Prólogo
MCLUHAN, Marshall. The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man. Toronto: University of Toronto Press, 2011./ A Galáxia de Gutenberg. A formação do homem tipográfico. Leônidas Gontijo de Carvalho e Anísio Teixeira. São Paulo: EDUSP, 1972.
** Prólogo **
1. A presente obra complementa O cantor de histórias, de Albert B. Lord, ao ampliar as pesquisas de Milman Parry sobre as diferenças estruturais e funcionais entre a poesia oral e a poesia escrita.
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Os estudos homéricos conduziram Parry à convicção de que os poemas de Homero haviam sido compostos oralmente.
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A demonstração do caráter oral dos poemas homéricos exigia uma comparação com tradições épicas ainda vivas.
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As epopeias iugoslavas permitiram observar cantores atuando numa cultura de composição não letrada.
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A forma da poesia narrativa oral dependia da aprendizagem e da prática da arte sem o auxílio da leitura e da escrita.
2. As pesquisas de Lord e Parry correspondem às condições da era elétrica, na qual se experimentam conflitos semelhantes aos vividos pelos elisabetanos durante a passagem da sociedade medieval corporativa para a ordem tipográfica, mecânica e individualista.
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A sociedade contemporânea encontra-se tão avançada na era elétrica quanto os elisabetanos estavam na era tipográfica e mecânica.
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Ambos os períodos são marcados pela coexistência de formas sociais e perceptivas contrastantes.
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Os elisabetanos oscilavam entre a experiência corporativa medieval e o individualismo moderno.
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A tecnologia elétrica inverte essa passagem ao tornar o individualismo progressivamente obsoleto e impor formas de interdependência coletiva.
3. A galáxia de Gutenberg estende às formas do pensamento e à organização social e política a investigação de Milman Parry sobre o contraste entre oralidade e escrita, examinando as transformações produzidas inicialmente pelo alfabeto fonético e posteriormente pela impressão.
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Patrick Cruttwell investigou as estratégias artísticas nascidas da experiência elisabetana de um mundo simultaneamente dissolvido e reorganizado.
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A era contemporânea também se caracteriza pela interação entre culturas contrastantes.
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As formas da experiência, da perspectiva mental e da expressão foram modificadas pelas tecnologias alfabética e tipográfica.
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A ausência anterior de uma história sistemática das diferenças entre organização oral e escrita pode decorrer da impossibilidade de percebê-las enquanto uma única forma permanecia dominante.
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A coexistência contemporânea entre experiências orais e escritas torna possível comparar suas estruturas divergentes.
4. A expressão “literatura oral” contém uma contradição, pois a própria noção de literatura pressupõe letras, escrita e leitura, embora a era elétrica esteja restituindo à palavra falada ou cantada, associada à imagem do falante, uma centralidade cultural anteriormente enfraquecida.
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A alfabetização tornou-se demasiadamente diluída para permanecer como critério estético absoluto.
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A engenharia elétrica recupera a força da palavra vocal e da presença visual de quem fala ou canta.
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A cultura do livro impresso legou riquezas incomensuráveis, mas também preconceitos que precisam ser abandonados.
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A tradição não deve ser concebida como aceitação inerte de temas e convenções fossilizados.
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A continuidade tradicional consiste no hábito orgânico de recriar aquilo que se recebe e se transmite.
5. A negligência dos historiadores diante da revolução mental e social produzida pelo alfabeto fonético encontra paralelo na história socioeconômica, conforme demonstra a teoria da vida econômica na Antiguidade clássica elaborada por Karl Rodbertus entre 1864 e 1867.
6. A passagem da economia natural para a economia monetária não constitui mera substituição técnica da troca direta pela compra, mas envolve a formação de uma estrutura social inteiramente diferente.
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A função social do dinheiro foi compreendida por Rodbertus de maneira notavelmente moderna.
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A monetarização modifica as relações sociais que acompanham a produção e a circulação de bens.
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A transformação estrutural é mais decisiva do que o simples emprego técnico da moeda.
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A extensão dessa análise às diferentes atividades comerciais do mundo antigo poderia ter evitado controvérsias posteriores.
7. A compreensão de que diferentes formas de moeda e de troca estruturam sociedades de maneiras distintas somente se desenvolveu plenamente quando Karl Bücher examinou o mundo clássico a partir das sociedades primitivas, e não por meio da retrospectiva histórica moderna.
