Modos geográficos
Geografia matemática e geografia descritiva
Deste distanciamento do mundo e tendo suas raízes na Geografia de Ptolomeu, a “geografização do mundo”, através da chamada “geografia matemática”, desenvolveu-se essencialmente como um ramo de matemática aplicada, se estabelecendo como um estudo separado tanto da matemática pura como de sua co-irmã, a geografia descritiva. O estudo da geografia matemática envolvia mais manipulação teórica e habilidade matemática do que as demais subdisciplinas da geografia, mas também requeria uma aplicação prática desta compreensão matemática [Cormack, 1991].
Essa disciplina rigorosa atraía um pequeno grupo relativamente homogêneo e dedicado de estudiosos que desenvolveram uma nova metodologia de experimentação, com base em uma forma sistemática de tabulação de fatos e de manipulação matemática. Esta metodologia comungava dos mesmo princípios que norteavam a emergência da ciência galileleana, na medida que reunia a experimentação sobre modelos, a descrição pela abstração matemática e a possível aplicação imediata pela Técnica Moderna. A seu modo, a geografia matemática se apropria do princípio ptolomaico de “modelagem” do mundo, ou de redução do mundo a um modelo manipulável matematicamente, e sobretudo útil para a conquista e para o domínio de um mundo em expansão.
Neste sentido, Germaine Aujac (1993, pg. 60), nos apresentando o pensamento e a obra de Ptolomeu, afirma que “um outro dos traços caraterísticos de seu gênio (do gênio grego) é o desejo de fabricar objetos que deem a ver, modelos reduzidos graças aos quais possa-se imaginar o funcionamento do mundo. Entre estes objetos figuram as diversas representações de todo ou de parte do cosmos: carta do mundo habitado, esfera celeste, ou melhor ainda, esfera armilar que, com o globo terrestre ao centro, e a esfera celeste reduzida a seus círculos fundamentais, é uma excelente ilustração da hipótese geocêntrica.”
Humanistas e filósofos naturais se encantaram com as vantagens de uma imagem reduzida, porém mais rigorosa, do mundo. Eles viam nesta abstração da realidade onde se inseriam em seu cotidiano, um instrumento valioso tanto para o conhecimento do mundo como para seu domínio, ou pelo menos, para o registro preciso das rotas para as riquezas que aos poucos se revelavam pelas grandes descobertas. Foi assim que a geografia matemática, por sua associação original com a astronomia, em Ptolomeu, veio a se enquadrar como uma Cosmografia, entre as artes do quadrivium, em plena ascensão àquela época.
A construção de uma imagem rigorosa e precisa do mundo e de suas regiões, enquanto técnica cartográfica, foi o desafio maior que teve que enfrentar a geografia matemática. Associado a este grande desafio, outros tantos de natureza ainda mais pragmática guiaram o desenvolvimento da geografia matemática, como por exemplo: a determinação da longitude durante as viagens marítimas, a navegação próxima aos polos, definição de uma projeção cartográfica adequada para navegação em linhas retas pelos oceanos.
No caso do problema da determinação da longitude em alto mar, segundo Sobel (1995), ele só foi solucionado no século XVIII. Além de causar inúmeras distorções, hoje aparentes, nas formas dos mapas, este problema foi responsável pela morte de um numero incontável de pessoas, no naufrágio de várias embarcações[1]. Pensadores, cientistas e técnicos de renome, abordaram o problema sem encontrar uma solução satisfatória. Foi o relojoeiro inglês John Harrison, reconhecido gênio da mecânica e pioneiro na ciência do relógio de precisão portátil, quem conseguiu realizar “aquilo que Newton achava ser impossível: inventar um relógio que podia registrar a hora verdadeira desde o porto de partida, como uma chama eterna, até qualquer ponto remoto do mundo”.
Quanto a questão da navegação próxima aos polos, aparentemente a solução veio de um ocultista famoso durante a Renascença inglesa, John Dee. Seguidor das ideias de Ptolomeu, Dee incluía a geografia e a chorografia com duas das artes matemáticas derivadas da geometria, no prefácio de uma de suas obras visando a complexa classificação das ciências matemáticas. Foi Dee quem primeiro propôs, em 1556, o uso de uma projeção especial, que denominou “Paradoxal Compass”, representando o polo no centro e as linhas latitudinais como círculos concêntricos.
