User Tools

Site Tools


pensadores:rojcewicz:perigo

Perigo

ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006

Perguntar sobre e pedir por

1. A rubrica geral sob a qual Heidegger apresenta seu ensaio sobre a técnica é a de um questionar, um perguntar, não sendo, porém, de modo algum livre de problemas o sentido desse perguntar — e do possível responder.

2. O título do ensaio, “Die Frage nach der Technik”, pode ser tomado simplesmente como “a questão sobre a técnica”, sentido direto em que a tradução publicada verte o título, sendo a técnica o tema, visando o ensaio descobrir algo sobre ela — sua essência.

  • Nosso comentário chegou agora ao ponto em que o ensaio, nesse sentido direto de perguntar e responder, está completo: a essência da técnica moderna foi trazida à luz como com-posição (Ge-stell), como imposição totalmente abarcante.

3. O título pode, porém, ser tomado em sentido mais sutil: não um “perguntar sobre”, mas um “pedir por” a técnica, no sentido em que se pede por alguma pessoa, se pede para ver ou falar com alguém.

  • Quando uma empresária alemã retorna do almoço ao escritório, pode perguntar “Hat jemand nach mir gefragt?” — não “alguém tentou descobrir coisas sobre mim?”, mas “alguém pediu por mim?”, “alguém ligou desejando falar comigo?”.
  • O tema, a preocupação, aquilo para o qual esse perguntar seria empreendido, não é de modo algum a pessoa procurada, mas antes algum interesse de quem pergunta — quem liga não está indagando a essência da empresária, sendo esta mesma não o foco da conversa, mas sim os próprios assuntos de quem pergunta.

4. Se tomarmos o título de Heidegger nesse sentido de “pedir por”, ele não significa de modo algum “a questão sobre a técnica”; a questão não concerne à técnica, mas ao questionador, ao Dasein.

  • Responder à questão não é, então, simplesmente trazer a essência da técnica moderna à luz, mas antes resolver, com isso, alguma questão de interesse premente para o Dasein; nesse aspecto, o ensaio está de modo algum completo, tendo apenas trazido à luz a essência da técnica moderna sem ainda sequer termos enunciado nossas preocupações.

5. Não abordamos ainda a questão para a qual, segundo Heidegger, buscávamos conhecer a essência da técnica moderna em primeiro lugar, a saber, a questão de como devemos nos relacionar apropriadamente com essa essência — motivo ulterior já indicado por Heidegger no primeiro parágrafo do ensaio: aquilo a que a questão genuinamente concerne não é a técnica, mas nossa liberdade.

  • Pedimos pela técnica — a fim de preparar, com isso, uma relação livre com ela; se a relação há de ser livre, nosso Dasein deve estar aberto à essência da técnica; se então respondermos apropriadamente a essa essência, poderemos experimentar as coisas tecnológicas dentro de seus limites próprios.

6. Depois de determinada a essência da técnica moderna e, presumivelmente, aberto nosso Dasein a essa essência, Heidegger retorna ao motivo ulterior: pedimos pela técnica a fim de lançar luz sobre nossa relação com sua essência.

  • A essência da técnica moderna se mostra naquilo que chamamos com-posição, mas essa determinação não é de modo algum a resposta que buscamos ao pedir pela técnica, na medida em que responder significa responder apropriadamente, isto é, de modo apropriado à essência que pedimos para ver.

7. Para preparar essa resposta, e entender exatamente qual preocupação o Dasein tem na essência da técnica, Heidegger diz que precisamos dar “mais um passo” em nossa meditação, um passo a mais na reflexão sobre o que “a com-posição mesma enquanto tal é” — passo relacionado ao modo como a técnica moderna é nosso destino.

Destino enviado, história, cronologia

8. Em preparação a esse passo adicional, Heidegger repete o que já enfatizou ao longo de todo o texto: a técnica não é, em sua essência, uma coisa tecnológica, mas o modo como as coisas em geral se desvelam.

  • Do ponto de vista humano, a técnica é o modo como nós, em resposta à autorrevelação das coisas, olhamos reveladoramente para elas; o principalmente responsável pela técnica como compreensão do que significa ser em geral é o mostrar-se dos deuses, a autodoação do ser.
  • Nosso olhar revelador atual sobre as coisas como descartáveis é abarcado por uma imposição mais geral que dispõe de nós; o desvelamento das coisas como descartáveis não ocorre, portanto, num âmbito em algum lugar além de toda atividade humana, mas tampouco “ocorre exclusivamente no homem nem primariamente através do homem”.

9. Os humanos, em seu olhar revelador, são os seguidores, e o ser é o líder, sendo essa relação de liderar e seguir o que faz da técnica moderna, ou de qualquer técnica, um destino.

  • A essência da técnica moderna conduz os humanos ao caminho daquele olhar revelador pelo qual todas as realidades, mais ou menos perceptivelmente, se tornam descartáveis; conduzir a um caminho é o que nossa língua chama “enviar” (schicken).
  • Podemos, assim, nomear o envio totalmente abarcante, que conduz o homem a um caminho de olhar revelador, destino (das Geschick), sendo a esse respeito que a essência da história (die Geschichte) deve ser determinada.

10. As palavras alemãs para “destino” e “história” remetem etimologicamente à palavra para “enviar”; uma conexão etimológica não prova nada, e Heidegger jamais funda suas afirmações filosóficas na etimologia, mas a história de um termo pode ser altamente sugestiva.

  • O que Heidegger encontra corroborado é uma compreensão da história como um enviar e do destino como aquilo que é enviado; o destino é, para Heidegger, assunto ontológico — aquilo a que estamos destinados, mais fundamentalmente, é olhar para os entes como um todo de certo modo.

11. Isso — o modo como entendemos o que significa ser em geral — é o fundamento de toda vocação ulterior que possamos ter; nosso destino básico é simplesmente nossa ontologia, nossa compreensão do ser; sendo o conhecimento ontológico, para Heidegger, conhecimento tecnológico, pode também dizer que nossa técnica é nosso destino.

  • É destinado na medida em que o próprio ser está à frente; a ascendência da autorrevelação do ser sobre nosso próprio olhar revelador é precisamente o que, para Heidegger, faz de nosso destino, de nosso conhecimento ontológico, algo conduzido a um caminho ou enviado.

12. A história é quem envia, referindo-se ao evento da autorrevelação do ser, podendo essa autorrevelação mudar ao longo do tempo, em razão da aproximação ou retirada dos deuses, sendo esses eventos os genuinamente autônomos, os que enviam, os que destinam, e, portanto, históricos no sentido mais elevado.

  • O que ordinariamente chamamos história, o registro dos assuntos humanos, é, para Heidegger, mera “cronologia”; a atividade humana funda-se na compreensão humana do que significa ser, compreensão essa enviada e não autônoma, o que subordina a cronologia à história.
  • A história não é meramente objeto da cronologia, não o mero registro da atividade humana; é apenas como algo destinado que a atividade humana se relaciona com a história.

13. Se, atualmente, o histórico é identificado com o meramente humano, isso também deve ser questão de destino, incluído no envio da figura atual do ser como imposição totalmente abarcante, pois a com-posição nos motiva ou desafia a fazer de tudo nosso ob-jeto e a elevar nossa subjetividade humana como impositora de ob-jetos.

  • A figura atual do ser nos destinou a representar os entes precisamente como aquilo que é op-osto por nós e a nós, isto é, precisamente como ob-jetos; em nosso modo atual de olhar revelador, as coisas não são mais objetos autônomos, tornaram-se objetos postos e mesmo ob-jetos científicos.
  • Toda autonomia é agora vista como residindo do lado do sujeito humano; o ponto é que essa atitude equivale precisamente a uma alheiedade à história no sentido heideggeriano; é por conta de nossa atitude objetificante que tomamos a história como nada além de cronologia.
  • Fomos destinados a reduzir as coisas a ob-jetos; enquanto formos os sujeitos, os únicos sujeitos, o cronológico equivale ao histórico; assim, o destino de reduzir as coisas a objetos também reduz a história a cronologia — apenas o destino de assumir um modo objetificante de representação reduziu o histórico ao cronológico, isto é, o reduziu a objeto de ciência, tornando possível a atual equiparação do histórico com o cronológico.

Liberdade

14. Heidegger vinha tentando dar “mais um passo” na determinação da essência da técnica moderna, a fim de preparar nossa resposta a essa essência e ver que preocupação o Dasein tem, em primeiro lugar, na essência da técnica; o passo consistia numa compreensão da técnica como destino.

  • Tendo dado esse passo, podemos dizer: a com-posição, figura atual do ser, dispensa um destino, e esse destino é a técnica moderna, enviando-nos a com-posição por um certo modo de olhar reveladoramente para as coisas, pelo caminho de certa técnica, a saber, uma técnica impositiva.
  • A figura anterior do ser também dispensou um destino, uma técnica, embora muito diferente, a saber, a poiesis; ao desafiar-nos a uma perspectiva impositiva sobre as coisas, a com-posição nos envia pelo caminho de um olhar revelador; a com-posição dispensa um destino, tal como o faz todo modo da autorrevelação do ser; o trazer-à-frente, poiesis, também é destinado no sentido já delineado.

15. Isso significa simplesmente que o ser nos dispensa nosso destino; a com-posição, como todo modo da autorrevelação do ser, nos dispensa certo modo de olhar revelador — precisamente isso que Heidegger entende por destino.

  • A técnica moderna é um desses modos de olhar, e a poiesis, isto é, a técnica antiga, é outro; em cada caso, o que é destinado é nossa perspectiva teórica, nossa ontologia, isto é, nossa técnica.

16. Podemos, então, começar a ver qual preocupação o Dasein tem na essência da técnica: é a preocupação que qualquer um tem com seu destino, mas, para Heidegger, essa preocupação não é simplesmente o interesse natural que as pessoas têm em seu destino fático.

  • A preocupação é antes com o destino enquanto tal, com o sentido em que o Dasein é destinado — isto é, determinado — em vez de livre; a preocupação genuína é a liberdade.
  • O que está em jogo na essência da técnica não é o destino fático do Dasein, ou a possível ameaça à existência humana representada pelas coisas de alta tecnologia, mas a dignidade essencial do Dasein como agente livre, como determinador do destino, e não como escravo inteiramente sob o controle deste.
  • O ensaio de Heidegger pede pela essência da técnica a fim de levantar a questão da liberdade do Dasein — é a isso que a questão genuinamente concerne.

17. Para Heidegger, o ser jamais se impõe, e a parceria entre o ser e o Dasein é sempre genuína parceria em que ambas as partes fazem uma contribuição ativa — isto é, livre — ao desvelamento do sentido do ser.

  • O ser lidera, mas todo líder requer um seguidor; a dignidade do Dasein reside em seu papel como seguidor indispensável do ser, isto é, em ser o lugar requerido pelo ser para sua própria autorrevelação.
  • Para Heidegger, contudo, o que é indispensável não são meramente os poderes reveladores do Dasein, sua consciência ou inteligência, mas, ao contrário, sua liberdade; a dignidade do Dasein não reside simplesmente em seus poderes reveladores singulares, mas no exercício livre desses poderes.

18. O desvelamento dos entes sempre procede por meio de um olhar revelador da parte do homem; o destino de olhar reveladoramente de certo modo — este sempre impera sobre o homem, mas esse destino jamais é fado compulsório.

  • O homem é livre precisamente no modo como pertence indispensavelmente ao funcionamento do destino, a saber, dando ouvidos ao destino, em vez de ser meramente escravo dele.

19. A primeira frase é expressão sumária da indispensabilidade dos humanos para a autorrevelação do ser: o desvelamento dos entes ocorre necessariamente por meio da participação do Dasein.

  • O ser pode oferecer-se tão plenamente quanto possível, mas nenhum desvelamento surgirá sem um lugar preparado para receber essa oferta; não há doação sem aceitação, não há liderar sem seguir, não há desvelamento sem olhar revelador.

20. Heidegger identifica — ou, antes, reidentifica — o que é destinado nos humanos, a saber, seu olhar revelador, sua compreensão do sentido do ser em geral, afirmando que esse destino impera sobre o homem — imperar entendido como um enviar em certa direção.

  • A direção geral do olhar revelador da humanidade é determinada pelos eventos da história, pelas iniciativas do ser; os humanos são conduzidos pelo ser ao caminho de certa perspectiva geral quanto aos entes; o ser está à frente, e o destino impera sobre os humanos precisamente no sentido em que o ser lidera.

21. Mas o ser não lidera impondo-se sobre nós, o que significa que o ser é primariamente — mas não inteiramente — determinante do olhar revelador humano; os humanos são seguidores, mas ainda retêm a liberdade específica dos seguidores.

  • Liderar não é compelir, e é por isso que Heidegger observa imediatamente que o destino não é fado compulsório; o destino não é imposto por coerção, nem tampouco meramente oferecido de modo neutro, como uma entre muitas alternativas.
  • O ser se oferece com forte força motivadora, mas motivar jamais é compelir, e o destino, embora de fato primariamente fora das mãos humanas, não o está completamente; os humanos retêm certa liberdade restrita diante do destino, certa liberdade dentro de uma direcionalidade geral dada, certa liberdade sobre seu próprio destino.

22. Na última frase da passagem, Heidegger caracteriza essa liberdade em termos de ouvir: os humanos não ouvem o destino à maneira de um escravo que ouve uma ordem, sendo o que um escravo ouve de fato uma ordem — o escravo é precisamente aquele que não tem escolha senão escutar o senhor e obedecer.

  • Segundo a formulação precisa de Heidegger, os humanos não ouvem o destino pura e simplesmente, mas antes “dão ouvidos” a ele; os humanos “acolhem” o destino, concedem-lhe uma audiência, dão-lhe uma “escuta justa”; um escravo não concede audiência ao senhor, é forçado a escutar, ouvindo de modo inteiramente passivo, receptivo.

23. Não é assim que os humanos ouvem o ser: para que os humanos ouçam o ser, devem abrir-se ativamente a ele, devem sair ao seu encontro a meio caminho, devem fazer esforço para escutá-lo, devem se engajar com todos os seus poderes reveladores na busca do sentido do ser.

  • O ser não se impõe aos humanos, apenas suscita seu livre assentimento; o ser, ao contrário do senhor de um escravo, solicita uma escuta e não força os humanos a escutar; em termos já empregados, o ser é causa nutridora, causa suscitadora, e não causa eficiente, impositiva.
  • Se o ser é de fato ouvido, será, em parte, em razão de a humanidade lhe conceder livremente uma audiência; para Heidegger, o ser não pode se desvelar a menos que os humanos assintam a olhar reveladoramente; o ser não pode liderar a menos que os humanos concordem em ser seguidores.

24. Esse assentimento requerido é, para Heidegger, o domínio original da liberdade humana; todas as demais escolhas livres dependem dessa original, já que dependem de uma compreensão do que significa ser em geral — não podemos escolher a favor de algo sem algum senso de sua existência e, antes disso, algum senso de existência em geral.

  • O ponto crucial é que um senso de existência não pode ser forçado sobre os humanos, surgindo apenas se livremente aceito; essa aceitação é o exercício original da liberdade.

25. O Dasein é, assim, de fato requerido para a autorrevelação do ser, mas “requerido” deve ser tomado aqui de modo específico: o que é requerido é um lugar de desvelamento que livremente assinta em ser o lugar, que livremente assuma seu papel de lugar.

  • O que é indispensável ao funcionamento do destino não são meramente os humanos, ou as faculdades reveladoras humanas, mas a liberdade humana; a participação requerida no desvelamento do ser elevaria os humanos acima de todos os demais entes e seria fonte de dignidade humana.
  • Um escravo é requerido por um senhor, mas há pouca ou nenhuma dignidade em ser escravo; para Heidegger, os humanos não são escravos do ser, tendo a humanidade dignidade mais alta, que reside no fato de os humanos serem parceiros livres do ser, contribuintes genuínos para sua autorrevelação, e não meros receptores passivos, ali simplesmente para serem impostos pelo ser.
  • O que é requerido para que o ser lidere é, de fato, que os humanos sejam seguidores, mas ser seguidor do ser significa ser seguidor autêntico, receptor ativo, que livremente assinta ao pedido de escuta por parte do ser — é a noção de assentimento livre, de seguimento autêntico, que exprime, aos olhos de Heidegger, a dignidade e a alta vocação dos humanos.