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A perspectiva convencional projeta categorias modernas sobre a Antiguidade.
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O movimento das sociedades não letradas em direção ao mundo clássico oferece uma orientação inversa.
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A economia antiga torna-se mais inteligível quando interpretada a partir de estruturas primitivas, e não das instituições econômicas modernas.
8. O cantor de histórias oferece uma perspectiva inversa sobre o Ocidente letrado, enquanto a era elétrica ou pós-letrada facilita a identificação empática com os procedimentos da oralidade, preservados inclusive nas técnicas de improvisação do músico de jazz.
9. A era eletrônica produz novas formas de interdependência e expressão essencialmente orais, mesmo quando seus componentes não são verbais, mas sua compreensão exige uma reorganização da imaginação retardada pela persistência dos antigos padrões perceptivos.
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A era eletrônica sucede aproximadamente cinco séculos de predomínio tipográfico e mecânico.
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As estruturas emergentes recuperam configurações orais de simultaneidade e participação.
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A mudança dos modos de consciência não acompanha imediatamente a transformação tecnológica.
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Os padrões antigos continuam a organizar a percepção depois que o ambiente que os produziu começou a desaparecer.
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Os elisabetanos parecem medievais ao olhar posterior, embora vivessem a transição para a modernidade.
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O ser humano medieval considerava-se herdeiro da Antiguidade clássica, assim como o contemporâneo se considera plenamente moderno.
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As gerações futuras poderão reconhecer na atualidade um caráter ainda renascentista e uma inconsciência diante das forças desencadeadas nos últimos cento e cinquenta anos.
10. A investigação das transformações tecnológicas não implica determinismo, mas procura esclarecer um fator central da mudança social cuja compreensão pode ampliar efetivamente a autonomia humana.
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Peter Drucker identifica como questão essencial a origem da mudança de atitudes, crenças e valores que tornou possível a revolução tecnológica.
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O progresso científico, isoladamente, não explica essa transformação.
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A mudança da visão de mundo que precedeu a Revolução Científica pode ter preparado as condições da revolução tecnológica.
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A galáxia de Gutenberg procura responder ao problema ainda desconhecido indicado por Drucker, sem pretender esgotar todas as suas dimensões.
11. O método adotado aproxima-se da distinção de Claude Bernard entre observação e experimentação, pois a função de um componente pode ser reconhecida pela alteração produzida no conjunto quando ele é suprimido ou intensamente perturbado.
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A observação registra os fenômenos sem modificar suas condições.
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A experimentação introduz deliberadamente uma variação ou perturbação.
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A retirada de um órgão permite inferir sua função a partir das alterações provocadas no organismo ou numa atividade específica.
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O estudo dos meios aplica analogamente esse procedimento às funções sensoriais e culturais.
12. Parry e Lord observaram o processo poético integral nas condições da oralidade e o compararam ao processo escrito tomado habitualmente como normal, investigando os efeitos da supressão da função auditiva pela alfabetização.
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A poesia oral foi estudada como organismo ativo, e não como versão imperfeita da composição escrita.
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A alfabetização reduz a participação estrutural da audição e intensifica a função visual da linguagem.
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A extraordinária extensão do elemento visual também deveria ser considerada uma perturbação experimental do organismo sensorial.
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A intensidade e a desproporção de uma função permitem observar seus efeitos sobre o conjunto, mesmo quando não seja possível suprimi-la diretamente.
13. O ser humano, como animal produtor de instrumentos, estende por meio da fala, da escrita, do rádio e de outras tecnologias determinados órgãos sensoriais, perturbando os demais sentidos e faculdades sem posteriormente observar de maneira sistemática os resultados desses experimentos.
14. As considerações de J. Z. Young sobre dúvida e certeza científicas oferecem um modelo neurológico para compreender como as perturbações sensoriais desencadeiam processos de reorganização e busca de equilíbrio.
15. Os estímulos internos ou externos rompem a unidade de ação do cérebro, que procura restaurar seu padrão mediante a seleção de elementos, a comparação com modelos anteriores e a experimentação de sucessivas sequências de resposta.
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A perturbação desfaz a unidade de um padrão cerebral previamente constituído.
