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Mente incorporada

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and its challenge to Western thought. New York: Basic Books, 1999.

1. Dizer que conceitos e razão são “incorporados” (embodied) significa que as estruturas neurais do cérebro, que realizam o raciocínio, determinam quais conceitos se tem e, portanto, o tipo de raciocínio que se pode fazer, e a modelagem neural estuda como configurações específicas de neurônios, operando de acordo com princípios de computação neural, computam o que se experimenta como inferências racionais, respondendo tecnicamente à questão de se a razão pode usar o sistema sensório-motor.

2. A evidência da ciência cognitiva mostra que a psicologia das faculdades clássica, que postula uma faculdade de razão separada e independente da percepção e do movimento corporal, está errada, e a visão evolucionária, na qual a razão usa e cresce a partir de capacidades corporais como percepção e movimento, resulta em uma visão radicalmente diferente do que é a razão e, portanto, do que é um ser humano.

3. As descobertas da ciência cognitiva são profundamente inquietantes porque dizem que a razão humana é uma forma de razão animal, inextricavelmente ligada aos corpos e às peculiaridades dos cérebros, e que os corpos, cérebros e interações com o ambiente fornecem a base inconsciente para a metafísica cotidiana, ou seja, o senso do que é real.

4. Todo ser vivo categoriza, e a categorização é uma consequência inevitável da constituição biológica, pois os seres são neurais, e sempre que um conjunto neural fornece a mesma saída com entradas diferentes, ocorre uma categorização neural, e embora uma pequena porcentagem das categorias seja formada por atos conscientes, a maioria é formada automática e inconscientemente como resultado do funcionamento no mundo.

5. As categorias são formadas através da incorporação (embodiment), o que significa que são parte da experiência, sendo as estruturas que diferenciam aspectos da experiência em tipos discerníveis, e os conceitos são estruturas neurais que permitem caracterizar mentalmente as categorias e raciocinar sobre elas, sendo que os protótipos (prototypes) são estruturas neurais que permitem realizar tarefas inferenciais ou imaginativas em relação a uma categoria.

6. A maioria das categorias são questões de grau, e conceitos graduados caracterizam graus ao longo de alguma escala com normas para casos extremos, normais e não totalmente normais, e para impor distinções nítidas, desenvolvem-se protótipos de essência (essence prototypes), que conceituam categorias como se fossem nitidamente definidas e minimamente distinguidas umas das outras.

7. Conceitos incorporados (embodied concepts) são estruturas neurais que fazem parte ou fazem uso do sistema sensório-motor do cérebro, e grande parte da inferência conceitual é, portanto, inferência sensório-motor, e se isso for verdade, as consequências filosóficas são enormes, pois o lócus da razão (inferência conceitual) seria o mesmo que o lócus da percepção e do controle motor, que são funções corporais.

8. A tradição filosófica ocidental dominante afirma que a realidade vem dividida em categorias que existem independentemente das propriedades específicas das mentes, cérebros ou corpos humanos, que o mundo tem uma estrutura racional transcendente, que os conceitos da razão caracterizam corretamente as categorias da realidade, e que a razão humana é a capacidade de usar a razão transcendente, sendo, portanto, “desincorporada” (disembodied), e que o que torna os seres humanos essencialmente humanos é sua capacidade para a razão desincorporada.

9. Se os conceitos e a razão humanos forem dependentes do corpo e do cérebro, moldados tanto pelo corpo e cérebro quanto pela realidade, então o corpo e o cérebro são essenciais para a humanidade, e a noção do que é realidade muda, e não há razão para acreditar em uma razão desincorporada ou que o mundo vem dividido em categorias ou que as categorias da mente são as categorias do mundo.

10. Os conceitos de cor são “interacionais” (interactional), surgindo das interações dos corpos, cérebros, propriedades reflexivas dos objetos e radiação eletromagnética, e não são objetivos (não há esverdeamento ou azulamento na grama ou no céu independente de retinas, cones de cor, circuitos neurais e cérebros), nem puramente subjetivos, e a cor é uma função do mundo e da biologia interagindo, tornando a cor e os conceitos de cor compreensíveis apenas em algo como um “realismo incorporado” (embodied realism).

11. O realismo metafísico (metaphysical realism) falha porque as cores não são coisas ou substâncias no mundo, e a teoria da correspondência da verdade (correspondence theory of truth) é abandonada, pois uma sentença como “O sangue é vermelho”, que todos consideram verdadeira, não seria verdadeira de acordo com a teoria da correspondência, e a ciência cognitiva e a neurociência sugerem que o mundo como o conhecemos não contém qualidades primárias no sentido de Locke, pois as qualidades das coisas dependem crucialmente da constituição neural, das interações corporais e dos propósitos e interesses.

12. As categorias de nível básico (basic-level categories), como “cadeira” e “carro”, são cognitivamente prioritárias em relação às categorias superordenadas (ex., “móvel”) e subordinadas (ex., “cadeira de balanço”), e são distinguidas por propriedades baseadas no corpo: são o nível mais alto em que uma única imagem mental pode representar toda a categoria, em que os membros da categoria têm formas gerais percebidas de forma semelhante, em que uma pessoa usa ações motoras semelhantes para interagir com os membros, e em que a maior parte do conhecimento é organizada.

13. O nível básico é o nível em que as pessoas interagem de forma ótima com seus ambientes, dados os tipos de corpos e cérebros que têm e os tipos de ambientes que habitam, e a estrutura parte-todo dos seres e objetos físicos é a razão pela qual há uma estrutura de categoria de nível básico com a qual se pode funcionar de forma ótima, e o realismo metafísico parece funcionar primariamente no nível básico, onde as categorias conceituais parecem se encaixar nas categorias do mundo.

