Des-encobrir
ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006
O trazer-à-frente como desvelamento
1. Heidegger responde à pergunta pelo que é, em última análise, a técnica antiga oferecendo duas caracterizações finais do trazer-à-frente ou produzir tal como os gregos o entendiam: o deixar ativo concerne à presença daquilo que, em cada caso, é trazido a se mostrar no trazer-à-frente, o qual traz algo do velamento (Verborgenheit) para o desvelamento (Unverborgenheit), ocorrendo apenas na medida em que algo velado vem ao desvelamento.
2. O sentido de produzir ou trazer-à-frente aqui invocado — o trazer algo do velamento, fazê-lo mostrar-se no desvelamento — é exatamente o que se entende ao falar de “produzir testemunhas” num tribunal, o que não significa criá-las, fabricá-las para a ocasião, trazê-las ao ser a partir do não ser, mas apenas conduzi-las à frente, sentido etimológico mesmo de “pro-duzir” (“puxar para frente”, “conduzir para frente”, Hervorbringen).
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Significa trazer as testemunhas (que já existem) de uma invisibilidade a uma visibilidade, do velamento à presença, à vista; produzir testemunhas é, coloquialmente, desenterrá-las — não fazê-las, mas apenas encontrá-las, descobri-las, desvelá-las, tirar-lhes os véus.
3. Essa noção de produzir como conduzir à visibilidade para que todos vejam (e não fazer ex nihilo) resume perfeitamente a visão heideggeriana da causalidade antiga e da técnica antiga tal como vinha sendo apresentada: trazer à visibilidade nada mais é que coadjuvar, encorajar, nutrir.
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Produzir significa tomar pela mão e conduzir por um caminho que termina em plena visibilidade, significa deixar as coisas se mostrarem — no sentido ativo do deixar, isto é, precisamente, desenterrá-las; deixar as testemunhas se mostrarem não significa meramente nada fazer para impedir que se tornem visíveis, mas, ao contrário, prestar mão ativa, sem a qual permaneceriam veladas.
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Produzir testemunhas, desenterrá-las, é, portanto, semicriativo: o esforço de escavar é essencial para que as testemunhas se mostrem, mas não é criação pura, ex nihilo, engrenando-se apenas a uma potencialidade já existente das testemunhas de se mostrarem, a saber, sua preexistência em estado de ocultamento.
4. Esse sentido de coadjuvar tem estado em jogo em toda a lista de termos oferecida por Heidegger para expor o sentido da causalidade antiga e da técnica antiga: obrigar, preparar o terreno, deixar, deixar ativo, deixar até o fim, trazer-à-frente, pro-duzir (como agora se traduziria poiesis) e nutrir (para exprimir os processos da natureza e assim traduzir physis).
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O novo termo agora introduzido por Heidegger, um de um par que exprime o sentido último da causalidade e da técnica antigas, não deveria surpreender, sobretudo à luz da discussão sobre a produção de testemunhas em tribunal: o termo penúltimo que significa causar ou produzir no sentido antigo é “desenterrar”.
5. O termo alemão é Entbergen; uma tradução menos coloquial seria “desenterrar” ou “desencobrir”, vertida na tradução publicada como “revelar” (to reveal).
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A palavra Entbergen é cunhagem de Heidegger, mas a língua alemã presta-se a esse tipo de cunhagem pela combinação inédita de duas palavras conhecidas — aqui um prefixo e um verbo — sendo o sentido claro a partir de seus constituintes linguísticos.
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Heidegger dissipa qualquer ambiguidade ao fornecer o equivalente grego de Entbergen, um dos termos mais importantes de toda a sua filosofia, sobre o qual derramou incontável quantidade de tinta, mostrando que essa palavra grega se constrói sobre um alfa privativo, sendo, assim, essencialmente negativa a palavra que Entbergen pretende exprimir.
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O prefixo ent- é tomado em seu sentido privativo, significando “privar de” ou “desfazer” o bergen; bergen pode significar salvar ou abrigar, mas nesse contexto deve corresponder ao restante do termo grego em questão, remetendo, em seu sentido radical, a Berg, “montanha”, implicando estar velado ou profundamente encoberto, como por toda uma montanha, acrescentando o prefixo privativo a ideia de escavar algo de sob uma montanha, desenterrá-lo, desencová-lo.
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“Revelar”, usado na tradução publicada, embora não obviamente uma expressão privativa, contém a ideia de remover véus, e assim se aproxima bastante do alvo; “desenterrar” e “desencovar” exprimem melhor o sentido negativo e coincidem com o sentido básico do termo alemão de Heidegger.
