Solo comum
GOULD, Peter; OLSSON, Gunnar (orgs.). A search for common ground. London: Pion, 1982.
Prólogo
1. A geografia é reconhecida como uma disciplina eclética, cuja amplitude de investigação é fonte tanto de suas forças quanto de suas fraquezas, pois, se por um lado seu amplo espectro de interesses gera percepções profundas e importantes, por outro, o mapa da própria geografia frequentemente aparece fragmentado, com os fragmentos de pesquisa espalhados como peças de um quebra-cabeça sem conexão aparente.
2. Parte do problema da fragmentação decorre do crescimento explosivo dos últimos vinte e cinco anos, com um aumento sem precedentes no número de geógrafos, publicações e engajamento em problemas práticos, o que, apesar de ter sido um período empolgante, deixou pouco tempo para a reflexão crítica sobre as direções escolhidas e a comunicação entre os pesquisadores.
3. A geografia pagou um preço severo por não manter uma associação próxima com a tradição de reflexão filosófica, o que resultou na incapacidade de obter uma visão externa e crítica do próprio trabalho, e na emergência de novas perspectivas que, por falta de uma tradição crítica esclarecedora, se transformaram em dogmas temporários, caricaturando posições e dificultando a comunicação.
4. Com o desejo de abrir um discurso esclarecedor entre geógrafos de diferentes persuasões, os autores se reuniram em preocupação comum, cientes de como os temas filosóficos contemporâneos fundamentavam o discurso geográfico e de que as discussões refletiam seu tempo histórico, permitindo vislumbrar as difíceis questões à frente.
5. Uma tentativa de medir a aproximação intelectual entre os participantes antes e depois das discussões, por meio de escalas de afinidade profissional, não foi concluída, mas as poucas respostas indicaram uma contração no espaço intelectual e um aumento na confiança, respeito e compreensão entre os pontos de vista, comparando o efeito à construção de pontes suspensas em um arquipélago.
-
A tentativa de construir mapas de 'antes' e 'depois' para verificar a contração do espaço intelectual foi um experimento que não pôde ser completado, pois a maioria dos participantes se sentiu desconfortável com a tarefa de repetir a escala após os cinco dias de discussão.
-
Apesar da falha na coleta de dados, a impressão geral foi de que houve uma contração e que o encontro produziu maior confiança, consciência, respeito e compreensão por outros pontos de vista, sem, no entanto, gerar um consenso homogêneo.
6. A estruturação do livro, a partir dos diversos interesses e pontos de vista, não foi uma tarefa fácil, não por serem fragmentos desconectados, mas por gerarem muitas possibilidades de conexão; a estrutura não é uma narrativa linear, mas sim uma estrutura complexa, como um 'star' topológico, onde o leitor retorna a temas básicos sob diferentes perspectivas.
7. Temas como indivíduo e sociedade, linguagens, estruturas e a história da geografia emergem com frequência, refletindo preocupações mais amplas do mundo moderno, e a forma como aparecem nos ensaios demonstra que os fios de preocupação compartilhada podem construir pontes mais fortes entre os autores.
8. As visões de Golledge e Bartels sobre os desenvolvimentos recentes na geografia são contrastantes, sendo a primeira inerentemente otimista quanto aos ganhos em rigor lógico e conhecimento compartilhado, enquanto a segunda, da Alemanha Ocidental, é mais pessimista, apontando para uma fuga de talentos e uma tendência anticientífica.
9. Para clarificar os significados de palavras usadas no debate humanista-cientista, Christensen propõe um exame cuidadoso das intenções originais dos termos filosóficos, distinguindo entre crítica e 'critique', com o objetivo de promover um uso mais preciso e um entendimento compartilhado.
10. A perspectiva de Osterrieth concentra-se no espaço vivido (espace vécu), especialmente nas grandes cidades, onde as pessoas não apenas vivem no espaço, mas interpretam, experienciam, valorizam e dão significado simbólico ao lugar, com o objetivo de diagnosticar e avaliar a qualidade de vida e prescrever mudanças para uma vida mais digna.
11. Diante da polarização entre as tradições científica e humanística, questiona-se a necessidade de uma escolha forçada, pois a ciência é uma empreitada humana que requer interpretação, e a busca por estrutura pode se beneficiar de linguagens apropriadas para distinguir entre estruturas de suporte e coisas suportadas.
12. A preocupação com a estrutura também fundamenta o ensaio de Couclelis, que busca encontrar coerência na geografia e explicitar questões estruturais por meio de modelos urbanos, movendo-se entre níveis de abstração para mostrar como a adição ou subtração de informação altera as visões de espaço e tempo, culminando em um apelo para reconhecer o papel humano fundamental na estruturação da realidade.
13. O ensaio de Scott convida a refletir sobre por que se pensa intensamente sobre os aspectos espaciais da sociedade, argumentando que o conhecimento e a ciência são historicamente determinados e que o foco em problemas urbanos e regionais reflete as relações sociais e de propriedade da sociedade capitalista tardia, exigindo uma postura autocrítica e vigilante do pesquisador.
14. A relação entre o indivíduo e a sociedade é o tema do ensaio de Pred, que, a partir da perspectiva da geografia do tempo, detalha as restrições espaço-temporais sobre os indivíduos, ao mesmo tempo em que enfatiza o processo dialético contínuo pelo qual a sociedade molda o indivíduo e a soma dos indivíduos reproduz a sociedade.
15. O ensaio de Gregory exemplifica o esforço de conectar a geografia humana contemporânea com a teoria social moderna, iluminando controvérsias geográficas antigas e mostrando como a geografia humana pode fornecer uma perspectiva ampliada e enriquecedora para o pensamento atual em teoria social.
16. O ensaio de Olsson, em um estilo pessoal, convida a refletir sobre o próprio meio de pensar, a linguagem, que molda o pensamento, e expressa a alegria de saber que não se sabe e a agonia de saber que se sabe, exigindo uma leitura atenta e pausada para ser devidamente compreendido.
17. O ensaio de Marchand leva a reflexão sobre linguagem e relações dialéticas para um exemplo concreto em Los Angeles, desdobrando as relações entre valores de uso, troca, signo e símbolo para revelar a estrutura mais profunda da paisagem urbana.
18. O ensaio de Wallin, originalmente escrito em sueco, utiliza uma habilidade etimológica para iluminar o conceito de 'passagens', ou transições na vida humana, onde uma coisa se transforma em outra, demonstrando como a linguagem pode ser usada para explorar significados precisos e, ao mesmo tempo, ambíguos.
19. A esperança é que os ensaios encorajem outros a refletir sobre as amplas questões que eles colocam, seja individualmente ou em seminários, e que haja mais oportunidades para discutir questões de importância crítica para geógrafos e para a sociedade em geral, incentivando uma maior consciência da tradição de pensamento reflexivo para que as questões atuais não sejam vistas em termos tão conflituosos.