14. As categorias de nível básico são a fonte do conhecimento mais estável, e a capacidade tecnológica de estendê-las através de instrumentos científicos permite estender o conhecimento estável, e embora os fatos da categorização de nível básico não se ajustem ao realismo metafísico, eles fornecem a base para o realismo incorporado (embodied realism), que é uma melhoria porque fornece um vínculo entre as ideias e o mundo, pelo menos no nível que mais importa para a sobrevivência.

15. Os conceitos de relações espaciais (spatial-relations concepts), como “em”, “sobre”, “através”, “na frente de” e “atrás de”, não existem como entidades no mundo externo, mas são impostos por meio de sistemas perceptuais e conceituais, e dependem de uma enorme quantidade de atividade mental inconsciente, projetando estruturas imaginísticas em cenas, e variam consideravelmente de uma língua para outra.

16. A maioria das relações espaciais são complexos feitos de relações espaciais elementares, e cada relação espacial elementar tem uma estrutura interna que consiste em um “esquema de imagem” (image schema), um perfil e uma estrutura trajetor-marco, e o esquema de contêiner (container schema), por exemplo, tem uma lógica espacial incorporada: se A está em B e X está em A, então X está em B, e essa lógica é auto-evidente a partir da imagem.

17. O esquema fonte-caminho-meta (source-path-goal schema) tem elementos como uma trajetória, uma localização de origem, uma meta, uma rota, a trajetória real do movimento, e tem uma lógica espacial incorporada: se você percorreu uma rota para uma localização atual, você esteve em todas as localizações anteriores nessa rota, e se você viaja de A para B e de B para C, então você viajou de A para C.

18. As projeções corporais (bodily projections) são instâncias particularmente claras de como o corpo molda a estrutura conceitual, pois conceitos como “na frente de” e “atrás de” são baseados no corpo, e projetamos frentes e costas em objetos, e o que se entende como a frente de um artefato estacionário é o lado com o qual normalmente interagimos usando nossas frentes, e a relação espacial “o gato está atrás da árvore” não está objetivamente lá no mundo, mas requer uma projeção imaginativa baseada na natureza incorporada.

19. Os esquemas de imagem (image schemas) que estruturam sistemas de relações espaciais nas línguas do mundo são relativamente poucos, e incluem parte-todo, centro-periferia, link, ciclo, iteração, contato, adjacência, movimento forçado, suporte, equilíbrio, reto-curvo e próximo-distante, e as orientações incluem orientação vertical, horizontal e frente-trás, e a lógica espacial desses esquemas de imagem baseados no corpo está entre as fontes das formas de lógica usadas no raciocínio abstrato.

20. Os conceitos de relações espaciais são incorporados de várias maneiras: as projeções corporais obviamente se baseiam no corpo humano, e outros esquemas de imagem são compreendidos através do corpo, pois os corpos são contêineres que absorvem ar e nutrientes e emitem resíduos, e nos orientamos constantemente em relação a contêineres, e cada vez que vemos algo se mover, ou nos movemos, compreendemos esse movimento em termos de um esquema fonte-caminho-meta e raciocinamos de acordo.

21. A modelagem neural (neural modeling) fornece uma “prova de existência” (existence proof) para a incorporação da mente, mostrando que estruturas neurais que podem realizar funções sensório-motoras no cérebro podem, em princípio, fazer ambos os trabalhos ao mesmo tempo - o trabalho da percepção ou controle motor e o trabalho de conceituar, categorizar e raciocinar - e modelos foram construídos para três tipos de conceitos: conceitos de relações espaciais, conceitos de movimento corporal e conceitos que indicam a estrutura de ações ou eventos (conceitos aspectuais).

22. O modelo de Regier para aprender termos de relações espaciais demonstra que os conceitos de relações espaciais podem ser representados e os termos aprendidos com base no aparato neural perceptual no sistema visual do cérebro (mapas topográficos do campo visual, células sensíveis à orientação, campos receptivos centro-entorno e o processo de “preenchimento”), mostrando que as mesmas estruturas neurais envolvidas na percepção também podem realizar o trabalho conceitual de categorização.

23. O modelo de Bailey para aprender verbos de movimento da mão demonstra que os conceitos para movimentos da mão podem ser representados e os termos aprendidos com base em modelos detalhados de esquemas de controle motor de alto nível e sinergias motoras, mostrando que os mecanismos neurais reais usados no controle motor também podem realizar o trabalho conceitual de categorizar ações para nomeá-las.

24. O modelo de Narayanan sobre esquemas motores, aspecto linguístico e metáfora demonstra que a mesma estrutura neural que pode realizar o controle motor também caracteriza a estrutura conceitual do aspecto linguístico (a estrutura de eventos em geral), e que o mesmo mecanismo neural que pode controlar movimentos corporais pode realizar inferências lógicas sobre a estrutura de ações em geral, e modelos de esquemas motores para ações físicas podem - sob projeção metafórica - realizar inferências abstratas apropriadas sobre economia internacional.

25. Cada um desses estudos de modelagem neural constitui uma prova de existência, e embora não provem que os humanos realmente usam as partes do cérebro envolvidas na percepção e controle motor para fazer tal raciocínio, é em princípio possível, e a questão torna-se empírica, a ser resolvida na neurociência experimental, e a evidência até agora favorece a cognição incorporada, e há razões gerais para acreditar que a razão cresceu a partir dos sistemas sensoriais e motores e ainda os usa, o que explica por que os conceitos têm as propriedades que têm e por que é possível que os conceitos se ajustem tão bem à maneira como se funciona no mundo.

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