar seu comportamento diante de qualquer mensagem possível e pode, em princípio, fornecer informação suficiente para reconstruir fisicamente outro transdutor funcionalmente equivalente.
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Em qualquer intervalo finito existe uma probabilidade, embora pequena, de que a entrada aleatória reproduza aproximadamente qualquer mensagem finita possível.
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O conjunto estatístico das respostas contém, portanto, informação sobre as diversas maneiras pelas quais o transdutor poderia responder.
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Conhecer a resposta da máquina ao estímulo estatístico padronizado equivale, em princípio, a conhecer sua resposta a qualquer entrada.
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Essa informação constitui uma imagem operativa independente da forma material específica do transdutor.
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A mesma imagem pode servir para reconstruir uma máquina equivalente em outra realização física.
18. A máquina considerada simultaneamente como instrumento material e como mensagem funcional manifesta uma dualidade comparável a outras dualidades da física e aos ciclos biológicos de alternância de gerações, pois a máquina pode produzir uma mensagem e essa mensagem pode, por sua vez, fornecer o princípio para produzir outra máquina.
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A relação aproxima-se conceitualmente da dualidade entre onda e partícula.
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A alternância biológica de gerações mostra igualmente como uma forma de existência pode funcionar como meio para produzir outra.
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A imagem humorística da galinha como meio utilizado pelo ovo para produzir outro ovo expressa essa circularidade reprodutiva.
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Ciclos parasitários que alternam organismos hospedeiros fornecem outro exemplo de continuidade através de formas distintas.
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Na reprodução mecânica, a passagem máquina → mensagem → máquina realiza uma estrutura análoga.
19. A possibilidade conceitual de transmitir um ser humano por uma linha telegráfica decorre da ideia de representar operacionalmente um organismo por uma mensagem, embora as dificuldades práticas desse processo sejam tão imensas que sua realização possa permanecer impossível durante toda a história humana sem que, por isso, a concepção seja logicamente incoerente.
20. Embora a transmissão e reconstrução de um ser humano permaneçam impraticáveis, o mesmo princípio pode ser efetivamente realizado em máquinas artificiais menos complexas, permitindo que a mensagem correspondente à função de um transdutor seja utilizada para reconstruir uma realização física operacionalmente equivalente.
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Uma mesma imagem funcional pode corresponder a numerosas realizações materiais diferentes.
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A mensagem não precisa especificar necessariamente a forma física original para conservar a função da máquina.
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Entre as possíveis realizações equivalentes pode ser escolhida uma estrutura mecânica particularmente adequada à reconstrução.
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A reprodução consiste então em converter novamente a mensagem operacional em um transdutor material capaz de executar as mesmas funções.
21. A descrição rigorosa da estrutura operacional escolhida para a máquina reproduzível exige formulação matemática, mas a necessidade de tornar a exposição acessível impõe substituir parcialmente a precisão formal por uma paráfrase conceitual capaz de conservar, tanto quanto possível, o conteúdo essencial da demonstração.
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Uma formulação puramente matemática impediria a compreensão do leitor não especializado.
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A simples omissão da fundamentação técnica reduziria as conclusões a afirmações aparentemente gratuitas.
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A demonstração matemática completa já pertence ao tratamento destinado aos especialistas.
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A exposição acessível precisa ocupar uma posição intermediária entre o rigor formal integral e uma apresentação meramente vaga.
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A paráfrase procura preservar conceitualmente a estrutura matemática que constitui o fundamento efetivo da argumentação.
22. A exposição subsequente apresenta inevitavelmente considerável dificuldade técnica e destina-se sobretudo a quem esteja disposto a acompanhar essa complexidade em razão de interesse suficientemente intenso pelo problema.
