Propósito da obra
La production de l'espace
1. Há poucos anos, o termo espaço evocava apenas um conceito geométrico, o de um meio vazio, dependente exclusivamente da matemática, de modo que a expressão espaço social ainda causava surpresa.
2. O conceito de espaço experimentou longa elaboração filosófica, tendo Descartes representado a etapa decisiva dessa elaboração ao concluir a tradição aristotélica das categorias e fazer o espaço entrar no absoluto como objeto diante do sujeito.
3. Essas longas controvérsias, que marcaram a passagem da filosofia à ciência do espaço, não prescreveram, vinculando-se a questões precisas e concretas como as das simetrias e dissimetrias, que serão retomadas no curso da obra e repercutirão na análise do espaço social.
4. Vieram então os matemáticos modernos, que se apoderaram do espaço de forma paradoxal ao inventar uma infinidade de espaços não-euclidianos, de curvaturas e de múltiplas dimensões, sem que a relação entre a matemática e o real ficasse evidente, cavando-se antes um abismo entre eles.
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O espaço retornava assim àquilo que a tradição platônica opusera à doutrina das categorias, uma coisa mental, agravando a proliferação de teorias matemáticas o antigo problema do conhecimento, a saber, como passar dos espaços matemáticos à natureza, à prática e à teoria da vida social.
5. Dessa filiação da filosofia do espaço revista pelos matemáticos, a epistemologia moderna aceitou um certo estatuto do espaço como coisa mental, fascinando a teoria dos conjuntos não apenas filósofos, mas escritores e linguistas.
6. Mal explicitado e misturando coerência lógica, coesão prática e a lógica do recipiente e do conteúdo, o conceito de espaço mental se generaliza sem barreiras, perguntando-se continuamente por espaço disto ou daquilo, sendo o ausente dessas pesquisas não apenas o homem, mas também o próprio espaço do qual se fala a cada página.
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Foucault fala tranquilamente do espaço no qual o sujeito toma posição sem se perguntar de qual espaço fala, articulando cientificidade e espacialidade estruturalmente segundo uma conexão pressuposta jamais elevada ao conceito.
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A reflexão epistemológica, conjugada aos esforços dos linguistas, liquidou o sujeito coletivo, dando precedência ao impessoal gerador da linguagem, mas reintroduziu, por necessidade, o sujeito abstrato, o Cogito filosófico, reatualizado por Husserl e retomado por Chomsky, que postula um espaço mental dotado de orientações e simetrias, transpondo sem cuidado esse espaço mental ao espaço social.
7. Uma forte corrente ideológica exprime inconscientemente as representações da classe dominante por meio de uma prática teórica que engendra um espaço mental ilusoriamente exterior à ideologia, tornando-se este, por sua vez, lugar de uma prática teórica erigida em eixo do Saber.
8. A identidade quase lógica pressuposta entre o espaço mental aprofunda o abismo entre o mental, o físico e o social, sendo que a filosofia profissional, incapaz do salto mortal, abandona a problemática atual do saber pela introversão redutora num saber absoluto que se pretende separado da ideologia e do vivido.
9. A reflexão epistemológico-filosófica não propiciou eixo a uma ciência do espaço há muito procurada, culminando as pesquisas em descrições ou em fragmentações que chegam apenas a inventários ou a um discurso sobre o espaço, jamais a um conhecimento do espaço propriamente dito.
10. A semiologia coloca questões delicadas ao aplicar códigos literários aos espaços urbanos de forma meramente descritiva, correndo-se o risco, ao construir uma codificação decodificante, de reduzir o espaço a uma mensagem e sua frequentação a uma leitura, ainda que se possa perguntar se não existiu, entre os séculos XVI e XIX, um código arquitetural e urbanístico comum que permitia não apenas ler mas produzir o espaço.
11. Os recortes e fragmentações do espaço vão até o indefinido, falando-se de espaço pictural, arquitetural, literário, de lazer, de trabalho, de jogos, chegando-se mesmo a falar de espaço doente ou louco, multiplicando-se indefinidamente as categorias geográfica, econômica, demográfica, política e outras.
12. Antes de refutar minuciosamente tais procedimentos, a multiplicidade indefinida de descrições e recortes os torna suspeitos, indicando talvez uma tendência dominante na sociedade existente em que o trabalho do conhecimento se divide sem fim, ao passo que a prática espacial projeta no terreno todos os aspectos da prática social sem abandonar o controle global exercido pelo Estado.
13. Se essa análise se confirma, a ciência do espaço procurada equivale ao emprego político do saber, integrado cada vez mais imediatamente às forças produtivas.
14. Essa ciência do espaço implica também uma ideologia que mascara tal uso e os conflitos inerentes ao emprego interessado de um saber em princípio desinteressado.
15. Ela contém, no melhor dos casos, uma utopia tecnológica de simulação do futuro nos marcos do modo de produção existente, presente em todos os projetos arquiteturais, urbanísticos e planificadores.
16. Tais proposições, se verificadas, implicam primeiramente a existência de uma verdade do espaço, e não a construção de um espaço verdadeiro, e em segundo lugar a necessidade de inverter a tendência dominante rumo à fragmentação subordinada a um poder central, inversão que mobilizará muitas forças e exigirá orientação etapa por etapa.
17. Poucos hoje recusariam admitir a influência do capitalismo nas questões espaciais, mas divergem as interpretações, ora reduzindo-o ao dinheiro e à mercadoria generalizada, ora aos agentes concretos como sociedades, bancos e promotores, colocando-se entre parênteses tanto a unidade quanto a diversidade contraditória do capitalismo, composto de capital fundiário, comercial e financeiro entrelaçados a diversos mercados.
