Organização espacial
ABLER, R.; ADAMS, J. S.; GOULD, P. Spatial Organization. The Geographer’s View. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1971.
PREFÁCIO
Organização Espacial é fruto de nossas tentativas de introduzir os estudantes no modo como os geógrafos pensam o mundo. Feliz ou infelizmente, conforme o ponto de vista adotado, os geógrafos não compartilham uma maneira única e unificada de pensar a experiência espacial humana. Assim, nosso ensaio sobre os princípios básicos da geografia reflete, como necessariamente ocorre em toda exposição semelhante, as convicções filosóficas que nós três compartilhamos.
Subjacente à nossa abordagem da análise das atividades humanas no espaço terrestre encontra-se a convicção de que a geografia humana constitui uma ciência social e comportamental. Considera-se que os princípios que regem o comportamento espacial humano são, em geral, aplicáveis em todo o mundo. Evidentemente, alguns elementos da organização espacial humana são atribuíveis a fatores singulares, mas considera-se mais importante aquilo que há de comum nas maneiras pelas quais as pessoas percebem e organizam o espaço. Assim, ao apresentar os princípios da geografia, optou-se por concentrar a atenção na relação de causalidade circular entre estrutura espacial e processo espacial. As pessoas geram processos espaciais a fim de satisfazer suas necessidades e desejos, e esses processos criam estruturas espaciais que, por sua vez, influenciam e modificam os processos geográficos.
A compreensão das consequências estruturais e processuais do comportamento espacial humano tornou-se agora uma condição absolutamente necessária para o bem-estar futuro da humanidade. Não existe problema grave cuja solução não exija um conhecimento abrangente das maneiras pelas quais o ser humano percebe, valoriza e utiliza o espaço e os lugares. A capacidade de explicar e prever o comportamento espacial humano e de modificar a organização espacial humana tornou-se, agora, literalmente vital. Não se sobreviverá como espécie se não for possível prever e modificar o mundo dessa maneira.
Organização Espacial foi concebida para ampliar a compreensão das estruturas e dos processos espaciais e dos modos pelos quais os geógrafos pensam a respeito deles. Seguindo o preceito socrático segundo o qual a vida não examinada não merece ser vivida, considera-se que uma geografia não examinada não merece ser aprendida nem praticada. Por essa razão, a Parte I é dedicada a uma descrição da ciência e da geografia como modos de pensar o mundo. Compreender uma determinada visão de mundo implica algum conhecimento das origens desse sistema de pensamento. A fundamentação necessária para a ciência é fornecida nos Capítulos 1 e 2, e para a geografia, no Capítulo 3.
Todas as ciências compartilham um conjunto fundamental de objetivos e estratégias. Estes são brevemente descritos na Parte I, mas um exame mais aprofundado dos fundamentos do ponto de vista geográfico aparece na Parte II. Os Capítulos 4 a 6 são dedicados à mensuração, ao reconhecimento das relações entre os fenômenos do mundo e à maneira pela qual os cientistas agrupam as coisas em classes. A mensuração precisa, a identificação de relações e a classificação constituem, todas, meios de moldar o mundo em formas mais simples e mais prontamente compreensíveis do que aquelas existentes na matéria complexa da realidade não estruturada. Pode-se pensar nesses três procedimentos como filtros pelos quais se faz passar a experiência imediata. Eles permitem formular questões espaciais mais penetrantes e elaborar respostas mais satisfatórias.
A Parte III dirige-se diretamente ao âmago de todo pensamento geográfico: a natureza da relação de causalidade circular entre estrutura espacial e processo. Todos os processos espaciais têm uma origem comum na diferenciação areal da Terra e na interação espacial suscitada pelas diferenças existentes de um lugar para outro. O Capítulo 7 explica por que as coisas se movem através do espaço, ao passo que o Capítulo 8 descreve as estruturas dos sistemas de movimento que a interação espacial faz surgir. Esses dois capítulos proporcionam uma compreensão da espécie de espaço terrestre em que os seres humanos vivem atualmente. Com essa fundamentação, consideram-se, nos Capítulos 9 e 10, o comportamento espacial e locacional a partir de dois pontos de vista fundamentais: primeiro, o da escolha de localizações para as atividades humanas; segundo, o da escolha das melhores atividades para determinadas localizações ou lugares. Escolher lugares para as coisas e coisas para os lugares são processos interligados que produzem a organização geográfica observada na paisagem ao redor e nos mapas elaborados para representar sistemas de maior escala.