6. Essa palavra grega que, segundo Heidegger, exprime o que ele chama Entbergen, é ἀλήθεια (aletheia): o trazer-à-frente ocorre apenas na medida em que algo velado vem ao desvelamento, vir esse fundado e que transcorre dentro daquilo que chamamos Entbergen, palavra grega que os romanos traduzem por veritas, e que dizemos em alemão die Wahrheit, entendida ordinariamente como a correção de uma representação.
7. Para Heidegger, algo se perdeu na tradução do termo grego aletheia pelo latim veritas ou pelo alemão Wahrheit, ambos significando “verdade”, palavra que também haveria de contar como versão empobrecida do que os gregos exprimem ao falar de aletheia.
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Existe, para Heidegger, a língua grega original, sobretudo em seu estado pré-socrático, e depois todas as demais línguas ocidentais mais recentes, sendo a transição (ou tradução) do grego para as outras uma queda a partir da grandeza da origem, marca da história essencial, motivada pelo evento na história do ser, sinal de que, após um mostrar-se mais pleno, a essência dos entes vem retirando seu semblante da humanidade.
8. No plano mais superficial, a ocorrência desse evento se reflete na diferença entre o sentido negativo do termo grego e as palavras positivas modernas: os gregos exprimem com uma expressão negativa (a-letheia: “des-velamento”, “não-ocultamento”) o que as línguas ocidentais modernas exprimem sem qualquer conotação negativa (“verdade”).
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Não se trata, para Heidegger, de mero acidente linguístico, mas de motivação da mais forte espécie: um termo surge de uma experiência do mostrar-se dos deuses, o outro é motivado pela reticência destes em se mostrar; o termo negativo concede prioridade ao ser, o positivo é alheio ao ser e dá precedência à subjetividade humana.
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O termo negativo corresponde a uma época que ainda sentia a presença do ser, em que este ainda se fazia sentir, ao passo que os termos positivos refletem uma época que esqueceu o ser, em que este se oferece tão reticentemente que a subjetividade humana pôde suplantá-lo.
9. Hoje concebemos a verdade como assunto humano: a correspondência de nosso intelecto às coisas, residindo a verdade num juízo, não havendo verdade sem juízo, existindo quando um sujeito humano forma um juízo correspondente a algum estado de coisas objetivo.
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Para os gregos, porém, há algo mais originário que os poderes humanos de formar juízos em correspondência com as coisas: aquilo que experimentam como mais originário, fundamento da verdade em nosso sentido, é algo que não depende de nós, mas das coisas, a saber, seu sair do ocultamento e mostrar-se em absoluto.
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Os gregos experimentam as coisas como saindo de um velamento originário; para eles ocorreu um desvelamento a respeito das coisas, razão pela qual os humanos podem agora formar juízos corretos, não sendo, porém, esse desvelamento originário obra nossa, mas antes a condição de possibilidade de qualquer ação nossa.
10. Para agirmos sobre qualquer coisa, estarmos em qualquer relação com qualquer ente, este deve ter-se-nos desvelado de antemão o que significa ser um ente em geral, de outro modo sendo a ação totalmente cega, pois não teríamos senso de nós mesmos nem dos entes distintos de nós.
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Consequentemente, para investigarmos ou revelarmos algo sobre os entes, o ser já deve ter-se desvelado a si mesmo; a verdade, no sentido do desvelamento do ser, deve ter ocorrido para que haja uma relação humana com os entes e, com isso, verdade de juízo — carecendo, portanto, nossa verdade humana, judicativa, de autonomia, dependendo do desvelamento do ser.
11. Pode-se ver agora, talvez, algo do que Parmênides quer dizer ao chamar a verdade de deusa: para Heidegger, a palavra grega para “deusa”, θεά (thea), está intrinsecamente relacionada à palavra para o olhar, θέα (thea), sendo uma deusa aquela que, de modo especial, olha para nós.
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Parmênides estaria dizendo que a verdade é o olhar-nos de uma deusa, ocorrendo a verdade quando algo especial nos olha; os deuses gregos não são, para Heidegger, entes particulares, mas máscaras do ser em geral, da essência dos entes, sendo o olhar especial o olhar do ser — ocorrendo a verdade, em termos heideggerianos, quando o ser nos olha.
