User Tools

Site Tools


geo:pensadores:glacken:start

Glacken

GLACKEN, Clarence J. Traces on the Rhodian Shore. Nature and Culture in Western Thought from Ancient Times to the End of the Eighteenth Century. Berkeley: University of California Press, 1967.

1. Ao longo da história do pensamento ocidental, três perguntas persistem sobre a terra habitável e a relação dos homens com ela: se se trata de criação propositadamente feita, se seus climas e relevos influenciaram a natureza moral e social dos indivíduos e das culturas, e de que modo o homem a transformou de sua condição hipoteticamente original.

2. Desde os gregos até os dias atuais, as respostas a essas perguntas podem ser reformuladas em três ideias gerais: a ideia de uma terra planejada, a ideia da influência ambiental e a ideia do homem como agente geográfico, sendo a primeira devedora sobretudo da mitologia, da teologia e da filosofia, a segunda do saber farmacêutico, da medicina e da observação meteorológica, e a terceira das atividades práticas cotidianas como o cultivo, a carpintaria e a tecelagem.

3. Na primeira ideia, pressupõe-se que o planeta foi projetado para o homem como ser mais elevado da criação, ou para a hierarquia da vida que nele culmina, tornando a terra ambiente propício não apenas à vida, mas à civilização elevada.

4. A segunda ideia originou-se na teoria médica, mediante comparações entre fatores ambientais como condições atmosféricas, águas e situação geográfica e as características de indivíduos e povos, configurando, mais propriamente, teorias de ares, águas e lugares no sentido do corpus hipocrático, frequentemente incorporadas ao argumento do desígnio divino.

5. A terceira ideia foi menos formulada na Antiguidade do que as duas outras, tendo suas implicações plenas sido percebidas apenas com Buffon e exploradas em detalhe somente por Marsh em 1864, podendo também ser acomodada ao argumento do desígnio ao conceber o homem como parceiro de Deus no aperfeiçoamento da terra.

6. O tema central deste trabalho é que, no pensamento ocidental até o final do século dezoito, as concepções da relação entre cultura humana e ambiente natural foram dominadas, ainda que não exclusivamente, por essas três ideias, isoladas ou combinadas, constituindo matriz da qual emergiram as ciências sociais modernas e da qual proveio o estudo moderno da geografia do homem.

7. Não é fácil isolar ideias para estudo a partir da massa de fatos, saberes e especulações que se chama pensamento de uma época, pois elas são partes vivas de totalidades complexas, arrancadas à força de seu contexto original.

8. Essas constatações introduzem problema mais difícil, o de onde e quando interromper a investigação, como ilustra a mudança de atitude perante a natureza ocorrida na Idade Média latina dos séculos doze e treze, que rapidamente envolveria outros temas correlatos como o debate entre realismo e nominalismo e as origens da ciência moderna.

9. Galileu, ao afastar as qualidades secundárias de sua metodologia, abriu caminho correto para a ciência teórica, mas contribuiu menos para a história natural, cujos estudiosos não podiam prescindir da variedade sensível da vida, o que sugere contraste entre a história da metodologia na física e na história natural quanto à persistência da teleologia.

10. Grandes conjuntos de ideias correlatas surgem como cavaleiros distantes que, ao chegarem, revelam sua força e vitalidade, a exemplo da história das ideias sobre jardins, paisagens sagradas e simbolismo da natureza.

11. Raramente é possível afirmar com segurança que uma paisagem modificada pelo homem incorpora determinada atitude perante a natureza, exceção notável sendo a história do jardim, inglês, chinês ou italiano, em que se pode quase ver a corporificação de ideias na paisagem.

12. O papel do sagrado constitui um dos temas mais convidativos para o historiador das atitudes perante a terra, tanto nas culturas não ocidentais quanto na tradição ocidental, rica em exemplos que vão da arquitetura sagrada grega aos bosques sagrados e ao simbolismo da natureza.

13. Há muitas ilustrações, neste trabalho, da separação entre homem e natureza tão frequente no pensamento ocidental, e também de sua união como partes de totalidades indivisíveis, dicotomia que tem marcado a história do pensamento geográfico e as discussões ecológicas contemporâneas.

14. A distinção entre homem e natureza pode ter começado em tempos primordiais, quando o homem, semelhante aos animais, ainda assim se via capaz de afirmar sua vontade sobre eles, tendo sido consagrada no pensamento ocidental pelo ensinamento judaico segundo o qual o homem, parte da criação, é dela distinto por ter sido criado à imagem de Deus.

15. Outra faceta do problema é a distinção entre a vida no campo, identificada com o natural, e a vida na cidade, identificada com o artificial, distinção reforçada pelas conquistas teóricas e práticas da ciência do século dezessete, que consolidaram a confiança do homem em sua capacidade progressiva de controlar a natureza.

16. A primeira percepção da existência e importância da história das ideias remonta ao curso do professor Teggart sobre a Ideia de Progresso, cursado como estudante em Berkeley, cujas aulas permanecem vivamente lembradas.

17. Ainda que o trabalho pareça produto exclusivo da biblioteca, o estímulo inicial ao estudo dessas ideias veio também da experiência pessoal, sobretudo do contato com famílias atingidas pela Depressão e por trabalhadores migrantes provenientes do Dust Bowl, que evidenciou as inter-relações entre depressão econômica, erosão do solo e migração para a Califórnia.

