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Imaginações geográficas

GREGORY, Derek. Geographical Imaginations. Londres: Blackwell, 1994.

1. A “socialização” da geografia humana é discutida como processo em que a construção social sempre esteve presente, ainda que apenas recentemente seus praticantes tenham refletido criticamente sobre as conexões entre prática social e geografia humana, aprendendo com isso lições que ora se elevam à abstração ora permanecem enraizadas no significado existencial do lugar, do espaço e da paisagem.

2. Um segundo percurso narrativo aproxima-se do tema a partir do interesse crescente de outras humanidades e ciências sociais pelas questões de lugar, espaço e paisagem, produzindo, em campos como a filosofia, o materialismo histórico, o feminismo, o pós-estruturalismo, os estudos culturais e o pós-colonialismo, tratamentos novos e produtivos da produção do espaço social, cuja justaposição sugere efervescência política e intelectual sem precedentes.

3. A reconfiguração do pensamento social apontada por Clifford Geertz, em que as fronteiras entre a investigação intelectual formal e a escrita imaginativa se diluem e a vida social passa a ser concebida como jogo, drama ou texto, ocultou a implicação espacial comum a essas três metáforas, cuja significância transcende o plano meramente metafórico e cujas implicações materiais precisam ser estabelecidas antes de se avançar com as metáforas do mapeamento e da viagem.

Mapas da paisagem intelectual

4. Um “mapa” da paisagem intelectual é construído em dois movimentos: um primeiro percurso pelo lado esquerdo do diagrama, seguindo os encontros estratégicos da geografia humana moderna com a antropologia, a sociologia e a economia, culminando na configuração da “geografia como exposição do mundo”; e um segundo percurso pelo lado direito, no qual a crítica à ciência espacial moderna reativa esses diálogos em ordem inversa, produzindo a “ansiedade cartográfica” diante da complexidade e contingência da espacialidade humana.

5. Toda representação, inclusive a construção desse próprio mapa, constitui um dispositivo retórico interessado, uma vez que a história nunca é inocente, mas sempre “história-para”, funcionando como estratégia de persuasão que localiza e legitima determinadas reivindicações em detrimento de outras, de modo que a objetividade do mapa apresentado é reconhecida como ficção séria que representa a paisagem intelectual a partir de um ponto de vista particular, como observa Felix Driver ao afirmar que representar o passado da geografia é sempre um ato do presente.

6. A própria metáfora do mapeamento é reconhecida como problemática, na medida em que supostamente envolve topografia epistêmica estruturada pelo olhar branco, masculino e burguês que nega outras formas de conhecer e limita a possibilidade de crítica, ainda que essa objeção, ao aceitar a própria historiografia da cartografia mesmo ao contestá-la, ignore a existência de historiografia crítica que, sobretudo a partir do trabalho de Brian Harley, evidenciou a implicação dos mapas nos sistemas de poder-saber e a natureza necessariamente situada, corporificada e parcial de toda prática de mapeamento.

7. É possível empregar tanto as imagens de mapas, paisagens e espaços quanto as de localização, posição e geometria de maneiras que desafiem a visão arquimediana do conhecimento, embora essa capacidade não seja absoluta e dependa das formas específicas de uso, podendo o discurso cartográfico convencional ser voltado contra si mesmo, empregado de modo irônico ou paródico, ou reformulado em modalidades mais abertas.

8. A construção e a leitura do mapa exigem a identificação de coordenadas “internas” e “externas” da geografia humana, sendo insuficientes as histórias internalistas que pressupõem um espaço discursivo já reservado à disciplina, à espera apenas de exploradores, agrimensores e colonizadores que convertessem essa reivindicação imanente em realidade palpável.

9. A geografia, como a cartografia, sempre foi discurso prático e profundamente politizado, de modo que suas contornos filosófico-teóricos não podem ser interpolados como meras respostas a mudanças no “real”, sob pena de repetir, em sentido inverso, o erro das histórias internalistas, sendo necessário reconhecer, à luz da crítica ao realismo, que a representação é construtiva e não mimética, e buscar borrar a distinção convencional entre “interno” e “externo” como produto de um processo recíproco de constituição.

10. Essa distinção entre interno e externo é ainda mais complicada pela tradição de apresentar a história da geografia moderna como um gazetteer intelectual organizado por escolas nacionais e locais, tradição tornada problemática pela circulação global de informações e ideias, que torna o “conhecimento local” já não mais propriamente local, configurando o que Clifford descreve como a condição da modernidade etnográfica, em que não há mais ponto de vista arquimediano a partir do qual mapear os modos de vida humanos.

Teoria viajante

11. Tomada de empréstimo de Edward Said, a noção de “teoria viajante” chama atenção para a situacionalidade da teoria, que deve ser apreendida no lugar e tempo de que emerge, sendo sempre sobredeterminada e mutável, o que remete a dois motivos sobrepostos: o primeiro, descrito por Jonathan Culler, concebe a teoria contemporânea como gênero cuja força advém não dos procedimentos aceitos de uma disciplina, mas da novidade persuasiva de suas redescrições, capazes de transgredir fronteiras disciplinares.