18. Além do funcionamento do dinheiro e dos mercados, o capitalismo tem um aspecto dominante ligado à hegemonia de uma classe, conceito introduzido por Gramsci que permite analisar a ação da burguesia no espaço, exercendo-se essa hegemonia sobre a sociedade inteira, cultura e saber incluídos, por meio de instituições e representações, tornando manifesto o vínculo entre saber e poder.
19. A hegemonia não deixaria de lado o espaço, mostrando-se adiante seu lado ativo no modo de produção existente, servindo o espaço à hegemonia por meio de uma lógica subjacente que constitui um sistema não isento de contradições, sob pena de o sistema pretender falsamente a imortalidade.
20. A teoria buscada, que se ressente de um momento crítico e recai no saber fragmentado, pode ser designada por analogia como teoria unitária, tratando-se de descobrir a unidade entre os campos físico, mental e social, tal como a física busca unir suas forças, concernindo a pesquisa ao espaço lógico-epistemológico, ao espaço da prática social e ao imaginário.
21. A exigência de unidade se acentua ao notar-se que o pensamento reflexivo ora confunde, ora separa os níveis discernidos pela prática social — habitação, cidade e território —, atribuídos a especialidades diferentes que ora se interpenetram sob o tacão do político, ora se ignoram mutuamente.
22. Uma teoria unitária poria fim a essa situação, cuja análise crítica as considerações precedentes não esgotam.
23. O conhecimento da natureza material define conceitos ao mais alto nível de abstração científica, sabendo-se que energia, espaço e tempo não podem nem se confundir nem se separar, constituindo juntos a substância única do cosmos, de modo que cada um tomado isoladamente se torna abstração vazia.
24. O conhecimento da prática social não pode proceder de um modelo emprestado da física, cujas tentativas sempre fracassaram, servindo antes a teoria física de parapeito que incita a démarches unitárias, e não de modelo a copiar.
25. A procura de uma teoria unitária em nada impede os conflitos, controvérsias e polêmicas internas ao conhecimento, existindo momentos conflituais até na física e na matemática que os filósofos creem puras.
26. Que o espaço físico não tenha realidade sem a energia que nele se desenvolve parece fora de dúvida, permanecendo conjecturais as relações entre centros e periferias, tendo a teoria da expansão, com seu núcleo inicial quase teológico, sido contestada por F. Hoyle, para quem a energia-espaço-tempo se condensa numa multiplicidade indefinida de lugares locais.
27. Na medida em que a teoria do espaço humano pode se associar a uma teoria física, o espaço se considera como produto da energia, recusando-se causalismo e finalismo metafísicos, oferecendo o cosmos uma multiplicidade de espaços qualificados que dependem, entretanto, de uma teoria unitária, a cosmologia.
28. Essa analogia tem limites, não havendo razão para alinhar as energias sociais às energias físicas, reducionismo que será explicitamente refutado, ainda que as sociedades humanas não possam se conceber fora do cosmos.
29. Pouco importa como se denomine a separação que mantém à distância o físico, o mental e o social — distorção, defasagem, corte ou fissura —, o que interessa é a distância que separa o espaço ideal, dependente das categorias mentais, do espaço real da prática social, ainda que cada um implique e suponha o outro.
30. Diante da questão de qual terreno escolher para a pesquisa teórica, nem a filosofia, parte interessada que aprofundou o abismo com o espaço cartesiano, nem a literatura, que descobre o espaço em toda parte sem privilegiar textos específicos, nem a arquitetura, cuja definição já pressuporia a análise do espaço, oferecem um ponto de partida satisfatório.
31. Também não se poderia partir de noções científicas gerais como informação, mensagem ou código sem correr o risco de fechar a análise numa especialidade, restando o apelo a noções universais como as de produção e produzir, que, elaboradas pela filosofia e retomadas de Marx, apresentam a universalidade concreta reclamada, ainda que a expressão produzir o espaço surpreenda por contrariar o esquema de um espaço vazio preexistente.
32. Cada um sabe do que se trata ao falar de uma peça, de uma esquina, de uma praça ou de um centro comercial, palavras do discurso cotidiano que correspondem a uma prática espacial, cabendo perguntar-se qual paradigma lhes confere significação e segundo qual sintaxe se organizam.
33. Tais termos constituiriam ou um código mal conhecido a reconstituir, ou permitiriam à reflexão construir, a partir das palavras e de operações sobre elas, um código do espaço.
34. Em ambos os casos, a reflexão construiria um sistema do espaço que, sabe-se por experiências científicas, só contém indiretamente o objeto, sendo o projeto desta obra não produzir um discurso sobre o espaço, mas mostrar a produção do próprio espaço numa teoria unificada.
35. Permanece em aberto se a linguagem precede, acompanha ou segue o espaço social, sendo talvez necessário descobrir relações ainda dissimuladas entre o espaço e a linguagem, a logicidade inerente à articulação funcionando desde o início como espacialidade.
36. Em que medida um espaço se lê ou se decodifica não recebe resposta satisfatória fácil, pois, mesmo sem código geral do espaço, códigos particulares talvez se tenham estabelecido ao longo da história, permitindo aos sujeitos acederem a seu espaço e à sua condição de sujeitos que nele atuam.
37. Se houve, do século XVI ao XIX, uma linguagem codificada fundada na perspectiva clássica e no espaço euclidiano, comum à cidade, ao campo e ao território político, cabe perguntar por que e como essa codificação explodiu, e se é possível reconstruir tal linguagem comum.
38. A teoria só pode se formar ao nível de um sobrecódigo que não se fecha em categorias linguísticas privilegiadas; deslocando-se da insistência no rigor formal dos códigos, a análise dialetizará essa noção, buscando mostrar a gênese e o desaparecimento das codificações e esclarecer as práticas sociais espaciais inerentes às formas.