A proposta de uma projeção cartográfica adequada para a navegação só veio com Gerard Mercator em 1569. Os mapas de Mercator permitiam que as linhas de navegação traçadas sobre eles, coincidissem com as mesmas linhas traçadas sobre um mapa em forma de globo. Em outros termos, se resolvia o problema já reconhecido por Pedro Nuñes que as direções de retas traçadas na carta, uma vez transferidas para a superfície esférica do globo terrestre, produziam espirais.
A problemática das projeções cartográficas vai ser em grande parte resolvida por Mercator, e posteriormente aperfeiçoada por inúmeros estudiosos que se dedicaram à esta questão. Entretanto, cabe lembrar que qualquer projeção de uma esfera sobre um plano deve ter sempre algumas implicações, que se traduzem em deformações das formas representadas. O propósito da carta, ou seja sua utilização é que vai ditar a melhor projeção. Foi neste sentido que Mercator ofereceu uma solução ao desenvolver uma projeção cartográfica de grande utilidade para os navegadores, preservando as direções, tão necessárias para navegação em alto mar, porém distorcendo as distâncias.
É interessante notar a intenção dos geógrafos matemáticos ao se esforçarem por oferecer uma solução para a representação da chamada orbis terrarum. Mercator, por exemplo, publicou um Atlas em 1595, reunindo uma coleção de mapas do mundo conhecido, que adotava como título o nome do titã Atlas, que após participar da revolta dos titãs contra Zeus foi condenado a ter que suportar sobre os ombros os céus. Se apropriando de outra versão deste mito (segundo ele, de Diodoro da Sicília, I aC, e Eusébio, III dC), Mercator faz de Atlas, um sábio em matéria da ciência dos astros, da casa real da Fenícia , e que teria nascido 700 anos antes do Dilúvio. No prefácio de seu Atlas, Mercator conclui: “Minha meta é então seguir este Atlas, um homem excepcional em erudição, humanidade e sabedoria […], para contemplar a cosmografia, na medida que minha força e capacidade me permitam, para ver se por ventura, por meu zelo, eu possa encontrar algumas verdades nas coisas ainda desconhecidas, que possam servir ao estudo da sabedoria.” [apud Mashaal, 1998]
De forma mais pragmática, Kremer (que latinizou seu nome para Mercator) construiu seu saber cartográfico na uiversidade de Louvain, fundada em 1425 e desde então considerada como um dos principais centros na difusão do humanismo e no ensino das matemáticas e da geografia. Louvain usufruía também de sua proximidade com Anvers, que era um dos grandes centros de comércio e marítimo da época, onde navegadores e mercadores buscavam avidamente todo o tipo de informação e de técnica que lhes fossem úteis para fazer frente ao Mar Tenebroso.
Seguramente podemos afirmar que os portulanos medievais serviram de inspiração à Mercator, assim como o incentivo da forte demanda por técnicas mais apuradas de navegação. Suas cartas “destinadas aos navegadores” adotam uma projeção cartográfica inovadora que permite representar os meridianos por retas paralelas e equidistantes, da mesma maneira que as paralelas, formando com os meridianos ângulos retos. Embora alguns autores considerem Mercator um cartógrafo terrestre, na medida que se preocupava com o interior dos continentes, geralmente pouco representados nas cartas marítimas, ele nunca se preocupou em explicar sua projeção ou sequer justificá-la. Somente em 1599, Edward Wright propôs uma explicação matemática da projeção de Mercator, até hoje amplamente utilizada.
Diante deste desafio de técnico de representar o mundo, segundo diferentes interesses que regiam sua apropriação, podemos afirmar que a geografia matemática não gozou da neutralidade sonhada pela método científico moderno. Como nos faz lembra Benjamin Braude (1998), o planeta Terra, tal qual o conhecemos, foi criado nos Tempos Modernos. Esta geografia eurocêntrica, que fundou nossa representação do mundo conhecido, é hoje em dia posta em cheque pela crítica.
Na medida que pontos de vista e conhecimentos remodelam os conceitos inadequados e deformados através dos quais o europeu conquistador e colonizador se apropriou do mundo, a historia desta geografização moderna revela a criação e a destruição de imaginários e ideologias. Neste sentido, Braude afirma que “a invenção da Europa, da Asia, da África e das Américas seguiu entre 1400 e 1800, um processo complexo de exploração, representação e contemplação”. Um processo complexo misturando fatos físicos, conjecturas e preconceitos ideológicos.