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O cérebro seleciona no estímulo os aspectos capazes de reparar o modelo interrompido.
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A recuperação do ritmo sincronizado corresponde ao ato de consumação ou conclusão.
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Quando uma primeira resposta não elimina a perturbação, novas sequências são experimentadas.
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Diferentes regras e modelos são sucessivamente confrontados com os dados recebidos.
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A restauração da unidade pode exigir uma busca intensa, variada e prolongada.
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Durante essa atividade formam-se novas conexões e padrões de ação que condicionarão respostas futuras.
16. A tendência inevitável ao fechamento, à conclusão ou ao equilíbrio manifesta-se tanto quando um sentido é suprimido quanto quando uma função é tecnologicamente ampliada, e A galáxia de Gutenberg examina historicamente as novas totalidades culturais formadas após as perturbações produzidas pela alfabetização e pela impressão.
17. As criações materiais humanas constituem extensões de funções anteriormente realizadas pelo corpo, abrangendo desde armas, roupas e habitações até instrumentos, meios de comunicação, dinheiro e redes de transporte.
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A evolução das armas prolonga dentes e punhos até alcançar a bomba atômica.
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Roupas e casas ampliam os mecanismos biológicos de regulação térmica.
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Móveis substituem posições corporais como agachar-se ou sentar-se no chão.
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Ferramentas motorizadas estendem a capacidade muscular.
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Óculos prolongam a visão.
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Televisão, telefone e livros transportam a voz e a experiência através do espaço e do tempo.
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O dinheiro conserva e amplia o trabalho.
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As redes de transporte substituem funções anteriormente desempenhadas pelos pés e pelas costas.
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Todo artefato pode ser interpretado como prolongamento de uma atividade corporal ou de um órgão especializado.
18. A linguagem e a fala exteriorizam os sentidos e funcionam como instrumentos que permitem acumular experiências e conhecimentos em formas transmissíveis e amplamente utilizáveis.
19. A linguagem, o dinheiro e as demais tecnologias são metáforas porque armazenam e traduzem experiências ou capacidades, mas suas extensões especializadas formam sistemas fechados cuja coexistência instantânea na era elétrica exige uma consciência coletiva e uma nova proporção entre as faculdades humanas.
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A linguagem traduz a experiência de uma modalidade para outra.
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O dinheiro conserva trabalho e habilidade, além de possibilitar a conversão de uma competência em outra.
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A metáfora fundamenta-se na capacidade racional de traduzir reciprocamente os sentidos.
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A consciência pessoal resulta da contínua interação e tradução entre os sentidos privados.
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A roda, o alfabeto, o rádio e outros instrumentos ampliam maciçamente um sentido ou uma função específica.
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As tecnologias históricas permaneciam separadas e incapazes de interação ou consciência conjunta.
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A lentidão da roda, da escrita e do dinheiro permitia que seus sistemas fechados coexistissem sem produzir uma crise imediata.
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A eletricidade reúne visão, som e movimento numa simultaneidade de alcance global.
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As faculdades tecnologicamente estendidas passam a integrar um único campo de experiência.
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Esse campo exige uma consciência coletiva comparável à integração sensorial necessária à racionalidade individual.
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A coexistência racional das tecnologias depende do estabelecimento de proporções e interações entre suas diferentes extensões.
20. A historiografia cultural isolou tradicionalmente os acontecimentos tecnológicos de maneira semelhante à física clássica, cuja perspectiva cartesiana e newtoniana separava os eventos e os localizava num espaço e num tempo supostamente fixos.
21. A física clássica representava o universo como mecanismo integralmente descritível pela localização precisa das partes no espaço e pela determinação de suas mudanças temporais, apoiando-se na pressuposição inconsciente de um quadro espacial e temporal rígido.
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Cada acontecimento físico seria localizável independentemente dos processos dinâmicos circundantes.
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A separação dos eventos decorria de hipóteses aceitas sem exame consciente.
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O ponto de vista histórico individual reproduz uma estrutura perceptiva semelhante à do mecanismo cartesiano.
22. As percepções cartesianas e euclidianas derivam da estrutura introduzida pelo alfabeto fonético, enquanto a revolução física descrita por Louis de Broglie corresponde às condições relacionais produzidas pelo telégrafo e pelo rádio.