Perspectivas complementares: surrealismo, Bataille, Lafitte
39. O surrealismo aparece hoje diferentemente de como aparecia há meio século, tendo desaparecido algumas de suas pretensões, sem que a escola se reduza, contudo, a um simples evento literário ligado à exploração do inconsciente.
40. Os principais surrealistas tentaram decifrar o espaço interior e esclarecer sua passagem à matéria, ao corpo e ao mundo exterior, conferindo isso ao surrealismo um alcance teórico de início despercebido, revelado em L'amour fou de André Breton, sem que isso retire nada dos limites do fracasso dessa tentativa poética, que privilegia o visual em detrimento do escutar e do musical.
41. O projeto, de origem hegeliana segundo o próprio Breton, só se persegue mediante sobrecarga afetiva e subjetiva do objeto amado, oferecendo os surrealistas apenas uma metalinguagem lírica da história e uma fusão ilusória entre sujeito e objeto, incapazes que eram de passar da troca ao uso pela mera virtude da linguagem.
42. A obra de Bataille também não teria buscado reunir o espaço da experiência interior ao espaço da natureza física e ao espaço social, demarcando, à maneira nietzschiana, o trajeto entre o real, o infrarreal e o suprarreal, apreendendo tragicamente o espaço inteiro, cujo centro e periferia partilham igualmente da realidade trágica do sacrifício e da violência.
43. Ao oposto dos surrealistas e de Bataille, J. Lafitte entreviu uma teoria unitária do espaço confiando a exploração da realidade material a uma mecanologia, ciência geral dos dispositivos técnicos, sem dispor, contudo, de conceitos como a informática e a cibernética, construindo séries evolutivas que reproduzem audaciosamente a gênese da natureza, do conhecimento e da sociedade a partir da analogia entre máquinas passivas e vegetais, máquinas ativas e animais.
44. A hipótese de Lafitte, e outras do mesmo gênero, coloca à frente o explicitado e o racional, afastando o que se dissimula na práxis, como se tudo se reduzisse à frontalidade.
45. Se a pesquisa de uma teoria unitária do espaço se perfila há décadas, cabe perguntar por que e como foi abandonada, seja por vasta demais, seja por estéril.
46. Para compreender o que se passou, é preciso remontar a Hegel, segundo quem o Tempo histórico engendra o Espaço onde se estende e sobre o qual reina o Estado, congelando-se o Tempo na racionalidade imanente ao espaço, de modo que o fim hegeliano da história não elimina o produto da historicidade, mas faz desaparecer a própria história, que se converte de ação em memória.
47. Após essa fetichização do espaço às ordens do Estado, filosofia e prática só podem tentar restaurar o tempo, fortemente em Marx, que restitui o tempo histórico como tempo da revolução, e sutilmente em Bergson e na fenomenologia husserliana.
48. No hegelianismo antihegeliano de Lukács, o espaço define a reificação e a falsa consciência, sendo o tempo reencontrado pela consciência de classe que rompe a primazia do espacial.
49. Somente Nietzsche manteve o primado do espaço e a problemática da espacialidade, concebendo um espaço absoluto substrato da força que nada tem em comum com o espaço hegeliano, assim como seu tempo cíclico e trágico nada tem em comum com o tempo marxista de historicidade otimista impulsionada pelas forças produtivas.
50. Cabe então observar o que advém na segunda metade do século XX, testemunhada por nós.
51. Em primeiro lugar, o Estado se consolida à escala mundial, esmagando o tempo em repetições e circularidades e impondo-se, segundo o esquema hegeliano, como centro estável e definitivo das sociedades e espaços nacionais, o que resulta numa espécie de entropia social normalizada.
52. Em segundo lugar, contudo, as forças fervilham nesse espaço, replicando a violência subversiva a violência do poder, correspondendo o mundo moderno à visão trágica de Nietzsche, na qual o negativo surge explosivamente e as diferenças, ainda que vencidas, jamais dizem sua última palavra.
53. Em terceiro lugar, a classe operária tampouco disse sua última palavra, sendo incerto se a oposição entre ela e a burguesia levará ao antagonismo revolucionário ou ao definhamento do próprio trabalho, mostrando a simples inspeção dos possíveis que o pensamento marxista não pode desaparecer.
54. Começa assim a confrontação entre as teses de Hegel, Marx e Nietzsche, tendo o pensamento filosófico se cindido entre a filosofia dispersa do tempo e a reflexão epistemológica instalada confortavelmente no espaço mental neokantiano, reduzindo a prática teórica à consciência esquizoide do intelectual especializado.
55. É preciso detonar essa situação, perseguindo a confrontação entre as ideias que esclarecem o mundo moderno, tomando-as como figuras anunciadoras situadas nos limites da modernidade, propósito desta obra sobre o espaço.
Rumo à teoria da produção do espaço
56. O propósito da obra não consistiria em substituir a utopia tecnológica por uma utopia negativa e crítica, tendo a teoria crítica, mesmo levada à contestação radical, já esgotado seu tempo.
57. Não se trataria de destruir metodicamente os códigos concernentes ao espaço, pois estes já se dissolvem desde sempre, restando apenas ruínas, sendo o evento capital, ocorrido por volta de 1910, o enfraquecimento do espaço euclidiano e perspectivo herdado da Renascença, que se tornou referência apenas pedagógica; trata-se, portanto, não mais de destruir códigos, mas de explicar sua destruição e talvez construir um novo código através do sobrecódigo teórico.
