Causalidade
CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.
1. O sigilo imposto ao trabalho de guerra de Norbert Wiener impedia a divulgação de suas novas concepções sobre comunicação, levando-o a procurar vias alternativas para compartilhá-las com outros pesquisadores.
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Apenas cinco meses depois da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, essas ideias começaram discretamente a penetrar nos círculos científicos estabelecidos.
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A nova perspectiva rapidamente despertaria a atenção de alguns dos cientistas e pensadores mais inovadores dos Estados Unidos.
2. A difusão inicial dessas ideias marcou o começo de uma revolução científica do pós-guerra destinada a transformar profundamente a vida intelectual e as sociedades, embora Wiener ainda estivesse distante dos acontecimentos e impedido de reivindicar publicamente sua autoria.
3. As primeiras manifestações públicas da nova concepção surgiram em 13 de maio de 1942, numa conferência interdisciplinar promovida pela Fundação Josiah Macy Jr. no Hotel Beekman, em Nova York.
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A Fundação Macy financiava encontros destinados a promover uma nova cultura científica interdisciplinar.
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A reunião congregava psicólogos, fisiologistas e cientistas sociais para discutir problemas situados na fronteira entre psicologia e ciência do cérebro.
4. Entre os cerca de vinte e quatro participantes encontravam-se figuras destacadas da neurofisiologia, psicanálise e antropologia, enquanto Wiener permanecia em Cambridge trabalhando em seu protótipo de diretor de tiro antiaéreo.
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Warren McCulloch era uma das principais autoridades mundiais sobre a organização e o funcionamento do cérebro.
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Rafael Lorente de Nó representava outra importante vertente da neurofisiologia.
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Lawrence Kubie combinava formação neurológica e prática psicanalítica.
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Gregory Bateson e Margaret Mead já possuíam reputação internacional por seus estudos antropológicos de culturas das ilhas do Pacífico.
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Arturo Rosenblueth compareceu como representante intelectual da colaboração desenvolvida com Wiener.
5. Rosenblueth desviou imediatamente o encontro de seu curso previsto ao apresentar, sem revelar informações militares confidenciais, os fundamentos da ciência da comunicação que Wiener começava a formular.
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Expôs conceitos de mensagem e feedback derivados do trabalho de Wiener, Julian Bigelow e dele próprio.
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Destacou semelhanças inesperadas entre dispositivos eletrônicos, máquinas automáticas e sistemas nervosos humanos.
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As pesquisas sobre interação entre homens e máquinas já permitiam formular novas interpretações do comportamento humano e das respostas fisiológicas.
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As ideias apresentadas provinham em parte do manuscrito confidencial que Wiener preparara sobre seu sistema de controle antiaéreo.
6. Rosenblueth apresentou então a ideia radical de que os problemas de comunicação e controle automático revelavam uma classe de processos ordenados que não obedeciam exclusivamente à causalidade linear tradicional.
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A relação convencional entre causa e efeito era substituída, nesses processos, por uma lógica denominada “causalidade circular”.
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Essa concepção derivava dos circuitos de feedback utilizados por Wiener e Bigelow para prever posições futuras de aeronaves em movimento.
7. A causalidade circular permitia compreender máquinas e organismos como sistemas capazes de comportamento orientado por finalidade, constituindo uma primeira formulação científica da lógica de feedback subjacente às formas de comportamento inteligente.
8. A introdução científica da finalidade contrariava frontalmente importantes ortodoxias intelectuais do século XX, para as quais nenhum resultado futuro poderia governar causalmente uma ação precedente.
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A ciência dominante excluíra a finalidade tanto da explicação de objetos inanimados quanto da descrição dos seres vivos.
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O reducionismo associado a Russell, Whitehead, Wittgenstein, ao Círculo de Viena e ao behaviorismo norte-americano procurava limitar a ciência ao que pudesse ser sensorialmente detectado, matematicamente descrito e experimentalmente verificado.
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Essa orientação chegara a excluir o próprio conceito de “mente”, juntamente com emoções, intenções, propósitos e outros estados internos subjetivos.
9. As experiências realizadas por Wiener e seus colaboradores indicavam, entretanto, que numerosos organismos e dispositivos mecânicos efetivamente realizavam ações orientadas para objetivos mediante processos circulares.
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Torpedos dotados de mecanismos de busca seguiam navios ou submarinos por sinais magnéticos ou acústicos.
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Plantas e organismos simples orientavam movimentos em direção à luz ou ao calor.
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Processos homeostáticos regulavam funções como fome e temperatura corporal.
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Formas superiores de comportamento animal também revelavam ações orientadas para a consecução de metas.
10. Essas atividades dirigidas a objetivos dependiam de processos circulares de comunicação regulados por feedback negativo, isto é, por informações continuamente devolvidas ao sistema para indicar desvios e orientar correções.
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O feedback informava ao sistema sua distância em relação à meta e as modificações necessárias para alcançá-la.
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Essa concepção oferecia novas possibilidades teóricas e experimentais para biologia, neurociência e outras disciplinas.
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Os métodos estatísticos e comunicacionais de Wiener forneciam fundamentos matemáticos para estudar processos vivos complexos e meios técnicos para reproduzi-los em modelos experimentais.
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Rosenblueth propôs que os participantes organizassem um programa de pesquisa baseado nesses princípios.
11. A apresentação de Rosenblueth tornou-se o centro da conferência Macy por oferecer novas bases às controvérsias sobre finalidade, feedback e funcionamento cerebral.
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Psicólogos críticos do behaviorismo encontraram nela uma fundamentação para a importância do comportamento orientado por objetivos.