23. A física contemporânea abandonou a concepção da matéria como conjunto de partículas semelhantes a peças fabricadas e passou a empregar termos como átomo e elétron para descrever relações observadas em experimentos específicos.
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A medição de distâncias extremamente pequenas tornou inadequado o antigo modelo materialista.
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Tamanho, peso e posição deixaram de ser propriedades atribuídas a unidades materiais absolutamente independentes.
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Átomos, prótons e elétrons não são nomes de pedaços isolados que compõem mecanicamente a matéria.
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Esses termos integram descrições de observações experimentais.
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Seu significado depende do conhecimento dos procedimentos pelos quais os fenômenos se tornam observáveis.
24. Grandes transformações na fala e na ação humanas estão necessariamente relacionadas à adoção de novos instrumentos.
25. A reflexão antecipada sobre a relação entre instrumentos, linguagem e comportamento teria permitido dominar a natureza e os efeitos das tecnologias, em vez de permanecer passivamente submetido a elas, e A galáxia de Gutenberg constitui uma meditação prolongada sobre esse problema.
26. A historiografia linear opera como sistema fechado incapaz de compreender a mudança cultural, enquanto a concepção multilinear de Abbott Payson Usher interpreta a civilização ocidental como integração progressiva de numerosos elementos relativamente independentes.
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As culturas antigas não se ajustam às sequências lineares de evolução social e econômica elaboradas pelas escolas históricas alemãs.
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A renúncia ao desenvolvimento unilinear torna possível reconhecer trajetórias simultâneas e heterogêneas.
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A história cultural resulta da interação e integração de múltiplos componentes.
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A abertura metodológica aproxima o estudo histórico da abordagem de campo.
27. O ponto de vista histórico fixo constitui um sistema fechado associado à tipografia, enquanto Alexis de Tocqueville, formado pela interação entre alfabetização e cultura oral, alcançou uma percepção excepcional dos padrões de transformação da França e dos Estados Unidos.
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A perspectiva tipográfica organiza os acontecimentos a partir de uma posição visual estável.
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Tocqueville não preencheu uma cena histórica observada de um único lugar.
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Sua investigação procurava a dinâmica operativa presente nos dados.
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A combinação entre estruturas perceptivas orais e escritas permitiu ultrapassar a visão individual isolada.
28. A principal característica das operações intelectuais norte-americanas consiste na confiança de cada indivíduo no esforço autônomo de seu próprio entendimento.
29. Os princípios cartesianos são pouco estudados e intensamente praticados nos Estados Unidos, onde cada indivíduo se fecha em si mesmo e julga o mundo a partir dessa posição privada.
30. A interação entre modos orais e escritos permitiu a Tocqueville compreender cientificamente a psicologia e a política, reagir ao mundo como totalidade aberta e reconhecer os efeitos da alfabetização tipográfica sobre o cartesianismo e o individualismo norte-americano.
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A percepção profética decorreu da combinação de estruturas divergentes, e não da expressão de uma opinião privada.
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A alfabetização tipográfica produziu tanto a perspectiva cartesiana quanto características específicas da sociedade norte-americana.
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O mundo foi apreendido como campo integral, em vez de ser dividido em setores isolados.
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Essa abordagem corresponde ao método multilinear cuja ausência Usher identificou na história cultural.
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A capacidade cerebral depende amplamente dos lugares de interação entre estímulos provenientes de diferentes campos receptivos.
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As zonas de combinação permitem responder ao mundo como conjunto de maneira mais abrangente do que outros animais.
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As tecnologias não favorecem uniformemente essa função orgânica de interação e interdependência.
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A investigação dos efeitos da cultura alfabética e tipográfica deve ser realizada à luz das novas tecnologias.
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Os meios contemporâneos afetam profundamente tanto o funcionamento tradicional quanto os valores historicamente adquiridos pela alfabetização.
31. A sociedade aberta e seus inimigos, de Karl Popper, oferece um paralelo para o estudo da destribalização antiga e da retribalização moderna, embora a investigação deva limitar-se inicialmente ao diagnóstico e à descrição das transformações, antes de formular avaliações ou terapias.
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A alfabetização fonética favoreceu a formação da sociedade aberta.
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Os meios elétricos ameaçam dissolver essa abertura ao reconstruir formas tribais de integração.