58. Essa inversão da tendência dominante, como no tempo de Marx, consiste em passar dos produtos estudados à produção.
59. Tal inversão nada tem a ver com a conversão intelectualista dos significados aos significantes praticada em nome de uma teoria pura, operações que simulam a inversão reduzindo-a a intervenções abstratas sobre a linguagem e, no final, sobre a literatura.
60. A proposição de que o espaço social é um produto social parece próxima da tautologia, mas exige exame cuidadoso, pois muitos ainda não aceitam que o espaço tenha assumido realidade própria ao mesmo título que a mercadoria e o dinheiro, sendo ao mesmo tempo instrumento de produção e de dominação que escapa parcialmente aos que dele se servem, abstrato e concreto, instrumental e transcendendo a instrumentalidade.
61. Daí a exigência de uma análise minuciosa que introduza a ideia de uma diversidade de espaços distinta da fragmentação infinita, no curso do que se chama história.
62. Quando o espaço social deixa de se confundir com o espaço mental e com o espaço físico, revela sua especificidade, não sendo nem coleção de coisas, nem vazio preenchido, nem forma imposta aos fenômenos, caráter social que será confirmado ao longo da exposição.
A dupla ilusão
63. O que dissimula essa verdade do espaço social é uma dupla ilusão que se reforça mutuamente: a ilusão de transparência e a ilusão de opacidade ou realística.
64. A ilusão da transparência concebe o espaço como luminoso e inteligível, oferecendo campo livre à ação, confundindo-se com uma ilusão de inocência do espaço sem esconderijos, de modo que compreensão e comunicação fariam passar seu objeto das regiões obscuras às iluminadas por simples deslocamento topológico.
65. Essa equivalência entre o conhecido e o transparente é postulado de uma ideologia difusa que valoriza a palavra e sobrevaloriza a escrita em detrimento da prática social, tendo-se por certo período acreditado que uma transformação revolucionária se realizaria pela comunicação, identificando-se revolução e transparência.
66. A ilusão da transparência revela-se ilusão transcendental, um engodo funcionando por sua própria potência mágica, mas remetendo a outros engodos, seus álibis e máscaras.
67. A ilusão realística é ilusão de ingenuidade denunciada pelos filósofos sob os nomes de naturalidade e substancialidade, segundo a qual as coisas teriam mais existência que o sujeito, remetendo essa recusa novamente à ilusão da transparência.
68. Para linguistas e semiólogos, uma ingenuidade admite a realidade substancial da linguagem, tomando o imaginário e o simbólico pelo real durante a leitura, substituindo a ciência as fruições inocentes da naturalidade por prazeres refinados dos quais ninguém provou serem mais deliciosos.
69. A ilusão da substancialidade sustenta sua própria mitologia, segundo a qual o artista do espaço, escultor ou arquiteto, opera sobre uma matéria dura oriunda diretamente da Mãe Natureza.
70. Enquanto a primeira ilusão se aproxima da idealidade filosófica e a segunda do materialismo naturalista, ambas não se combatem como sistemas fechados, mas cada uma contém e mantém a outra, oscilando entre elas o racional que se naturaliza e a natureza que se cobre de nostalgias.
Implicações da proposição: espaço-natureza, cada sociedade, o corpo social
71. Pode-se enumerar programaticamente algumas implicações da proposição de que o espaço social é um produto social.
72. A primeira implicação é o distanciamento irreversível do espaço-natureza físico, que persiste como pano de fundo e fonte simbólica, mas escapa ao pensamento, transformando-se a Natureza, esse mito poderoso, em ficção e utopia negativa, matéria-prima sobre a qual operam as forças produtivas.
73. A segunda implicação é que cada sociedade produz seu próprio espaço, não podendo a Cité antiga ser compreendida apenas por textos e discursos, ainda que preciosos, exigindo-se um estudo que a apreenda em sua gênese, forma, tempos e centros próprios.
74. A cité grega serve apenas para balizar o caminho, propondo-se cada modo de produção como objeto de análise teórica global, apesar das lacunas do conhecimento ocidental sobre, por exemplo, o modo de produção asiático e seu espaço.
75. A própria noção de espaço social, por sua novidade e complexidade, resiste à análise.
76. O espaço social contém, ao assinalar-lhes lugares, tanto as relações sociais de reprodução biofisiológica quanto as relações de produção e sua divisão hierarquizada do trabalho, encadeamentos que não podem se separar, embora o espaço social discirna essas atividades para localizá-las, nem sempre com sucesso.
77. Até o capitalismo, os níveis da reprodução biológica e da produção socioeconômica se imbricam, envolvendo a reprodução da sociedade que se perpetua através das gerações, papel decisivo que caberá ao espaço nessa continuidade.
78. Com o capitalismo, e sobretudo com o neocapitalismo moderno, três níveis se imbricam — a reprodução biológica, a reprodução da força de trabalho e a reprodução das relações sociais de produção —, papel do espaço nesse triplo arranjo que deve ser estudado especificamente.
79. O espaço também contém representações simbólicas dessa dupla ou tripla interferência de relações, dissimulando-as com a ajuda da Natureza, distinguindo-se relações frontais e codificadas de relações veladas e transgressoras.
80. O espaço contém assim esses entrecruzamentos em lugares assinalados, efetuando-se também no espaço as representações das relações de produção ligadas ao poder, nos edifícios e monumentos, sem que as relações frontais impeçam completamente aspectos clandestinos.
A tríplice dimensão do espaço
81. Ganha assim contornos uma triplicidade a ser retomada.
82. Em primeiro lugar, a prática espacial, que engloba produção e reprodução, assegurando certa coesão que implica competência e performance espaciais de cada membro da sociedade.