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Neurocientistas reconheceram afinidades entre a causalidade circular e circuitos neurais já observados experimentalmente.
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Lawrence Kubie havia proposto anteriormente a existência de ondas circulares de atividade elétrica nas redes neuronais.
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Rafael Lorente de Nó confirmara experimentalmente a existência dessas redes neurais circulares.
12. Warren McCulloch percebeu imediatamente a relevância das novas concepções de comunicação para suas próprias pesquisas sobre a base lógica das funções cerebrais.
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Seus estudos procuravam explicar como capacidades superiores da mente poderiam emergir da atividade elétrica incessante do cérebro.
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Técnicas elétricas já lhe permitiam investigar experimentalmente a fisiologia e as funções neurais.
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O desenvolvimento da computação eletrônica sugeria paralelos entre processos computacionais e neurológicos.
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A perspectiva apresentada por Rosenblueth oferecia a possibilidade de pesquisas interdisciplinares capazes de renovar antigas questões sobre cérebro e mente.
13. Gregory Bateson identificou na ciência da comunicação uma fundamentação teórica e metodológica particularmente promissora para a antropologia e para as ciências sociais.
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A precisão lógica e matemática desses processos poderia fornecer instrumentos para analisar a complexa rede de relações humanas responsável pela organização de indivíduos e sociedades.
14. Margaret Mead ficou tão profundamente impressionada com a exposição que somente após o término da conferência percebeu ter quebrado um dos dentes.
15. Os primeiros adeptos da causalidade circular convergiram para um projeto científico destinado a recuperar e explicar os atributos fundamentais da humanidade contra as tendências reducionistas dominantes.
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Procurava-se compreender os fundamentos da inteligência humana em suas manifestações internas e externas.
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Essas capacidades deveriam ser explicadas simultaneamente em termos lógicos, neurológicos, teóricos e experimentais.
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Formava-se assim a vanguarda intelectual que posteriormente seria conhecida como “grupo da cibernética”.
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Wiener logo ocuparia posição central nesse movimento, embora sua consolidação tivesse de aguardar o fim da guerra.
16. No início de 1943, Wiener, Rosenblueth e Bigelow tornaram públicas as primeiras formulações da nova ciência no artigo “Comportamento, finalidade e teleologia”, publicado na revista Philosophy of Science.
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O artigo abandonava os detalhes matemáticos e militares do projeto antiaéreo em favor de uma formulação filosófica geral.
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Máquinas automáticas, computadores eletrônicos e sistemas nervosos vivos poderiam ser estudados segundo uma perspectiva comum fundada na ciência da comunicação.
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Máquinas inteligentes, seres humanos e organismos vivos realizariam, em diferentes graus, processos de comunicação e controle.
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O alcance de objetivos dependeria de ações finalísticas reguladas por feedback negativo e causalidade circular.
17. O artigo constituiu o primeiro manifesto da revolução comunicacional ao propor um sistema alternativo para compreender processos de comunicação e controle orientados por finalidade.
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A recuperação do conceito de teleologia era ainda mais radical que a recuperação científica da finalidade.
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A teleologia remetia à tradição grega assimilada por Wiener desde a infância.
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Em Aristóteles, além das causas físicas encontra-se a causa final, ou telos, correspondente ao fim para o qual algo existe ou atua.
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Nessa perspectiva, o fim possui primazia explicativa porque constitui o objetivo e a realização para os quais a ação se orienta.
18. A teleologia, relegada durante séculos ao domínio teológico, era recuperada por Wiener e seus colaboradores como componente legítimo de uma ciência dos organismos e das máquinas comunicantes.
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Finalidade e teleologia deveriam novamente ocupar lugar científico apesar de seu descrédito contemporâneo.
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A nova interpretação rejeitava os limites impostos pela concepção convencional de causalidade.
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Processos comunicacionais finalísticos poderiam esclarecer o comportamento humano e dos demais seres vivos.
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Os mesmos princípios poderiam orientar a construção de máquinas inteligentes, computadores, robôs e dispositivos automáticos capazes de formas elementares de aprendizagem e memória.
19. O manifesto confrontava as ortodoxias científicas ao oferecer uma explicação racional do comportamento intencional e inteligente sem recorrer à metafísica ou à intervenção divina, além de propor um programa sistemático de aplicação desses princípios à ciência e à tecnologia.
20. Wiener entusiasmou-se com essas possibilidades, entusiasmo que rapidamente se difundiria entre muitos outros pesquisadores.
21. Em Chicago, Warren McCulloch tornou-se um importante agente da nova orientação científica, trazendo para ela uma trajetória que partira da formação religiosa e passara progressivamente pela filosofia e pela investigação científica.
22. Desde a juventude, McCulloch buscava compreender a relação entre entidades matemáticas e a mente humana capaz de conhecê-las.
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Durante a pós-graduação em psicologia, concluiu que o caminho mais seguro para essa estrutura lógica passava pelo estudo sistemático do cérebro e do sistema nervoso.
23. A partir de sua formação médica em 1927, McCulloch passou a investigar os bilhões de neurônios e suas conexões sinápticas, supondo que a organização cortical pudesse materializar relações formais semelhantes às descritas pela lógica matemática.
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A confirmação dessa hipótese permitiria explicar biologicamente inferências e cálculos humanos.
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Poderia também esclarecer de que maneira ideias se formam, circulam e são transformadas no cérebro.
24. Na década seguinte, McCulloch produziu um dos primeiros mapas detalhados da anatomia funcional do córtex e encontrou evidências de que redes neurais operavam segundo padrões compatíveis com regras da lógica simbólica.
