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Introdução

COYNE, Richard. Technoromanticism. Cambridge: The MIT Press, 1999.

1. A teoria de McLuhan delineia três eras culturais sucessivas - a cultura áurica pré-alfabetizada, caracterizada pela interação comunitária e unitária com a natureza; a era da escrita, que introduz a ordem e a fragmentação social; e a emergente era eletrônica, que reinstaura um estado tribal em escala global - demonstrando como as tecnologias da informação estão intrinsecamente ligadas à transição entre os polos da unidade e da multiplicidade.

2. As quatro grandes manifestações tecnológicas da era digital - comunidades virtuais, realidade virtual, inteligência artificial e vida artificial - articulam, cada uma a seu modo, a narrativa da unidade, seja pela formação de laços comunitários independentes da proximidade física, pela imersão em paisagens de dados, pela simbiose entre mente humana e máquina, ou pela emergência de comportamentos holísticos em sistemas artificiais descentralizados.

3. A temática da unidade se manifesta nas narrativas digitais sob múltiplas facetas, abrangendo desde a simples relação numérica entre o todo e as partes, passando pela harmonização entre elementos distintos, até a dissolução de fronteiras categóricas e a experiência imersiva em um estado ou lugar transcendental, podendo ainda implicar um estado de liberdade ou uma idealidade que transcende a percepção sensorial comum.

4. As tecnologias digitais carregam consigo uma presunção de onipotência humana, que se expressa tanto em manifestações de controle e manipulação (fragmentação) quanto em um anseio por inocência e retorno a uma unidade primal, revelando a complexa ambiguidade entre a arrogância do domínio tecnológico e a nostalgia de um estado indiferenciado com a natureza.

5. A narrativa da unidade nos discursos digitais é invariavelmente construída em contraste com a multiplicidade, compreendida negativamente como fragmentação, seja esta localizada no mundo externo que a tecnologia visa superar (como nas comunidades virtuais ou na realidade virtual) ou no próprio interior dos sistemas tecnológicos, que, apesar de prometerem ordem holística, reconhecem potenciais de alienação, vigilância e desequilíbrio, sendo a contradição aparente sintetizada no aforismo da “unidade na diversidade”.

6. A dicotomia entre unidade e multiplicidade, embora antiga, encontra seu pleno desenvolvimento no Romantismo dos séculos XVIII e XIX, que reagiu ao racionalismo cartesiano e ao cientificismo iluminista, promovendo a reabilitação do sentimento, da emoção e da imaginação, e buscando a reunificação da alma com a natureza, em contraste com a fragmentação imposta pela razão analítica.

7. As narrativas digitais, embora aparentemente vinculadas ao racionalismo reducionista (comunidades virtuais baseadas na transmissão de informação, realidade virtual como geometria espacial, IA como símbolo e regra, VA como informação e regras simples), também incorporam fortemente a vertente romântica do Iluminismo, e é justamente a tensão entre essas duas heranças antagônicas que impulsiona grande parte do fascínio e do desenvolvimento em torno das tecnologias da informação.

8. O livro proposto visa preencher a lacuna crítica sobre a dimensão romântica das tecnologias da informação, estruturado em três seções principais: uma primeira que examina as narrativas de transcendência rumo à unidade; uma segunda que aborda a ênfase empiricista na multiplicidade, categorização e linguagem; e uma terceira que explora a condição humana aprisionada na antagonia entre unidade e fragmentação, transcendência e ordem, culminando com a perspectiva de Lacan entre o real e o simbólico.

9. A narrativa central do livro, que é ela própria uma “romance”, descreve como os mitos antigos de unidade e desintegração foram traduzidos na era digital, mostrando que essa herança romântica afeta tanto o empirismo do senso comum quanto o tecnorromantismo mais extremo, e que ninguém está imune a esse legado.

10. A adoção do conceito de “narrativa” para analisar o discurso sobre TI é justificada pela natureza da avaliação narrativa, que prioriza a eficácia e a capacidade de revelação em detrimento da mera correspondência com fatos, operando em todas as instâncias, inclusive na determinação dos próprios fatos, não havendo uma “ciência da computação essencial” distinta das histórias que construímos sobre ela.

11. A estrutura das narrativas é cíclica e hermenêutica, seguindo um padrão de partida (do mundo tribal, do corpo, da sala de estar), encontros transformadores no novo mundo (o mundo do espelho, a galáxia de Gutenberg) e retorno a um ponto de partida transformado, processo que se aplica tanto aos detalhes da trama quanto à própria interpretação, na qual o intérprete parte de um ponto de vista que é modificado pelo encontro com o texto.

12. A posição teórica adotada é a hermenêutica, que reconhece um círculo vicioso ou paradoxo na relação entre o todo e as partes de uma narrativa, e essa perspectiva será utilizada para resolver disputas na narrativa principal, bem como para, ao final, submeter o próprio processo hermenêutico a um escrutínio que o revela como uma aporia irresolvida.

13. A tecnologia da informação, por estar intimamente ligada à linguagem e, portanto, à interpretação, tanto opera a visão correspondencialista da linguagem (representando o mundo através de códigos) quanto revela suas limitações, especialmente ao encarnar as cadeias infinitas de referência e autorreferência (como no hipertexto), trazendo as questões da linguagem para o primeiro plano e iluminando os temas da unidade e da fragmentação.

14. O restante da introdução traça, de maneira resumida, a narrativa principal do livro, que se aprofunda em áreas aparentemente distantes da TI, mas que, por meio de uma investigação interdisciplinar eclética, promete proporcionar uma compreensão robusta e informada das narrativas digitais e suas consequências.