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A análise concentra-se no que efetivamente ocorre, não no que deveria ocorrer.
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O julgamento moral prematuro substitui frequentemente a investigação causal, mas não produz necessariamente compreensão.
32. A análise de Popper sobre a destribalização da Grécia antiga e sua reação permanece limitada aos pontos de vista econômico e político, pois desconsidera as extensões tecnológicas dos sentidos como fatores capazes de abrir ou fechar sociedades.
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O comércio promove a interação entre culturas e modifica as estruturas comunitárias.
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A dissolução do Estado tribal encontra representação dramática em Rei Lear.
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A dinâmica sensorial dos meios oferece uma dimensão causal ausente na abordagem de Popper.
33. As sociedades tribais apresentam uma unidade biológica, enquanto as sociedades abertas funcionam por relações abstratas de troca e cooperação, mas a abertura das estruturas fechadas decorre especificamente do alfabeto fonético, assim como a eletricidade tende a reunir novamente a humanidade numa tribo global.
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Nenhuma outra forma de escrita teria produzido o mesmo grau de abstração e individualização.
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Fala, tambor e ouvido sustentam as formas fechadas e participativas da organização tribal.
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Os meios elétricos recuperam essas condições em escala planetária.
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A retribalização eletrônica confunde os integrantes das sociedades abertas.
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Essa transformação corresponde inversamente à perturbação causada pela alfabetização fonética nas antigas comunidades tribais.
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Popper descreve as consequências da mudança, mas não investiga suas causas tecnológicas e sensoriais.
34. No século VI a.C., a dissolução parcial dos antigos modos de vida provocou revoluções políticas, reações conservadoras, tentativas de preservar coercitivamente o tribalismo e o surgimento da discussão crítica e do pensamento liberado das obsessões mágicas.
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Esparta representa a tentativa de deter pela força a dissolução da organização tribal.
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A invenção da discussão crítica constitui uma revolução espiritual.
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O pensamento racional emerge juntamente com a ruptura das certezas mágicas.
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A nova liberdade intelectual é acompanhada pelos primeiros sintomas de inquietação.
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A tensão da civilização começa quando as estruturas tradicionais deixam de oferecer uma integração incontestada.
35. A inquietação produzida pelo colapso da sociedade fechada constitui o preço permanente da vida racional, responsável e parcialmente abstrata, bem como dos avanços em conhecimento, cooperação, auxílio mútuo e possibilidades de sobrevivência.
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A sociedade aberta exige o esforço contínuo de agir racionalmente.
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Parte das necessidades emocionais de pertencimento imediato precisa ser renunciada.
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Cada indivíduo assume maior responsabilidade por si mesmo.
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A tensão intensifica-se durante períodos de transformação social.
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O aumento da racionalidade e da cooperação não elimina o sofrimento provocado pela perda das antigas seguranças.
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Essa tensão constitui uma condição e um preço da existência propriamente humana.
36. A dissolução da sociedade fechada torna visíveis os conflitos de classe e de condição social anteriormente naturalizados, destruindo a segurança proporcionada pela comunidade tribal e produzindo efeitos comparáveis aos de uma ruptura familiar sobre as crianças.
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Escravidão, castas e domínio de classe parecem naturais e inquestionáveis aos membros dominantes de uma sociedade fechada.
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A ruptura da ordem tradicional elimina a certeza e o sentimento de segurança.
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A tribo ou a cidade desempenha a função protetora da família e do lar.
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Cada integrante conhece previamente seu papel e encontra nele uma posição estável.
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A emergência dos conflitos de classe desorganiza essa estrutura familiar e simbólica.
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As classes privilegiadas experimentam intensamente a ameaça à autoridade e à posição herdadas.
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Os grupos antes oprimidos também se inquietam diante da destruição de seu mundo considerado natural.
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Mesmo quando triunfam, os antigos subordinados podem hesitar em explorar suas vitórias.
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A tradição, o estado estabelecido, a educação superior e a aparência de autoridade natural continuam a apoiar os antigos dominantes.
37. A análise da tensão produzida pelo colapso da sociedade fechada conduz diretamente a Rei Lear e à grande ruptura familiar mediante a qual Shakespeare dramatiza os conflitos do século XVI no início da era de Gutenberg.
