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Representação

Colloque sur la Représentation des territoires, organisé à Turin par la Région du Piémont

1. O momento presente é caracterizado, do ponto de vista da representação dos territórios, por cinco fenômenos mais ou menos ligados: a mundialização, com seus aspectos técnico e econômico; as reações contra a uniformização e a dominação, traduzidas pelo aumento dos particularismos locais e das ideologias da diferença e da identidade; a recriação constante de diferenças em escala local e mundial, da qual as próprias firmas tiram proveito; o papel crescente das coletividades territoriais na recomposição dos territórios; e o aumento das desigualdades sociais dentro dos mesmos territórios, que se tornam mais fortes do que as diferenças entre os lugares.

2. A evolução contemporânea complica o trabalho do geógrafo, obrigando a uma melhor consideração de todas as escalas, trabalhando mais na escala macro para compreender o mundo como sistema e na escala micro, local, devido ao aumento das diferenças sociais que se traduzem em diferenças geográficas no interior dos lugares, especialmente nas cidades.

APRESENTAR E REPRESENTAR O MUNDO

3. Os geógrafos têm o dever e a responsabilidade de apresentar o Mundo, representar suas configurações e diferenças, compreendê-lo, explicá-lo e apreender suas tendências e transformações, interessando-se pelas diferenças, organizações espaciais e leis, ou seja, pelas sociedades humanas, seu comportamento no espaço e a relação que mantêm com seu território, que só podem ser compreendidas por referência a lógicas de produção do espaço.

4. A competência do geógrafo para tratar de problemas humanos e questões sociais se fundamenta no estudo do território, ou seja, no par diferenciação dos lugares e arranjo dos lugares, sendo que os lugares, produzidos por atores sociais, estão situados no tempo, entre heranças, em relação uns com os outros e em trajetórias de mudança.

5. Os lugares e seu arranjo, enquanto produtos do passado, fornecem informações sobre os processos e atores que os criaram, funcionando como um texto ou imagem a ser decifrado, e essas obras são também os lugares da ação humana, que as constrangem e orientam, sendo que o espaço geográfico, considerado como ecúmeno, interessa como produto, conjunto de memórias e como meio de ação.

AS FIGURAS DO ESPAÇO

6. O trabalho das sociedades humanas, ao produzir espaço geográfico ou território, cria figuras significativas, e a produção do espaço pela ação humana responde a certas necessidades cotidianas e lógicas sociais, como abrigar-se, alimentar-se, defender-se, trocar e reproduzir-se, sendo sensível às distâncias e rugosidades e passando por formas de apropriação dos territórios.

7. Os resultados da ação humana se traduzem no espaço por configurações, campos, lugares e redes mais ou menos complexas, cuja complexidade resulta da composição de algumas figuras geralmente simples que associam os lugares entre si, e o estudo dessas figuras é revelador da forma como as sociedades produzem o espaço, dos processos em jogo, das estratégias dos atores e das tendências da evolução, constituindo o que se chamou de “assinatura espacial”.

8. Dispõe-se atualmente de inventários raciocinados dessas figuras, desenvolvidos sobretudo nos últimos vinte ou trinta anos, que incluem as figuras da apropriação e das malhas territoriais, da agregação e segregação, da gravitação (com o modelo centro-periferia e numerosas figuras da dissimetria), dos caminhamentos e dos fluxos, das interfaces e das frentes, bem como as figuras reticuladas, que podem ser representadas de diversas maneiras, como redes, malhas ou constelações.

OS PRIVILÉGIOS DO MAPA

9. O mapa é um modo de representação do Mundo original e fecundo, pois todas as figuras espaciais podem ser descritas por texto, mas representar de forma não figurada as figuras é paradoxal, e na medida em que o geógrafo enfatiza as figuras espaciais, o mapa se impõe como modo de representação privilegiado, com a vantagem de ser sinóptico, mostrando não apenas os lugares, mas também seu arranjo.

10. É necessário distinguir entre o mapa-fonte, que fornece dados e resultados de tratamento de dados, e o mapa para comunicar, usado por jornais ou documentos de urbanismo, que não é feito segundo as mesmas regras e introduz seus próprios vieses, sendo que o mapa-fonte tem méritos próprios, indicando que algo está aqui e não em outro lugar, e que está próximo de outra coisa.

11. O mapa não é em si nem mais nem menos falso, nem mais nem menos manipulável do que um texto ou uma tabela estatística, com a nuance de que parece mais fácil mostrar as incoerências de um mapa do que as de um texto ou tabela, e o mapa como representação do território é um instrumento de pesquisa, onde se descobrem diferenças e ligações, sendo uma mina de problemas e hipóteses, podendo expressar o invisível, como a propriedade fundiária, os rendimentos ou o estado de saúde.

12. O principal interesse do mapa para um geógrafo está na análise morfológica, no reconhecimento e na interpretação das figuras geográficas que nele se detectam, formas esperadas ou inesperadas, sendo um instrumento valioso para avançar no conhecimento dos territórios e das sociedades que os produziram, e com o mapa trata-se menos de dar a ver do que de dar a compreender e discutir, para melhor debater, o que é vital nas relações com organismos de estudo, planejamento e urbanismo.

A CHAVE ESTÁ NAS FIGURAS

13. A chave da leitura dos mapas está nas figuras, e o problema fundamental da identidade dos lugares se coloca em quatro pontos: todo lugar, região ou território tem uma identidade única; a identidade, etimologicamente, se define paradoxalmente pela conformidade a um modelo; a identidade de um lugar resulta da composição de um certo número de semelhanças e pertencimentos; e só se pode identificar e descrever convenientemente um lugar ou território em relação a modelos conhecidos e situando-os nas figuras que formam.