26. Em que consiste, então, a liberdade humana? O exercício mais básico da liberdade nada mais é que a aceitação da autodoação do ser — esse é o sentido da afirmação heideggeriana de que “o homem é livre precisamente no modo como pertence indispensavelmente ao funcionamento do destino”.

  • A primeira de todas as liberdades é a decisão de olhar reveladoramente para os entes, pois isso inicia o funcionamento do destino; a primeira e mais básica escolha é abrir os próprios olhos e ouvidos aos entes, entrar em parceria com o ser, tornar-se um lugar onde surge uma compreensão do ser.
  • A primeira de todas as liberdades é a escolha de “estar ali” para o ser, que não é simplesmente ocupar certo lugar no espaço, mas deliberadamente tornar disponíveis os próprios poderes reveladores para a autodoação daquilo que significa ser; em outros termos empregados por Heidegger, a primeira escolha livre é a escolha de ser um ser-no-mundo.

27. A parte mais significativa dessa última expressão é a pequena palavra “em” (in), que deve ser tomada não no sentido físico, mas no sentido intencional, como quando uma pessoa “está em” esportes ou “está em” fotografia.

  • Ser um ser-no-mundo significa estar no mundo, engajado nele, interessado nele, entusiasmado com ele; significa perseguir o mundo com todo — ou ao menos algum — de seu poder.
  • O ponto essencial é que só se pode exercer livremente o próprio poder; entusiasmo ou interesse não podem ser compelidos; o ser, ou o mundo, pode nos atrair, suscitar nosso interesse, mas isso equivale simplesmente a um apelo à nossa liberdade — estar “em” o mundo, perseguir qualquer ente, é questão de escolha livre.

28. Que tipo de escolha é essa, a escolha de estar “em” o mundo? Certamente não é o que usualmente entendemos por escolha livre; não é escolha deliberada, explicitamente feita após pesar alternativas e deliberar sobre consequências; não é escolha volitiva no sentido usual.

  • A essência da liberdade não pertence originalmente à vontade e certamente não pertence apenas à causalidade do querer humano.

29. A escolha livre em questão, aquela que assente em receber a autorrevelação do ser, a escolha de conceder ao ser uma escuta, é a escolha que um ser humano faz de se tornar Dasein — ou de não se tornar Dasein.

  • Essa escolha não é exercício da vontade no sentido ordinário de assumir deliberadamente uma posição; é escolha implícita, feita no plano do sentimento, não da vontade, feita primeiro na infância e depois implicitamente reafirmada (ou, possivelmente, revogada) a cada dia.
  • Mais basicamente, é a escolha de se envolver de algum modo no mundo dos entes, em vez de se encapsular no próprio ego; nem todos os seres humanos fazem essa escolha, nem todos os humanos são Dasein, nem todos são seres-em-direção-ao-mundo, nem todos saem de si mesmos e se abrem ao ser — é questão de escolha livre.

30. Há humanos que se retiram do mundo para dentro de sua própria concha, ou que jamais exibem o menor interesse pelo mundo desde o nascimento — chamamo-los loucos, mas a loucura, como possibilidade peculiarmente humana, mostra que há todos os graus de engajamento humano no desvelamento do ser.

  • Do extremo do louco (o ponto nulo) ao outro extremo do filósofo (que faz do sentido do ser sua preocupação explícita); entre esses estão os modos cotidianos de compreender o que significa ser, todos normais, ordinários, medianos, contentes com uma apreensão cotidiana e implícita do ser.

31. Para Heidegger, os termos “ser humano” e “Dasein” não são equivalentes; é verdade que apenas humanos podem ser Dasein — Heidegger enfatiza que, em cada caso, o Dasein é próprio de algum ser humano, sendo em cada caso possuído por algum ser humano (o conceito de “propriedade”, Jemeinigkeit).

  • Heidegger jamais diz, contudo, que todo ser humano é Dasein, que um ser humano é em cada caso Dasein; os conceitos não são conversíveis, sendo Dasein o termo mais restrito, restrito àqueles humanos que livremente escolhem ser Dasein.
  • Essas são quase todas as pessoas, tendo quase todas alguma compreensão do que significa ser, mas permanece a possibilidade de formas extremas de existência humana, como a loucura severa, vividas em total esquecimento do mundo dos entes.
  • É a esse propósito que se compreende a afirmação heideggeriana de que a liberdade é assunto ontológico: é ao acontecer do desvelamento, isto é, ao acontecer da verdade, que a liberdade está na mais próxima e íntima parentela.

32. O que Heidegger está dizendo aqui é que a liberdade é requerida para o acontecer da verdade, isto é, para a autorrevelação do ser; a liberdade diz respeito primariamente à ontologia — não haveria destino, ontologia, olhar revelador voltado aos entes, técnica, sem o exercício da liberdade humana.

  • Já que o olhar revelador faz o Dasein ser Dasein, podemos dizer que não haveria Dasein a menos que esse modo de existência fosse livremente escolhido; a escolha livre primordial é olhar reveladoramente, abrir-se ao ser, mostrar interesse pelos entes, entrar “em” o mundo, ser Dasein — ou não.

33. Heidegger fala dessa escolha livre em termos de um olhar revelador dentro de um espaço aberto; o exercício primordial da liberdade é entrar numa clareira, numa campina iluminada, e olhar reveladoramente para o que ali se ilumina.

  • A liberdade se realiza num espaço aberto, entendido como campina iluminada, isto é, no desvelamento; todo desvelar supera um fechar e um velar; contudo, aquilo que abre o espaço aberto — o mistério — está velado e sempre se velando.
  • Todo olhar revelador provém de um espaço aberto, vai a um espaço aberto e nos traz a um espaço aberto; a liberdade de entrar no espaço aberto não consiste no arbítrio ilimitado do livre-arbítrio, nem está simplesmente ligada a ocorrer por lei.
  • A abertura do espaço aberto vela ao iluminar; na campina iluminada flutua o véu que oculta a essência de toda verdade, e ainda assim, na campina, o próprio véu aparece como ocultante; a abertura do espaço aberto é o domínio do destino, e o destino traz, em cada caso, um olhar revelador por certo caminho.

34. Uma imagem preferida do Heidegger tardio é a de uma clareira (Lichtung), campina aberta ao sol numa floresta densa; os humanos só podem olhar reveladoramente para aquilo que se mantém na luz.

  • Uma coisa deve manter-se num espaço aberto e iluminado para estar disponível a nós; aquilo que provê a luz, a área aberta, é o ser, sendo a autodoação do ser a campina dentro da qual podemos ver os entes.
  • A compreensão do que significa ser é a noção geral em termos da qual podemos apreender qualquer ente particular; qualquer ente particular só pode ser apreendido se o ser em geral já se nos desvelou; esse desvelamento do sentido do ser em geral é a clareira.

35. O ser pode, sim, oferecer-se, formar um espaço aberto e clareado para que os entes sejam visíveis, lançar luz sobre os entes, mas nenhum desvelamento surgirá a menos que os humanos façam o esforço de entrar na clareira, abram os olhos à luz, atentem para o que se mantém na luz.

  • Entrar na clareira, aceitar a autodoação do ser, é, para Heidegger, o exercício primordial da liberdade humana; esse exercício da liberdade torna o humano um ente revelador, isto é, torna o humano Dasein — é assim que a liberdade está na mais íntima parentela com o acontecer do desvelamento.

36. É necessária leitura muito atenta para reconhecer que Heidegger usa aqui a palavra Freiheit (“liberdade”) em dois sentidos: por um lado, refere-se à liberdade humana; por outro, Heidegger caracteriza a campina iluminada como das Freie, o “espaço aberto”, falando então de die Freiheit des Freien.

  • Isso significa “a abertura do espaço aberto” e refere-se não à liberdade humana, mas à autodoação do ser; os dois sentidos de Freiheit estão relacionados, mas devem também ser mantidos distintos, ou a passagem se tornará irremediavelmente confusa.

37. Heidegger diz que “aquilo que abre o espaço aberto — o mistério — está velado e sempre se velando”; o ser é aquilo que abre o espaço aberto ou ilumina a campina iluminada, e o ser é o mistério.

