Mapas e interesses
WOOD, Denis. The Power of Maps. Londres: Routledge, 1992.
Mapas Funcionam ao Servir a Interesses
1. O mundo dos mapas é vasto e diversificado, tendo sido produzidos em inúmeros materiais ao longo da história, e embora muitos tenham se perdido, aqueles que permanecem nos ligam a certezas que crescemos com eles, sendo difícil separar essas certezas do próprio pedaço de papel que as descreveu.
2. Os mapas nos proporcionam uma realidade que excede nossa visão e alcance, transformando o invisível, o inatingível ou o apagável (como o futuro ou o passado) em algo real, e, para a maioria das pessoas, a visão do planeta a partir do espaço, por exemplo, só é acessível por meio dessas representações.
3. O conhecimento de que a Terra é redonda não é natural, mas um resíduo de atividades culturais acumuladas, um conhecimento difícil que as crianças precisam aprender, e que é essencialmente um “conhecimento de mapa”, não derivado da experiência sensorial direta.
4. A crença na redondeza da Terra é sustentada pela autoridade cultural, especialmente por mapas que criam uma realidade conhecida, distinta da realidade percebida pelos sentidos, permitindo-nos acessar o que outros descobriram ao longo do tempo, acumulado em camadas de aquisição cultural.
5. Os mapas tornam o passado e o futuro presentes, conectando-nos a informações inacessíveis aos sentidos, como a localização de um sítio histórico ou uma rota proposta, e facilitam nosso viver ao lidar com o que é conhecido e compreendido, em vez do que é meramente sentido.
6. A distância entre o mundo sensível e o mundo mapeado é evidente, por exemplo, em mapas de anomalias gravitacionais do fundo do oceano, e é ainda mais extrema em mapas políticos, cujas fronteiras nacionais não são diretamente sensíveis, muitas vezes não correspondendo a diferenças observáveis no terreno.
7. Cada mapa constitui um alongamento da realidade sensível, e as descrições de propriedade, como as de um lote, baseiam-se em mapas e escrituras que criam a própria realidade da posse, onde não há marcos visíveis, apenas a representação cartográfica.
8. Os mapas nos conectam a um vasto sistema de códigos, leis e acordos, como no caso de um lote que, através de um mapa cadastral, vincula os proprietários a hierarquias de impostos, distritos escolares, zonas de planejamento e obrigações recíprocas com a vizinhança.
9. A capacidade dos mapas de vincular o território a atributos como impostos, riscos naturais ou infraestrutura os torna valiosos, e essa função de vincular a terra a características insensíveis é antiga, com exemplos que remontam a três mil anos na Mesopotâmia, e que se tornaram ubíquos com a cartografia cadastral moderna.
10. Os mapas de propriedade são apenas uma camada em um grande emaranhado de limites, incluindo fronteiras nacionais, províncias, condados, distritos de conservação, rotas de coleta de lixo e muitos outros, que constituem mapas de projeção de poder.
11. Além dos mapas de limites, os atlas temáticos apresentam uma vasta gama de informações, como dados climáticos, populacionais, econômicos e nutricionais, e atlas especializados, como os de guerra nuclear, permitem um exame microscópico de temas como zonas de radiação ou destruição de cidades.
12. Os mapas de referência geral, que buscam retratar uma realidade relativamente indiscriminada, são exemplos de mapas que “apontam” para um mundo que podemos conhecer, em vez de nos apresentar o mundo que podemos ver, sendo sempre um alongamento da realidade.
13. A diferença entre um mapa de propriedade e um mapa de referência geral está na forma como incorporam o conhecimento ao viver cotidiano, sendo o primeiro mais indexical e executório, enquanto o segundo aponta para um mundo de forma menos definida e menos executável.
14. Os usos dos mapas, como navegação ou planejamento, são menos diferentes do que os “viveres” que incorporam o trabalho passado, pois ambos exploram a indexicalidade inerente para vincular o território ao que o acompanha, como águas rasas ou falhas geológicas.
15. Os mapas mentais que construímos ao longo da vida são análogos aos mapas de papel, incorporando experiência acumulada por meio do movimento, da observação e da leitura, e são consultados para tomar decisões cotidianas, como escolher uma rota para ir ao cinema.
16. O uso de mapas mentais envolve organizar informações relevantes em uma estrutura, que, embora não seja uma imagem literal, permite-nos externalizar e compartilhar conhecimento espacial com outros, como ao discutir qual caminho é mais curto.
17. Para todos os mapas, há apenas um uso fundamental (além de usos triviais): conectar o que foi feito no passado, por meio do mapa, ao que queremos ou precisamos fazer no presente, e as muitas taxonomias de mapas, na verdade, classificam as maneiras de ver o mundo e de nele viver, e não os próprios mapas.
18. As tentativas de classificar mapas por tipo, escala ou assunto são insatisfatórias porque colapsam sob inspeção, pois a classificação que realmente importa é como o mapa vinculará seus leitores ao mundo que ele incorpora, e não características materiais ou de produção.
19. O conhecimento incorporado nos mapas é socialmente construído, e não uma simples reprodução da realidade, e a percepção comum de que os mapas são uma janela transparente para o mundo é uma construção social que mascara esse fato, elidindo a construção social de limites e linhas.
20. Quando os mapas são aceitos como janelas para o mundo, as linhas que eles representam são aceitas como tendo o status ontológico de acidentes geográficos, mas, uma vez reconhecidos como construções sociais, seu caráter contingente e arbitrário é revelado, abrindo-os para debate.
21. A crítica aos mapas tende a focar em exemplos ultrajantes ou erros óbvios, protegendo assim o vasto corpus de mapas que sustenta nosso cotidiano da inspeção, e a precisão técnica, embora importante, não é a questão central, pois o que está em jogo é a precisão com relação a quê, e como a janela é socialmente selecionada.
22. O que os mapas realmente mapeiam não são localizações, mas a criação de propriedade ou outros atributos em uma localização, como demonstrado por conflitos sobre fronteiras ou anexações, onde a precisão das coordenadas não é o ponto, mas sim a conexão com um “viver” específico.
23. Todo mapa tem um autor, um assunto e um tema, e a suposta neutralidade dos mapas de referência geral é um mito, pois mesmo um mapa aparentemente sem tema, como um mapa da Europa, na verdade tem muitos temas entrelaçados, e a distinção entre mapa temático (parcial) e de referência geral (imparcial) é uma ilusão.
24. A nomeação de mapas pelo tema (ex.: Mapa da Vegetação) versus pelo assunto (ex.: Europa) cria a ilusão de que os últimos são imparciais e objetivos, mas isso é uma forma de autodecepção que mascara a presença inevitável de um autor e seus interesses.
25. A pretensão de transparência dos mapas de referência geral tem um custo, pois cidadãos em reuniões públicas podem tomar decisões com base em mapas que consideram reproduções exatas da realidade, sem questionar o que está sendo representado e como, ficando paralisados entre a fé e a dúvida.
26. É necessário reconhecer que o mapa é e não é o território, e a arte de viver no mundo dos mapas exige um equilíbrio entre confiar neles para agir e questioná-los continuamente sobre o que do passado ou futuro eles estão conectando ao presente, para não sermos condenados a um viver falho e incompleto.