12. O interesse não se limita ao pós-estruturalismo, mas volta-se à teoria social de modo mais amplo, entendida como conjunto de discursos sobrepostos e conflitantes que buscam refletir sobre a constituição da vida social e torná-la inteligível, com atenção particular à teoria crítica, que busca não apenas compreender a vida social, mas também aperfeiçoá-la, mantendo-se em tensão constante pela interrogação de sua própria normatividade.

13. A capacidade da teoria de atravessar e questionar fronteiras disciplinares é destacada por Culler, ainda que a divisão intelectual do trabalho não seja arbitrária, apoiando-se em razões históricas que, uma vez institucionalizadas, são mobilizadas e policiadas pelo aparato acadêmico, sem que correspondam a rupturas naturais na paisagem intelectual, pois a vida social e as ideias não respeitam tais fronteiras.

14. Esse intenso trânsito transfronteiriço corresponde ao que se entende por discurso, isto é, à vasta rede de signos, símbolos e práticas por meio da qual o mundo se torna significativo, noção que esclarece a situacionalidade da teoria e que se aplica também às ciências naturais, cujas práticas laboratoriais, como demonstra Joseph Rouse, estão igualmente fundadas em sítios e práticas discursivas específicas, de modo que o interesse recai sobre os discursos da geografia, e não sobre a disciplina geográfica, discursos que atravessam as práticas sociais cotidianas para além da academia.

15. O pensamento crítico e sistemático sobre a vida social e o espaço social exige distanciamento das pressuposições cotidianas e do senso comum, sem contudo suspendê-las por completo, sendo necessário interrogá-las, submetê-las a outras perguntas e outros públicos, e mostrar como se conectam ou colidem em complexos de ação e reação que transformam as geografias trêmulas da modernidade.

16. Essa tarefa constitui um dos papéis centrais da teoria social, entendida não como posse de uma disciplina específica, mas como meio no qual qualquer explicação da vida social deve necessariamente operar, uma vez que o empirismo não é opção viável, fornecendo a teoria social um conjunto de saberes parciais, problemáticos e situados que exigem constante retrabalho, de modo que trabalhar com ela equivale a tecer uma hermenêutica múltipla entre diferentes sítios, e não uma hermenêutica dupla confinada a um único lugar.

17. Um segundo motivo relacionado ao tropo da viagem, das “raízes” e “rotas”, ocupa lugar central na discussão, não tanto redesenhando os mapas da paisagem intelectual, mas colocando em questão os próprios princípios do mapeamento, na medida em que a teoria social moderna, herdeira do Iluminismo e da razão kantiana, tende a se apresentar como discurso legislador de generalidades que, segundo Habermas, transcende toda particularidade, sendo precisamente essa pretensão de universalidade que a metáfora da viagem contesta, exigindo o reconhecimento escrupuloso das origens da “teoria viajante” e dos pressupostos que ela carrega e que nem sempre sobrevivem à travessia.

18. Bell hooks adverte que a própria metáfora da viagem pode reproduzir o imperialismo, pois carrega bagagem na qual dificilmente cabem experiências como a Passagem do Meio, a Trilha das Lágrimas, a chegada de imigrantes chineses a Ellis Island, a realocação forçada de nipo-americanos ou a condição dos sem-teto, de modo que, para uma mulher negra nos Estados Unidos, viajar é deparar-se com a força aterrorizante da supremacia branca.

19. Os ensaios de James Clifford evidenciam os privilégios das elites da cultura intelectual ocidental e a natureza situada, generizada e classista de sua liberdade de mover-se, ler e escrever, mas o que o incomoda é a suposição de que apenas certas classes de pessoas seriam cosmopolitas enquanto as demais permaneceriam meramente locais, sendo isso ideologia de uma única cultura viajante dominante entre outras culturas viajantes constituídas tanto pela força quanto pelo privilégio, de modo que os mapas de Clifford questionam suas próprias convenções ao viajar.

20. Essas preocupações permanecem privilégios e luxos, e toda metáfora espacial é de algum modo comprometida e viciada, mas o reconhecimento dessas restrições, embora não produza investigação inocente ou em estado de graça, constitui conquista crítica vital ao lembrar a materialidade e a mundanidade da investigação intelectual.

21. Não se pretende aqui uma genealogia rigorosa da geografia humana, mas antes uma série de vinhetas ou fixações de posição que traçam a emergência de uma tradição distintiva da investigação intelectual ocidental, sem constituir sequer o esboço de uma história alternativa, limitando-se a fazer incisões na historiografia convencional da geografia e a mostrar que seus episódios estratégicos podem dialogar com outras histórias, lembrando que a “geografia humana” só se institucionalizou nas últimas décadas do século dezenove, embora seu desenvolvimento tenha recorrido a tradições de investigação mais antigas por meio dos mesmos dispositivos legitimadores já mencionados.

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