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Os neurônios funcionavam segundo o princípio de tudo ou nada, disparando quando a soma dos sinais recebidos atingia determinado limiar.
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O disparo ou não disparo podia ser interpretado analogamente aos valores lógico-matemáticos verdadeiro e falso.
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Redes conectadas realizavam sequências complexas de somas eletroquímicas comparáveis às proposições sucessivas de um argumento lógico.
25. A hipótese de McCulloch representava o cérebro como uma máquina elétrica capaz de executar operações de lógica matemática, mas suas pesquisas revelaram também estruturas aparentemente incompatíveis com essa racionalidade linear.
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O modelo parecia explicar inferência, dedução, cálculo, percepção, linguagem, aprendizagem e memória.
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Entretanto, numerosas redes cerebrais possuíam conexões circulares nas quais a atividade poderia retornar continuamente ao ponto de origem.
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Esses circuitos pareciam produzir argumentos neurológicos circulares e contraditórios.
26. As “redes com círculos” constituíam um paradoxo insolúvel para McCulloch até que as concepções de feedback e causalidade circular apresentadas por Rosenblueth na conferência Macy sugeriram uma possível chave explicativa.
27. Instalado em Chicago desde 1941 como diretor do novo laboratório de pesquisa do Instituto Neuropsiquiátrico da Universidade de Illinois, McCulloch reunira uma equipe de quase trinta pesquisadores de destaque, mas nenhum conseguira solucionar o problema das redes neurais circulares.
28. A solução começou a surgir quando McCulloch encontrou um jovem matemático excepcionalmente talentoso.
29. Walter Pitts era um prodígio matemático extremamente tímido e socialmente desajeitado, nascido numa família operária de Detroit em 1923 e marcado por uma juventude ainda mais difícil que a de Wiener, tendo fugido de casa aos treze anos e chegado posteriormente a Chicago.
30. A trajetória de Pitts tornou-se conhecida sobretudo pelo relato de Jerome Lettvin, que desempenhou papel decisivo em aproximá-lo de McCulloch.
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Segundo Lettvin, Pitts sofria violência paterna e acabou vivendo nas ruas.
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Refugiado numa biblioteca para escapar de agressores, teria encontrado o Principia Mathematica e estudado integralmente seus três volumes.
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Aos treze anos escreveu uma crítica detalhada de uma seção da obra e a enviou a Bertrand Russell.
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Impressionado, Russell respondeu convidando-o para estudos de pós-graduação em Cambridge, apesar da idade extraordinariamente baixa do jovem.
31. Pitts não tinha condições de aceitar o convite de Russell, mas, dois anos depois, encontrou-o numa palestra sobre lógica matemática na Universidade de Chicago e foi encaminhado para estudar com Rudolf Carnap.
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Carnap, principal representante do positivismo lógico do Círculo de Viena, havia se transferido recentemente para os Estados Unidos.
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Sem sequer possuir diploma secundário, Pitts passou a frequentar informalmente a Universidade de Chicago.
32. A formação universitária irregular de Pitts combinava extrema pobreza, autodidatismo e reconhecimento precoce de sua capacidade excepcional.
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Frequentava aulas sem matrícula formal e vivia num quarto muito modesto, recebendo posteriormente pequena ajuda financeira da universidade.
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Apresentou-se a Carnap com anotações críticas sobre um de seus livros de lógica e imediatamente despertou seu interesse.
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Dominou rapidamente a notação simbólica de Carnap.
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Posteriormente aproximou-se da biofísica matemática de Nicolas Rashevsky, que pretendia reconstruir a biologia sobre fundamentos físico-matemáticos e instrumentos de lógica formal.
33. Embora fisicamente discreto, Pitts já havia assimilado até 1941 vastas parcelas das bibliotecas e do currículo universitário, combinando extraordinária capacidade intelectual com um humor travesso que às vezes transformava deliberadamente seu talento em espetáculo.
34. Jerome Lettvin apresentou Pitts a McCulloch justamente quando este buscava construir um modelo lógico do cérebro, dando início a uma colaboração intelectual e pessoal extraordinariamente intensa.
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McCulloch reconheceu imediatamente a genialidade do jovem e incorporou-o ao projeto das redes neurais.
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Pitts e Lettvin passaram a morar na casa da família McCulloch no início de 1942.
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Durante as noites, McCulloch e Pitts analisavam o fluxo de sinais pelas ramificações neurais.
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Em poucas semanas começaram a formular uma explicação lógico-matemática de como o cérebro poderia funcionar como mecanismo dos processos mentais.
35. O artigo conjunto “Um cálculo lógico das ideias imanentes na atividade nervosa”, publicado em 1943, sustentou que atividades consideradas mentais podiam ser rigorosamente deduzidas da neurofisiologia conhecida.
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Experiências sensoriais simples poderiam ser logicamente computadas no cérebro a partir de sinais provenientes dos receptores.
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McCulloch e Pitts desenharam o primeiro modelo esquemático de uma rede lógica de neurônios.
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Toda ideia e sensação poderia corresponder a alguma atividade nessa rede.
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Aprendizagem e memória poderiam ser tratadas como processos computacionais capazes de produzir novas conexões sinápticas.
36. McCulloch e Pitts solucionaram também o paradoxo das redes neurais circulares mediante a aplicação da causalidade circular.
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Redes com circuitos fechados poderiam sustentar ciclos autorreprodutores de atividade elétrica.
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Essa atividade reverberante poderia persistir indefinidamente no circuito.
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A persistência elétrica fornecia um mecanismo possível para a memória.
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Os mesmos circuitos poderiam permitir ao cérebro prever estados futuros com base em atividades presentes.