A geografia matemática promove os modos de representação gráfica do mundo ganham uma certa predominância no século XVII
Em contrapartida à geografia matemática, a geografia descritiva se desenvolve à mesma época, de maneira totalmente distinta. Coletando informações diversas, através dos relatos e explorações dos viajantes, ela vai construir um saber enciclopédico sobre o mundo, uma representação “sem fim” como é de fato a realidade. Pelo uso extensivo da linguagem, mesmo formalizada através de um jargão específico, ela é ainda assim considerada menos rigorosa e menos precisa, no sentido matemático.
Embora se distanciando do paradigma matemático da geografia, e por isto mesmo se desenvolvendo de forma anárquica, a geografia descritiva vai ter uma enorme crescimento desde o século XVI. A ramificação de seu saber vai permitir inclusive a emergência de inúmeras disciplinas que dela se dissociam. Subdividida originalmente em política e física, ela acompanha, em perfeita sintonia, o avanço de uma sociedade mercantilista ávida por informações sobre o mundo visto como insumo para o consumo da sociedade capitalista.
Apenas descoberto, o Novo Mundo fascina os exploradores pela exuberância de formas de vida de todo o tipo, com que eles se deparam. Algumas totalmente estranhas se comparadas com a fauna e a flora ao longo do Mediterrâneo. Logo, no entanto, diante do europeu conquistador e colonizador, orientado pela divisa cartesiana que o anima a ser “mestre e senhor da Natureza”, segundo o método científico moderno, se faz sentir a necessidade imperativa de se inventariar este Novo Mundo.
A tentativa de integrar o novo às descrições e aos bestiários dos antigos fracassa na medida que seus princípios haviam se perdido no tempo, só restando uma alfarrábios sem uma ordem clara e aparentemente construídos por mentes cheias de fantasia e de superstição. Era importante então se desenvolver uma taxionomia, segundo os princípios puros da Razão, e obedecendo a uma estrutura aberta e flexível para absorver todo e qualquer tipo de registro de informações sobre o Novo Mundo.
Em outras palavras, dentro do conhecimento que formava o quadro do Mesmo, era preciso se constituir uma lógica classificatória que ampliasse este quadro, admitindo assim o Outro, seja em termos de gênero e de espécie no caso de animais ou plantas, seja em termos traços físicos, cultura, costumes, língua, no caso do indígena, seja em termos de pormenores e de características do relevo geográfico, no caso de geografia física das novas terras.
Porque se assemelha de certo modo ao conhecido, ao mesmo tempo que guarda aspectos radicalmente originais, a natureza do Novo Mundo fascina os exploradores do século XVI ao XVIII. Nem que seja pelo aspecto utilitarista, pois esgotadas as provisões de uma longa viagem ultramar era imprescindível desfrutar do que ofereciam estas terras distantes. A história natural se associa assim de forma lógica ao processo de geografização, ganhando adeptos tanto entre cientistas e como entre leigos naturalistas.
A medida que as primeiras descrições e amostras naturais chegam à Europa, a questão é saber como integrá-las aos conhecimentos já estabelecidos. Neste sentido cabe lembrar que estes conhecimentos se baseavam em grande parte em textos fundamentados no pensamento aristotélico, repassados em sua maioria pelos árabes, durante a Idade Média. Diante da difícil tarefa de estabelecer nestes textos antigos a justa ligação entre “palavras e coisas”, como diria Foucault, e da própria ausência de referência a muito do que vinha sendo observado no Novo Mundo, apesar da diferença do “olhar” antigo para o moderno, os novos naturalistas decidem recomeçar o “inventário do mundo” sobre as bases racionais que a ciência emergente oferecia.
A primeira tentativa foi de expandir o quadro recebido da antiguidade, a partir da tradução “revisada” de obras como a História Natural de Plínio. A tentativa seguinte procura, por outro lado, inventariar o Novo Mundo, com base nas informações dos próprios indígenas, mantendo inclusive sua nomenclatura, o que se pode reconhecer ainda hoje na toponímia dos lugares e no nome dado a plantas e animais. Nos dois casos a descrição verbal passa necessariamente por analogias ou comparações com o conhecido, visando ajudar o leitor a apreender este domínio novo. O recurso a imagem se faz cada vez maior a medida que a se ganha novas facilidades com o desenvolvimento da impressa mecânica [Pinon, 1998].
De qualquer forma que seja, o inteiramente novo, o Outro, fica restrito a descrições sumárias em algumas poucas obras especializadas, até o final do século XVII, que se valem em parte ao uso de imagens. Uma dificuldade que encontrou também obstáculos de ordem teológica na medida que se fazia necessário integrar o observado com a interpretação que se tinha do “grande código” ocidental, como Northrop Frye (1984) denomina a Bíblia.
Horacio Capel (1985) nos descortina uma visão aprofundada desta problemática, embora circunscrita à história das origens da geomorfologia espanhola. Ele nos apresenta de forma documentada, como a conformidade entre a história da terra e a criação bíblica contida no Gênesis, dominou a observação do Outro, seja em termos de geografia física ou humana. Com efeito, este Outro devia estar referenciado de alguma forma na interpretação que se tinha do “Grande Código” ocidental, o que reduzia em muito as possibilidades deste outro vir a se tornar o Mesmo, ou vir a ter os mesmos privilégios do Mesmo. No caso dos indígenas, mesmo que convertidos em sua fé, sua condição nunca era a mesma do colono, e no caso da natureza, sua exuberância devia ser submetida aos quadros de conhecimento do colono.
Livingstone (1992), assim como Capel, reconhece que o crescimento da geografia no século XVI e XVII, ao enfrentar o desafio do Novo Mundo, deve ser creditado em parte a abertura do humanismo renascentista, se apropriando diretamente do pensamento antigo, em particular platônico e hermético, assim como da Reforma protestante e das “diretrizes sociais dos Puritanos revolucionários que secularizaram a visão bíblica dominada pela interpretação da teologia tradicional. Neste sentido Livingstone alerta para uma certa direção dada de forma inexorável à geografia pelo movimento puritano, que formulou um conteúdo conceitual para a disciplina geográfica, em maior sintonia com os interesses sociais e econômicos que se faziam sentir àquela época na sociedade puritana inglesa. Mas esta é uma outra história…
Voltemos ao esforço na formulação de nomenclaturas e de sistemas classificatórios que abrangessem à realidade de um mundo em expansão. Vale notar, neste sentido, o que Numa Broc (1986) coloca a respeito do desfio enfrentado pela iconografia geográfica dos séculos XVI a XVIII. Analisando o Atlas de Guillaume Le Testu (1555), Broc nos mostra o uso e abuso de elementos decorativos ou documentais nas cartas, devido ao “horror do vazio”, que obrigava assim “a preencher os ‘brancos’ das cartas ou… a mascarar as carências do carótgrafo”.
Para Broc não se tratam de elementos de pura fantasia, mas ao contrário denotam grandes qualidades de observação e “até mesmo um certo realismo”. É assim que se fazem presentes na carta habitantes de cada país com seus costumes e suas armas, figuras dos principais monarcas do mundo, batalhas e caçadas, personagens extraordinários, animais ferozes ou domésticos, peixes, aves, plantas, arvores, produções de cada lugar, lendas, barcos indígenas, naus, pavilhões e estandartes, fortins, monumentos, cidades e vilarejos, e outras tantas categorias de elementos, segundo suas cores próprias. Isto sem contar os elementos da técnica cartográfica que vão aos poucos se estabelecendo como um certo padrão na representação geográfica, como por exemplo: a grade de coordenadas, a rosa dos ventos, os traçados dos rios, das costas, das ilhas, das montanhas, etc., a nomenclatura e a toponímia.