UNIDADE: COMO AS NARRATIVAS DE TI TENTAM TRANSCENDER O REINO MATERIAL

15. A aspiração das narrativas digitais a um progresso rumo a uma esfera superior, seja a utopia digital prometida ou a transcendência literal pela imersão em uma matrix digital, está em profunda consonância com o romantismo e com o conceito de êxtase (ecstasis) neoplatônico, onde a alma (agora mente) busca libertação do corpo para se unir ao real (agora ciberespaço), evocando uma visão apocalíptica de uma “raptura cibernética”.

Utopias Digitais

  • O retorno a uma idade de ouro transformada e a retórica do progresso, manifestos na “aldeia global” e na “cabana eletrônica”, invocam uma utopia que remete ao ideal pré-industrial e à harmonia feudal, sendo que a cultura dominante da TI, embora olhe para trás, projeta-se incessantemente para o futuro, dependendo mais do que está por ser realizado do que do que é atualmente possível.

Raptura Cibernética

  • As narrativas digitais representam a mais recente transformação do tema da unidade platônico e neoplatônico, que dividia o mundo entre o material (sensível) e o real (inteligível), e que foi apropriado pelo Romantismo, o qual equiparou a alma ao gênio individual e atribuiu à unidade do real a fonte da criatividade, sendo que agora, no ciberespaço, o meio do êxtase é a imersão em um fluxo eletrônico de dados.

MULTIPLICIDADE: A TRADIÇÃO EMPIRICISTA DO REALISMO E SEUS CRÍTICOS

16. Em oposição à busca romântica pela unidade, a linguagem do empiricismo e do racionalismo é a da divisão e da multiplicidade, e examinar as influências do empirismo, do estruturalismo e da fenomenologia nas narrativas digitais revela como a proliferação de partes e a multiplicidade podem ser vistas como riqueza e complexidade, e não como algo indesejável.

O Legado Empiricista

  • A noção de “ciberespaço” serve como foco para discutir conceitos empiricistas de realidade (como independente, dividida e ordenada), onde a representação é central, e a análise do espectro de narrativas espaciais - desde o espaço objetivo e proposicional até as que recorrem à física quântica - mostra que, longe de combater o tecnorromantismo, o empiricismo fornece as condições para seu florescimento.

A Ordem Simbólica

  • Reconhecer o primado da linguagem e da representação é crucial, pois permite romper a corrente que liga o representacionismo ao tecnorromantismo, e o estudo das principais correntes de pensamento sobre a linguagem - como a teoria da correspondência, o pragmatismo e o estruturalismo - revela diferentes implicações para a compreensão da TI, sendo o estruturalismo particularmente importante por sua articulação sobre mito e narrativa, que são centrais aos temas de unidade e multiplicidade.

Pragmática do Ciberespaço

  • Uma abordagem fenomenológica, que começa com a práxis (praxis) do computador como elemento em constelações de prática, em vez de concepções racionalistas ou românticas, privilegia a ubiquidade da metáfora, especialmente em relação ao espaço, e recoloca as narrativas utópicas da TI como projeções de nosso próprio futuro, substituindo os esquemas matemático-geométricos de representação por argumentos baseados na metáfora.

INEFABILIDADE: COMO AS NARRATIVAS CONTEMPORÂNEAS DE IDENTIDADES FRATURADAS DESAFIAM O TECNORROMANTISMO

17. O tecnorromantismo busca uma nova ordem mundial de unidade por meio da informação, mas as narrativas antigas e contemporâneas apontam para o antagonismo entre o uno e o múltiplo, invocando noções de ruptura, paradoxo e indeterminação, como evidenciado pelo surrealismo e pela psicanálise freudiana, que desenvolvem críticas à noção de um eu unitário e constroem narrativas provocativas que usurpam os discursos literais do romantismo.

Édipo no Ciberespaço

  • O mito de Édipo, que narra o desejo de união com a mãe contra a proibição do pai, é facilmente identificável em narrativas de luta política e de ficção científica, e suas versões, especialmente na psicanálise, revelam temas de identidade, culpa e a busca pela unidade, sendo a presunção de criar vida a partir da matéria inanimada ou da informação uma releitura desse mito, que envolve o conflito entre o nascimento da terra e o nascimento da linhagem humana.

Esquizofrenia e Suspeita

  • As interpretações do mito de Édipo, notadamente as de Lacan, Irigaray e o próprio Freud, frequentemente narram a tentativa de retornar a um estado de infância anterior à linguagem, uma unidade primal que é o “real” (das Reale) para Lacan - aquilo que resiste à simbolização - e que é disruptada pela introdução da ordem simbólica (das Symbolische), sendo que o computador, como apoteose da ordem simbólica e oferecendo janelas e hiperlinks que retornam a si mesmos, fornece uma metáfora potente para esse senso de desconexão e para a natureza ilusória e paradoxal do real.

Narrativas Tecnorromânticas

18. As principais narrativas digitais, como as de ambientes de imersão total, comunidades digitais e o mundo do ciborgue, revisitadas em suas formas empiricista e romântica, revelam a complexidade dos temas de unidade e multiplicidade, e a atribuição à TI de um papel causal na transição para a pós-modernidade frequentemente ignora o cerne do discurso pós-moderno, reforçando o tecnorromantismo, mas a análise aqui proposta visa testar a compreensão do real na era da informação e fomentar novas narrativas, reconhecendo que as narrativas que construímos são consequentes para o desenvolvimento tecnológico e que, no fim, elas falam de nossa ontologia (Ontologie) atual e do que está em jogo nesse empreendimento.

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