  • O que há de mais misterioso nele é precisamente que abre e vela ao mesmo tempo; assim como a luz é aquilo pelo qual vemos, mas que quase sempre recua em favor das coisas vistas na luz, também o ser se oferece apenas para se retirar em favor daquilo que torna apreensível, os entes.
  • O ser está mais próximo de nós, mas seu modo de autodoação nos motiva a contorná-lo em favor daquilo que vem em seguida mais próximo, os entes; na maior parte das vezes negligenciamos o ser, negligenciamos o espaço aberto, em favor dos entes que se mantêm nesse espaço.
  • A compreensão do sentido do ser em geral deve vir primeiro — é a condição de possibilidade de apreender qualquer ente —, mas ordinariamente deixamos o sentido do ser implícito e atendemos, em vez disso, ao que vem em segundo lugar, os entes individuais; é assim que o ser vela ao iluminar.

38. A referência de Heidegger ao véu, na passagem em questão, é agora inteligível: na campina iluminada flutua um véu; as palavras “flutuar” e “véu” estão bem escolhidas, implicando ambas um jogo de velar e revelar.

  • Na campina, “a essência de toda verdade” está velada; a essência da verdade é o autodesvelamento do ser, velado no sentido de que o ser jamais se apresenta plena e abertamente, recuando ou se retirando em favor dos entes.
  • O ser se oferece de modo que nos motiva a negligenciá-lo; por outro lado, na campina “o próprio véu aparece” como ocultando o ser: o ser se vela de tal modo que vemos o véu pelo que é, precisamente como flutuando sobre o ser.
  • Ver um véu flutuando sobre algo é vislumbrar aquilo que ele cobre; um véu — como numa dança de véus — é meio de flerte, destinado a ocultar, mas de tal modo que revela que algo de fato ali está para ser ocultado.

39. O que Heidegger diz é que é desse modo insinuante, revelador/velador, que o ser se oferece a nós: o ser mostra-se, sim, é-nos concedida alguma compreensão dele, mas apresenta-se apenas através de um véu, isto é, num vislumbre sedutor.

  • Nossa escolha livre é precisamente seduzida; somos seduzidos a entrar no espaço aberto e olhar reveladoramente, convidados pelo ser a entrar numa parceria reveladora com ele; nossa escolha de fazê-lo é livre, mas essa escolha não é questão do “arbítrio ilimitado do livre-arbítrio”, nem, por outro lado, está “ligada a ocorrer por lei”.

40. Não é nem inteiramente livre nem inteiramente compelida: é seduzida ou motivada; o exercício original de nossa liberdade é resposta a um convite, é uma aceitação (ou recusa) da autodoação do ser.

  • Somos motivados a ser entes reveladores, seduzidos ao domínio do destino, ao domínio do desvelamento; ainda assim, motivar não é compelir; o destino, nas palavras de Heidegger, não é fado compulsório.
  • Isso significa que nosso destino não nos governa à maneira de um determinismo estrito, mas, num plano mais fundamental, significa que nem sequer somos compelidos a ter um destino; o próprio destino não é compulsório.
  • Ter um destino, possuir uma compreensão do sentido do ser, entrar numa clareira aberta, ser Dasein — são todos sinônimos, e ocorrem, se e quando ocorrem, por nossa escolha livre, por nosso livre assentimento à autodoação do ser.

41. Heidegger conclui a passagem juntando seu início e seu fim, unindo liberdade humana, abertura do espaço aberto, destino e desvelamento: a liberdade humana se realiza num espaço aberto, e a abertura do espaço aberto é “o domínio do destino, e o destino traz, em cada caso, um olhar revelador por certo caminho”.

  • A liberdade humana se realiza, ou se exerce primordialmente, na escolha de entrar no espaço aberto, aquele iluminado pela autorrevelação do ser; a escolha livre primordial é o assentimento a ser parceiro revelador do ser, a olhar reveladoramente para o que se ilumina no espaço aberto.
  • Esse espaço aberto é o domínio do destino, já que nosso destino equivale fundamentalmente à nossa compreensão do que significa ser em geral; entrar no espaço aberto é aceitar certo destino, certa autorrevelação do ser.
  • O destino, em cada caso, coloca o destinado no caminho de certo olhar revelador sobre as coisas; é assim que, para Heidegger, liberdade, espaço aberto, destino e desvelamento se pertencem mutuamente: a autodoação do ser é a abertura do espaço aberto; a escolha livre primordial é aceitar (ou declinar) o convite a entrar no espaço aberto e olhar reveladoramente; aceitar o convite é tornar-se Dasein, tornar-se um ser-em-direção-ao-mundo, tornar-se lugar onde o sentido do ser em geral é compreendido — em suma, é assumir um destino.

Apressar

42. Retorna-se, assim, ao conceito de destino e à visão heideggeriana de que os humanos, embora destinados, não são por isso privados de liberdade; ao contrário, o destino requer mesmo a liberdade humana.

  • O destino, como assunto ontológico, como questão da compreensão do sentido do ser, requer um livre exercício de olhar revelador por parte dos humanos; esse é o primeiro, e mais original, sentido da afirmação heideggeriana de que o destino não é fado compulsório.
  • Significa que os humanos não são compelidos a ter um destino; em outras palavras, os humanos não são compelidos a ser Dasein, a entrar na clareira aberta, a olhar reveladoramente, a ver as coisas, a estar “em” o mundo; o destino, a cumplicidade da humanidade na autorrevelação do ser, deve ser livremente escolhido.

43. Para Heidegger, é claro, a liberdade humana não se esgota na escolha de aceitar a autodoação do ser — essa é a primeira de todas as liberdades, mas apenas a primeira; ao escolher livremente entrar numa parceria reveladora com o ser, assumimos um destino, tornamo-nos destinados.

  • Mas o destino não é fado compulsório, agora entendido num segundo sentido; o destino nos traz ao caminho de certa compreensão geral da essência das coisas, isto é, o destino impera em geral; em nossa época atual, a com-posição impera, de tal modo que somos fortemente seduzidos a ver as coisas como descartáveis.
  • A autorrevelação do ser é a principal responsável pela aparência atual das coisas, e não poderíamos, por nós mesmos, alterar radicalmente essa aparência; nossa liberdade é limitada, já que o ser desempenha o papel principal na parceria que constitui o desvelamento.

44. Para Heidegger, contudo, essa é uma genuína parceria, e não somos compelidos a seguir passivamente; somos parceiros livres, e temos, de fato, influência sobre o modo como as coisas em geral se mostram.

  • Não podemos arrancar do ser um novo modo de desvelamento, mas podemos exercer influência mais sutil; não podemos impor, mas podemos nutrir; para dizê-lo preliminarmente, o que somos livres para fazer é apressar — isto é, apressar (ou impedir) o advento de uma nova época no próprio autodesvelamento do ser.

Perdição

45. O restante do ensaio de Heidegger sobre a técnica dedica-se a elaborar esse segundo sentido em que o destino não é fado compulsório, isto é, o sentido em que somos livres em relação à técnica moderna, uma vez que livremente entramos na clareira iluminada e aceitamos a autorrevelação do ser como com-posição.

  • Consentir em seguir o ser, assumir um destino, não é entregar-se a um curso doravante inevitável; retemos certa liberdade — Heidegger deseja estabelecer isso desde o início; assim, repete sua visão de que é nosso destino perseguir a técnica moderna, olhar reveladoramente para as coisas de certo modo, mas enfatiza que destino não é perdição (Verhängnis).
  • A essência da técnica moderna repousa sobre a com-posição; a com-posição pertence ao destino de olhar reveladoramente de certo modo; essas frases exprimem algo diferente da tagarelice frequentemente proclamada de que a técnica é a perdição de nossa época, onde “perdição” implica a inevitabilidade de um curso inalterável.

46. Heidegger distingue também o destino de “constrangimento”: nosso destino é olhar reveladoramente de certo modo, o modo da técnica moderna, mas esse destino “de modo algum nos constrange, à maneira de uma compulsão debilitante, a perseguir a técnica precipitadamente ou — o que dá no mesmo — a nos rebelar impotentemente contra ela e amaldiçoá-la como obra do demônio”.