A Parte IV resume o estado atual do conhecimento acerca dos processos de difusão geográfica nas escalas local, nacional e internacional. Espaço e tempo constituem as duas dimensões mais fundamentais da existência humana. Os geógrafos sempre foram, em maior ou menor medida, históricos, e os geógrafos históricos proporcionaram algumas das melhores explicações sobre o desenvolvimento das estruturas espaciais porque dedicaram atenção tanto ao tempo quanto ao espaço como variáveis explicativas. Recentemente, os geógrafos realizaram importantes avanços em direção a uma melhor compreensão teórica das maneiras pelas quais as coisas e as ideias se movem simultaneamente através do espaço e do tempo.
Na Parte V, concentra-se a atenção nas decisões locacionais individuais, enfatizando-se a utilidade dos modelos — as abstrações e simplificações da realidade derivadas das teorias e mediante as quais o mundo se torna inteligível. As abstrações espaciais produzidas e utilizadas pela geografia constituem os verdadeiros núcleos da disciplina, pois a capacidade de explicar, prever e, desse modo, compreender o mundo somente pode ser tão boa quanto o forem as teorias e os modelos empregados. O Capítulo 12 descreve modelos normativos do comportamento espacial humano, isto é, modelos que estabelecem certos pressupostos acerca da maneira pela qual as pessoas poderiam ou deveriam tomar decisões locacionais. O Capítulo 13 discute o valor dos modelos que descrevem as maneiras pelas quais as decisões são efetivamente tomadas. Quando se utilizam modelos descritivos, aceitam-se as desvantagens de uma maior complexidade e de uma elegância reduzida em troca das vantagens proporcionadas por uma maior congruência com a realidade.
Os capítulos dedicados à tomada de decisões espaciais mostram quão limitado ainda é o conhecimento útil acerca do comportamento espacial humano, ponto que se enfatiza nos capítulos finais do livro. O Capítulo 14 considera aquilo que se conhece e aquilo que não se conhece acerca da localização de instalações e atividades com a finalidade de maximizar benefícios sociais e minimizar custos sociais. O Capítulo 15 apresenta algumas indicações acerca dos tipos de problemas locacionais e espaciais que os geógrafos terão de resolver no futuro para que a humanidade possa prosperar, ou mesmo sobreviver. Dadas a dimensão e a intensidade do sistema geográfico mundial que o ser humano criou, os problemas precisam ser antecipados e resolvidos previamente para que se evite a catástrofe.
Ao longo de todo o livro, procura-se apresentar as estratégias que os geógrafos podem utilizar para resolver os problemas criados pelas distribuições das pessoas e de suas atividades. Organização Espacial trata de táticas de resolução de problemas, mas muito pouco se abordaram, e na maioria dos casos absolutamente não se abordaram, as complexidades efetivas dos métodos de pesquisa. A preocupação com as técnicas de análise espacial limita-se às maneiras bastante gerais pelas quais elas podem ser utilizadas para resolver problemas. É necessário desenvolver uma sensibilidade agudamente refinada para os fins aos quais as técnicas de análise espacial podem ser proveitosa e validamente destinadas. Assim, a atenção concentrou-se na utilidade e nos objetivos da investigação geográfica.
Livros como este são, na realidade, escritos pelas centenas de pessoas cujas ideias foram selecionadas, modificadas e reunidas neste ponto específico do espaço e do tempo. Certamente se possui uma grande dívida para com aqueles que produziram os importantes avanços da geografia humana teórica das duas últimas décadas. Eles fizeram com que antigos e persistentes problemas fossem considerados com novos olhos. Mais especificamente, expressa-se especial agradecimento a Allan Rodgers. Foi ele quem constituiu, na Universidade Estadual da Pensilvânia, o estimulante e instigante departamento que reuniu os três autores. Além disso, seu afável ceticismo quanto à possibilidade de que o livro algum dia fosse concluído proporcionou precisamente o estímulo necessário quando o trabalho se tornava difícil e o ânimo enfraquecia. Tony Williams participou da concepção e do ensino do curso que deu origem a Organização Espacial e, de muitas maneiras, contribuiu para que se decidisse a forma que o livro assumiria. Por fim, os estudantes foram críticos persistentes e, em geral, construtivos, bem como fontes de estímulo. É para com eles que se possui a maior dívida de todas.
Ronald Abler
John S. Adams
Peter Gould
P.S. O título originalmente escolhido foi O Guia do Estudante Inteligente para a Geografia, mas a maioria das pessoas destituídas de senso de humor que avaliaram o manuscrito considerou que isso era um pouco excessivo.