18. Em 1937, onze meses de viagens por diversas partes do mundo, das nuvens de poeira amarela sobre Pequim às fazendas suecas da Escânia, revelaram a diversidade das culturas humanas e dos ambientes físicos em que vivem.

19. Em 1951, a vivência em três pequenas aldeias de Okinawa permitiu observar a importância do sistema familiar chinês, alterado pelos japoneses e pelos próprios okinawanos, e a influência do sistema de herança sobre o uso e a aparência da terra.

20. Por fim, um ano vivido na Noruega em 1957, visitando cidades antigas, fazendas e sistemas de pastagem de montanha, revelou de modo mais vívido o profundo interesse europeu, e norueguês em particular, pela história das paisagens e da vida rural.

21. Em muitos lugares é possível observar evidências de relação entre atitudes religiosas perante a terra e a aparência de uma paisagem, entre limitações impostas por um ambiente local e a profundidade histórica das mudanças produzidas pela cultura humana no ambiente físico.

22. Ao iniciar este trabalho em meados da década de 1950, pretendia-se apenas escrever introdução a obra baseada em tese doutoral sobre as ideias do mundo habitável, decisão posteriormente ampliada para incluir consideração mais completa da Antiguidade clássica e da Idade Média.

23. Pretendia-se originalmente estender a história até o presente, mas a decisão de interromper o trabalho ao final do século dezoito, tomada cerca de dois anos antes, deveu-se ao reconhecimento de que o pensamento dos séculos dezenove e vinte exigiria tratamento distinto e obra separada.

24. A convicção de que, da Antiguidade clássica até o final do século dezoito, existia corpo coerente de pensamento em torno dessas ideias sustenta-se na constatação de que a distância entre Buffon, Kant ou Montesquieu e o mundo clássico seria menor do que aquela entre 1800 e 1900.

25. Um historiador das ideias deve seguir aonde seu faro o conduz, mesmo que isso implique adentrar regiões pouco familiares, sendo a especialização em história do pensamento geográfico responsável por obrigar o estudo de muitos períodos cujas contribuições não podem ser ignoradas.

26. Sempre que possível recorreu-se às fontes originais, reservando-se a literatura secundária a casos excepcionais, em particular quando indispensável o conhecimento especializado de determinados textos ou quando documentos publicados em obras secundárias substituíram originais inacessíveis.

27. Dado o grande número de pensadores envolvidos, impôs-se problema de seleção, priorizando-se obras que contribuíram originalmente para determinada ideia ou que a introduziram em outros campos, com espaço generoso concedido aos pensadores de maior relevância em detrimento de contemporâneos menores.

28. Este trabalho concerne apenas ao desenvolvimento dessas ideias na civilização ocidental, sendo nesse sentido paroquial, uma vez que essa civilização lhes forneceu moldes próprios, distintos das grandes tradições indiana, chinesa e muçulmana.

29. Impõem-se algumas observações sobre o uso frequente de certas palavras, como natureza, ambiente físico, desígnio, causas finais e clima, termos que acumularam significados diversos e por vezes vagos ao longo do tempo.

30. A palavra natureza possui múltiplos significados no grego, no latim e nas línguas modernas, ora sinônima de ambiente físico ou natural, ora carregada de aura filosófica, religiosa ou teológica, como no uso de Buffon ao referir-se a ela como trono exterior da magnificência divina.

31. Os termos ambiente natural e físico têm sido usados de modo intercambiável, correspondendo a Umwelt e milieu, restritos aos fenômenos físicos e biológicos, distintos do uso que as ciências sociais fazem da palavra ambiente para designar o meio cultural.

32. Em geral, a palavra homem é empregada como termo conveniente para designar a humanidade, ainda que cultura e sociedade sejam termos mais precisos, dado o caráter abstrato daquele que oculta as complexidades reveladas por estes.

33. Por longos períodos, clima e clima foram usados no sentido grego original de Klima, tendo Montesquieu assim os empregado no Espírito das Leis, embora o Conde Volney já observasse, no início do século dezenove, a transição para o sentido de temperatura habitual do ar.

34. Muitos termos perdem precisão pelo uso prolongado, como argumento do desígnio, empregado de modo intercambiável com a doutrina das causas finais, apesar de o termo causa, nesse contexto, diferir do sentido usual de causa eficiente, situação semelhante à da física-teologia e da teologia natural.

35. Não há como escapar dessas imprecisões terminológicas, como demonstra a tentativa de Hicks, há mais de oitenta anos, de distinguir teleologia e ordem, propondo o termo eutaxiologia para designar a ordem baseada na lei natural sem consideração de propósito, termo que não vingou.

36. As expressões teia da vida e equilíbrio da natureza têm sido usadas de modo intercambiável como metáforas de inter-relações intrincadas e ajuste delicado entre as partes constituintes da natureza, sem que se costume distinguir com precisão seus sentidos.

37. Por fim, cabe observar que a introdução à Parte I, que pode parecer desproporcionalmente longa, destina-se a fornecer o pano de fundo imediato às histórias paralelas das três ideias no período clássico e a tornar mais inteligível o pensamento de períodos posteriores, que permanece assentado, ao menos em parte, sobre fundamentos clássicos.

geo/pensadores/glacken/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki