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Freud

CASSOU-NOGUÈS, Pierre. Les rêves cybernétiques de Norbert Wiener. Paris:Seuil, 2014

Visita ao doutor Freud

A fórmula

1. A cena em que Lorde Ewald leva consigo a mulher-máquina fabricada por Edison, garantindo este último possuir ainda a fórmula que a originou, oferece o modelo para compreender a persuasão de Wiener de que o ser humano estaria inteiramente representado num código transmissível, capaz de reconstituir o indivíduo em outro lugar, tempo ou meio, inclusive numa realidade virtual.

2. O sábio desaparecido, Lilienblum/Posner, vincula-se igualmente a uma fórmula rabiscada na toalha, através da qual seus colegas o reconhecem, demonstrando que a identidade do personagem está de certo modo contida nesse registro matemático.

3. Ainda que a fórmula de Lilienblum/Posner não funcione como um programa decifrável por máquina capaz de reconstituir o indivíduo, ela determina efetivamente, no plano da narrativa, a identidade do sábio desaparecido.

4. O ambiente confortável do café-restaurante, com sua Gemütlichkeit insistentemente nomeada, contrasta com o vazio quase inumano da fábrica automática visitada anteriormente, destacando-se apenas a mancha da fórmula sobre a toalha impecável.

5. A possibilidade de ler numa fórmula a individualidade do matemático que a criou constitui uma das hipóteses centrais que orientam o raciocínio do detetive, sugerindo que a ciência trai os sábios e revela sua identidade mesmo quando estes desejariam nela se esconder.

Um outro Norbert

6. A coincidência onomástica com Norbert Hanold, personagem da novela “Gradiva” de Jensen analisada por Freud, sugere paralelo entre a fascinação do arqueólogo pelo andar de um baixo-relevo antigo e a atenção do matemático por uma fórmula.

7. Hanold observa obsessivamente o modo peculiar como a figura do relevo apoia o calcanhar no chão, chegando a espreitar tornozelos femininos nas ruas, comportamento até então estranho a seu interesse puramente abstrato pelo sexo feminino.

8. Revela-se que o arqueólogo reencontrara na figura da Gradiva o andar recalcado de uma amiga de infância, cruzando-a por acaso em Pompeia justamente quando buscava a figura de pedra, coincidência que Freud considera fiel às possibilidades da vida real e reveladora de como a fuga conduz precisamente ao que se foge.

A hipótese freudiana

9. Freud explica que Norbert Hanold se lança à arqueologia justamente para não pensar em Zoé, tornando-se esse campo distante da vida um refúgio onde as defesas psíquicas se afrouxam, permitindo que o recalcado retorne sob forma irreconhecível, como o simples movimento de um tornozelo.

10. Freud aponta explicitamente a matemática como exemplo privilegiado desse campo de recalque, citando o conselho antigo dado a Rousseau para abandonar as mulheres e estudar matemática, sugerindo que o esquecimento pretendido acaba por reintroduzir o objeto evitado dentro da própria disciplina.

11. As noções matemáticas adquirem assim dupla determinação freudiana: um sentido explícito manipulado conscientemente pelo matemático, e um sentido latente inconsciente que fascina e orienta secretamente sua escolha de problemas, configurando a ciência como colocada a serviço de um delírio inconsciente.

As alusões sexuais do inconsciente matemático

12. Freud oferece dois exemplos concretos dessa hipótese: o cálculo onírico errôneo de um paciente que soma incorretamente 1882 e a idade de uma mulher para obter 1898, ano em que desejava desposá-la, revelando através do erro aritmético um desejo recalcado.

13. Um segundo caso relatado por Freud envolve um adolescente que buscava refúgio na matemática escolar até ser subitamente paralisado por problemas geométricos com alusões sexuais transparentes - corpos que se chocam, cones inseridos em cilindros -, situação em que o recalque falha e o processo inconsciente permanece dentro do próprio campo matemático, ligado a noções gerais e não a números singulares.

A reprodução dos autômatos

14. Von Neumann desenvolve teoria dos autômatos reprodutores, demonstrando a possibilidade de um autômato capaz de reproduzir qualquer outro cuja descrição lhe seja fornecida e, finalmente, reproduzir a si mesmo, inserindo seu “código” ou “instruções” no autômato reprodutor à maneira de um gene biológico.

15. Em carta a Wiener de 1946, von Neumann explicita que essa teoria visa suprir a generalidade excessiva das máquinas lógicas usadas para representar o cérebro humano, acrescentando a capacidade de reprodução como propriedade característica que distingue o cérebro das máquinas então conhecidas.

16. Nessa modelização, os “músculos” e “órgãos” envolvidos na reprodução seriam apenas apêndices que os cérebros utilizam para se perpetuarem, sugerindo que a sexualidade funcionaria como estratagema do cérebro para sua própria continuidade, representação estranha da sexualidade subjacente à teoria de von Neumann.

17. Levanta-se a questão de saber se a teoria dos autômatos reprodutores comportaria apenas sentido técnico ou se, seguindo a hipótese freudiana, revelaria determinação latente ligada ao próprio bloqueio psicológico confessado por von Neumann, capaz de encontrar expressão matemática onde faltava expressão verbal direta.