83. Em segundo lugar, as representações do espaço, ligadas às relações de produção e à ordem que impõem, vinculadas aos conhecimentos, signos e códigos.
84. Em terceiro lugar, os espaços de representação, que apresentam simbolismos complexos ligados ao lado clandestino da vida social, mas também à arte.
85. O espaço social incorpora efetivamente atos sociais de sujeitos coletivos e individuais que nascem e morrem, funcionando, com seu conceito, como analisador da sociedade, afastando-se um esquema simplista de correspondência termo a termo entre atos e lugares.
86. Gerar um espaço social apropriado é um processo que exige, sobretudo nas sociedades pré-capitalistas, lugares privilegiados religiosos e políticos onde se realizem uniões e mortes simbólicas, encontrando-se o espaço ao mesmo tempo sacralizado e livre de potências benéficas e maléficas.
87. É preciso ainda que o espaço apareça povoado de uma realidade superior como a Luz, oposta às trevas e à morte, o que se atualiza apenas no espaço religioso-político, vendo-se a prática espacial antes de ser concebida.
88. É preciso também que a família seja ao mesmo tempo desautorizada como centro único da prática social e retida como base de relações pessoais ligadas à reprodução.
89. É preciso, enfim, que a morte seja ao mesmo tempo figurada e rejeitada, remetida ao infinito para liberar a finitude onde se desenvolve a prática social sob a Lei que estabeleceu esse espaço, instalando-se assim espaços reservados como os lugares de iniciação.
90. Magia e feitiçaria também têm seus espaços próprios, opostos ao religioso-político, enquanto certos espaços lúdicos são considerados mais benéficos.
91. O espaço social teria por último fundamento o interdito, o não-dito nas comunicações entre os membros da sociedade e o afastamento de suas relações mais imediatas.
92. Nessa orientação, pode-se explicar o espaço social por um duplo interdito, a interdição do incesto que afasta o filho de sua mãe e a linguagem que decompõe a unidade imediata de seu corpo, lançando a Mãe no maldito-sagrado.
93. Essa tese lacaniana pressupõe a anterioridade da linguagem em relação ao espaço, situando os interditos na origem da sociedade e não na atividade produtora, o que, apesar de não dar conta da prática socioespacial real, exige interpretação para o fato geral da verticalidade fálica e da separação entre cena e obscena, sem que se caia num reducionismo psicanalítico.
Produção e história do espaço
94. Se o espaço é um produto, o conhecimento reproduzirá essa produção, transferindo-se o interesse das coisas no espaço para a produção do espaço como totalidade, que deve ser engendrada pelo e no conhecimento teórico, apresentando-se produção e produto como dois lados inseparáveis.
95. Objeta-se que em épocas passadas os grupos ativos não produziram seu espaço como se produz um objeto qualquer, questão pertinente que se estende mesmo ao neocapitalismo tecnocrático, cujos planificadores tampouco produzem o espaço com pleno conhecimento de causas e efeitos.
96. Especialistas de diversas disciplinas respondem a essa questão cada um a seu modo, partindo o ecologista dos ecossistemas naturais e os historiadores de seus respectivos métodos cronológicos, institucionais ou econômicos.
97. Para ir mais adiante, retomam-se conceitos já indicados.
98. A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço numa interação dialética, descobrindo-se pela análise ao decifrar-se esse espaço.
99. A prática espacial no neocapitalismo associa estreitamente a realidade cotidiana e a realidade urbana, associação que pressupõe a separação exacerbada entre lugares que ela religa, definindo-se pela vida cotidiana de um habitante de conjunto habitacional periférico.
100. As representações do espaço são o espaço concebido pelos cientistas, planificadores e urbanistas, identificando o vivido e o percebido ao concebido, sendo o espaço dominante numa sociedade.
101. Os espaços de representação são o espaço vivido através de imagens e símbolos, dos habitantes e usuários, mas também de artistas e escritores, espaço dominado que a imaginação tenta modificar e apropriar.
102. A autonomização relativa do espaço como realidade, resultante de longo processo, introduz contradições novas, indicando-se aqui apenas a relação dialética entre percebido, concebido e vivido.
103. Trata-se de uma triplicidade e não de uma dualidade, tendo a filosofia dificilmente superado as relações binárias entre sujeito e objeto, um sistema perfeito que se ofereceria como evidência racional colocando o saber a serviço do poder com admirável inconsciência.
104. Para compreender o espaço social em três momentos é preciso reportar-se ao corpo, já que a relação de um sujeito com o espaço implica sua relação com seu próprio corpo: o percebido corresponde ao uso prático do corpo, as representações do corpo à aquisição científica misturada de ideologia, e o vivido corporal alcança alta complexidade sob a pressão da moral e da tradição judaico-cristã.
105. A triplicidade percebido-concebido-vivido perde seu alcance se recebe o estatuto de um modelo abstrato, devendo apreender o concreto sob pena de se reduzir a uma mediação ideológica.
106. É imprescindível que os três termos sejam reunidos numa coerência, o que talvez tenha ocorrido na cidade ocidental do Renascimento italiano ao século XIX, quando a representação do espaço em perspectiva subordinou o espaço de representação de origem religiosa, ao passo que o senso comum conservou um espaço de representação etrusco pouco modificado, determinando a linha de horizonte o primado do olhar.
107. Para provar essa teoria seria preciso generalizá-la a todas as sociedades, sendo as representações do espaço penetradas de saber sempre relativo e transformável, enquanto os espaços de representação, vividos mais que concebidos, penetrados de imaginário, têm por origem a história de um povo e de cada indivíduo, contendo os lugares da paixão e implicando o tempo.