  • Não somos, portanto, compelidos a nos entregar totalmente à técnica moderna; mas tampouco a oposição confrontacional a ela é o exercício próprio da liberdade humana; ser totalmente contra a técnica “dá no mesmo” que capitular totalmente a ela.

47. Poder-se-ia dizer que rebelar-se contra a técnica é de fato uma espécie de capitulação a ela, um modo de entregar-lhe a própria liberdade, já que rebelar-se ainda é estar inteiramente dominado por aquilo contra o que se rebela.

  • Heidegger diz alhures que “tudo que é 'anti' pensa no espírito daquilo contra o que é 'anti'”; ser “anti” técnica não é assumir uma posição livremente escolhida perante ela, é deixar a própria técnica ditar os termos do engajamento.
  • É ainda estar governado pela técnica, ainda pensar no espírito da técnica, ainda ver as coisas como descartáveis, exceto que agora os descartáveis recebem valor negativo; capitulação e rebelião são os lados positivo e negativo da mesma moeda, da mesma perspectiva básica sobre as coisas.

48. Um se volta para os descartáveis e o outro se afasta, mas ambos precisam ver as coisas como descartáveis para se orientar; capitulação e rebelião são ambas precipitadas (blindlings = cegas a tudo o mais), impulsivas, irrefletidas: uma obedece irrefletidamente, a outra resiste impulsivamente.

  • Para Heidegger, ambas são atitudes escravas, heterônomas, tirando sua lei de fora; a relação genuinamente livre com a técnica moderna deve ser mais autêntica, deve envolver atitude autônoma, autoescolhida.

49. Qual seria, então, a relação propriamente livre com a técnica? Presumivelmente situar-se-á em algum lugar entre a capitulação e a rebelião; para entender o que ela poderia ser em concreto, precisamos primeiro ver como a técnica moderna representa uma ameaça à nossa liberdade.

O perigo

50. Heidegger lança agora extensa discussão do perigo inerente à técnica moderna, devendo-se sublinhar que, para ele, a ameaça não é simplesmente à existência humana.

  • O perigo principal não é que dispositivos de alta tecnologia possam fugir ao controle e devastar seus criadores por meio de derramamento radioativo ou holocausto nuclear totalmente abarcante; o perigo não é que, ao descartar tantos descartáveis, contaminemos o planeta e o tornemos inabitável.
  • Para Heidegger, o perigo — o perigo principal — não reside nas coisas tecnológicas, mas na essência da técnica; as coisas tecnológicas são, sim, perigosas; a exploração desenfreada dos recursos naturais é deplorável; a contaminação ambiental é trágica.

51. Precisamos conservar e impedir que as coisas de alta tecnologia disponham de nós; contudo, para Heidegger, a conservação, por si só, não é a resposta, não sendo radical o bastante, visando às coisas — tecnológicas e naturais —, mas não tocando a perspectiva ou atitude básica que é a essência da técnica moderna, sendo ali que reside o perigo.

  • Pode muito bem ser que a conservação tenha sucesso e que a técnica resolva seus próprios problemas produzindo coisas seguras e não poluentes; ainda assim, o perigo principal, que se situa mais fundo, permanecerá, pois o perigo não é primariamente à existência dos humanos, mas à sua essência.
  • A ameaça ao homem não vem em primeira instância dos efeitos potencialmente letais das máquinas e dispositivos da técnica; a ameaça genuína já afetou os humanos — em sua essência.

52. Em certo sentido, a ameaça inerente à técnica moderna já se cumpriu; embora tenhamos até agora evitado um desastre nuclear, isso não significa que a ameaça genuína tenha sido evitada; os humanos ainda existem, ainda não estão na lista de espécies ameaçadas.

  • Seria, claro, trágico se os humanos entrassem nessa lista; mas, para Heidegger, poderia haver algo mais trágico ainda: os humanos continuarem a viver, mas perderem sua dignidade humana, que provém de sua essência.
  • Aqui reside o perigo principal, não o representado pelas coisas tecnológicas, mas pelo olhar revelador que constitui a essência da técnica moderna; o perigo principal é que os humanos possam se tornar (e de fato já estejam se tornando) escravizados a esse modo de olhar revelador.
  • O que está principalmente em perigo é a liberdade humana; se os humanos continuassem a viver, mas se deixassem transformar em escravos, essa seria a tragédia genuína.

53. O perigo na técnica moderna é que os humanos possam falhar em se ver como seguidores livres, falhar em ver os desafios dirigidos à sua liberdade pela figura atual do ser, e falhar em ver as possibilidades genuínas que se lhes abrem para elaborar seu destino.

  • Então, não vendo sua liberdade, os humanos não a protegerão; deixá-la-ão escapar e se tornarão meros seguidores, passivamente impostos pela técnica moderna, escravos dela, meras engrenagens na máquina.

54. Para Heidegger, há uma conexão essencial entre ver e liberdade; a saída da escravidão começa pelo ver, pela perspicácia; mas é a coisa certa que deve ser vista, a saber, a própria condição.

  • O perigo é que os humanos possam aperfeiçoar seus poderes de ver científico e ainda assim serem cegos àquilo em que residem sua dignidade e liberdade, a saber, todo o domínio do desvelamento e seu papel nele; os humanos então se apresentariam como “senhores da terra”, e ainda assim sua autocegueira os tornaria escravos.

O perigo mais elevado

55. Que o precedente nos sirva de guia ao percorrer o relato heideggeriano do perigo; em geral, o perigo tem a ver com o desvelamento e o olhar revelador — ameaçado está o olhar revelador próprio por parte dos humanos, a resposta humana própria à autodoação do ser.

  • Há sempre o perigo de que os humanos desempenhem inautenticamente seu papel de parceiros do ser; o olhar revelador humano como tal está ameaçado — em cada uma e em todas as épocas da história do ser: o destino de olhar reveladoramente é, como tal, em cada um de seus modos, e portanto necessariamente, perigo.
  • Seja qual for o modo em que o destino de olhar reveladoramente imperar, o respectivo desvelamento em que os entes se mostram abriga o perigo de que os humanos possam mal interpretar o que é desvelado e o interpretem erroneamente.

56. Mesmo na primeira época da história, quando o ser se apresentava mais plenamente aos gregos, havia perigo, pois ainda era requerida uma resposta humana livre à autorrevelação do ser; os gregos poderiam ter mal-visto (ver-gesehen, “mal-visto”) o que lhes era oferecido.

  • Os gregos não foram compelidos a olhar reveladoramente do modo apropriado; não foram compelidos a ser seguidores autênticos, a receber a autodoação do ser com o exercício próprio de seus poderes reveladores.
  • Para Heidegger, os humanos são sempre livres em seu papel de parceiros do ser, livres para reconhecer e aceitar seu papel subsidiário, como fizeram os gregos, e também livres para endurecer seus corações e se apresentarem como senhores, tal como fazem hoje.
  • Há sempre perigo, sempre um apelo à liberdade humana, embora sem dúvida fosse mais fácil para os antigos responder apropriadamente, em razão da autodoação mais plena do ser a eles; quando o ser é reticente, o perigo se intensifica: quando, porém, o destino impera no modo da com-posição, é o perigo mais elevado.

57. O perigo atual, intensificado, atesta-se em dois respeitos; o primeiro concerne à relação dos humanos com as coisas e consigo mesmos: assim que o homem já não tem a ver com os entes desvelados como objetos autoestantes, mas exclusivamente como descartáveis, e o homem, em meio à ausência de objeto, é nada mais que o impositor sobre descartáveis, então chega à beira extrema do precipício, isto é, chega ao ponto de tomar a si mesmo meramente como um dos descartáveis.

  • Enquanto isso, o homem, precisamente como aquele assim ameaçado, pavoneia-se, apresentando-se como senhor da terra; assim se espalha a ilusão de que tudo o que o homem encontra existe apenas na medida em que é seu construto.
  • Essa ilusão dá à luz um último engano: parece que o homem em toda parte e sempre encontra apenas a si mesmo; Heisenberg apontou com toda correção que a realidade deve se apresentar assim ao homem contemporâneo.
  • Em verdade, porém, precisamente em lugar nenhum o homem hoje ainda encontra a si mesmo, isto é, sua essência; o homem está tão decisivamente à espreita do desafio da com-posição que não percebe a com-posição como uma reivindicação, falhando em se ver como aquele nela reivindicado, e falhando, por conseguinte, em toda medida, em entender até que ponto ele ek-siste, por sua própria essência, no âmbito de uma reivindicação a ele dirigida, de modo que jamais pode encontrar apenas a si mesmo.