12. Heidegger reconhece duas formas de olhar: a familiar a todos nós, o olhar que apreende, escrutina ou inspeciona algo; mas esse olhar repousa, para Heidegger, sobre uma forma mais primordial de olhar que não envolve fitar, consistindo antes quase no oposto — mostrar-se, sair à luz, oferecer-se ao olhar.
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É nesse sentido particular que Heidegger fala do “olhar do ser” (genitivo subjetivo), sendo verdade que ocorre quando somos olhados de modo especial, quando a essência dos entes em geral sai do ocultamento, quando o ser se desvela e se oferece ao nosso olhar humano — expressando Heidegger e Parmênides, assim, nada mais que a compreensão grega da verdade, mais fundamental que a verdade humana e judicativa: o desvelar-se por parte do ser, pressuposto pelo desvelamento humano das coisas.
13. Para Heidegger, a experiência grega de uma verdade mais primordial exprime-se perfeitamente na palavra negativa a-letheia, dando os gregos voz, ao falar da verdade como “des-velamento”, à sua experiência dos entes em geral como tendo saído de um velamento mais original.
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A negatividade da palavra exprime a compreensão grega de que as coisas necessitavam de um desvelamento, e algo ou alguém as desvelou; não poderiam ter sido os humanos a realizar esse desvelamento, já que só podem agir sobre o que já está desvelado, devendo o velamento originário ter sido superado — primariamente, ao menos — por aquilo que estava velado, não pelos humanos, que não poderiam arrancar ou forçar esse desvelamento originário, já que forçar ou arrancar requer a posse de algo desvelado contra o que se contende.
14. O desvelamento ocorrido a respeito das coisas — isto é, a verdade — é, portanto, para os gregos, primariamente assunto do ser, não assunto humano, entendendo os gregos a verdade como autorrevelação do ser, colocando o ser à frente quanto ao desvelamento.
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É por isso que, para Parmênides, a deusa conduz o filósofo pela mão direita, e por que, para Heidegger, só podemos olhar as coisas porque o ser primeiro nos olhou: o líder no desvelamento é o ser, o ser toma a iniciativa no desvelamento originário, o ser se dá a nós, o ser se oferece a nós como dádiva, sendo nosso olhar humano uma resposta a essa dádiva.
15. Nós hoje, porém, não temos nenhum senso de sermos conduzidos pela mão, de sermos olhados ou de nos serem oferecidas dádivas, sendo alheios a qualquer sentido de verdade mais originário que a verdade judicativa, não reconhecendo mais deusas — o que equivale a dizer que as deusas retiraram seu olhar de nós, não fazendo mais sentir sua presença.
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Não nos sentimos mais olhados pelo ser e, consequentemente, conhecemos apenas um olhar — o nosso próprio olhar escrutinador — e apenas um desvelamento — o que realizamos por nossa inspeção penetrante dos entes; toda iniciativa é iniciativa humana, todo desvelar é obra humana, o que significa que a verdade é agora verdade judicativa: está do nosso lado, é nosso assunto, nós a instituímos.
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É por isso que temos para ela uma palavra positiva; somos senhores dela; deve certamente haver ainda algo que corresponda a nossos juízos verdadeiros, deve haver ser e entes, mas estes desempenham o papel secundário do seguidor, oferecendo resistência, papel esse ainda degradado, entendido como pura passividade.
16. A transição da época antiga à nossa foi, assim, uma inversão: líder e seguidor, na parceria do desvelamento, trocaram de lugar — os gregos experimentaram uma ascendência do ser sobre a subjetividade humana, e nós não experimentamos nada semelhante.
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Para nós, o caminho para a verdade é a pesquisa (research); devemos “dar voltas” (= “re-buscar”) e procurar, não permanecer ociosamente à espera; o esperar não tem para nós, de fato, sentido ativo algum, sendo mera ociosidade e caindo em total descrédito.
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Hoje nenhum filósofo ou cientista respeitável espera que o ser ou a natureza se revele; não esperam ser conduzidos pela mão, não esperam um desvelamento, tomando antes as coisas em suas próprias mãos e buscando abrir os véus por esforço próprio — o que se aplica ainda mais ao cientista.
17. Recordando que a transição entre as duas épocas foi também uma tradução, cabe voltar às duas palavras em questão, a-letheia e “verdade”: de perspectiva heideggeriana, como se compreende que um termo positivo corresponda à atitude moderna e um termo negativo à antiga?
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Se a verdade é agora assunto humano, por que temos para ela um termo positivo? A resposta heideggeriana é que nosso termo carece de negatividade pela simples razão de que não reconhecemos nada mais positivo que nossa subjetividade humana, nada perante o qual nossa subjetividade estivesse numa relação de falta ou privação.