//O historiador da cartografia, diante desta iconografia proliferante, pode escolher entre diversas atitudes. Primeiro, denunciar a natureza pré-científica das cartas que não foram capazes de destacar um espaço homogêneo e coerente de representação cartográfica: nota-se então com satisfação o recúo progressivo deste parasitismo icônico em direção as margens da carta, por fim fora do quadro, ou no enquadramento do cartucho de título ou de menção do autor, […].Segundo, só considerar esta iconografia do ponto de vista da estética ou da história da arte, a restituir à arte de uma época, com suas convenções gráficas e cromáticas, mas então estará isolando este nível de figuração de seu contexto cartográfico. Terceiro, resgatar suas implicações intelectuais , o enciclopedismo subjacente a estas imagens, mas assim negligencia a organização visual do dispositivo. Sem dúvida cada uma destas posições tem sua pertinência, mas desejaríamos aqui as reunir retornando a uma questão fundamental: como podem coexistir sobre uma mesma carta representações com estatutos tão diferentes? Como este diferentes níveis se articulam uns com os outros? E como os percursos visuais do destinatário, com suas transições incessantes de um nível para outro, permitem desdobrar os saberes implícitos propostos pela carta? //[Jacob, 1992, pg. 202]
Jacob desenvolve então uma hermenêutica da carta buscando compreender como esta “se veste” através do ponto de vista do cartógrafo e das modalidades de inserção de uma iconografia peculiar. A exemplo de Brian Harley (1988), Jacob reconhece que a carta deve ser estudada dentro do contexto mais amplo da iconologia, onde as imagens são vistas como objetos criados segundo juízos de valor e também como imagens que contribuem ao diálogo em um mundo socialmente construído. Os mapas são portanto um modo de imaginar, articular e estruturar o mundo dos homens, e não apenas produtos da geometria aplicada segundo uma razão pura. Ou seja, os mapas fazem parte de um “discurso”, no sentido dado por Foucault, que por sua vez é fruto de uma prática social.
Para Harley, a influência política das imagens cartográficas na sociedade se dá na medida que elas estão de fato universalmente inseridas em contextos culturais e políticos, que exercem um poder estrutura a própria forma e conteúdo dos mapas. Além do que a comunicação cartográfica, a nível simbólico, reforça ainda mais este poder através do saber que pretende assim outorgar do mundo conhecido. Assim sendo, devemos considerar os mapas como sistemas de signos, cujos códigos podem ser constituídos sobre o uso de figuras, palavras, números ou mesmo medidas de todo tipo, promovendo uma forma de saber especial.
Da mesma maneira, devemos encarar o esforço de geografização, não apenas retratado na produção cartográfica desde a Renascença, mas na elaboração de uma catalogação ou de uma espécie de enciclopedismo naturalista. Deste modo, faz todo o sentido o alerta dado por Paulo Rossi (1992) de que “atentos apenas às teorias e aos modelos, os expoentes da epistemologia neopositivista em geral subestimaram totalmente, em primeiro lugar, o projeto daquela história natural e experimental à qual Bacon dedicou os últimos anos de sua vida, e em segundo lugar, a vastidão e a importância da gigantesca empresa de uma tabulação racional das coisas naturais, na qual se empenharam, no curso do século XVII e do século XVIII, os cultores de botânica, de mineralogia e de zoologia, os estudiosos dos ‘elementos naturais’. Muitos destes cultores das ciências baconianas tiveram o sentimento preciso de que, através dos métodos e das classificações, através das discussões sobre a terminologia, seria realizada uma empresa com características de radical novidade, seria tomado uma caminho totalmente desconhecido pelos antigos.
De acordo com Rossi, o problema não era apenas o da terminologia e das classificações, pois implicava também o abandono das imposições puramente empirico-descritivas que tinham em grande parte caracterizado à ciência renascentista. As novas discussões sobre os métodos taxionômicos para “inventariar o mundo” pretendia por fim a “uma atitude diante da realidade natural que se traduzia em coletas indiscriminadas de dados, em registros acuradíssimos e minuciosos, mas privados de critérios precisos de seletividade”.
A geografia aliada à história natural, em conformidade com sua herança comum no passado, perdiam a unidade primordial, dada a intensificação e a ampliação da geografização do mundo, que obrigava seus empreendedores a uma especialização cada vez maior. A era das grandes coleções de saber geográfico e natural, publicadas na forma de Atlas, Cosmographiae ou Theatrum, ia chegando ao fim diante da afirmação progressiva de um Método face a distintos objetos de estudo. O Iluminismo vai optar pela Grande Enciclopédia, enquanto Dicionário racionalizado das ciências, das artes e dos ofícios, apostando na ciência, na técnica e no método, como mais seguro para se ser “mestre e senhor da Natureza”, como pregava Descartes.
[1] O famoso Tratado de Tordesilhas determinou o traçado de uma linha imaginária, que por não se assentar sobre a longitude precisas de um meridiano, facilitou sobremaneira a formação histórica da extensão territorial brasileira.
