Nicolet
NICOLET, Claude. L’inventaire du monde. Géographie et politique aux origines de l’Empire romain. Paris, Hachette, 1988.
1. O verdadeiro tema do livro é uma reflexão histórica sobre o espaço, focando no caso singular de Roma, que, diferentemente de outras cidades antigas, conquistou e manteve vastos territórios por séculos, expansão que, embora vista como irresistível, levou ao colapso da República e à transformação em um regime monárquico sob um imperador.
2. O livro busca responder a duas questões simples sobre essa transformação: por que a conquista romana parece ter se encerrado com o reinado de Augusto, a quem se atribui uma política externa de prudência ou inércia, e se essa interpretação é exata e como se explica essa pausa.
3. A segunda questão, ligada à primeira, é sobre a natureza do novo poder instaurado com o Principado, questionando se esse império, centrado em uma cidade que se expandiu, tornou-se um “Estado territorial”, com características como continuidade territorial, poder centralizado, administração burocrática, exército permanente e fiscalidade unificada.
4. As duas questões são complementares e seu denominador comum é a realidade do espaço, pois os romanos precisavam de uma visão do espaço geográfico para fixar fronteiras, assim como precisavam dominar as distâncias, conhecer recursos e transmitir ordens, sendo essas necessidades inerentes à conquista e ao governo.
5. O objetivo do livro é compreender como os romanos, em um momento crucial, tomaram consciência do espaço e se adaptaram a ele, articulando-se em duas abordagens complementares: uma história retrospectiva da geografia romana e uma história da posse administrativa do espaço, que compartilham muitos pontos em comum.
6. A história da geografia se distingue da geografia histórica, pois esta última reconstrói as realidades geográficas de um território em um dado momento, enquanto a primeira não busca a realidade espacial, mas a consciência ou representação que os atores da época tinham dela, entendendo a geografia como representação e não como realidade.
7. Essa “representação” da terra e do espaço geográfico abrange tanto os diversos graus de conhecimento que passam por palavras e textos, quanto a distinção entre o conhecido e o desconhecido em um mundo ainda inexplorado, onde a descrição dos lugares se assemelha a uma viagem imaginária.
8. Simultaneamente, os progressos matemáticos e astronômicos levaram a uma geografia teórica que identificou a Terra como uma esfera e mediu sua circunferência com precisão, desenvolvendo sistemas de projeção e um quadro geral do planeta que as explorações posteriores preencheriam.
9. Essa geografia se expressava não apenas em discursos e descrições, mas também em cartografia, diferenciando-se dois tipos principais: a “geografia”, que traçava o contorno dos continentes em pequena escala, e a “chorografia” ou “topografia”, que descrevia regiões ou cidades em grande escala, formando uma série de representações com base geométrica comum.
10. Além da representação geométrica, existiam outras formas de representar o espaço, como os itinerários, que expressavam graficamente as rotas de viagem em redes lineares com distâncias anotadas, uma forma de apreensão que, embora diferente dos mapas, podia ser utilizada em conjunto com eles.
11. Todas essas representações estavam sujeitas a limites técnicos e continham uma parcela de desconhecido e erro, com a fronteira do inexplorado dando lugar ao pensamento mítico, pois as realidades cósmicas eram divinas e o caráter sagrado dos confins da terra conhecida conferia prestígio à sua conquista, baseado em subestimações geográficas.
12. A história da geografia romana no tempo de Augusto é essencialmente política, não no sentido de uma geopolítica determinista, mas na relação de mão dupla entre as vontades do poder e as certezas, erros ou ilusões de uma “representação” do mundo, relação visível na tradução gráfica da geografia, a cartografia.
13. As primeiras cartas na história ocidental surgiram nas guerras Médicas e, por muito tempo, mantiveram o caráter raro e prestigioso de obra de arte a serviço do poder, prestando-se a apresentações monumentais, como exemplificado por decorações cartográficas em palácios renascentistas, que expressavam tanto o entusiasmo pelo saber quanto as pretensões de poder.
14. Na época estudada, a união entre política e geografia se manifesta na primeira carta geral do mundo conhecido exposta em Roma, por iniciativa de Agripa e concluída por Augusto, um monumento que, ao ser estudado em conjunto com outras evidências, revela a obsessão do espaço na política de Augusto.
15. Essa obsessão é também atestada pela obra geográfica de Estrabão, uma “geografia política” escrita no tempo de Augusto que transmitia tradições e informações sobre a visão global do mundo e o lugar que os romanos ocupavam nele, apresentando um mundo considerado aberto e fechado pela paz romana.
16. O método de investigação envolve a releitura de toda a literatura da época, incluindo poetas, mas principalmente historiadores, cuja narrativa da história de Roma pode ser lida segundo um ritmo ternário ligado ao espaço geográfico, que vai da expansão à implosão das guerras civis e ao restabelecimento da unidade.
17. Um exemplo da nova relação entre geografia e história é o relato de Veléio Patérculo, que indica o uso de mapas orientados ao norte pelo estado-maior romano, e as próprias Res Gestae de Augusto, cuja segunda metade pode ser vista como uma soma geográfica, quase um comentário de mapa, integrando-se a programas iconográficos como o do Fórum de Augusto.
18. A investigação sobre a geografia administrativa do Império, ao contrário dos estudos tradicionais focados no pessoal e no recrutamento, busca entender o funcionamento real da administração em um vasto território, ou seja, como os contatos entre o centro e os administrados eram organizados e como as informações circulavam.
19. Essa análise das procedimentos concretos se volta para a história dos documentos administrativos em sua relação com o espaço e o tempo, incluindo sua distribuição, classificação e arquivamento, questões essenciais para a organização territorial, já que a expansão do território exigiu um novo recurso ao escrito para representar homens e bens.
20. Naturalmente, o recenseamento e o inventário de bens se inserem na medição e representação do espaço, e não é coincidência que o reinado de Augusto veja uma nova organização topográfica da cidade e da Itália, cujo surgimento é estudado em relação à centralização e classificação de arquivos.
21. O plano do livro se organiza em capítulos que vão desde as pretensões ecumênicas de Augusto e o estado do conhecimento geográfico, passando pela famosa carta de Agripa e as técnicas de controle do espaço, até o problema da “obra geográfica” de Augusto e as modificações no panorama administrativo.
22. Tal investigação tem a vantagem de forçar o historiador a sair de seus caminhos habituais e a aventurar-se em disciplinas vizinhas, como a geografia, a cartografia e a história da arte, o que levou o autor a agradecer a diversos especialistas que contribuíram com sua ciência e conselhos para a realização do livro.