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Nosso conceito carece de privação porque somos alheios à nossa própria privação; vemo-nos como autossuficientes em nossa busca da verdade, em nosso desvelamento das coisas, não reconhecendo que estas necessitem de um desvelamento mais originário que o que nós mesmos somos capazes de realizar, nem que tal desvelamento tenha ocorrido ou pudesse ocorrer.
18. Nosso termo é positivo por uma razão negativa: experimentamo-nos como autônomos porque algo nos está oculto, a saber, a autorrevelação do ser, o olhar do ser — o que nos está oculto é o desvelamento que nós mesmos não realizamos, sendo alheios a ele e não o reconhecendo como tendo prioridade sobre a verdade judicativa.
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Não vemos além do que chamamos verdade até aquilo de que ela depende e que lhe falta; o termo grego, por outro lado, é negativo porque os gregos experimentavam sua própria falta de autonomia quanto à verdade, sendo seu termo negativo por uma razão positiva: os gregos experimentaram, sim, o que é mais positivo que os humanos, o que tem ascendência sobre os poderes humanos de pesquisa dos entes (entes que sempre já foram desvelados em geral).
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O termo grego é negativo porque os gregos tinham consciência de uma obra de des-velamento no sentido mais próprio, um desvelamento mais originário que a pesquisa humana e, portanto, fora do alcance das mãos humanas, tendo os gregos vislumbrado um velamento que só o próprio ser poderia desfazer, nomeando sua palavra a-letheia esse velamento e o desfazê-lo pelos deuses.
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A-letheia nomeia o próprio ser em sua obra de desvelar-se de antemão: antes de — e possibilitando — uma relação humana com os entes e um desvelamento humano dos entes; em suma, os gregos viram além da verdade humana, e a palavra a-letheia nomeia o que ali viram: o ser em seu desvelamento, a autorrevelação do ser, o olhar do ser, sendo sua palavra negativa porque entendiam os humanos como desempenhando papel secundário e consideravam o ser à frente.
19. De perspectiva heideggeriana, a questão crucial concerne à motivação dessas duas visões ou atitudes, a grega de conceder prioridade ao ser e a moderna de dar precedência à subjetividade humana.
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Como explicar a transição da visão grega do ser para a cegueira moderna a ele, e assim a tradução da palavra grega negativa na palavra moderna positiva? O que há na era moderna que faz surgir a palavra positiva? Por que a era moderna dá prioridade à subjetividade em vez de ao ser? O que permitiu aos gregos ver além da verdade humana — tinham eles vista mais desenvolvida, eram mais perspicazes, tinham maior poder de olhar? Por que a visão e a palavra gregas originais não prevaleceram na história?
20. Para Heidegger, dito da forma mais concisa possível, a transição e a tradução foram um destino (Geschick): não foram causadas por erro ou fraqueza humana, recaindo a responsabilidade primária do lado do ser, do lado dos deuses.
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Não é de modo algum que, na era moderna, a atitude presunçosa dos humanos tenha feito o ser fugir por lesa-majestade; não são os seres humanos, mas o próprio ser que mudou.
21. Essa mudança no ser é a transição da aproximação para a retirada: o ser mudou ao oferecer-se mais reticentemente, ao lançar mais véus sobre si mesmo, ao olhar a humanidade menos diretamente, sendo esse o fator motivador primário — o ser é o motor primeiro.
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Se os gregos puderam ver além, além da verdade humana, não é porque fossem mais perspicazes ou mais sábios que nós hoje, nem porque tenham desenvolvido seus poderes de visão enquanto nós deixamos os nossos atrofiarem ou se desviarem; os gregos não podem receber o crédito pelo que viram e experimentaram, cabendo o crédito ao ser.
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A razão primária pela qual os gregos podiam ver mais é que o ser se lhes mostrava mais plenamente; se os gregos sentiam a presença dos deuses, ao passo que nós não, é primariamente porque os deuses se ofereciam mais plenamente; os gregos não nos superavam em sensibilidade ou inteligência, não tinham maiores méritos — ao contrário, eram favorecidos.
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O sentido arcaico de “favor” é “face” ou “semblante”; favorecer alguém é mostrar-lhe a própria face, considerá-lo, olhá-lo — foi precisamente assim, para Heidegger, que os gregos foram um povo favorecido: o ser lhes mostrou livremente seu semblante, o ser os olhou; os gregos não tinham, portanto, poderes especiais de olhar — ao contrário, algo os olhava de modo especial.