108. Se a distinção for generalizada, exigirá reconsiderar a história do espaço, das representações e de seus laços com a prática e a ideologia.
109. Pode-se objetar que as representações do espaço têm alcance prático considerável na produção do espaço, sobretudo pela arquitetura concebida não como edificação isolada, mas como projeto inserido numa textura espacial.
110. Em contrapartida, os espaços de representação não seriam produtivos senão de obras simbólicas frequentemente únicas, esgotando-se após certo tempo.
111. Tal distinção deve ser manejada com precaução, não sendo certo que se generalize ao Oriente, cujos ideogramas talvez contenham indissoluvelmente a ordem do mundo e a apreensão do espaço-tempo concreto, tentando-se mostrar adiante a gênese dessa distinção no Ocidente.
112. Povos como os andinos do Peru tiveram tanto uma representação do espaço quanto um espaço de representação, permanecendo extremamente difícil reconstruir conceitualmente a conexão entre esses dois aspectos.
113. A distinção teria ainda mais alcance se teóricos e práticos contemporâneos operassem separadamente, podendo-se pensar Frank Lloyd Wright como elaborador de um espaço de representação comunitária e Le Corbusier de uma representação do espaço tecnicista.
114. Talvez os produtores do espaço sempre tenham agido segundo uma representação, enquanto os usuários suportam o que se lhes impõe, mais ou menos justificado em seu espaço de representação, começando-se a elucidar um curioso mal-entendido.
115. A noção de ideologia, ainda que ferida de obsolescência, permanece necessária, tendo sido abusivamente distinguida em ideologias particulares sem nunca se elucidar completamente.
116. Uma ideologia sem um espaço ao qual se refira e do qual utilize o vocabulário não teria consistência, criando a ideologia cristã espaços que asseguram sua duração, não consistindo a ideologia, em si, sobretudo num discurso sobre esse espaço.
117. Se o conhecimento se torna força produtiva imediata a partir do capitalismo, a relação ideologia-conhecimento muda, tomando o saber o papel da ideologia, caracterizada esta pela retórica e pela metalinguagem.
118. Uma representação do espaço pôde misturar ideologia e conhecimento no interior de uma prática socioespacial, como tipicamente a perspectiva clássica ou, hoje, o espaço dos planificadores.
119. Ideologia e saber, mal discerníveis, entram no conceito mais amplo de representação, que pode servir de instrumento operatório para a análise dos espaços e das sociedades que os geraram.
120. Na Idade Média, a prática espacial compreendia as redes de caminhos entre comunidades camponesas, monastérios e castelos, enquanto as representações do espaço, emprestadas de Aristóteles e Ptolomeu e modificadas pelo cristianismo, concebiam uma esfera fixa entre infernos e Firmamento, e os espaços de representação colocavam no centro da vizinhança a igreja aldeã, interpretando por vezes maravilhosamente as representações cosmológicas, como no caminho de Santiago que duplica a Via Láctea celeste, entrando também o corpo humano no jogo dessas representações astrológicas.
121. Prática espacial, representações do espaço e espaços de representação intervêm diferentemente na produção do espaço segundo as sociedades e épocas, não sendo essas relações simples nem estáveis, permanecendo malconhecidas ainda que conscientes.
A história do espaço: absoluto, histórico, abstrato
122. Se há produção e processo produtivo do espaço, há história, formulando-se assim a quarta implicação: a história do espaço não se confunde com o encadeamento causal de fatos históricos nem com a sucessão de ideias ou instituições, tendo as forças e relações de produção papel a determinar nessa história.
123. A passagem de um modo de produção a outro apresenta o maior interesse teórico enquanto efeito de contradições que se inscrevem no espaço, como na cidade renascentista dissolvente das relações feudais, onde se constituiu o código espacial que corresponde à prática espacial e à representação do espaço, código que é uma superestrutura cuja história resulta da história inteira da cidade ocidental e que reunia signos verbais e não verbais permitindo ao mesmo tempo viver, compreender e produzir o espaço.
124. A história do espaço não pode se contentar em estudar apenas a formação, o estabelecimento e o estilhaçamento desse código, devendo abarcar o global dos modos de produção e das sociedades particulares, periodizando o processo produtivo de maneira distinta das periodizações admitidas.
125. O espaço absoluto consiste em fragmentos da natureza consagrados que se esvaziam de suas particularidades naturais para se povoar de forças políticas, subtraindo a arquitetura à natureza um lugar para apresentá-lo ao político através do simbolismo, sendo os que fazem esse espaço diferentes dos que o gerem apropriando-se dele.
126. Do espaço absoluto religioso e político procede o espaço relativizado e histórico, que não o faz desaparecer, mas o perpetua como sedimento, rompendo a historicidade definitivamente a naturalidade sobre as ruínas desse espaço de acumulação, período do qual Marx deixou teoria ainda incompleta, no curso do qual o trabalho se desprende da reprodução para se tornar presa da abstração.
127. Esse espaço abstrato assume a sequência do espaço histórico, funcionando objetalmente como conjunto de coisas-signos que negam as diferenças naturais, corporais e temporais, esforçando-se o espaço dominante por aprestar violentamente os espaços dominados, exigindo análise aprofundada a contradição pela qual esse espaço nega o sensual e o sexual ao mesmo tempo que só tem por referência a genitalidade, sofrendo o adolescente que não encontra nele sua própria realidade.
128. O espaço abstrato não se define apenas pelo desaparecimento das árvores ou pelos grandes vazios estatistas e militares, sendo sua abstração complexa e negativa em relação ao que o precede e ao que nele nasce, funcionando, contudo, positivamente em relação a suas implicações técnicas e científicas, constituindo-se em verdadeiro espaço do poder por trás de um pseudo-sujeito impessoal, comprimindo-se nele o vivido sob o nome de inconsciente.