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O modelo oferecia assim uma explicação para sistemas biológicos dotados de comportamento finalístico.
37. O modelo neuronal estabelecia ainda uma conexão fundamental com a concepção de computador universal de Alan Turing.
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A atividade computacional imanente às redes cerebrais parecia capaz de realizar qualquer consequência lógica de suas entradas.
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O cérebro descrito por McCulloch e Pitts aproximava-se, portanto, de uma máquina universal capaz de computar qualquer número computável.
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Essa equivalência fortalecia o projeto de Wiener de uma ciência unificada da comunicação aplicável tanto a cérebros quanto a máquinas.
38. Apesar de sua importância conceitual, o trabalho de McCulloch e Pitts foi praticamente ignorado pelos principais neurocientistas, psicólogos e filósofos contemporâneos.
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A complexidade da notação lógica dificultou sua recepção nas disciplinas diretamente voltadas ao cérebro e à mente.
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Em contraste, matemáticos e engenheiros envolvidos na teoria e construção de computadores eletrônicos reconheceram rapidamente suas implicações.
39. Posteriormente, o artigo seria considerado uma contribuição decisiva à evolução da computação digital, um trabalho fundador da inteligência artificial e um estímulo fundamental à construção do primeiro “cérebro eletrônico”, projeto no qual Wiener também exerceria influência decisiva.
40. Em 1943, McCulloch já conhecia Wiener e suas pesquisas, pois os dois haviam se encontrado anteriormente num jantar organizado por Rosenblueth e discutido imediatamente questões relacionadas às redes neurais.
41. McCulloch considerava Wiener uma figura quase mítica e ficou impressionado com sua precisão intelectual, seu domínio da neurofisiologia e sua capacidade de relacionar computação e funcionamento cerebral.
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Wiener, por sua vez, mostrou-se receptivo à concepção inicial de McCulloch segundo a qual o cérebro poderia ser interpretado, numa primeira aproximação, como um computador digital.
42. A colaboração entre Cambridge e Chicago consolidou-se rapidamente depois da publicação dos respectivos artigos de 1943, sendo Walter Pitts o elemento decisivo de aproximação.
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Durante um estágio médico em Boston, Lettvin visitou Wiener no MIT e ouviu-o lamentar a falta de doutorandos talentosos.
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Lettvin descreveu Pitts como um gênio autodidata que dominava matemática e aprendera sozinho sânscrito, latim e grego.
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Relatou suas interações com Russell, Carnap e Rashevsky e sua colaboração com McCulloch antes dos vinte anos.
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Wiener inicialmente considerou improvável a existência de alguém com tais características.
43. Lettvin telefonou naquela mesma noite para Chicago e, com a ajuda de McCulloch, providenciou uma passagem de trem para que Pitts viajasse a Boston e encontrasse Wiener pessoalmente.
44. O primeiro encontro intelectual entre Wiener e Pitts demonstrou imediatamente a excepcional capacidade analítica do jovem.
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Wiener começou a apresentar no quadro uma demonstração do teorema ergódico.
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Pitts interrompeu repetidamente a exposição para apontar dificuldades e pressupostos questionáveis.
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Wiener respondeu a cada objeção e, ao final da extensa discussão, reconheceu tacitamente que Pitts possuía capacidade suficiente para permanecer em seu círculo científico.
45. Wiener percebeu em Pitts um colaborador cuja capacidade analítica podia aproximar-se da sua própria e decidiu ajudá-lo a transformar-se num matemático de primeira grandeza.
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Convidou-o para trabalhar sob sua orientação no MIT.
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Comprometeu-se a conduzi-lo a um doutorado em matemática apesar da ausência de qualquer diploma escolar ou matrícula universitária anterior.
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McCulloch apoiou a transferência, ainda que brincasse com Wiener por estar lhe “roubando” seu colaborador informal.
46. No outono de 1943, Pitts estabeleceu-se em Cambridge e matriculou-se no MIT como estudante especial sob orientação de Wiener.
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Wiener organizou um programa destinado a preencher as lacunas de sua formação.
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Pitts passou a estudar teoria dos circuitos eletrônicos e matemática da engenharia de comunicações.
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Simultaneamente, Wiener intensificou a troca intelectual com McCulloch.
47. Wiener, Pitts e McCulloch começaram a circular regularmente entre Cambridge e Chicago, e a posterior transferência de Rosenblueth para a Cidade do México ampliou a colaboração para uma rede científica internacional.
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Rosenblueth assumiu a direção do laboratório de fisiologia do novo Instituto Nacional de Cardiologia.
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O antigo projeto de Wiener e Rosenblueth de criar um instituto interdisciplinar em Cambridge transformou-se numa estrutura mais móvel e informal.
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Visitas de trabalho, períodos sabáticos, projetos conjuntos e comunicações frequentes integravam cientistas situados em diferentes cidades e países.
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O MIT continuava funcionando como principal centro irradiador dessa rede.
48. Outros jovens pesquisadores incorporaram-se ao grupo, ampliando ainda mais sua diversidade disciplinar.
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Lettvin concluiu sua formação em psiquiatria e tornou-se pesquisador do cérebro.
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Oliver Selfridge, jovem engenheiro inglês e neto do fundador da loja de departamentos Selfridges, passou a colaborar com Wiener e Rosenblueth.
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Ainda graduando no MIT, Selfridge participou de projetos importantes tanto em Cambridge quanto no México.
49. A rede de pesquisa caracterizava-se por diversidade de talentos, intensa mobilidade e forte convivência pessoal, mas Pitts despertava admiração especial em Wiener.
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Numa recomendação para uma bolsa Guggenheim, Wiener o classificou como o jovem cientista mais poderoso que jamais conhecera.
