Derek Gregory
GREGORY, Derek. Geographical Imaginations. Londres: Blackwell, 1994.
1. A mudança da Universidade de Cambridge para a Universidade da Colúmbia Britânica levou ao abandono do manuscrito do livro “The Geographical Imagination” e à escrita de “Geographical Imaginations”, um processo que exigiu a reflexão sobre três questões que, embora pudessem ter sido consideradas na Inglaterra, nunca foram colocadas em primeiro plano, mas que agora tinham de ser enfrentadas como questões de prática quotidiana.
2. A primeira questão a ser confrontada foi o legado colonial, que se voltava em duas direções: de um lado, a presença contínua dos passados europeus e os laços culturais, políticos e económicos que ligam o Canadá anglófono à Grã-Bretanha, o Canadá francófono à França e os cruzamentos na fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos; do outro, a inscrição do poder e do conhecimento (e da ignorância) europeus sobre as vidas e terras dos povos nativos.
3. A segunda questão foi viver numa sociedade multicultural, com as suas tensões raciais, preconceitos e discriminações, mas também com os seus enriquecimentos e diferenças, e lecionar numa universidade onde muitas pessoas podiam traçar as suas raízes para outros continentes, mais frequentemente para uma Ásia que não podia ser reduzida ao Outro da Europa.
4. A terceira questão foi trabalhar numa universidade onde as questões de género e sexualidade eram levadas mais a sério do que anteriormente, e onde, após o massacre de estudantes na École Polytechnique de Montréal, essas questões adquiriram uma nova e angustiante seriedade.
5. Estas experiências ajudaram a tomar consciência da própria “alteridade” e os ensaios neste livro representam uma tentativa de refletir sobre essas questões, de lidar com a transplantação da Europa para a América do Norte e de compreender a importância contínua de um horizonte europeu de significado no próprio trabalho, num mundo onde o dilema da cultura toca a todos de inúmeras maneiras.
6. Acredita-se que a geografia tem uma relevância especial nesse contexto, pois a disciplina tem como uma das suas preocupações centrais a compreensão de outras pessoas e outros lugares, e o termo “disciplina” é aqui entendido como um reconhecimento difuso, embora profundo, da importância do lugar e do espaço, e não como um conjunto de conceitos soberanos ou uma operação de policiamento rigoroso.
7. Em vez de enxertar a geografia na árvore clássica do conhecimento, sugere-se pensar nas pistas nómadas e multiplicidades do rizoma, abrindo as geografias a interrupções e deslocamentos, atendendo a outras formas de viajar e seguindo novas linhas de fuga, uma perspetiva enriquecida pela colaboração com um grupo notavelmente talentoso e diversificado de geógrafos em Vancouver.
8. Ao refletir sobre o dilema da posicionalidade nesta cidade encruzilhada, reconhece-se que é impossível e ilegítimo falar por ou mesmo sobre os outros, mas como professor de geografia, acredita-se ter a responsabilidade de ampliar os horizontes da sala de aula e do seminário, ciente dos perigos de ser invasivo ou apropriativo, mas considerando as consequências de não o fazer como muito mais perturbadoras.
9. A organização do livro como um conjunto de ensaios que consideram imaginações geográficas diversas, e não “a” imaginação geográfica, reflete uma gratidão a Denis Cosgrove, e estes ensaios espiralam em torno de um conjunto comum de temas que lidam com poder, conhecimento e espacialidade, uma formulação que deve muito a Michel Foucault e, de forma central, a David Harvey, cujo trabalho está presente em todos os ensaios.
10. O livro “Social justice and the city” de Harvey, publicado no final do primeiro ano de pós-graduação, foi o primeiro livro em geografia que não foi compreendido, pois a dificuldade conceptual, que exigia um envolvimento com a teoria social e o reconhecimento da responsabilidade ética e política, era de uma ordem diferente da dificuldade técnica a que se estava habituado.
11. As ideias de Harvey sobre a imaginação geográfica e a importância do lugar e do espaço na condução e constituição da vida social continuaram a guiar o trabalho, e são consideradas algumas das intervenções mais criativas no discurso da geografia, embora se reconheça que a questão da “natureza” está presente apenas nas margens deste livro.
12. O foco na política da espacialidade não significa que as questões ambientais sejam consideradas sem importância, e acredita-se que as questões da espacialidade estão ligadas de formas profundas ao que é frequentemente chamado de cultura - e política cultural - da natureza.
13. Este tem sido um projeto nómada, encorajado por muitos amigos fora de Vancouver, e expressa-se gratidão a todos aqueles que comentaram versões anteriores do livro, incluindo David Livingstone e Neil Smith, bem como a Paul Jance, Stephanie Argeros-Magean e, acima de tudo, a John Davey, que demonstrou um interesse caloroso e inteligente no projeto.