129. Ganha corpo a interrogação sobre o silêncio dos usuários diante desse espaço abstrato instrumental, permanecendo limitados os protestos a meios elitistas, devendo tal indiferença ter causas múltiplas relacionadas talvez a álibis e substituições de objetivos essenciais por uma porção ilusoriamente privilegiada do espaço social, a abstração midiática dotada de terrível potência redutora do vivido.
130. Apoiado pelo saber não crítico e por uma burocracia que se apodera dos resultados do capitalismo ascendente, esse espaço abstrato não durará sempre, restando contra sua abjeção apenas, numa perspectiva pessimista, os espasmos do Acéfalo de Bataille.
131. Numa perspectiva menos pessimista, o espaço abstrato contém contradições específicas que, ao lado das antigas contradições que modifica, engendram um novo espaço, o espaço diferencial, que reunirá o que o abstrato separa e discernirá o que ele tende a confundir, como a reprodução social com a genitalidade.
A questão do socialismo
132. Se cada sociedade produz seu espaço, uma existência social que não produzisse o seu permaneceria mera abstração ideológica ou folclórica, oferecendo-se aí um critério para discernir o ideológico da prática.
133. A sociedade medieval criou sem dúvida seu espaço sobre o espaço anteriormente constituído, tendo castelos, monastérios e catedrais fixado a rede de caminhos que sustentou a arrancada da acumulação europeia.
134. O capitalismo e o neocapitalismo produziram o espaço abstrato que contém o mundo da mercadoria à escala mundial, apoiado em redes de bancos e vias de transporte, nesse espaço tendo a cidade histórica, berço da acumulação, explodido.
135. Cabe perguntar se o socialismo de Estado, tal como hoje confusamente denominado, produziu efetivamente um espaço próprio.
136. Essa questão tem importância, pois uma revolução que não produz um espaço novo não vai até o fim de si mesma, apenas modificando superestruturas ideológicas e instituições políticas.
137. A questão não requer resposta precipitada, sendo notável que a fermentação criadora soviética entre 1920 e 1930 tenha fracassado justamente na arquitetura e no urbanismo, não se sabendo hoje onde localizar produção arquitetural verdadeiramente socialista, nem qual a relação entre o espaço definido pelas relações socialistas e o mercado mundial capitalista.
138. Diante de questões múltiplas e de difícil resposta pela falta de informações, pergunta-se se, sem invenção arquitetural própria, é possível falar de socialismo ou se seria preciso falar antes de uma transição não realizada.
139. Duas vias se abrem ao socialismo: uma que aposta no crescimento acelerado a qualquer preço, reforçando grandes empresas e grandes cidades e negligenciando o desenvolvimento desigual, e outra que reforça empresas pequenas e médias buscando desenvolver o conjunto do território superando a oposição cidade-campo.
Luta de classes e espaço
140. A luta de classes intervém na produção do espaço e hoje mais que nunca se lê nele, sendo ela a única força capaz de impedir que o espaço abstrato se estenda ao planeta apagando as diferenças.
141. Na primeira metade do século XX, reformas agrárias e revoluções camponesas remodelaram o planeta em benefício, em parte, do espaço abstrato, tendo maio de 1968 na França anunciado algo novo na reapropriação do espaço, cuja interrupção suscita um esquerdismo esquizofrênico que apela à espontaneidade absoluta destrutiva.
142. É preciso reconhecer que a burguesia dirige sua luta pelo e no espaço conservando a iniciativa, o que responde à questão da passividade dos usuários.
143. O espaço abstrato funciona de maneira complexa implicando um acordo tácito de não-agressão, uma economia espacial que valoriza certas relações em certos lugares e conduz a um consenso quase jurídico sobre proxêmicas e propriedade, opondo-se assim à luta de classes um fim de não-receber.
144. Cada espaço é colocado antes da chegada do sujeito que busca apropriar-se dele, condicionando essa preexistência sua presença, ação e discurso, ainda que estes a neguem, aprovando-a enquanto obstáculo resistente, envolvendo uma prática espacial determinada por essa textura sem se reduzir a uma prática significante, implicando o espaço abstrato burguês consensos que ocultam, sem eliminar, uma violência sempre latente.
145. A antiga luta de classes entre burguesia e aristocracia produziu espaços onde essa luta transparece, tendo a burguesia vitoriosa rompido e integrado à produção material o espaço aristocrático parisiense do Marais, prosseguindo hoje a elitização em escalas mais vastas com a exportação de indústrias poluentes aos países mal desenvolvidos.
146. Os arredores do Mediterrâneo tornam-se espaço de lazer para a Europa industrial, caso notável de produção espacial por diferença interna ao modo de produção, instalando-se aí um neocolonialismo que organiza zelosamente o dispêndio improdutivo em proveito de operadores turísticos e financeiros.
147. Estas notas servem para tornar mais concreta a noção de produção do espaço e mostrar como a luta de classes é conduzida sob a hegemonia da burguesia.
Mudar a vida, mudar o espaço
148. Mudar a vida ou mudar a sociedade nada significa sem produção de um espaço apropriado, ensinamento que persiste do fracasso dos construtivistas soviéticos, degradando-se essa ideia, quando difundida politicamente, em palavras de ordem que escamoteiam a pressão do mercado mundial e a produção de um novo espaço.
149. Nessa situação, o pensamento teórico se debate entre o abismo das utopias negativas da teoria crítica e o choque com utopias tecnológicas altamente positivas, só podendo constatar a aplicação ao espaço da cibernética e da informática.
