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Realidade geográfica

Filosofia na construção da realidade geográfica, in GOULD, Peter; OLSSON, Gunnar (orgs.). A search for common ground. London: Pion, 1982.

1. O crescente interesse pela filosofia na geografia reflete uma busca por uma perspectiva unificadora que possa discernir a disposição geral do labirinto disciplinar, motivada pela fragmentação excessiva da investigação e pela falta de compreensão mútua entre os investigadores, embora a fragmentação não seja necessariamente um mal e o potencial unificador da filosofia não deva ser tomado como garantido, pois a própria filosofia fomenta a variedade de perspectivas.

2. A geografia fragmentada carece menos de um sentido de unidade do que de um sentido de direção, um sistema de referência que indique a posição de cada um, como o trabalho se relaciona com o de outros e como se pode avaliar o progresso, e é essa a necessidade que justifica a preocupação atual com a filosofia, pois as questões pertinentes dizem menos respeito à geografia como matéria empírica do que a um corpo de pressupostos em necessidade de exame crítico.

3. Duas abordagens críticas para a análise da teoria geográfica são identificadas: uma normativa, que parte de considerações éticas e ideológicas para determinar que parte da realidade deve ser representada; e uma positiva, que parte de considerações epistemológicas, matemáticas e lógicas para determinar que parte da realidade está efetivamente a ser representada, distinguindo-se ambas da geografia de matéria empírica, que está em contacto direto com a observação.

  • A abordagem normativa busca determinar a forma teórica mais apropriada para a expressão de uma teoria relevante, guiando-se por critérios morais, humanitários, sociais e políticos.
  • A abordagem positiva busca determinar os limites do conteúdo cognitivo possível correspondente a cada forma teórica, guiando-se por critérios estruturais, metodológicos, formais e linguísticos.
  • A geografia de matéria empírica, seja quantitativa ou não, está em contacto direto com a observação e não tem contacto direto com a filosofia, fornecendo o 'alimento para o pensamento' para as abordagens críticas.

4. As três abordagens distinguidas (técnica, hermenêutica e emancipatória) não são equivalentes nem totalmente ordenadas, ocupando um nível 'básico' de afirmações sobre factos e um nível 'crítico' ou 'meta' de afirmações sobre afirmações sobre factos, o que significa que a abordagem técnica pode prosseguir indefinidamente, enquanto as críticas necessitam da geografia de matéria empírica para não se tornarem irrelevantes.

  • A geografia técnica sem a visão da geografia crítica é cega, mas a geografia crítica está ameaçada de morte por irrelevância se se perder em introspecção autoindulgente.
  • A concepção de uma geografia bem-sucedida é de uma disciplina que é inerentemente filosófica tanto quanto técnica, tornando-se ela própria uma fonte de novo material para a filosofia.

5. A investigação sobre o quadro de significado dos modelos de interação espacial foi motivada pela constatação de que tais modelos funcionam apesar de ignorarem fatores como políticas de habitação, sistema fiscal, legislação fundiária e contexto sociopolítico, o que parecia um paradoxo diante da evidência estatística da sua aparente aplicabilidade universal.

  • Os modelos de interação espacial são vistos como representações aproximadas do sistema urbano, mas a natureza desse sistema é obscurecida e a sua relação com o mundo da experiência é questionável.
  • A questão central é o que esses modelos realmente representam, dado o fosso entre o que eles dizem e o que se conhece empiricamente sobre os processos de formação da cidade.

6. A resposta tentativa é que existe um domínio coerente e definível para os modelos de interação espacial, uma estrutura teórica obtida dedutivamente a partir das propriedades da linguagem teórica utilizada, que serve como uma abstração intermédia entre o 'mundo real' e os modelos, preenchendo a lacuna lógica entre o que os modelos representam e os aspectos correspondentes do mundo da experiência.

7. O quadro de significado lógico é uma estrutura multinível que representa uma hierarquia de sistemas urbanos, onde os mais simples podem ser associados a modelos urbanos conhecidos, e a estrutura como um todo representa o sistema urbano total, com cada nível correspondendo a uma imagem da mesma parte do mundo real definida em diferentes níveis de abstração.

  • A hierarquia é descrita como uma hierarquia causal, onde o princípio da (des)agregação causal se baseia na visão 'subjetiva' da relação causa-efeito, segundo a qual a causalidade é um quadro conceptual necessário para a compreensão dos fenómenos.
  • A agregação causal, que parte de uma rede causal total para relações estatísticas elementares, fornece a perspectiva para ver a variedade de teorias e modelos urbanos em relação uns com os outros e com o 'sistema urbano' que pretendem representar.

8. O processo de abstração, partindo do sistema urbano completo e suprimindo progressivamente classes de variáveis, leva a uma sequência de sistemas abstratos auto-contidos que se tornam mais simples, desde o nível 7, correspondente à rede completa de interações, até ao nível 0, que é o espaço euclidiano puro.

  • No nível 7, a rede completa de todas as interações possíveis é uma névoa onde nenhuma estrutura pode ser distinguida, mas é o nível mais significativo empiricamente.
  • Nos níveis 6 a 4, suprimem-se variáveis pessoais, restrições e preferências individuais, resultando em sistemas onde os indivíduos se tornam abstrações cada vez mais simples, como os 'homens racionais' da economia clássica.
  • Nos níveis 3 a 1, suprimem-se variáveis de mercado, de atividade e de localização, resultando em sistemas regidos por forças como a gravidade, até restar apenas a ideia de uma população de partículas materiais num espaço.
  • No nível 0, a supressão de toda a informação empírica restante resulta no espaço euclidiano, que aparece como o alicerce 'último' e trivial do sistema urbano.

9. O processo de abstração levanta problemas, pois a eliminação de características de objetos parece produzir sistemas diferentes, em vez de simplificações do mesmo original, o que leva a considerar que, se as 'coisas' se comportam de acordo com leis diferentes em cada etapa, podem ser objetos diferentes, apoiando a visão de que as leis dizem respeito a combinações de propriedades, e não a indivíduos fundamentais.

  • A ontologia atómica, que concede às coisas uma existência independente das suas propriedades, implica que a identidade do objeto persiste na abstração, uma suposição básica da filosofia de modelagem urbana.
  • A ontologia do 'plenum', ou visão combinatória, sustenta que diferentes aglomerados de características são simplesmente objetos abstratos diferentes e não se pode esperar que se comportem como outros aglomerados suficientemente diferentes.

10. A representação de 'pessoas' na teoria urbana envolve vários estereótipos, cada um definido por um conjunto limitado de características, que podem ser incompatíveis entre si, e uma teoria abrangente deve permitir que todos esses aspectos coexistam sem contradição, definindo o Homem Urbano não como um conjunto padrão de características, mas como o conjunto de todos os atributos humanos potencialmente relevantes.

  • Os vários estereótipos de pessoas, como o Homem do estatístico nacional, o Homem do engenheiro de tráfego ou o Homem do economista, representam diferentes aspectos ou papéis da mesma entidade concreta.
  • A tentativa de combinar esses estereótipos cria novas dificuldades devido à complexidade e possível contradição interna dos perfis resultantes.
  • A definição do Homem Urbano como o conjunto \(H\) de todos os atributos humanos potencialmente relevantes permite a representação de qualquer perfil ou papel como um código binário.

11. A representação do Homem Urbano como um conjunto de atributos enfrenta dois problemas: gerar apenas perfis válidos, evitando combinações impossíveis, e lidar com cadeias binárias potencialmente longas, o que é resolvido explorando a redundância do conjunto de atributos e estabelecendo uma ordem parcial que mapeia uma hierarquia de sete níveis de atributos, onde qualquer caminho através da hierarquia é um perfil válido.

  • A hierarquia de atributos, que vai de \(H_1\) (atributo 'é membro da população') a \(H_7\), permite gerar perfis coerentes que representam diferentes papéis urbanos.
  • Quanto mais longo o código, mais específico é o perfil, representando grupos menores de pessoas, até que, no limite, cada código identifica um indivíduo único.

12. A ficha de atributos é um quadro contabilístico ideal que registra, para cada momento no tempo, a presença ou ausência de todos os atributos para cada membro da população, fornecendo uma descrição exaustiva (não explicativa) do estado instantâneo do sistema urbano, e séries temporais dessas fichas descrevem a dinâmica do sistema.

  • A ficha de atributos completa é um modelo ideal, inatingível na prática, mas imaginável como o limite remoto de tabulações de dados cada vez mais abrangentes.
  • Fichas com menos secções fornecem descrições coerentes, embora incompletas, do sistema urbano.

13. A noção de tempo urbano é definida como uma função da informação, pois a adição de informação (secções da ficha de atributos) aumenta a probabilidade de mudança entre duas fichas consecutivas, fazendo com que o tempo pareça fluir mais rapidamente, e sistemas mais simples (com menos informação) têm maior probabilidade de exibir equilíbrio dinâmico e ciclos temporais.

  • A probabilidade de observar mudança entre duas fichas consecutivas aumenta com a quantidade de informação, encurtando a duração média dos intervalos de tempo observados.
  • No limite, para a ficha completa, o tempo parece ser contínuo.
  • Sistemas mais simples, descritos por fichas mais curtas, têm um número finito de configurações possíveis, tornando mais provável a ocorrência de ciclos e equilíbrio dinâmico.

14. O conceito de espaço urbano também é abordado como uma função da informação, com uma hierarquia de sete níveis que vai do espaço euclidiano (passo 0) ao espaço subjetivo pessoal (espaço 7), onde cada nível incorpora um incremento de informação espacial, resultando em espaços qualitativamente diferentes e não-euclidianos.

  • O espaço euclidiano é adotado como ponto de partida para a descrição do espaço urbano.
  • A substituição de termos teóricos por termos geográficos primitivos (como localização por ponto) transforma o contínuo euclidiano num espaço discreto e intrinsecamente inexato (Espaço 1 ou Geographic-space).
  • A adição de informação, como sistemas de coordenadas (Espaço 2 ou Standard-space), distinção de usos do solo (Espaço 3 ou Adapted-space) e, finalmente, valores subjetivos (Espaço 7), cria espaços que incorporam progressivamente mais aspectos da realidade urbana.

15. A síntese do Homem Urbano e do Espaço Urbano, que são indeterminados separadamente, resulta no sistema urbano, que é determinável em grande parte, e a combinação de regras geométricas formais com uma seleção adequada de restrições (informação) define espaços probabilísticos ou mundos abstratos com estrutura intrínseca, cujas leis são estruturalmente idênticas às formas matemáticas básicas dos modelos de interação espacial atuais.

  • As propriedades do Espaço Urbano tornam-se logicamente previsíveis em função das propriedades do Homem Urbano, e vice-versa.
  • As leis que emergem em cada nível refletem o estado de conhecimento compatível com aquele nível de abstração, e não propriedades do sistema do mundo real.
  • A hierarquia resultante é uma geografia de mundos possíveis, onde as leis dos modelos mais simples são analiticamente verdadeiras nos seus reinos abstratos, mas a sua verdade em relação à realidade é muito relativa.

16. A validade de uma teoria baseada em suposições 'irrealistas' é explicada se essas proposições descreverem algum mundo abstrato na hierarquia, sendo a distinção crucial entre suposições empiricamente irrealistas (necessárias) e logicamente irrealistas (inconsistentes e fatais), e a estrutura concebida é um 'mapa' que integra polos opostos da investigação geográfica, como macro e micro, estático e dinâmico.

17. A estrutura descrita representa o 'domínio' dos modelos de interação espacial, delineando os limites da sua validade lógica, e levanta questões sobre o que fazer com esse conhecimento, sugerindo que as leis dos modelos mais simples são bits de conhecimento definitivo que não podem ser descartados, mas que devem ser usados de forma inteligente na construção e aplicação de teorias.

18. A impossibilidade de leis de interação espacial no nível 7 sugere que a possibilidade teórica de previsão diminui à medida que se avança para o fim da hierarquia rico em informação, e a potencial para explicação depende do sucesso em ligar esta geografia de mundos possíveis com a geografia do mundo real, enquanto outras formas de explicação (marxista, fenomenológica) são possíveis, mas também irreais na prática.

  • A descrição fornecida pelos modelos de interação espacial permanece possível até ser sobrecarregada pela complexidade estrutural e massa de informação em níveis mais altos.
  • A compreensão do estatuto lógico dos construtos teóricos é considerada mais importante nas ciências humanas do que nas naturais, devido à interferência da ação humana com a teoria.

19. As implicações para a investigação futura incluem a necessidade de mais investigação empírica descritiva e mais investigação básica sobre estruturas fundamentais, evitando teorias ambíguas, e a necessidade de matemática de alto nível (topologia, teoria dos conjuntos), análise de sistemas (como teoria de teorias) e filosofia, mantendo padrões elevados para evitar a irrelevância ou a trivialidade.

  • É necessária mais investigação descritiva sobre percepção espacial, comportamento, motivação, crença, etc., que explore aspectos dos processos de nível 7.
  • É necessária mais investigação sobre teorias formais que liguem esses aspectos entre si e aos quadros explicativos, esclarecendo a relação lógica dos construtos conceptuais com o mundo da experiência.
  • A análise de sistemas é vista como útil quando aplicada à análise do equipamento intelectual, e não diretamente à realidade a ser estudada.

20. A possibilidade de fazer afirmações significativas sobre estruturas a priori numa ciência empírica levanta questões sobre a relevância do racionalismo na ciência social e o papel da compreensão racional humana na determinação dos fenómenos, lembrando conceitos como o 'a priori sintético' de Kant e a tentativa de Eddington de derivar leis físicas a partir de propriedades lógicas de formalismos matemáticos.

  • A ênfase em procedimentos característicos das ciências físicas não é vista como uma vitória do reducionismo, mas como uma perspectiva profundamente humanista que concede ao observador humano o poder de determinar as leis da realidade.
  • A procura de um terreno comum na geografia é motivada pela convicção de que não deve haver compartimentos estanques entre as tradições de investigação, nem entre os campos do conhecimento humano, pois, para lidar com tudo, o Homo cogitans tem apenas uma mente.
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