58. Por que, segundo Heidegger, os humanos jamais podem encontrar apenas a si mesmos? Como poderia surgir tal engano — que os humanos em toda parte e sempre encontram apenas a si mesmos? Por que é hoje até mesmo um engano forçoso, a ponto de Heisenberg insistir nele em sua conferência não como engano, mas como verdade?

  • Para Heidegger, é um engano, mas um que possui certa necessidade: surgirá na época presente enquanto os humanos não encontrarem genuinamente a si mesmos; isto é, se, em nossa era tecnológica, os humanos são alheios à sua essência, mal-interpretarão a si mesmos como autores dos descartáveis ao seu redor.
  • A própria técnica será tomada em sentido antropológico, como produto humano, e as coisas tecnológicas parecerão inteiramente feito humano, inteiramente um construto humano; mesmo as coisas naturais parecerão construtos humanos, já que, segundo o princípio de indeterminação de Heisenberg, não temos acesso a uma suposta natureza independente.

59. A natureza é agora abstrata, reduzida a fórmulas científicas de nossa própria concepção; o que quer que as fórmulas apliquem-se é desconhecido; assim, todas as coisas, as ditas naturais e as feitas pelo homem, são nossa própria obra; são espelhos em que nos vemos, vemos nossa própria atividade criativa.

  • É assim que necessariamente encontraríamos apenas a nós mesmos, onde quer que olhássemos; se nos tomamos por senhores de todas as coisas, então, não importa o que encontremos, não encontraremos coisas autônomas, nenhum objeto autoestante, mas apenas a nós mesmos, apenas nossas próprias criações, apenas os resultados de nosso próprio domínio.

60. Para Heidegger, é claro, não somos os senhores, e assim as coisas não são nossos construtos; difere ele de Heisenberg toto caelo: mesmo as coisas de alta tecnologia, descartáveis, quanto mais as coisas da natureza, não são nossos construtos.

  • As coisas de alta tecnologia não são nossas criações, não são espelhos em que nos contemplamos; nessas coisas jamais encontramos apenas a nós mesmos; sendo o ser o senhor, a com-posição é a genuína autora dos descartáveis; ao encontrá-los, deveríamos encontrar o ser, não a nós mesmos — deveríamos, exceto pelo fato de sermos alheios ao âmbito do desvelamento e a nosso papel subserviente nele.

61. Segundo Heidegger, a imposição humana sobre as coisas é uma resposta — resposta a uma imposição mais abarcante que provém de além da humanidade; os humanos, em sua atividade impositiva, são reivindicados pelo ser em sua figura atual.

  • Isso significa que os humanos, ao olharem para as coisas como descartáveis — e subsequentemente as tornarem descartáveis efetivos —, apenas seguem a direção da autorrevelação do ser.
  • Nas palavras já citadas de Heidegger, o homem “ek-siste, por sua própria essência, no âmbito de uma reivindicação a ele dirigida”; a essência dos humanos consiste em estar fora de si mesmos (ex-stare) ao se relacionarem com algo que vem em sua direção, isto é, algo que se origina além deles.
  • A essência dos humanos é estar no lado receptor de uma reivindicação ou interpelação; a essência dos humanos é ser seguidores da direção do ser; na medida em que os humanos são cegos a essa essência, ver-se-ão como líderes, reivindicantes, senhores, e então parecerão encontrar apenas a si mesmos — mas isso será um engano.

62. Assim, o primeiro perigo é que os humanos caiam (ou já tenham caído) vítimas desse engano, a saber, o de serem senhores de todas as coisas; em outros termos, os humanos são aqui vitimados pela experiência ilusória de liberdade absoluta, domínio completo, capacidade de impor sua vontade em toda parte.

  • Para Heidegger, essa atitude é um engano, pois, ao tentar ser senhor, os humanos estão de fato inteiramente “à espreita do desafio da com-posição”; isto é, impor-se às coisas é, na verdade, cumprir passivamente as exigências colocadas aos humanos pelo ser em sua figura atual.
  • Impor-se aos descartáveis, perseguir a técnica precipitadamente, é, na verdade, entregar a própria liberdade à imposição totalmente abarcante — é ser escravo dessa imposição totalmente abarcante.

63. Esse primeiro engano, o do domínio sobre as coisas, também representa perigo para a relação dos humanos consigo mesmos; como diz Heidegger no início da passagem em questão, em nossa atitude impositiva as coisas não são mais objetos autoestantes, tornando-se ob-jetos postos.

  • Como postos, os ob-jetos não têm autonomia; são inteiramente determinados de fora, por quem os põe; ora, se os humanos veem todas as coisas como determinadas, os humanos estão à beira de uma compreensão de si mesmos nos mesmos termos.
  • Os humanos serão tentados a aplicar sua ciência a si mesmos e assim se reduzirem às fórmulas que aplicam às coisas; como coisas determinadas, os humanos se tornarão o resultado de forças exteriores.

64. Então, por exemplo, os humanos se entenderão como computadores, talvez complexos, mas com sua saída ainda inteiramente determinada por sua entrada; essa entrada tomará a forma de várias forças exteriores, tais como sociais, biológicas e psicológicas.

  • Os humanos se tornarão os ob-jetos de suas próprias ciências de sociologia, biologia e psicologia; os humanos se verão como incluídos entre outros descartáveis, postos por forças exteriores sobre as quais não têm controle algum.
  • Consequentemente, os humanos se verão não como senhores, mas como escravos, não livres, mas determinados, meras engrenagens na grande máquina de forças ao seu redor.

65. Essa última visão é também um engano; não é menos ilusório pensar-se inteiramente carente de liberdade do que se considerar absolutamente livre; para Heidegger, esses dois enganos — o concernente à relação humana com as coisas (humanos como senhores de todas as coisas) e o concernente à relação dos humanos consigo mesmos (humanos como coisas descartáveis) — fundam-se num mal-entendido, ou numa alheiedade, quanto a uma relação mais básica, a saber, a relação dos humanos com o ser.

  • O que mais está oculto na era da técnica moderna é a relação entre a autorrevelação do ser e o olhar revelador humano; esse ocultamento é o segundo respeito em que se atesta o perigo de nosso destino atual.

66. A com-posição não simplesmente ameaça o homem em sua relação com as coisas e consigo mesmo; como destino, relega o homem ao tipo de olhar revelador que é uma imposição, e onde este impera, desapropria toda outra possibilidade de olhar revelador.

  • Sobretudo, a com-posição oculta aquele olhar revelador que, no sentido da poiesis, deixa as coisas virem à frente na visibilidade; comparada a isso, a imposição que desafia lança o homem numa relação rigidamente oposicional às coisas.
  • Quando a com-posição impera, o controlar e dominar dos descartáveis permeiam completamente todo olhar revelador e nem sequer deixam aparecer aquilo que caracterizam, a saber, esse olhar revelador como olhar revelador.
  • Assim, a com-posição desafiadora não apenas oculta um modo anterior de olhar revelador (o trazer-à-frente), mas também oculta o próprio olhar revelador e, junto com ele, Aquilo pelo qual o desvelamento, isto é, a verdade, ocorre.

67. O “Aquilo” pelo qual o desvelamento ocorre é o ser; a verdade ou desvelamento ocorre primariamente em razão da autodoação do ser, sendo o olhar revelador a resposta humana à autorrevelação do ser.

  • Heidegger está dizendo aqui que a técnica moderna oculta o modo como esses dois — o olhar revelador humano e o desvelamento do ser — caminham juntos; o que está oculto hoje é a parceria entre o ser e os humanos quanto à compreensão do que significa ser em geral.
  • A perspectiva característica da técnica moderna obscurece essa parceria reveladora; mais importante ainda, engana-se quanto aos papéis de líder e seguidor nessa parceria; para Heidegger, a parceria reveladora é o domínio da essência dos humanos, e o papel humano no desvelamento é o lócus da dignidade e liberdade humanas.