150. A via aqui indicada liga-se a uma hipótese estratégica, projeto teórico e prático a longo prazo que envolve uma política do espaço, mas vai além dela, transpondo o intervalo entre ciência e utopia, entre concebido e vivido.
151. O papel da hipótese estratégica no conhecimento não é o de demonstrar, mas o de centrar o conhecimento em torno de um núcleo, permanecendo necessariamente momentânea e revisável.
152. Várias operações táticas e estratégicas foram recentemente lançadas visando estabelecer uma fortaleza inexpugnável do saber, tentando a mais recente centrar o saber na linguística e disciplinas derivadas, sucedendo a tentativas anteriores centradas na economia política ou na história.
153. Essa hipótese linguística suscitou grande número de pesquisas de hierarquia sempre revisável, abalando-se por dentro a certeza de um centro definitivo ao suscitar a questão do sujeito, que o estudo sistemático da linguagem havia destruído, mas ao qual se recorre novamente sob a forma dos velhos sujeitos filosóficos como o Cogito cartesiano ou o Ego husserliano.
154. Nessa hipótese, reduz-se generosamente o espaço social e físico ao espaço mental do discurso, esquecendo-se que o eu prático se encontra num espaço onde se reconhece, buscando-se uma mediação no corpo que, tomado abstratamente, não corresponde ao corpo prático e carnal total com suas qualidades espaciais e energéticas.
155. A estratégia do saber centrada no discurso elude a relação entre saber e poder e não responde satisfatoriamente se os conjuntos não verbais de signos, como a música, a pintura e a arquitetura, dependem das mesmas categorias que os conjuntos verbais ou lhes são irredutíveis, caracterizando-se tais conjuntos por espacialidade irredutível à mentalidade.
156. A hipótese estratégica aqui colocada afirma que as questões relativas ao espaço ganham importância crescente sem suprimir, mas deslocando, os problemas da reprodução, resultando um salto adiante das forças produtivas, mesmo sem desaparecimento das relações capitalistas, na produção do espaço acompanhando a pressão do mercado mundial, dominando parcialmente a burguesia o mercado das mercadorias mas com grande dificuldade seu produto espacial, engendrando o caos espacial contradições novas que fragilizam seu corpo.
157. Cabe perguntar se essa hipótese estratégica pode influenciar as estratégias políticas monocêntricas geralmente admitidas, cujo fracasso fez surgir a hipótese alternativa de uma transformação realizada pelo terceiro mundo.
158. Não se trata de substituir dogmaticamente uma hipótese pela outra, nem de simplesmente ultrapassar a oposição entre monocentrismo e policentrismo, revelando-se a transformação mundial verdadeiramente múltipla e multiforme, realizando-se de modo distinto conforme regiões e classes.
159. A hipótese estratégica concernente ao espaço não exclui nem o papel dos países subdesenvolvidos nem o dos países industriais, colocando como objetivo a reunião de aspectos dissociados contra a homogeneização promovida pelo Estado e pelo mercado mundial, implicando a tomada a cargo das diferenças.
160. Será necessário provar longamente que o direito à diferença só tem sentido a partir de lutas reais para diferir, distinguindo-se as diferenças produzidas nessas lutas das particularidades naturais e das distinções induzidas pelo espaço abstrato.
161. Restituir um código do espaço, linguagem comum à prática e à teoria, pode se considerar taticamente tarefa imediata, reapreendendo esse código a unidade de elementos dissociados como o micro e o macro, o cotidiano e o urbano, sob condição de não considerar o código uma prática em si.
162. Essa elaboração implica um esforço voltado ao paradigmático, às oposições essenciais ocultas que orientam a prática social, mais que ao sintagmático explícito.
163. Tal código se relaciona a um saber que se sabe aproximativo, relativizando-se a cada passo em autocrítica sem se dissolver na apologia do não-saber ou da violência pura, passando entre o dogmatismo e o malconhecimento.
Método regressivo-progressivo
164. A démarche aqui perseguida pode se dizer regressiva-progressiva, tomando inicialmente o que acontece hoje — o avanço das forças produtivas e sua capacidade de transformar e ameaçar a natureza —, reagindo essa produção do espaço, uma vez elevada ao conceito, sobre o passado e esclarecendo-o de maneira diferente.
165. Essa démarche é a que Marx propôs em seu texto metodológico principal, segundo o qual as categorias que exprimem as relações sociais na sociedade mais desenvolvida permitem apreender a estrutura das sociedades passadas.
166. Essa démarche, à primeira vista paradoxal, aproxima-se rapidamente do bom senso, sendo a via inevitável do historiador, do economista e do sociólogo compreender uma gênese partindo do presente.
167. Claro e preciso, o método de Marx não vai sem dificuldades, entrelaçando-se na exposição os movimentos regressivo e progressivo, de modo que o começo se encontra no fim e o fim se apresenta desde o início, acrescentando complexidade à iluminação das contradições que conduzem todo processo histórico.
168. Tal é a dificuldade enfrentada aqui: um conceito novo, a produção do espaço, deve operar esclarecendo processos dos quais não pode se separar, sem que se lhe atribua vida e força autônomas à maneira hegeliana, explicitando-se ao final, verificando sua própria formação, como uma verdade relativa em si e para si.
169. A dialetização do próprio método se persegue sem prejuízo da lógica e da coerência, ainda que com riscos de obscuridade e repetição que nem Marx sempre evitou, não seguindo a exposição d'O Capital exatamente o método promulgado nos Grundrisse, partindo antes da forma do valor de troca, reencontrando-se a démarche anunciada a propósito da acumulação do capital, quando Marx estudava na Inglaterra o capitalismo mais avançado para compreender os demais países e o próprio processo de formação do capitalismo.