22. Heidegger sugere frequentemente uma conexão entre a história do ser e a da linguagem, podendo o ser aproximar-se e retirar-se através das vicissitudes das palavras; nessa perspectiva, os gregos foram favorecidos com a palavra a-letheia, isto é, o favor dos deuses lhes chegou por meio dessa palavra.
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Possuir essa palavra é, ipso facto, ser olhado com favor; aletheia é o nome precisamente daquilo que só poderia ser visto e nomeado se o ser mostrasse seu semblante, por ser o nome do olhar ou da autorrevelação do ser; experimentar essa autorrevelação é possuir um nome para ela — marcando, assim, a presença da palavra aletheia a época grega como a primeira época na história do ser, a época em que o ser se mostrou.
23. O que motivou a transição para a era moderna e a tradução na palavra positiva “verdade” foi, em certo sentido, simplesmente a retirada da palavra aletheia: a linguagem reteve essa palavra, e a linguagem agora nos fala em termos de “verdade”.
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Não é que tradutores humanos tenham sido descuidados, ou que os falantes das línguas modernas sejam menos sábios que os do grego antigo; é que a própria linguagem agora se dirige aos humanos em palavras que velam o semblante genuíno do ser.
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Para Heidegger, nossa palavra positiva “verdade” indica que vivemos numa época correspondente à segunda época na história do ser, palavra que só poderia surgir numa época em que os deuses fugiram — sendo, de fato, essa a palavra que os deuses deixam para trás em sua fuga.
O olhar revelador
1. Para Heidegger, as duas eras da cronologia humana podem ser caracterizadas essencialmente como a era da aletheia e a era da “verdade”, motivadas pelos eventos autônomos na história do ser, correspondendo respectivamente à autorrevelação mais plena e ao mostrar-se mais reticente do ser.
2. Para Heidegger, contudo, o desvelamento sempre envolve uma parceria, uma genuína parceria em que ambos os parceiros contribuem: a responsabilidade primária pelo desvelamento cabe ao ser, mas não há autorrevelação do ser sem a resposta ativa dos humanos, que devem responder ao olhar do ser com um olhar revelador próprio, sem o qual jamais surgiria uma compreensão do que significa ser, por mais plenamente que o ser se ofereça.
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Esse olhar revelador por parte dos humanos, a recepção ativa da autodoação do ser, é o que Heidegger chama de Entbergen.
3. Os termos finais na caracterização heideggeriana da técnica antiga, aletheia e Entbergen, são, portanto, correlativos: aletheia significa desvelamento, e, como sempre há algum desvelamento, mesmo na segunda época, o termo pode se referir a qualquer modo pelo qual o ser se oferece, seja plena, seja reticentemente, ao passo que Entbergen nomeia a correspondente recepção humana da autorrevelação do ser.
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Entbergen é o olhar humano apropriado, o olhar que se apropria daquilo que o ser oferece, podendo ser traduzido, conforme essa compreensão, como “olhar revelador” — um olhar (um olhar que apreende) que desempenha papel essencial no desvelamento do ser.
4. Entbergen é, assim, tanto passivo quanto ativo: é um olhar e, como tal, receptivo, não criativo; contudo, não é mero fitar vazio, mas um olhar ativo e revelador que deve, por assim dizer, encontrar o olhar do ser, o mostrar-se do ser, a meio caminho.
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Os humanos devem ir a meio caminho ao encontro do ser; seu olhar deve provir de um esforço de desvelamento, de vigilância, de sensibilidade, sendo o olhar revelador, assim, de fato uma recepção, mas uma recepção ativa.
5. Para Heidegger, esse olhar revelador por parte dos humanos varia de modo essencial conforme aquilo que se oferece, diferindo o olhar revelador da era antiga daquele da era moderna, como se a autorrevelação do ser sempre suscitasse o olhar revelador que lhe é apropriado.
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Quanto mais vigorosa a autorrevelação do ser, menos ativo seria o olhar por parte dos humanos, e mais receptivo poderia ser — o que é verdadeiro em certo sentido: os gregos eram acolhedores, ao passo que nós, na era moderna, desconfiamos das aparências e construímos, na ciência, nosso próprio substituto para o mundo aparente.
6. De perspectiva heideggeriana, porém, requer-se de fato maior poder revelador para olhar as coisas de modo acolhedor e humilde, de modo que o desvelamento mais forçoso do ser, por parte deste, na verdade suscita um olhar mais forçoso, mais ativo, por parte dos humanos.
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A retirada do ser nos subtrai esse olhar forçoso, sendo a construção científica da realidade, característica da era moderna, na verdade menos ativa que a sensibilidade grega ao que é simples; os olhos verdadeiramente reveladores são os sintonizados com o que é simples e ingênuo, sendo a construção moderna da realidade científica, em comparação, débil em sua tentativa de compensar a falta desses olhos.
Técnica e verdade
1. Cabe perguntar aonde se chegou ao falar de deuses e deusas, do ser em geral, da verdade, do olhar do ser, da compreensão do ser que requer um olhar revelador por parte dos humanos, e o que tudo isso tem a ver com a técnica, sendo esta, aparentemente, questão de fazer coisas, de fins e meios, isto é, de instrumentalidade.
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Segundo Heidegger, tem tudo a ver com a verdade: perguntando-se pela técnica, chega-se a ἀλήθεια e ao olhar revelador; a essência da técnica tem a ver com o olhar revelador, respondendo-se que tem tudo a ver, pois todo produzir se funda no olhar revelador.
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A técnica não é, portanto, mero meio; é um modo — ou antes, o modo decisivo — de olhar revelador, abrindo-se, ao se atentar para isso, um âmbito inteiramente distinto da essência da técnica: o âmbito do olhar revelador, isto é, o âmbito da verdade.
2. Para Heidegger, a técnica é em essência nada mais que uma compreensão do que significa ser, dizendo respeito ao modo como entendemos o ser em geral, sendo o modo como pensamos o ser, isto é, o modo como entendemos o que é preciso para que algo — qualquer coisa — seja.
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A técnica é, assim, um assunto de filosofia primeira, de ontologia, sendo o que faz o Dasein ser Dasein: a técnica torna o Dasein um lugar onde o ser é compreendido.
3. Mais especificamente, a técnica é nosso modo de olhar revelador em resposta ao olhar do ser sobre nós, sendo o modo como desempenhamos nosso papel de parceiros do ser no desvelamento do que significa ser.
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A técnica nomeia o modo como olhamos de volta para o ser e confirmamos o que este nos oferece em seu próprio olhar, em sua autorrevelação — razão pela qual Heidegger diz que o âmbito da técnica é o âmbito da verdade: a técnica concerne à mais universal e básica de todas as verdades, o desvelamento do ser em geral, pré-requisito para todas as demais relações humanas com entes particulares.
4. A técnica é, assim, um assunto teórico, não prático, não se dirigindo primariamente a fazer coisas, fazer coisas, encontrar meios para fins, à instrumentalidade.
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Há um lado prático na técnica, mas este é secundário, decorrendo da compreensão teórica; a técnica relaciona-se, certamente, com fazer e produzir coisas, mas apenas porque a técnica é primeiramente uma compreensão do que as coisas são em geral.
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A técnica determina nosso fazer e produzir, mas apenas porque determina, antes de tudo, o que tomamos por coisa em geral; a técnica não é diretamente prática, mas apenas indiretamente: ao nos desvelar o que constitui os entes, provê-nos uma diretriz que governa todas as nossas relações com os entes, inclusive as práticas.
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É em virtude da verdade desvelada na técnica, isto é, em virtude de sua significação teórica, que a técnica é prática, podendo fazer coisas apenas em razão daquilo que vê, sendo o que vê aquilo que faz um ente ser um ente em absoluto.
5. A técnica é o desvelamento da essência das coisas, o ver o eidos de antemão, dizendo respeito à compreensão do ser requerida de antemão para qualquer relação humana com os entes, para qualquer atividade humana dirigida a eles.
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A técnica é, assim, comparável ao ver de antemão o eidos por parte de um artesão individual: assim como o artesão fabrica uma coisa em conformidade com a essência que contempla de antemão, a técnica em geral é a contemplação da essência de todas as coisas de antemão, à luz da qual os humanos fabricam coisas e podem tomar qualquer postura diante delas.
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A instrumentalidade ou o fazer coisas é, portanto, fenômeno secundário da técnica, tal como a fabricação efetiva da casa ou do cálice é assunto secundário e inferior em relação ao ver o eidos.
6. O que Heidegger entende por técnica é o assunto primário e superior, a saber, a compreensão teórica do ser em geral que guia todo o trato prático com os entes individuais; para ele, portanto, a técnica é primariamente um modo de olhar ou compreender, um desvelamento da verdade, não um modo de fazer, não instrumentalidade.
