Metamorfoses do espaço
SANTOS, Milton. Metamorfoses Do Espaço Habitado. São Paulo: Hucitec Editora, 2021.
O presente volume constitui, de alguma forma, uma continuação de Por uma Geografia Nova, cuja primeira edição foi publicada pela Hucitec em 1978. Nossa ambição, inscrita na introdução daquele livro, de desenvolver uma série de temas correlatos, foi correspondida, ao longo desses dez anos, por um constante trabalho, no domínio teórico, no da pesquisa empírica, na elaboração de cursos de graduação e pós-graduação, que oferecemos, em diferentes lugares, a geógrafos, arquitetos e planejadores.
Alguns dos problemas que, então, levantáramos foram objeto de certo número de ensaios, alguns já publicados, enquanto outros ainda não puderam tomar uma forma definitiva. Entretanto, o desenvolvimento atual da geografia brasileira está a exigir a urgente explicitação de algumas categorias analíticas. A geografia crítica, que tanto floresceu nesse período, não se pode contentar em ser apenas crítica. Para ser útil e utilizada, a crítica tem de ser analítica e não apenas discursiva. A crítica pode até ser destrutiva, desde que tenha algo a propor, explícita ou implicitamente, sem o que não contribui para o avanço do conhecimento.
Muitas teses acadêmicas e livros, além de artigos de revistas, já têm oferecido contribuição valiosa à renovação das ideias sobre o espaço geográfico. Há, ainda, todavia, muito o que fazer e é nesta corrente que nos desejamos inscrever modestamente. Este livro foi concebido justamente para debater algumas realidades do presente e os conceitos delas resultantes. Por isso, os dois primeiros capítulos buscam situar a geografia no contexto do mundo atual, enquanto os demais, tomando como ponto de partida as metamorfoses do espaço habitado, buscam re discutir categorias tradicionais e sugerir algumas linhas de reflexão metodológica. Falar sobre o espaço é muito pouco, se não buscamos defini-lo à luz da história concreta. Falar simplesmente do espaço, sem oferecer categorias de análise é também insuficiente. Por isso nos pareceu oportuno distingui-lo da paisagem e da configuração territorial que, entretanto, comparecem como elementos fundamentais do seu entendimento. Essa compreensão passa pelo reconhecimento da crescente imbricação entre o natural e o artificial que tanto permite abordar o velho debate sobre a definição da geografia física e da geografia humana, como a discussão sobre o sentido da geografia geral em relação à geografia regional. Tudo isso comporta diferentes visões do movimento das contradições de que resultam as metamorfoses do espaço.
Contei com a ajuda de Denise Elias, mestranda em geografia na Universidade de São Paulo, tanto na discussão do projeto do livro, como na sua redação. Espero que este livrinho, pela sua linguagem, seja acessível ao maior número de leitores, sem, todavia, descambar no simplismo que os ofende.
Os Capítulos 1 e 2 foram conjuntamente publicados como artigo em francês, inglês e espanhol pelo International Social Science Journal, v. 36, n.° 4, da UNESCO, em 1984 e pela Revista Brasileira de Tecnologia do CNPq, em 1985, e o Capítulo 3 apareceu também em forma de artigo na revista Arquitetura e Urbanismo, nov. 1985. Os demais capítulos são inéditos.