  • O tema da reprodução de autômatos remonta a Descartes e atravessa a literatura do século dezenove, incluindo Erewhon de Butler, antes de alcançar von Neumann.
  • Ulam relata o interesse mecânico e quase automático de von Neumann pelas mulheres, sugerindo ressonância entre sua personalidade e sua teoria científica.

Os problemas interessantes em matemática

18. Demonstra-se que a validade dedutiva sozinha não basta para definir a realidade matemática, pois uma soma trivial de números grandes, embora correta e inédita, jamais constituiria trabalho matemático genuíno, faltando-lhe o critério do “interessante”.

19. Os matemáticos justificam o interesse de uma noção por critérios como fecundidade, generalidade, unidade teórica ou beleza intrínseca, sem que exista definição precisa e única do que torna uma noção matemática interessante.

20. A hipótese freudiana sugere que esse interesse decorre também de determinações segundas que extrapolam o sentido técnico, ligando as noções matemáticas a problemáticas exteriores à própria matemática, subjetivas ou coletivas conforme partilhadas por toda uma época ou sociedade.

21. O exemplo da teoria dos autômatos reprodutores de von Neumann ilustra como uma preocupação recorrente na literatura e na filosofia sobre a reprodução mecânica pôde tornar-se matematicamente relevante, unindo determinação subjetiva pessoal e preocupação coletiva de uma época.

22. As noções científicas mais importantes seriam justamente aquelas de maior ambiguidade ou sobredeterminação, capazes de concentrar múltiplos sentidos - técnico, literário, filosófico e biográfico -, resultando o trabalho do sábio de um duplo compromisso entre tendências pessoais inconscientes, problemáticas coletivas e exigências formais da matemática.

23. O método de análise inspirado em Freud sobre a Gradiva permite associar às noções matemáticas determinações implícitas que explicam seu lugar dentro da ciência, sem exigir necessariamente o recurso estrito às técnicas psicanalíticas nem restringir a busca à biografia detalhada dos sábios, recorrendo-se antes à literatura como via de acesso às problemáticas coletivas implícitas.

Breve retorno às máquinas de Turing

24. A noção de máquina entra efetivamente na matemática com Turing em 1936, que define o cálculo como processo mecânico realizado por uma máquina ideal, apesar de existirem já definições tecnicamente equivalentes de calculabilidade antes dele, ainda não plenamente aceitas.

25. A definição alternativa de Post, que compara o cálculo ao trabalho de um operário em linha de produção, permanece curiosidade histórica, enquanto a definição de Turing se consolida nos manuais de lógica, sugerindo que a carga imaginária ligada à figura da máquina - já presente na literatura policial de Poe e Conan Doyle através do raciocínio “mecânico” do detetive - explica essa consagração.

26. A objeção de inspiração popperiana, segundo a qual tais análises concerneriam apenas ao contexto de descoberta e não à justificação lógica das teorias, é contestada ao se mostrar que a mera demonstrabilidade não explica por que certas noções - como a máquina de Turing - ocupam lugar central na lógica enquanto outras equivalentes, como a de Post, são marginalizadas.

Uma aritmética do sonho

27. Propõe-se o experimento mental de um povo cuja aritmética serviria primordialmente para expressar desejos, e não para somar objetos concretos, ilustrando através do diálogo hipotético com um etnólogo a distância entre a operação aritmética convencional e essa “aritmética do sonho” ligada ao desejo inconsciente.

28. Diante da exigência dos indígenas de compreender as regras da aritmética ocidental, o etnólogo acabaria remetendo à ideia de procedimento “mecânico”, evidenciando que a noção de máquina não constitui elemento acessório mas serve para definir o próprio quadro em que se desenvolve a matemática contemporânea.

Balanço da investigação em curso

29. O ambiente imaculado da fábrica automática e o conforto dos sábios reunidos contrastam com a única mancha visível, a fórmula deixada na toalha, que ao mesmo tempo revela a chave técnica da microinstrumentação e a identidade de seu autor.

30. Wiener, ou seu duplo Norbert, sugere talvez que suas próprias matemáticas devessem ser lidas dessa maneira dupla, voltando-se não ao gesto científico mas ao sujeito que o executa, tarefa que, contudo, não cabe ao leitor na novela, pois a fórmula nunca é explicitada, sendo apenas o narrador quem a interpreta.

31. Apesar de sua estatura como matemático de primeiro plano, a investigação não se deterá sobre as contribuições técnicas de Wiener à teoria das probabilidades, mas sobre o corpo singular de textos - ensaios de cibernética, autobiografia, romance, contos - que ele dedica, entre 1945 e sua morte em 1964, à análise da noção de máquina.

32. O objetivo da investigação desloca-se assim para esses textos, buscando compreender o que realmente se joga no conceito de máquina que assombra a ciência de Wiener: se há de fato um assassinato, quem o comete, e se a máquina científica representa o fim de certa representação do que somos como humanos, advertindo-se, contudo, contra seguir Wiener ao pé da letra, já que ele próprio inventou seu duplo W. Norbert para questionar seu próprio discurso, como se estivéssemos diante de uma narrativa em que o narrador se revela, ele mesmo, o assassino.

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