68. Aí reside o perigo, pois, se os humanos não veem sua essência, se se enganam quanto a sua liberdade, também não verão como cumprir sua essência e como exercer sua liberdade; os humanos nem mesmo verão como a técnica moderna ameaça sua liberdade — sua alheiedade colocará os humanos em perigo de abandonar sua liberdade e se tornar escravos cegos.

69. Cabe perguntar primeiro como a essência da técnica moderna oculta o olhar revelador humano e a relação entre esse olhar e o autodesvelamento do ser; Heidegger diz que a perspectiva impositiva “desapropria” todos os outros modos possíveis de olhar revelador.

  • Em particular, a imposição desapropria a poiesis, ou, como Heidegger também dirá, depõe (verstellt) a poiesis; a ideia essencial aqui — sobre a qual se apoiará a próxima redeterminação heideggeriana do próprio sentido de essência — é que os dois tipos de olhar revelador não existem concomitantemente, com um meramente gozando de ascendência sobre o outro.
  • A imposição desapropria ou depõe a poiesis não apenas destronando-a, mas indo além e exilando-a; quando a imposição impera, a poiesis nem sequer se apresenta mais como possibilidade; a imposição toma o campo inteiro do olhar revelador e expulsa dele a poiesis.
  • A imposição desapropria a poiesis no sentido literal de deixá-la sem posses, sem direitos; hoje, por exemplo, as causas finais foram desapropriadas nesse sentido, assim como a noção de que a matéria poderia estar prenhe de uma forma.

70. A diferença geral entre os dois modos de olhar revelador é, naturalmente, que a imposição vê as coisas como ali para serem dominadas, ao passo que a poiesis vê as próprias coisas como dominantes, isto é, como exigindo respeito e coadjuvação.

  • O modo poiético da técnica é piedoso, é obstetrícia, deixando ativamente as coisas virem à frente; o modo impositivo é o imperioso, de controle e dominação.

71. Para Heidegger, a atitude controladora e dominadora da técnica moderna desapropria a poiesis e, com isso, desapropria toda a noção de uma parceria reveladora entre o ser e os humanos; a imposição toma tão completamente o campo do olhar revelador que o próprio fenômeno do olhar revelador se encobre.

  • Quando a com-posição impera, o controlar e dominar dos descartáveis permeiam completamente todo olhar revelador e não deixam aparecer aquilo que caracterizam, o olhar revelador como olhar revelador — a técnica moderna está tão empenhada em controlar e dominar as coisas que só vê como fazer e manipular descartáveis, sem se ver a si mesma, de uma perspectiva de fora, mais abarcante.

72. A técnica moderna é entendida hoje como assunto prático e como feito puramente humano; é um modo de fazer ou produzir coisas, inteiramente de criação humana — essa é a visão instrumental e antropológica da técnica de que Heidegger falou no início do ensaio.

  • Essa visão é antropológica — ou, melhor, antropocêntrica — no sentido de olhar para a técnica inteiramente da perspectiva humana, sendo hoje, para Heidegger, todas as demais perspectivas desapropriadas; a visão antropológica ou humanista considera os humanos os autores da técnica, os sujeitos da técnica (no sentido dos únicos responsáveis por ela).
  • Nessa visão, os humanos são autônomos, os que controlam, os dominadores, os que põem, e as coisas são inteiramente passivas, meramente ali para serem impostas.

73. Para Heidegger, essa atitude dominadora e impositiva não se deixa ver “como olhar revelador”; a técnica moderna pode muito bem aparecer em seu caráter impositivo, mas não se mostra como olhar revelador.

  • O que isso significa? Heidegger introduziu o conceito de olhar revelador em sua discussão da técnica antiga; é o correlato da aletheia, a qual nomeia a autorrevelação do ser, a autodoação do ser, sendo o olhar revelador a apropriação humana dessa oferta.
  • Para Heidegger, a técnica é esse olhar revelador e é, assim, primariamente teórica, assunto de ver ou compreender, e apenas secundariamente prática; ainda assim, o ocultamento do caráter basicamente teórico da técnica moderna seria, por si só, de pouca significação.

74. A significação deriva do modo como, para Heidegger, a teoria ou o olhar é realizado, a saber, como receptividade ativa; o olhar revelador é um exercício ativo de poderes reveladores, e ainda assim permanece resposta, uma recepção.

  • O que é desvelado no olhar revelador, a saber, o sentido do ser, é determinado primariamente não por nossos poderes reveladores, mas pela autodoação dos deuses, do ser mesmo; o olhar revelador é uma aceitação da abertura proveniente do ser, um consentimento à oferta de parceria reveladora originada do ser.

75. O ponto crucial no presente contexto é que os humanos, ao olhar reveladoramente, não são autônomos; o olhar revelador é seguimento, não liderança; é receptividade ativa, e de fato ativa e criativa, mas não é dominante nem controladora — é primariamente receptiva, primariamente sob o controle do ser.

  • O que a atitude impositiva oculta é precisamente essa receptividade, esse seguimento, da parte dos humanos, e a atividade ou iniciativa da parte do ser; esse ocultamento é significativo.
  • É isso, então, que Heidegger entende pelo ocultamento do olhar revelador na era da técnica moderna: o ocultamento é uma falha em ver os humanos como seguidores e o ser como líder; é uma falha em ver a superficialidade da visão antropocêntrica; é, mais fundamentalmente, uma alheiedade ao ser, uma cegueira ao modo peculiar como o ser está à frente, a saber, liderando e ainda assim deixando livre.

76. O ocultamento do ser, o ausentar-se dos deuses, equivale, para Heidegger, a um ocultamento da verdade — o que explica as muitas instâncias em que Heidegger identifica o perigo da técnica moderna com seu encobrir a verdade.

  • A com-posição depõe o brilhar-à-frente e o imperar da verdade; o destino que envia à imposição é, consequentemente, o perigo extremo.
  • Isso diz que a essência da técnica moderna não permite que a verdade se manifeste, o que significa que não permite que a parceria reveladora se mostre; não permite que o ser se mostre como líder, e oculta o papel humano próprio do seguimento (livre).

77. A com-posição nos desafia ao frenesi da imposição, que depõe toda visão no evento do desvelamento e assim ameaça o próprio fundamento de nossa relação com a essência da verdade — a atitude impositiva não nos permite ver o desvelamento, isto é, o autodesvelamento do ser; não nos permite ver o ser como ascendente.

  • Com isso, nosso papel humano, nosso modo próprio de responder a essa oferta de parceria reveladora, nosso modo próprio de nos relacionarmos com a verdade, é posto em perigo.

78. O imperar da com-posição ameaça o homem com a possibilidade de que lhe seja negado participar de um desvelamento mais originário, o que significa experimentar-se como interpelado — pela verdade em sentido primordial.

  • A verdade, para Heidegger, é o autodesvelamento do ser; se a verdade está oculta, os humanos não se experimentarão como interpelados, como reivindicados pelo ser; ao contrário, os humanos se considerarão os reivindicantes, os que põem — e é precisamente isso que torna perigoso o ocultamento do olhar revelador, o encobrimento da verdade, o ocultamento do ser em seu papel de líder.

79. Se não sabemos que o ser está à frente, se nos consideramos os reivindicantes, então erraremos quanto à nossa liberdade humana; esse erro é o que é perigoso — na maior parte, nossa atitude impositiva nos motivará a exagerar nossa liberdade.

  • Se todas as coisas estão à nossa disposição, se são inteiramente postas por nós, então nos veremos como completamente no controle; essa visão hybrística, como já indicamos, está ameaçada por uma nêmesis.
  • Se todas as coisas se tornam descartáveis, estaremos à beira de um precipício: seremos tentados (e talvez já tenhamos cedido à tentação) a nos tomar como descartáveis, inteiramente postos por forças fora de nosso controle.

80. Assim, se não vemos a parceria reveladora entre o ser e os humanos, se não vemos o ser à frente e o modo peculiar como está à frente, erraremos quanto à liberdade humana, seja por excesso, seja por falta.