14. A identidade de um lugar se define por referência a modelos comuns, e a composição dessas referências faz de cada lugar um objeto único, sendo que o geógrafo trabalha com modelos, como as outras ciências, e a organização do espaço nas sociedades repete um pequeno número de figuras geográficas e de arranjos dessas figuras, como modelos de organização de píemonte, formas de aglomerações ou de litorais.

15. A diferença entre a forma do espaço estudado e os modelos de referência constitui o resíduo, que é a originalidade do objeto, mas na identidade há também uma face de pertencimento, e a proximidade no espaço sempre contribuiu para a identidade pela pertença aos grupos e ao território, havendo no tempo presente um recrudescimento dessa busca de identidade pela comunidade territorial, ligada à reação contra a uniformização e a mundialização.

16. O geógrafo pode trabalhar sobre sistemas locais, identificá-los através de formas, processos e atores, mas não é competente para tratar das identidades das pessoas e do sentimento de identidade, podendo representar um sistema territorial e identificar objetos geográficos por comparação a modelos, mas não pode dizer algo pertinente sobre as representações individuais ou coletivas dos habitantes, devendo reconhecer os limites de seu campo de competência e evitar discursos superficiais sobre “identidade geográfica”.

HEURÍSTICA E PROSPECTIVA

17. Se as representações geográficas têm uma grande capacidade heurística, sua capacidade de antecipação permanece limitada, e não se pode e não se deve fazer predições, mas apenas, com humildade, proceder a algumas simulações, como uma forma de auxílio à decisão que já é útil, mas que não pode ir além, observando tendências e avaliando suas chances de durar.

18. Não há “boas” situações geográficas em si, mas situações mais ou menos boas em função dos problemas e ações considerados, e trabalha-se sobre situações já realizadas e sobre obras passadas, não se podendo antecipar seriamente as decisões e comportamentos dos atores futuros, o que é verdade para todas as ciências humanas.

19. Curiosamente, o geógrafo talvez não seja o pior colocado para discutir o que poderia advir, pois as organizações espaciais têm uma certa permanência, com um tempo geralmente mais longo do que o das atitudes e comportamentos econômicos e políticos, e as representações do território têm alguma virtude própria de expressão e também de incitação, tendo um caráter por vezes “performativo”.

20. O exemplo da “banana azul”, a dorsal europeia da Inglaterra ao norte da Itália, gerou reações diversas: alguns se escandalizaram por Paris não estar incluída; outros quiseram conectar Paris a essa Europa; outros ainda reagiram com “resistência”, defendendo dorsais alternativas; alguns a usaram para publicidade; outros negaram o modelo; e alguns compreenderam a vantagem de melhorar as ligações com o sudoeste europeu para reequilibrar o espaço.

21. O exemplo da Córsega ilustra a aplicação de modelos na representação de territórios: o plano do prefeito previa uma autoestrada ligando as duas capitais, Ajaccio e Bastia, ignorando a Itália e a Sardenha, enquanto a contraproposta dos geógrafos sugeriu ver a Córsega de outra forma, melhorando as ligações norte-sul na costa oriental para facilitar os passagens para o norte da Itália e a Sardenha, privilegiando a integração europeia em vez de uma dependência acrescida em relação à França continental.

O QUE FAZER?

22. Diante da escolha entre o esforço de representação dos territórios, quando sério, e a afirmação fácil de que toda representação é suscetível, subjetiva e arbitrária, permitindo dizer que “tudo se equivale”, opta-se pelo esforço, que implica progressos reais no emprego de modelos e na identificação de formas espaciais por meio de modelos geográficos de referência, desde que a lógica social desses modelos seja explícita.

23. É necessário manter a diferença radical entre o reconhecimento de formas no sentido científico e o que se pode chamar de xamanismo ou geomancia, evitando tanto a atitude do xamã, que tem a revelação e vê as “verdadeiras” formas, quanto a do geômanco, que reinventa formas e as aplica a outro domínio de interpretação, como a astrologia, e a reconhecimento das formas geográficas exige racionalidade, um sólido aprendizado e não deve sair de seu campo de aplicação.

24. É possível aplicar em geografia um raciocínio de forma científica, fazendo a crítica das fontes, dispondo de modelos referenciados, formulando hipóteses de pesquisa e deduzindo proposições dessas hipóteses, e a método dedutivo pode existir em geografia, confrontando o universal e o singular, interrogando-se sobre as lógicas sociais que produzem as formas e mudando de olhar, de azimute, de projeção e de escala, além de trabalhar de forma cooperativa para permitir verificaçõese refutações.

25. Em relação à ideia de “construir sentido”, o geógrafo não pode afetar um sentido místico ou cosmogônico aos objetos territoriais, mas pode buscar ligações, solidariedades, retroações, elementos motores, gradientes, rupturas, interfaces e lugares da mudança, encontrando um “sentido” na direção do movimento, na coerência e nas contradições do sistema estudado, e não em uma visão metafísica, devendo-se evitar as tentações “pré-modernas” e garantir que o mapa seja uma ilustração (esclarecimento) e não uma ilusão (engano).

26. Para trabalhar melhor e representar mais fielmente a realidade geográfica, deve-se velar sempre pela qualidade da informação científica, observando o recuo da informação estatística sobre as atividades humanas e a alteração da acessibilidade dos dados, devido à comercialização dos organismos produtores, e é necessário fazer um esforço para desenvolver a cultura geográfica e a cultura cartográfica, pois o mapa não “fala” sozinho, exigindo aprendizado, e a memória das formas geográficas vale o mesmo esforço que a memória dos textos, permitindo jogar cartas na mesa com políticos, planejadores, cidadãos e associações.

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