Técnica: risco e problema
SÉRIS, Jean-Pierre. La technique. Paris: Presses universitaires de France, 1994.
O problema técnico é fácil demais, predeterminado demais (só nos colocamos os problemas que conhecemos ou que podemos resolver…) ou, ao contrário, cego demais, desarmado, desamparado? A técnica só concebe a aporia como algo temporário: a técnica é inseparável da decisão de buscar mais adiante, salvo em casos de estagnação satisfatória. Expostas à dupla condição restritiva da falha ocasional e de seus próprios limites de eficácia, cada técnica — cujo corpo pode ser representado como um domínio da resolução de problemas — é incorporada a um empreendimento promissor que a transcende, técnica em si mesma, ou melhor, vontade de técnica, instinto ou tendência que atua sobre os problemas pendentes. Essa “vontade de técnica” não esconde sua proximidade lexical com o “Kunstwollen” (“vontade de arte”) de Aloïs Riegl 1). Trata-se, no domínio da arte, de uma vontade singular de forma, uma normatividade própria a um grupo ou mesmo a um indivíduo, enquanto entendemos uma intenção na qual podem se sobrepor níveis específicos — tanto antropológicos quanto históricos ou microhistóricos — e individuais. O problema técnico é minimizado e considerado secundário enquanto for pensado apenas no âmbito de uma determinada técnica, tornando-se ainda mais marginalizado, aliás, quanto mais eficiente for essa técnica. Ele ganha gravidade, importância e urgência a partir do momento em que mobiliza a vontade técnica, a aspiração de fazer as coisas de maneira diferente e melhor. A ciência seria apenas certeza e conhecimento seguro de sua própria legitimidade? O poder de resolver problemas é seu corolário, e qualquer problema residual é um escândalo. A ciência é, ao contrário, uma tensão em direção a uma compreensão diferente e superior; é o problema residual que constitui sua maior vitória, já que é nessa linha que ocorrerá o avanço. Esse paralelismo entre a vontade da técnica e a vontade do saber não visa equiparar a ciência à técnica, nem mostrar na técnica uma intenção que já seria própria da ciência: a ciência, no sentido que atribuímos a essa palavra, não existe há muito tempo, enquanto não se pode imaginar uma existência humana sem técnica. Colocar-se problemas que vão além do que se sabe e do que se pode resolver é acessar problemas de uma essência e de um status bem particulares. Essa terceira dimensão do problema, essa abertura problemática que nunca é satisfeita por uma solução, evidenciada pela vontade de técnica, não apenas aproxima esta última da vontade de saber: já a vislumbramos na vontade do agente racional em geral, no olhar lançado sobre o problema ético.
O risco surgiu várias vezes. A vontade técnica não apenas o encontra. Ela o suscita, conferindo à palavra “risco” seu sentido mais pleno: o preço que se aceita pagar para obter uma determinada vantagem. O risco não é apenas a possibilidade de perda implicada pelo caráter probabilístico de um ganho. Ele comporta um aspecto ativo e operacional: opta-se por corrê-lo, embora se pudesse dispensá-lo. Na raiz de todo risco, encontra-se uma opção, a tendência acima denominada “vontade de técnica”. O salto que constitui o risco (correr o risco) é ao mesmo tempo vontade de saber e vontade de fazer. Afirmação de saber mais do que se sabe e ambição de fazer mais do que se sabe fazer. Só que o risco não é a empreitada imprudente ou presunçosa: é uma aposta calculada, após a observação, e é uma ousadia informada, que tira proveito das lições do passado. É por isso que a técnica não é apenas a posse serena de soluções para alguns problemas, mas uma aspiração à mudança, criadora de problemas, provedora de soluções que nunca impedem que a questão ressurgir e persistir sob outra forma.