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Previu que Pitts poderia tornar-se um dos dois ou três cientistas mais importantes de sua geração em escala mundial.
50. Wiener incorporou Pitts, Lettvin e Selfridge à própria vida familiar, estabelecendo com os jovens uma relação simultaneamente científica e afetiva.
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Pitts ocupava simbolicamente o lugar do filho que Wiener nunca tivera.
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Lettvin parecia uma versão mais jovem e vigorosa do próprio Wiener.
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Selfridge possuía a autoconfiança e o espírito aventureiro que Wiener admirava e ao mesmo tempo censurava nos jovens ingleses.
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Os três frequentavam regularmente a casa dos Wiener em Belmont e conviviam com Margaret e as filhas do casal.
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A intimidade familiar incluía até pequenas brincadeiras com o rígido vegetarianismo de Wiener.
51. Durante a guerra, Pitts mudou-se para Nova York para realizar trabalho matemático numa empresa petroquímica envolvida no processamento de material radioativo destinado à bomba atômica, enquanto Lettvin treinava no Hospital Bellevue para eventual serviço militar no exterior.
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Os dois dividiam um apartamento e recebiam visitas de Wiener durante suas viagens oficiais à cidade.
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A convivência era agradável, embora os episódios de apneia e ronco de Wiener tornassem as noites particularmente difíceis para os jovens companheiros.
52. Wiener compartilhava também atividades recreativas com os jovens colaboradores e com a própria família, demonstrando em ocasiões inesperadas habilidades físicas incompatíveis com sua fama de desajeitado.
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Numa feira rural em Nova Hampshire, conseguia repetidamente tocar o sino de uma máquina de força com um martelo.
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Lettvin, apesar de ser mais jovem, maior e mais forte, não conseguia repetir a façanha.
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O desempenho de Wiener dependia menos da força que de uma habilidade específica adquirida para executar o movimento.
53. As expectativas de Wiener em relação à expansão de seu círculo interdisciplinar cresceram ainda mais quando outro dos maiores matemáticos de sua geração se aproximou do empreendimento.
54. John von Neumann acompanhava em Princeton com especial interesse as ideias de Wiener sobre comunicação, controle e computação.
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Judeu húngaro emigrado para os Estados Unidos, von Neumann também fora um prodígio infantil, embora sua formação social e temperamento diferissem profundamente dos de Wiener.
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Tornara-se figura destacada em Göttingen no final da década de 1920.
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Em poucos anos estabelecera grande parte da estrutura matemática da teoria quântica.
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Paralelamente, desenvolvera uma nova teoria matemática dos jogos destinada a adquirir enorme importância.
55. Von Neumann destacava-se no Instituto de Estudos Avançados de Princeton tanto pela capacidade intelectual quanto pela sociabilidade e elegância, contrariando os estereótipos do prodígio fracassado e do professor distraído.
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Seus colegas descreviam seu cérebro como um instrumento praticamente perfeito.
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Vestia-se de maneira conservadora e formal, em contraste com figuras como Einstein.
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Sua fluência no inglês e seu charme húngaro reforçavam uma presença social particularmente segura.
56. Apesar das profundas diferenças pessoais, Wiener e von Neumann possuíam afinidades matemáticas que os levaram a uma troca intelectual cada vez mais intensa.
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Compartilhavam artigos e mantinham longas conversas sobre questões matemáticas.
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As famílias passaram a visitar-se mutuamente em Princeton e Cambridge.
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A convivência consolidou um diálogo destinado a transformar tanto a prática da matemática quanto as máquinas utilizadas para realizá-la.
57. O avanço progressivo da computação mecanizada despertava interesse crescente entre matemáticos, especialmente em torno da concepção de máquina universal desenvolvida por Alan Turing.
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Turing encontrava-se em Princeton concluindo seu doutorado no Instituto de Estudos Avançados.
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Von Neumann ficou profundamente interessado na máquina universal hipotética.
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Chegou a convidar Turing para permanecer como seu assistente, mas o matemático britânico preferiu regressar à Inglaterra.
58. À medida que a guerra se aproximava dos Estados Unidos, projetos concretos começaram a transformar a máquina universal abstrata em diferentes formas de computador.
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George Stibitz construía nos Laboratórios Bell um calculador binário baseado em relés telefônicos.
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John V. Atanasoff apresentou em 1939 o computador ABC, primeiro dispositivo eletrônico de cálculo baseado em válvulas.
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Também em 1939, a IBM iniciou sob Howard Aiken o projeto do Mark I.
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O Mark I executava automaticamente sequências de instruções lógicas registradas em fita de papel, aproximando-se operacionalmente da concepção de Turing.
59. Wiener acompanhava atentamente esses desenvolvimentos enquanto ele próprio permanecia envolvido na pesquisa de guerra e von Neumann penetrava cada vez mais profundamente no sistema científico-militar.
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Em 1940, Wiener propusera a Vannevar Bush um computador digital inteiramente eletrônico com programa lógico incorporado, mas o projeto fora arquivado.
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Apesar disso, tornou-se principal consultor em computação de um comitê conjunto das associações matemáticas norte-americanas.
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Von Neumann assessorava o Exército e a Marinha em problemas balísticos.
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Em 1943 ingressou no Projeto Manhattan como principal matemático e demonstrou a viabilidade do método de implosão empregado na segunda bomba atômica.
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Uma viagem à Inglaterra reacendeu seu interesse pelas tentativas de Turing de converter conceitos abstratos de computação em dispositivos capazes de decifrar códigos alemães.
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Naquele momento, von Neumann desenvolveu um interesse cada vez mais intenso pela computação mecanizada.
60. A crescente necessidade militar de cálculos tornou insuficientes as máquinas existentes e aproximou von Neumann do projeto do computador eletrônico ENIAC.
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O enorme computador analógico de Vannevar Bush já não conseguia acompanhar a produção das tabelas de tiro exigidas pelo novo armamento.
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O ENIAC estava sendo construído na Universidade da Pensilvânia por uma equipe liderada por John Mauchly e J. Presper Eckert.
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Von Neumann tomou conhecimento do projeto enquanto trabalhava nos cálculos da bomba de implosão.
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A necessidade de instrumentos mais rápidos para o Projeto Manhattan tornou o ENIAC particularmente atraente.
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Em agosto de 1944, tornou-se consultor da equipe e começou simultaneamente a pensar em aperfeiçoamentos destinados à máquina seguinte.
61. Poucos meses depois surgiu uma orientação distinta para a computação eletrônica, ligada a uma reunião em Princeton destinada a aproximar computadores e funcionamento cerebral, iniciativa originalmente impulsionada por Wiener e orientada por seus princípios científicos.
62. Em dezembro de 1944, Wiener reuniu matemáticos, engenheiros de computação e importantes neurofisiologistas para preparar uma conferência interdisciplinar em Princeton.
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Wiener, von Neumann e Howard Aiken assinaram conjuntamente o convite.
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O encontro deveria favorecer a troca de pesquisas sobre computadores e estabelecer fundamentos para um empreendimento científico mais amplo no pós-guerra.
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Comunicação, máquinas de computação, dispositivos de controle e funcionamento do sistema nervoso eram tratados como domínios cujas relações já haviam se tornado suficientemente estreitas para exigir uma investigação comum.
63. As circunstâncias da guerra impediam que o encontro fosse plenamente aberto, de modo que se pretendia reunir um grupo pequeno para discutir problemas compartilhados e preparar o desenvolvimento futuro de um campo científico que ainda nem sequer possuía nome.
64. Os organizadores convidaram apenas sete participantes e propuseram que a futura organização se chamasse “Sociedade Teleológica”, adotando a finalidade como princípio unificador de sua agenda.
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McCulloch, Lorente de Nó e Pitts figuravam entre os convidados, juntamente com destacados matemáticos e estatísticos.
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O objetivo era estudar, de um lado, como a finalidade se realiza no comportamento humano e animal e, de outro, como poderia ser imitada por mecanismos elétricos e mecânicos.
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A agenda incluía a escolha de um nome para a nova ciência.
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Pretendia-se planejar uma revista e um centro de pesquisa.
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Deveriam ser discutidas políticas relativas a patentes e invenções.
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Também seriam consideradas formas de divulgar as ideias ao meio científico sem submetê-las a publicidade sensacionalista.
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O grupo buscaria ainda formas adequadas de apoio institucional.
65. Wiener, Aiken e aparentemente von Neumann concordavam inicialmente que a nova organização não deveria depender financeiramente das grandes corporações de comunicação, eletrônica ou máquinas comerciais.
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A experiência de Wiener com a American Telephone and Telegraph havia demonstrado como interesses empresariais poderiam bloquear inovações concorrentes.
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A venda das patentes de Wiener e Yuk Wing Lee permitira que a companhia impedisse o desenvolvimento de seu dispositivo de filtragem.
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Essa experiência fortaleceu em Wiener a rejeição do controle privado e do segredo científico.
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Consolidava-se o princípio ético de que o conhecimento científico deveria servir ao interesse público e ao melhoramento da humanidade, e não a interesses particulares.
66. Howard Aiken compartilhava a desconfiança de Wiener em razão das próprias dificuldades com a IBM, e Wiener acreditava que von Neumann possuía posição semelhante.
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Os organizadores pretendiam excluir IBM, RCA e Laboratórios Bell da reunião.
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Temia-se que essas empresas, percebendo as enormes consequências econômicas das máquinas de computação e controle, investissem imediatamente na área motivadas sobretudo pelo lucro.
67. Wiener reafirmava simultaneamente o objetivo de criar depois da guerra um centro de pesquisa no MIT para desenvolver a nova ciência.
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O centro deveria funcionar cooperativamente e organizar conferências frequentes com representantes de outras universidades.
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O entusiasmo de Wiener com a perspectiva era tão intenso que sua disposição foi descrita como a de alguém situado no ponto mais alto de uma onda favorável.
68. A pequena Sociedade Teleológica reuniu-se no Instituto de Estudos Avançados de Princeton em 6 e 7 de janeiro de 1945, com a presença da maior parte das figuras que liderariam posteriormente a revolução da comunicação, excetuando-se Rosenblueth e Aiken.
69. O encontro caracterizou-se por intenso entusiasmo interdisciplinar e por debates que aproximaram computação, comunicação e neurofisiologia.
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Von Neumann apresentou o estado do desenvolvimento dos computadores.
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Wiener expôs seus trabalhos em engenharia de comunicações.
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McCulloch e Lorente de Nó discutiram a organização do cérebro e suas possíveis relações com as novas tecnologias.
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Um problema hipotético de duas “caixas-pretas” inimigas, com entradas e saídas conhecidas mas funções desconhecidas, serviu para discutir métodos de identificação de sistemas.
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Wiener sugeriu utilizar ruído branco como estímulo para inferir o funcionamento interno das caixas.
70. Von Neumann contestou a adequação universal do ruído branco ao problema da caixa-preta, dando origem a uma vigorosa disputa intelectual com Wiener.
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A diferença decorria da percepção de que os estímulos empregados para investigar homens ou máquinas precisariam corresponder às características de seus filtros de entrada.
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O confronto permaneceu intelectual e cordial, terminando com os dois matemáticos seguindo juntos para o almoço.
71. Wiener ficou profundamente satisfeito com a dinâmica alcançada no encontro e posteriormente a recordaria como confirmação de sua expectativa interdisciplinar.
72. Em pouco tempo, pesquisadores oriundos de campos distintos começaram a utilizar uma linguagem conceitual comum.
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Engenharia de comunicações, servomecanismos, máquinas de computação e neurofisiologia compartilhavam progressivamente o mesmo vocabulário.
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O armazenamento de informação aparecia como problema comum.
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O conceito de feedback mostrava-se aplicável tanto aos fenômenos dos organismos vivos quanto aos das máquinas.
73. Wiener classificou a reunião de Princeton como um grande sucesso e passou a considerar viável um programa contínuo de pesquisa acompanhado da criação de um instituto para a nova ciência.
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O centro poderia localizar-se no MIT ou em outra instituição.
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Von Neumann também demonstrou satisfação e ofereceu-se para integrar grupos de trabalho sobre computadores.
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Nesse momento, parecia plenamente integrado ao empreendimento científico de Wiener.
74. Durante o inverno e a primavera de 1945, Wiener e von Neumann mantiveram contato intenso, mas começaram a aparecer diferenças sutis em seus projetos.
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Wiener enviou propostas para o centro de pesquisa no MIT e recebeu resposta favorável, embora von Neumann sugerisse maior abertura para iniciativas em diferentes direções.
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Wiener considerava que a Sociedade Teleológica poderia integrar-se perfeitamente aos projetos de matemática aplicada concebidos por von Neumann.
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O Instituto de Estudos Avançados privilegiava física teórica e matemática pura e não favorecia projetos de engenharia aplicada.
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O MIT, em contraste, desenvolvera durante a guerra enorme infraestrutura dedicada à pesquisa tecnológica.
75. Wiener tentou então convencer von Neumann a abandonar Princeton e transferir-se para o MIT.
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Após negociações com a administração do instituto, recebeu autorização para oferecer-lhe a direção do Departamento de Matemática.
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A proposta incluía um laboratório próprio, poucas obrigações administrativas e amplo apoio ao programa de pesquisa comum.
76. Wiener considerava a capacidade organizacional de von Neumann um complemento essencial às próprias limitações empresariais e administrativas.
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O prestígio, as conexões políticas, a inteligência e as habilidades sociais de von Neumann poderiam assegurar o sucesso do centro.
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Correspondências encorajadoras reforçavam a impressão de que ele aceitava participar ativamente.
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Von Neumann aconselhava a mobilização sistemática de todos os possíveis apoiadores institucionais.
77. Von Neumann, entretanto, desenvolvia paralelamente projetos próprios que não coincidiam com as expectativas de Wiener.
78. Em junho de 1945, o ENIAC aproximava-se de sua conclusão, embora a guerra europeia já tivesse terminado e os acontecimentos ligados à bomba atômica avançassem rapidamente.
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O teste final do primeiro artefato nuclear ocorreria em poucas semanas.
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Pouco depois, a arma seria empregada contra o Japão.
79. Em 30 de junho de 1945, von Neumann apresentou o projeto do EDVAC, estabelecendo princípios arquitetônicos destinados a dominar a computação digital durante décadas.
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O “Primeiro esboço de um relatório sobre o EDVAC” circulou inicialmente nos canais militares confidenciais.
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A máquina possuiria organização lógica mais eficiente, unidade centralizada de cálculo e capacidade de armazenar internamente o programa.
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Essa estrutura passaria a ser conhecida como “arquitetura de von Neumann”.
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Seus princípios básicos permaneceriam presentes em praticamente todos os computadores digitais no final do século XX.
80. O EDVAC foi concebido como máquina menor, mais flexível e verdadeiramente universal no sentido formulado por Turing.
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Seria um computador digital automático de uso geral capaz de executar qualquer sequência de operações devidamente especificada.
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As instruções precisariam ser fornecidas à máquina de maneira completa e rigorosa.
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Von Neumann descrevia o computador por analogia orgânica, distinguindo um órgão aritmético central, um órgão lógico de controle, memória e órgãos especializados de entrada e saída.
81. O único trabalho publicado citado no relatório de von Neumann era o artigo de McCulloch e Pitts de 1943, cuja concepção das redes neurais fornecia um modelo decisivo para a arquitetura computacional.
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A estrutura lógica do cérebro indicava como unidades elementares poderiam ser programadas e conectadas.
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O caráter de tudo ou nada do disparo neuronal apoiava o emprego do sistema binário.
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Conjuntos de válvulas funcionariam analogamente a redes neuronais.
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Atrasos de transmissão poderiam reproduzir atrasos sinápticos.
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O órgão de controle lógico e a memória eram comparados a neurônios associativos.
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Os dispositivos de entrada e saída correspondiam funcionalmente aos neurônios sensoriais e motores.
82. A linguagem utilizada por von Neumann introduziu uma nova maneira de conceber máquinas, pois descrevia o computador digital como construção deliberadamente análoga à organização física e lógica do cérebro humano.
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A referência explícita era o modelo neuronal de McCulloch e Pitts.
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Entretanto, várias dessas analogias apresentavam também grande proximidade com as concepções neurais desenvolvidas por Wiener, Rosenblueth e Bigelow durante a guerra.
83. O projeto do EDVAC reunia numa única máquina quase todos os elementos que Wiener havia proposto a Vannevar Bush cinco anos antes.
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Operação digital.
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Componentes eletrônicos baseados em válvulas.
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Sistema binário de cálculo.
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Memória eletrônica gravável e apagável.
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Programa interno automático de comandos lógicos e instruções de cálculo.
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A diferença fundamental estava no armazenamento eletrônico do programa, solução ainda não imaginada nem tecnicamente realizável na proposta de Wiener de 1940.
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O projeto incorporava também mecanismos de correção de erro baseados em feedback negativo, semelhantes aos empregados no diretor de tiro antiaéreo de Wiener.
84. Embora Vannevar Bush jamais tivesse desenvolvido ou distribuído a proposta de Wiener, é provável que muitas de suas ideias tenham alcançado von Neumann por meio das reuniões e conversas entre ambos.
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Avaliações técnicas posteriores observaram que quase todos os elementos da máquina de von Neumann, exceto o programa armazenado, já apareciam no memorando de Wiener.
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A intensidade das trocas pessoais torna impossível determinar com precisão a influência recíproca.
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Caso o memorando tivesse circulado amplamente, a arquitetura posteriormente denominada de von Neumann poderia ter recebido uma atribuição histórica compartilhada ou mesmo associada prioritariamente a Wiener.
85. Durante o verão de 1945, Wiener continuou tentando atrair von Neumann para o MIT e acreditou repetidamente que sua aceitação era iminente.
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Ainda depois das bombas atômicas, Wiener dizia a Rosenblueth que von Neumann estava praticamente convencido.
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Wiener aparentemente desconhecia a extensão da participação secreta de von Neumann no projeto atômico e em estudos posteriores de uma bomba de hidrogênio.
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Também não conhecia necessariamente os detalhes confidenciais do projeto EDVAC.
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Enquanto Wiener aguardava sua resposta, von Neumann negociava silenciosamente condições mais vantajosas para permanecer no Instituto de Estudos Avançados.
86. Em novembro de 1945, von Neumann recusou formalmente a oferta do MIT e informou que o Instituto de Estudos Avançados lhe permitiria construir em Princeton seu próprio computador em colaboração com a RCA.
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A decisão contrariava a política de independência diante das grandes corporações que Wiener defendera no ano anterior.
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Apesar disso, von Neumann expressou o desejo de continuar colaborando com Wiener e convidou-o novamente a Princeton.
87. O projeto do computador de Princeton possuía objetivos militares secretos que von Neumann não revelou a Wiener.
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Publicamente, a máquina do Instituto de Estudos Avançados deveria tornar-se o primeiro computador de uso geral com programa armazenado construído em Princeton.
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Secretamente, von Neumann pretendia utilizá-la nos cálculos necessários ao desenvolvimento de uma nova geração de armas termonucleares.
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O projeto envolvia Exército, Marinha e posteriormente Força Aérea e Comissão de Energia Atômica.
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Para concretizá-lo, faltava ainda encontrar um engenheiro-chefe capaz de transformar a arquitetura abstrata numa máquina funcional.
88. Na visita seguinte de Wiener a Princeton, von Neumann recrutou Julian Bigelow para dirigir a implementação técnica do novo computador.
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Wiener recomendou pessoalmente o antigo colaborador.
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Bigelow tornou-se elemento decisivo para converter a arquitetura de von Neumann em equipamento operacional.
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Os componentes da máquina dependiam de sofisticados mecanismos de feedback capazes de fazer circular dados e comandos.
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Circuitos de correção de erros verificavam continuamente os resultados.
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A experiência adquirida por Bigelow no desenvolvimento de mecanismos de feedback tornava-o particularmente adequado à tarefa.
89. A busca agressiva de von Neumann por financiamento militar e governamental e sua associação com a RCA anteciparam uma concepção do desenvolvimento computacional cada vez mais distante da posição de interesse público defendida por Wiener.
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Von Neumann acabaria apoiando ampla participação do governo, das forças armadas e da indústria no desenvolvimento e na produção de computadores.
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Wiener reagiu às manobras e às próprias decepções não com confronto público, mas com silêncio, reproduzindo um padrão de retraimento ligado às inseguranças formadas desde a infância.
90. Nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, diferentes linhas de pesquisa começaram silenciosamente a convergir numa nova configuração da ciência e da tecnologia do pós-guerra.
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As ideias de feedback e causalidade circular avançaram da conferência Macy à Sociedade Teleológica e aos diversos projetos subsequentes.
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Conceitos originados no sistema antiaéreo de Wiener passaram à investigação do cérebro e do sistema nervoso.
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Desses estudos retornaram à tecnologia, incorporados aos circuitos de inspiração cerebral construídos por Bigelow para o computador de von Neumann.
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Alguns dos principais cientistas norte-americanos aderiram assim àquilo que McCulloch denominava uma “grande heresia”.
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O objetivo ultrapassava a construção técnica e consistia em romper os limites do reducionismo científico ocidental para compreender a inteligência humana mediante uma nova lógica da comunicação.
91. A revolução científica de Wiener tinha como finalidade fundamental uma investigação filosófica e científica sobre inteligência, mente e organização, e não simplesmente a construção de máquinas.
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O grupo já começara a esclarecer mecanismos relacionados às capacidades superiores de raciocínio e cálculo.
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A nova perspectiva estava destinada a atravessar as ciências físicas, biológicas e humanas e alcançar os próprios fundamentos da filosofia.
92. Antes mesmo do término da guerra, os fundamentos dessa nova visão científica já emergiam através das fissuras da antiga ordem, enquanto a colaboração interdisciplinar buscada por Wiener desde a juventude permitia que sua ciência ainda sem nome começasse a adquirir existência e dinâmica próprias.