  • O exagero positivo da liberdade humana é alheio ao ser, cego ao ser em seu papel de líder; a visão determinista, por outro lado, reconhece, sim, os humanos como uma espécie de seguidores, mas é alheia à liberdade própria de um seguidor.
  • Uma visão é cega ao desvelamento (a autodoação do ser) e, assim, cega aos limites da liberdade humana; a outra é cega ao olhar revelador (a resposta livre e humana) e, assim, cega à própria possibilidade da liberdade humana.
  • Em ambos os casos, essas visões são cegas à relação entre desvelamento e olhar revelador, cegas à parceria reveladora entre o ser e os humanos; consequentemente, são cegas à liberdade humana peculiarmente limitada.

81. As duas visões consideradas são exageros, exageros opostos; ainda assim, são meras expressões complementares da mesma perspectiva básica, a saber, uma atitude rígida, de tudo ou nada.

  • Ambas, a seu modo, exemplificam a atitude oposicional e confrontacional da técnica moderna; ambas são cegas à poiesis, alheias a uma alternativa genuína à causalidade impositiva; se somos desapropriados da poiesis, veremos apenas duas alternativas quanto à liberdade humana: tudo ou nada.
  • Entenderemos então a humanidade como dominadora ou dominada, impondo-se sobre as coisas ou imposta pelas coisas, senhor ou senhoreada — sem meio-termo.

82. Essa atitude intransigente, motivada pela perspectiva impositiva da técnica moderna, recuará, para Heidegger, sobre a própria técnica; isto é, a perspectiva impositiva será aplicada à própria perspectiva impositiva da técnica moderna.

  • Em outras palavras, quando a imposição impera, os humanos assumirão relação rigidamente antitética com a própria técnica moderna; a princípio, o caráter impositivo da técnica moderna parecerá servir a nosso domínio sobre as coisas; assim, a técnica será avaliada como inteiramente boa e perseguida precipitadamente.
  • Eventualmente, é provável que nos vejamos como uma das coisas dominadas pela técnica moderna; nesse caso, a técnica moderna será entendida como inteiramente negativa e combatida precipitadamente.

83. Para Heidegger, nenhuma dessas atitudes de busca total ou oposição total é propriamente livre; ambas são escravas: permanecemos sempre escravamente acorrentados à técnica, quer a afirmemos, quer a neguemos apaixonadamente.

  • A palavra-chave aqui é “apaixonadamente”; para Heidegger, a paixão é intrínseca à nossa atitude atual perante a técnica; não podemos evitar sermos apaixonados a seu respeito; ser apaixonado significa ser precipitado, cego a compromisso ou alternativas.
  • Segundo Heidegger, o imperar da imposição desapropria a alternativa a uma atitude de tudo ou nada, a saber, a poiesis; consequentemente, nossa atitude perante a técnica moderna, enquanto a imposição imperar, enquanto estivermos na era da técnica moderna, está fadada a ser apaixonada.

84. Ambas as atitudes atualmente possíveis — afirmação e negação — serão intransigentes, ambas apaixonadas, e isso também as tornará escravas; se somos apaixonados quanto à técnica, a própria técnica ditará os termos de nosso engajamento com ela — daí a escravização.

  • Sejamos apaixonadamente pró ou apaixonadamente contra a técnica, estaremos demasiado presos a ela para assumir uma postura autônoma, livremente escolhida; tomaremos constantemente direção da técnica, o que significa que esta constantemente nos ditará ou nos imporá, seja a perseguindo, seja a combatendo.
  • A liberdade, para Heidegger, envolverá distanciar-nos da técnica, desapegar-nos dela, não opondo-nos a ela (o que não é desapego), mas precisamente nos extraindo de uma atitude apaixonada, intransigente, antitética a ela.

85. Se havemos de ser livres, precisaremos encontrar (ou, antes, precisaremos que nos seja dada ou mostrada) uma atitude não tecnológica ou não impositiva perante a própria atitude de imposição; precisaremos assumir postura poiética perante a técnica moderna, o que significa que precisaremos ser desdesapropriados da poiesis.

86. Aos olhos de Heidegger, a alternativa à afirmação e à negação apaixonadas não consiste, de modo algum explícito, em ver a técnica como neutra; essa também é atitude escrava, e das mais escravas: estamos entregues à técnica de modo ainda pior quando a consideramos algo neutro.

  • Considerar a técnica neutra é vê-la como nem boa nem má em si mesma; o que é bom ou mau é o uso que dela fazemos; como neutra, a técnica é mero meio para nossos fins bons ou maus (ou talvez neutros).
  • Ver a técnica como neutra é tomá-la como meio, instrumento, ali para ser por nós manejada, algo aberto a nosso domínio; assim, a visão da técnica como neutra não é a alternativa genuína à atitude impositiva; considerá-la neutra ainda é pensar em termos de domínio.

87. Tudo dependerá de manejarmos a técnica, como meio, do modo apropriado; adquiriremos, como se diz, controle racional sobre a técnica; a dominaremos; enquanto representarmos a técnica como instrumento, permanecemos presos à vontade de dominá-la.

  • Assim, quer pensemos a técnica moderna como boa, má ou neutra, permanecemos dentro da perspectiva tecnológica da imposição; ainda pensamos exercer nossa liberdade através do domínio e da dominação; consequentemente, a visão da técnica como neutra não é despaixonada — ainda é apaixonada, cega a qualquer atitude que não a impositiva, não é poiesis.

88. Há aqui uma aparente distância da técnica, uma aparente liberdade em relação a ela — a saber, a liberdade de dominá-la —, mas permanece a mesma visão subjacente de que imposição/domínio/dominação é o único modo de realizar algo, o único modo de ser livre.

  • É essa visão subjacente que Heidegger considera escravizadora; a ideia da técnica como neutra não se distancia dessa perspectiva impositiva, permanecendo inteiramente presa a ela; em outras palavras, conceber a técnica como neutra é apenas mais uma escravização à perspectiva tecnológica.
  • É escravização precisamente àquilo (a saber, a técnica) que pretende ser livre para dominar; ao equiparar liberdade à capacidade de dominar, essa visão está, ipso facto, escravizada à atitude tecnológica, que é precisamente a atitude de domínio e dominação.
  • Consequentemente, a visão da técnica como neutra não nos liberta dela, mas, ao contrário, nos entrega a ela, e o faz “do pior modo”; é mais escravizante que a visão da técnica como inteiramente boa ou má, pois “essa concepção da técnica como neutra, à qual gostamos especialmente de prestar homenagem hoje, constitui cegueira total à essência da técnica”.

89. Gostamos de prestar homenagem a essa concepção exatamente por sua aparente liberdade em relação à paixão; apenas fanáticos vão aos extremos de considerar a técnica panaceia ou maldição; evitar esses extremos e tomar posição diretamente no centro parece racional e de mente aberta.

  • Para Heidegger, porém, essa visão não é aberta, mas, ao contrário, essencialmente fechada; fecha ou oculta, mais completamente do que nunca, a essência da técnica; isto é, esconde de nós o fenômeno do olhar revelador, o que significa que esconde o ser em sua ascendência sobre nós.
  • Como perfeitamente neutra, a técnica moderna não tem poder próprio; não lidera, não tende sequer em direção alguma particular; é mero instrumento, ferramenta inerte, algo a ser mandado, um escravo; considerar a técnica neutra é pensar enfaticamente em termos de uma dicotomia senhor-escravo: a técnica é nossa escrava.

90. Essa visão da técnica como neutra é, assim, a mais hybrística: faz de nós não apenas os líderes, mas os senhores; é a que mais erra quanto aos papéis de líder e seguidor; é, para Heidegger, “totalmente cega” à essência da técnica, isto é, cega ao nosso papel subsidiário na realização da técnica.

  • Sendo cega, porém, essa concepção também nos entrega à técnica “do pior modo”, já que a atitude tecnológica é precisamente a hybrística, de imposição e domínio; a visão da técnica como neutra, como algo a ser mandado, é a mais distante da atitude da poiesis — razão pela qual é a pior.
  • Falha completamente em ver onde reside nossa liberdade genuína: não na oposição, mas no seguimento autêntico, exercendo influência dentro de uma postura geral de obediência.
pensadores/rojcewicz/perigo.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki